Primeiro e Único
Vinte e sete
Na véspera do Dia de Ação de Graças, m eu pai e a fam ília dele chegaram a Dallas. Astrid e Bronwy n m e convidaram para ir às com pras com elas, m as expliquei que tinha de trabalhar e encontrar um pessoal para um a reunião.
Ao longo dos anos, aprendi a im portância de dar um passo de cada vez e que fingir gentilezas pelo período de algum as horas era algo m uito m ais fácil de fazer do que fingir gostar de alguém por vários dias seguidos. Férias de qualquer tipo tinham sido descartadas desde nossa viagem desastrosa para o Napa Valley, depois da m inha form atura da faculdade, que, até então, segundo o m eu pai, seria um a viagem feita de bicicleta apenas com ele. Astrid decidiu, no últim o m inuto, nos acom panhar e trocou nossas bicicletas por um Jaguar conversível, além de transform ar o passeio ao ar livre num a vitrine de ostentação do seu conhecim ento a respeito das m elhores uvas da Califórnia. No fim da sem ana, eu estava tão aborrecida com toda a cena que m e enfiei num vinhedo segurando um refrigerador portátil cheio de Budweiser, dizendo que eu não era lá m uito chegada a vinho. Não acho que ela tenha entendido m inha intenção e que eu não era tão fã assim de cervej a, m as, sej a com o for, foi infinitam ente gratificante abrir um a latinha gelada enquanto ela disparava seus adj etivos técnicos com o se estivesse em um daqueles desfiles em carro aberto com papel picado j ogado por todos os lados. A única graça da coisa foi que m eu pai entendeu o que eu estava tentando fazer e pareceu se divertir com m inhas travessuras; depois, chegou até a m e pedir desculpas pelo fato de a viagem ter se tornado algo tão “unidim ensional”.
No entanto, dessa vez a desculpa quase piorou ainda m ais as coisas, porque ele nunca fez nada a respeito disso, e com certeza nunca se preocupou em m e oferecer um tem po de qualidade a sós. As coisas vinham sem pre num pacote im placável, e naquele dia seria exatam ente o m esm o caso.
Então, às cinco da tarde, cheia de entusiasm o e culpa, ao m esm o tem po, liguei para cancelar o passeio com eles, sob o pretexto de um “problem a no trabalho”. Meu pai pareceu chateado o bastante para m e fazer sentir um prazer doentio, e não pude deixar de pensar naquela m úsica triste, Cat’s in the cradle (O Gato está no berço), e em quantas vezes ao longo de todos esses anos ele sim plesm ente tinha m e deixado de lado. Mas a principal diferença entre a m úsica e a m inha vida era que o m eu pai ainda continuava ocupado com o sem pre, e eu estava num escritório erm o, sem nenhum plano para aquela noite e com a m elancolia dos feriados de fam ília dentro de m im . Lucy cham ava isso de m eu modo Charlie Brown de ser, e sem pre fez o possível para m e alegrar, m as é claro que ela estava em condições piores que a m inha neste ano, e, além disso, tinha com etido o erro de receber a fam ília de Neil, que m orava em Oklahom a. O que ela pensou que seria um a grande fonte de distração acabou virando um a enorm e carga de trabalho na cozinha. Eu j á tinha m e oferecido para aj udá-la algum as vezes, pelo m enos fazendo com panhia enquanto ela cozinhava, m as Lucy se recusou a aceitar e insistiu que ela e Neil tinham tudo sob controle.
O que eu queria m esm o, e m e dei conta disso enquanto chegava à pista da I-35 a cam inho da Walker, era passar a noite com Ry an, tanto pela sua com panhia quanto pela tranquilidade de sua casa, m as ele j á tinha entrado no Gay lord Texan Resort & Convention Center, em Grapevine, onde o tim e sem pre se concentrava antes dos j ogos em casa para evitar “distrações indesej áveis”.
— Faça o retorno na próxim a saída e vá para a m inha casa — ofereceu-m e Ry an quando liguei para o quarto dele e lhe disse que estava presa no trânsito bem no horário de pico. — Você tem a chave.
Cheguei a considerar a possibilidade, m as decidi que não queria ficar lá sem ele. Durante o dia, tudo bem , m as, à noite, eu m e pegava im aginando cenas de crim es terríveis. Tinha algo a ver com aquele m árm ore branco, os lençóis brancos, as paredes brancas e até o carpete branco e os m óveis que conj uravam respingos de sangue, m anchas iguais às do teste de Rorschach.
Quando com eti o erro de dividir essas im agens involuntárias com ele, Ry an arquej ou: — Meu Deus, Shea. Você está assistindo a m uitos film es de terror. Isso é doença.
Logo que ele m encionou “film e”, m e lem brei de um em particular que sem pre m e assom brava quando eu estava sozinha na casa dele: Dormindo com o inimigo, um dos thrillers m ais assustadores de todos os tem pos, em m inha opinião. Falei para m im m esm a que era só aquela decoração lustrosa e alva e a propensão à neurose de organização que Ry an dividia com a antagonista — isso e som ente isso —, m as não consegui deixar de m e perguntar se as acusações de Blakeslee estavam agindo sobre m eu subconsciente, m e fazendo im aginar coisas sem pre que eu percebia algum a toalha pendendo m ais para um lado do que para outro no quarto dele.
— Eu sei. Só tenho um pouco de m edo de ficar em um a casa tão grande — expliquei, depois acrescentei: — Além disso, ficar lá sem você m e faria sentir m ais saudade.
— Ah, m eu doce... Eu tam bém estou com m uita saudade. Queria que não tivéssem os essa m aldita patrulha noturna que eles fazem aqui.
— Não m inta — provoquei. — Sei que você gosta de dorm ir dez horas na véspera de um j ogo.
Ele riu, porque era verdade. Tudo que Ry an fazia à noite e nas horas que antecediam um j ogo era cuidadosam ente calculado, proj etado para otim izar seu desem penho. Até m esm o a tem peratura do quarto era aj ustada para vinte graus, que, ao que parece, era a ideal para o sono profundo.
— Tá legal, você m e pegou nessa. Agora vou te contar um a coisa. Não faço sexo na véspera de um j ogo desde o ensino m édio... — Ele riu.
— Espere aí, m e deixe adivinhar. Você fez sexo na véspera da partida pelo cam peonato estadual? E aí você fez um voto de que nunca m ais faria isso de novo? — perguntei, im aginando a nam orada dele da época de escola, a quem ele tinha descrito com o um a beleza m eio paquistanesa.
— Sim — confessou, m as de um j eito m ais sério.
Pensei na história de Blakeslee e quase contei a ele sobre nossa conversa, m as, de novo, decidi que era m elhor não. Para não dizer outra coisa, o dia antes de um grande j ogo e o encontro com os pais dele; definitivam ente, não era o m om ento certo. Então, em vez de contar, eu disse:
— Você é tão supersticioso quanto o treinador, não é?
— Ei, espere aí. Não é bem assim . Só m e preocupo em poupar as m inhas pernas para o j ogo. É questão de resistência. Não saio por aí caçando insetos para colocar em Tupperware.
— Frascos de vidro — retruquei, aborrecida com igo m esm a por trazer o treinador para o assunto. Era com o um reflexo involuntário, e eu m e perguntava quando Ry an se ligaria nisso. Ele era m uito observador, e, considerando sua tendência a sentir ciúm es, eu até m e surpreendia por ele não ter percebido ainda. Porém , o fato de ele não ter notado nada enfatizou ainda m ais o quanto era absurda a ideia do treinador e eu j untos. Pensei e repensei no j eito com o o treinador tinha olhado para m im na casa dele várias vezes, pelo m enos um as cem , e m e senti entre deslum brada e im becil. Só podia ser coisa da m inha cabeça.
Mudei de assunto o m ais rápido que pude e perguntei a Ry an se ele se sentia preparado para o j ogo de am anhã. Ele respondeu que sim e descreveu em detalhes alguns m otivos: o treino tinha sido ótim o, o j ogo tático parecia excelente, o j oelho estava bom e o tim e reserva da Philly era um a m erda. Nunca m e cansei de receber inform ações privilegiadas, e nunca m e cansaria, m as o sentim ento de tiete tinha finalm ente se esvaído e fora substituído pela crença de que eu pertencia ao m undo dele.
— O que vai fazer hoj e à noite? — ele perguntou. Tinha algo em sua voz que m e dizia que o Third Rail poderia ser a resposta errada, e que eu não deveria contar que estava planej ando tom ar um chope fresquinho do barril em vez da cervej a j á aberta que estava na m inha geladeira.
Então, respondi:
— Ah, sei lá. Nada dem ais. Acho que vou ficar em casa m esm o, quietinha no m eu canto.
— Boa m enina — ele disse, de um a m aneira que soou tão condescendente quanto protetora. Resolvi m e concentrar na últim a, especialm ente quando ele m e perguntou pela décim a vez se eu estava com o m eu cartão VIP do estacionam ento e depois m e lem brou de que os ingressos estavam no m eu nom e, para serem retirados.
— Sim . Obrigada.
— Não precisa de m ais alguns ingressos?
— Não, não preciso. Obrigada — respondi, pensando que um astro paparicado, com tantos assistentes, cam areiras, cozinheiros particulares, preparador físico e psicólogos em seu tim e tam bém tinha o direito de bancar o protetor.
— Está preparada para conhecer os m eus velhos? — perguntou ele.
— Sim . Não vej o a hora. — A resposta foi verdadeira, m as m uito m ais por m inha curiosidade sobre o pai dele e a necessidade doentia de m ostrar m inha superioridade sobre Astrid e Bronwy n do que por qualquer outra coisa.
— Que bom . Vai ser um dia bacana. Se nós ganharm os — pontuou Ry an.
— Vocês vão ganhar — declarei. — Bom , acho m elhor eu desligar antes que arrum e encrenca com alguém por aí. Te m ando m ensagem lá pelas nove horas.
— Não. Me liga.
— Tá bom — respondi, ligeiram ente irritada. Disse a m im m esm a que estava sendo m uito inj usta com ele. Ry an só queria dizer “boa-noite” antes de ir para a cam a, só isso. E que m eigo da parte dele. Um gesto de um nam orado legal. Um ótim o nam orado. Me aconselhei a ir para casa descansar. Eu poderia não ser j ogadora de futebol am ericano, m as m eu dia seguinte seria bem agitado tam bém .
Ainda assim , não pude resistir à tentação de passar no Third Rail e, quarenta m inutos depois, lá estava eu sentada no bar, pedindo m eu chope com um a rodelinha de laranj a no m eio. Ao contrário de com o costum ava ser, o lugar estava bem cheio, e eu conhecia, pelo m enos de vista, um a dúzia de pessoas, m uitas delas m eninas que tinham estudado com igo no ensino m édio. Com o acontecia nas cidades pequenas, boa parte delas tinha perm anecido em Walker depois de concluir os estudos, sem se incom odar nem um pouco em cursar a faculdade, então não raram ente eu encontrava ex-colegas de classe. Mas, nos feriados, havia sem pre algum as visitas-surpresas, rostos que eu não via há anos.
Naquela noite, encontrei Michelle Sheffield, que se sentava atrás de m im na escola e de quem eu sem pre gostei. Agora ela m orava em São Francisco. Nós nos abraçam os dem oradam ente, depois colocam os o papo em dia. Contei a ela sobre o m eu trabalho no Dallas Post e ela m e disse que estava trabalhando com direito de patentes. Foi revigorante conversar sobre trabalho — m elhor do que falar sobre m aternidade, o que acontecia com frequência quando eu encontrava alguém da Walker.
Olhei para os dedos dela, sem nenhum a aliança, e perguntei:
— E aí, continua solteira?
— Sim — respondeu Michelle.
— Eu tam bém .
Ela deu um a risadinha e acrescentou:
— Sim , m as ouvi falar que você está nam orando.
Balancei a cabeça, confirm ando.
— Então é verdade? Está m esm o nam orando o Ryan James?
Tentei sorrir m odestam ente.
— Uau! Que legal. Com o foi? Conheceu ele por causa do seu trabalho?
— Estudam os na m esm a faculdade. Éram os am igos — expliquei.
— E ele é legal?
— Ele é legal, sim . Ele é... m uito legal.
Ela ficou m e encarando, esperando m ais, então continuei:
— Ele é m uito intenso. Com petitivo. Concentrado. Com o se poderia esperar de um quarterback daquele nível.
— E as pessoas reconhecem ele em todos os lugares aonde vocês vão?
— Sim . Mas não som os de sair m uito. Durante a tem porada ele passa boa parte do tem po concentrado. Geralm ente ficam os em casa assistindo a film es. Coisas assim . Ele é m uito agradável e extrovertido... Muito esperto. Ele é ótim o — concluí.
— Nossa, que legal! — exclam ou Michelle de novo. — Acha que vai dar casam ento?
Dei de om bros e falei:
— Ah, quem sabe? Ele acabou de se divorciar. Então, acho que isso não aconteceria tão cedo... se vier a acontecer. Mas am anhã vam os fazer aquele ritual de conhecer a fam ília um do outro. Mas chega de falar do Ry an Jam es. Você é a única aqui que tem a vida glam orosa da Califórnia.
Michele sorriu e m e contou as novidades enquanto pedim os m ais um a rodada de chope, depois outra e m ais outra, j ogando sinuca e encontrando m uitos outros am igos e conhecidos. Foi um a m istura agradável entre pessoas do ensino m édio e da Walker. Em certo m om ento, avistei Miller, num estilo m eio “alternativo” barbudo, e fui até ele para falar “oi”. Miller m e apresentou seu am igo Lion, explicando que ele era artista e nasceu em Boston, m as agora estava dando aulas de Arte na Walker depois de ter feito um bico na UCLA. Era evidente que Miller tinha conhecido o cara por m eio da nam orada professora, e fiquei pensando que era curioso vê-lo entrando para um a panelinha acadêm ica.
— Ei, então você é escultor, certo? Que legal — falei, cum prim entando com um aperto de m ão, sem pre grata por poder conhecer sangue novo. — Sej a bem -vindo a Walker.
— O Lion tem um filho — anunciou Miller, com o se Lion tivesse nascido de gêm eos siam eses.
Lion tam bém percebeu o exagero e deu risada.
— Sim . Louco, não?
— Não fique bravo com ele. Miller não consegue im aginar um a responsabilidade m aior do que pegar a correspondência na caixinha do correio — com entei.
— Merda. Esqueci de pegar as cartas de novo! — retrucou Miller.
Lion sorriu:
— Bem , eu tam bém não conseguiria im aginar... só descobri três anos atrás. A m ãe dele não m e contou que estava grávida.
— Nossa! E quantos anos ele tem agora?
— Dez.
— Que droga! Sério? — perguntei, sentindo-m e grata (não pela prim eira vez) por ser m ulher. Esse era o tipo de notícia que j am ais passaria despercebida por um a m ulher.
— Não. Mas está tudo bem . Charlie é um garoto ótim o.
Meneei a cabeça, dizendo a Lion que ele precisava trazer o filho para assistir a um a partida de futebol am ericano da Walker.
— E um a do Cowboy s — interveio Miller, sorrindo, enquanto Michelle voltou do banheiro. Em questão de segundos, ele a avaliou dos pés à cabeça e arrancou um sorriso dela.
— Você não tem nam orada? — questionei, j á bêbada.
— Sim , m as ela é liberal — respondeu Miller com um a piscadinha. — E ela adoraria a Michelle. Se é que você m e entende.
Revirei os olhos e m urm urei:
— Porco.
— Com o está o seu nam orado? Já ficaram noivos? Fiquei sabendo que você vai conhecer os pais dele.
— Sim , vou. Mas não, não estam os noivos — respondi, pensando que aquilo era a pior parte de m orar num a cidade pequena: as notícias voam . Em relação a tudo.
— Seu pai vem ? — questionou Miller.
Balancei a cabeça, confirm ando.
— Ele j á está aqui. Estou evitando falar com ele.
— Talvez o Ry an vá pedir a sua m ão.
— Com o você é idiota — retruquei.
Ele deu um tapa de brincadeirinha na m inha bunda e falou:
— Você gosta.
Dei um soco no om bro dele com o m áxim o de força que pude, m as percebi que não tinha m e ofendido tanto quanto deveria, talvez. Ele era inofensivo — sem pre fora.
— Ai! — gritou ele, depois se virou para Lion e Michelle: — A Shea m e trocou pelo Ry an. Mas tudo bem . Eu entendo. Eu tam bém m e trocaria pelo Ry an. Pensem com igo: é m elhor ser professor de educação física ou um quarterback profissional?
Michelle sorriu; eu diria que ela estava entrando na dele.
— Nós term inam os porque você é um idiota. E ponto-final. — Sorri e ele tam bém .
— Tudo bem . Não sou m esm o o tipo para casar — confessou Miller.
Depois disso, Michelle interveio na conversa, tentando analisá-lo, bem com o a todos os solteirões presentes, enquanto eu pedia doses de uísque Jack Daniels e cervej a para quem quisesse m e acom panhar. Passou pela m inha cabeça que essa não era a decisão m ais sábia a tom ar na noite anterior ao encontro com os pais do m eu nam orado, m as eu j á estava bem alta para adotar qualquer atitude racional.
Então continuei bebendo, rindo, j ogando sinuca e até dançando, m e sentindo m ais feliz a cada m inuto, cheia de boa vontade para com todos, até m esm o com desconhecidos e am igos dos am igos. Todos nós tínham os a Walker em com um , de um j eito ou de outro, e eu fiz esse com entário durante um brinde em m eio ao barulho.
— Vocês perceberam que cada um de nós aqui nasceu ou m ora na cidade? — lancei, sentindo a m inha em oção m ais profunda do que as palavras que escaparam dos m eus lábios.
— Nossa! Mas que observação im portante, j á que todos nós aqui estam os enchendo o caneco nesta cidade de m erda — exclam ou Miller, sarcástico.
— Não é m erda coisa nenhum a. Som os a casa do m elhor tim e de futebol am ericano universitário e tem os o treinador m ais m aravilhoso e incrível... — afirm ei.
— Ah, fala sério! Lá vem você de novo com isso — retrucou Miller com a voz ainda m ais alta.
— Com isso o quê? — questionei, cam baleando um pouco enquanto olhava para ele.
— Com essa veneração. Que m erda. É sem pre a m esm a coisa.
— Cala a boca! — falei.
Miller estava tão bêbado quanto eu e continuou gritando, depois se virou para a plateia dele:
— Treinador Carr! É ele que ela am a de verdade. Não sou eu. Nem o Ry an. Mas o treinador Cliiiiiive Carr.
Michelle respirou com dificuldade sem conseguir acreditar no que Miller disse:
— É o pai da Lucy. Melhor am iga dela.
— E daí?
— É velho dem ais para ela — acrescentou Michelle.
— Ela não se im porta — insistiu Miller, balançando a cabeça. Depois, ele apontou para m im : — Estão vendo? Olhem para ela. Vej am a cara dela.
Sej a lá com o estivesse a m inha cara, im ediatam ente m udei para um a carranca exagerada.
— Ela está apaixonada pelo pai da Lucy. Sem pre foi. E sem pre será. Vi os dois j untos aqui um a noite. — Em seguida, ele olhou para m im e perguntou: — Você vai negar?
— Estávam os trabalhando. Sou repórter. Ele é o treinador do tim e que eu cubro. Tem os um a relação profissional.
Neguei de novo, da m aneira m ais convincente que pude, m as, no estado em que eu m e encontrava, um a pequena parte de m im am ou o que Miller disse sobre o treinador e eu. Então, as próxim as palavras que saíram da m inha boca foram :
— Quer saber? Vou ligar para ele agora e contar o que você anda dizendo.
Em seguida, atravessei o bar e saí. A noite fria quase m e fez recuperar um pouco do bom senso, m as acho que nem chegou a isso, porque digitei o núm ero do telefone do treinador.
— ¿Qué pasa? — ele perguntou, com a voz anim ada.
— Estou no Third Rail. Você deveria vir aqui.
Ele riu:
— Você sabe que não posso fazer isso.
— Por que não? Você j á fez isso um a vez.
— Aquilo foi num a segunda-feira à noite. Um a exceção. E provavelm ente eu não deveria ter ido.
— Mas eu quero te ver — declarei.
— Eu tam bém quero te ver — afirm ou ele categoricam ente, com todas as letras.
Chocada, acrescentei:
— Bom , então venha.
— Não posso.
— Então eu vou até aí — decidi, encarando o céu. — Sabia que hoj e é lua cheia?
— A lua não está cheia. Quanto você bebeu? — questionou.
— Um pouquinho...
— Então, não pode dirigir.
— Não vou. Não conseguiria. Vou pegar um táxi. Para a sua casa.
— Não, você não pode fazer isso. As pessoas com entariam .
— Com entariam o quê? Não tem nada dem ais acontecendo. Tem ? — Minha voz ficou m ais alegre, quase em tom de flerte.
Ele riu novam ente:
— Tudo bem , m enina. Fique aí. Vou buscar você.
— Estou pronta. Venha m e buscar agora.
— Chego aí em dez m inutos. Vá para o lado da rua Monroe... e tom e cuidado — pediu ele.
— Mas e o m eu carro?
— Am anhã você pega.
— Ok.
— Fique aí.
— Sim ... Treinador?
— Sim , m enina?
— Venha rápido — sussurrei.
Dez m inutos depois, tem po suficiente para m e despedir dos am igos e m entir que eu tinha pedido um táxi, o treinador parou, devagar, na Monroe e esperou que eu abrisse a porta do passageiro. Entrei no carro, m e inclinei para acariciar seu braço e abri um sorriso grande e bobo.
Ele retribuiu com um sorriso, m as depois perguntou:
— Me diga a verdade. Quanto você bebeu?
— Um pouco — respondi, aj eitando o cinto de segurança. — Muito.
Ele balançou a cabeça.
— Queria que não tivesse feito isso. Já te falei antes. Você deve ter sem pre o controle da situação.
— Mas eu estou no controle.
Ele m e olhou bem nos olhos.
— É? Tem certeza disso?
— Certeza absoluta! — respondi e ao m esm o tem po m e lem brei de que tinha deixado o cartão de crédito no bar. Mandei um a m ensagem de texto para Miller dizendo: Não fechei a conta. Pode pedir uma que eu pago!!
Ele respondeu de im ediato:
Vou pedir uma rodada para o bar inteiro. Saúde!
— Que idiota — m urm urei, sorrindo.
— Quem ?
— Miller. Mas não... Ele não é tão ruim assim — respondi.
— Não. Não é m esm o — concordou o treinador. — Ele só não é o cara certo para você.
— E quem é? — perguntei, com a voz tím ida.
Ele sorriu, m as não respondeu. Quando param os no sem áforo da Jeferson, ele ligou o rádio. Rascal Flatss estava cantando These days, e o treinador com eçou a batucar no volante. Quando o sinal ficou verde, ele seguiu reto em vez de virar à direita, que seria a direção da casa dele.
— Para onde você está indo? — questionei.
— Vou te levar para a sua casa.
— Mas eu quero ir para a sua.
O treinador balançou a cabeça.
— Você precisa dorm ir. Além disso, nós sabem os bem o que aconteceu da últim a vez que você apareceu lá em casa.
— O que aconteceu?
— Lucy. Lem bra?
— Você levou um a bronca tam bém ?
— Se levei! Fui interrogado.
— E o que foi que disse para ela?
O treinador deu um a risadinha, depois m e olhou de lado:
— Você é m esm o um a reporterzinha das boas, não é?
— Não sou um a reporterzinha — retruquei, estufando o peito e passando as m ãos pelo cabelo para aj eitá-lo. — Sou... escultural.
Ele sorriu.
— Isso você é m esm o — com entou ele, olhando para m inhas pernas antes de voltar a olhar para a pista.
Estiquei o braço e aum entei o volum e do rádio enquanto Carrie Underwood e Brad Paisley cantavam Remind me, um a m úsica que eu adorava, tanto que com ecei a cantar j unto, apesar de m inha voz terrível de cantora: “If y ou still love m e, don’t j ust assum e I know!” (Se você ainda m e am a, não suponha que eu saiba disso!).
Alguns segundos depois, param os em frente ao m eu condom ínio.
— Onde fica o seu apartam ento?
Apontei para a frente.
— É aquele.
O treinador parou num a vaga de visitante, m as esperou a m úsica acabar para desligar o m otor do carro; e ficou olhando para a frente, com a expressão séria. Depois, saiu do carro, veio até m inha porta e a abriu. Ainda sentada, olhei para ele e ficam os nos encarando.
— O que foi? — perguntei sem m e m exer.
Ele m e ofereceu a m ão, depois m e conduziu gentilm ente para fora.
— Acho que a Lucy tam bém não iria gostar m uito de ver isso — opinei.
— De ver o quê? Eu te dando um a carona?
— Não. Você m e pegando pela m ão para sair do carro.
— Ela entenderia que é para o seu próprio bem , devido ao seu estado de em briaguez — declarou ele, m e conduzindo até calçada de cim ento cercada por am ores-perfeitos brancos e roxos.
— Vou conhecer os pais do Ry an am anhã — falei, do nada. — E ele vai conhecer os m eus.
— E você vai estar de ressaca.
— Valeu a pena.
— Por quê?
— Porque você está aqui. Segurando a m inha m ão — respondi.
Ele sorriu, m as soltou a m inha m ão e levou o braço ao redor da m inha cintura, m e guiando em direção à escadaria, depois dois lances até a porta do m eu apartam ento. Vasculhei a bolsa à procura da chave, encontrei-a, depois abri a porta devagar. Entrei e fiquei segurando a porta aberta, esperando que ele m e seguisse. O treinador veio e, antes que houvesse tem po para m udar de ideia, fechei a porta atrás dele e a tranquei. Achando graça, Carr balançou a cabeça, depois olhou ao redor da m inha sala de estar escura e ficou olhando o artigo em oldurado que ele m esm o tinha m e dado e que estava sobre a lareira.
— Ficou bom — opinou.
— Am ei o presente — falei.
— Fico feliz.
— Am ei porque veio de você.
O treinador assentiu.
— Que bom . Agora vá para a cam a. — Ele apontou para o corredor escuro em direção ao m eu quarto.
— Não estou com sono.
— Então com ece a contar carneiros pulando a cerca.
Fiz um a careta.
— Mas antes beba um pouco de água e tom e um Ty lenol.
— Tudo bem . Mas eu quero fazer um a pergunta prim eiro.
— Um a pergunta.
— Por que você acha que a Lucy não quer nos ver j untos?
— Não sei por que ela encucou com isso.
— Chute. Ou então vou fazer outra pergunta.
Ele sorriu, olhou para o teto, depois esticou o braço e pegou m inha m ão de novo.
— Porque... — com eçou ele, apertando um pouco m inha m ão e dando um passo para se aproxim ar de m im . — Porque acho que ela sabe.
— Ela sabe o quê? — perguntei, sentindo o arom a da loção pós-barba. Meu coração paralisou e eu fiquei tonta (m ais tonta do que j á estava) ao im aginar o quanto seria fácil m e inclinar e beij á-lo.
— Não — disse ele, puxando a m ão de volta e balançando um dedo para m im . A princípio pensei que ele quis dizer que não, que eu não poderia beij á-lo, m as ele acrescentou: — Você disse que tinha só m ais um a pergunta. E eu j á respondi. Agora vá para a cam a. Já.
Em bora não pudesse ver m uito bem o seu rosto por causa da escuridão, pude ouvir pela sua respiração que ele estava sentindo algo. Nós dois ficam os parados, nos encarando, esperando alguns segundos antes de ele se virar, destrancar a porta e abri-la.
— Tchau, m enina — despediu-se baixinho, agora parado.
— Tchau, treinador — falei ao ver a porta se fechar atrás dele.
Soltei a respiração, pressionei m inha bochecha e a palm a da m ão contra a porta de m etal e fechei os m eus olhos. Ouvi a voz dele de novo, do outro lado:
— Tranque tudo e vá para a cam a.
Abri os olhos e sorri, depois fiz o que ele m andou.