Primeiro e Único
Seis
Depois de esvaziarm os o closet, o próxim o grande obstáculo seria o aniversário de Lucy. A dor pela m orte da m ãe vinha à tona em m om entos inesperados, fosse no superm ercado, na igrej a ou brincando com Caroline no parque, m as eu sabia que as ocasiões especiais seriam especialm ente difíceis, j á que a Sra. Carr sem pre exagerava m uito nos feriados e aniversários. Ela prom ovia festas de arrom ba, com em orações m em oráveis de aniversário, e, para todas as outras ocasiões, preparava presentes extravagantes, j antares luxuosos em Dallas, bolos caseiros (durante m uitos anos a Sra. Carr frequentou aulas tanto de salgadinhos quanto de confeitaria), enviava arranj os de flores para a loj a de Lucy e a prim eira coisa que fazia pela m anhã era am arrar bexigas na caixa de correios da filha. Por causa do em penho e do entusiasm o da esposa, o treinador sem pre preparou m entalm ente a lista dos preparativos, com o fazia com tantas outras coisas, sabendo que ela desej ava que tudo ficasse perfeito para os seus filhos. Até m esm o Neil deixava tudo sob o controle da sogra; seu único dever era com prar algum a j oia para a esposa e levar o café da m anhã na cam a para ela no dia do aniversário (um a tradição que a Sra. Carr com eçara anos atrás).
Mas obviam ente este ano — e todos os próxim os que seguiriam — seria diferente, e um estado de pânico se instaurou entre o círculo de pessoas próxim as a Lucy na sem ana que antecedeu seu aniversário de 33 anos. Todos nós sabíam os que não poderíam os ocupar o lugar da m ãe dela, m as desej ávam os, pelo m enos, que as coisas saíssem perfeitas.
Lucy, contudo, estava convencida de que não queria com em orar o aniversário. Quando insisti, ela ressaltou que eu tam bém não estava m uito a fim de alvoroço naquele ano. Me contive para não enum erar algum as diferenças fundam entais, incluindo o fato de que eu nunca fui m uito chegada a aniversários, e que ela tinha m ais ou m enos cinco vezes m ais am igos do que eu, incluindo todas as m ulheres da loj a, suas colegas da faculdade, as esposas dos am igos de Neil e as am igas de sua m ãe. Em vez disso, argum entei:
— Pelos m enos, no m eu aniversário, alm oçam os j untas. E você m e deu presentes m aravilhosos, m esm o depois de eu ter pedido que não m e desse nada neste ano.
— Presentes da m inha loj a. Desem brulhados. Isso nem conta.
— Claro que conta. Adorei o vestido, e aqueles brincos são m aravilhosos. — Com prar roupa para um a am iga pode, m uitas vezes, ser um a tarefa difícil, m as Lucy sem pre acertava em cheio. — Posso pelo m enos te levar para alm oçar? — perguntei.
Ela balançou a cabeça e disse que só queria poder esquecer com pletam ente do seu aniversário naquele ano; que nem m esm o parecia um aniversário sem a sua m ãe, a pessoa que lhe dera à luz. Àquela altura, concordei, m as, no final da tarde, tive as m inhas dúvidas e liguei para Neil, j á que nós dois estávam os preocupados com o assunto. Mesm o que Lucy pensasse que estava sendo sincera conosco, e passando as orientações certas, e se ela se sentisse diferente quando chegasse o dia e não tivéssem os preparado nada de especial?
— Você acha que deveríam os ligar para o treinador e perguntar para ele? — perguntou Neil.
— Acho que não. Penso que só precisam os inform á-lo sobre qual é o plano, ou que não tem os plano nenhum ... Não quero incom odá-lo — respondi.
— Por causa dos j ogos de prim avera? — questionou Neil com um ligeiro tom de desgosto. — Nem é a tem porada de verdade, Shea. E estam os falando do aniversário da única filha dele.
Neil leu a m inha m ente, claro. Os j ogos eram a verdadeira razão pela qual pensei que não deveríam os incom odar o treinador, m as posso dizer que, para Neil, tudo aquilo era extrem am ente trivial, pelo m enos naquela ocasião que seria o prim eiro aniversário de Lucy sem a m ãe. Me senti um pouco envergonhada enquanto tentei disfarçar.
— Não, não são os jogos em si. É só que ele deve estar sobrecarregado agora... e triste dem ais para dem onstrar algum a opinião a respeito do assunto. Além disso, os hom ens não entendem esses detalhes... com exceção de você... Enfim , sugiro algo pequeno. Um j antar sim ples? — falei.
— Concordo. Só a fam ília, você e a sua m ãe. Posso assar costela... Só precisam os que sej a tudo bem sim ples m esm o.
— Perfeito — concluí, com o sentim ento egoísta de alívio por não ter de incluir o bando de am igos de Lucy, e avisei Neil de que m inha m ãe e eu cuidaríam os do bolo e de todos os acom panham entos.
— E os chapeuzinhos? — questionou Neil, m eio que na brincadeira.
— Os chapeuzinhos... — acrescentei, sorrindo. — Claro, todos nós sabem os m uito bem o quanto Lucy adora chapeuzinhos de aniversário.
Na noite de 21 de m arço, 33 anos depois que J.R. fora assassinado no seriado Dallas, dirigi até a casa de Lucy e Neil com um bolo de duas cam adas, o presente de Lucy (um livro ilustrado de capa dura sobre m oda) e m eia dúzia de chapéus de aniversário. Cheguei m eia hora atrasada, e encontrei o carro de Lawton e da m inha m ãe j á estacionados. Não havia o m enor sinal do treinador.
Quando atravessei a porta da frente, equilibrando o bolo em cim a do presente de Lucy, Caroline m e recepcionou, vestindo legging e um top brilhoso rosa-choque. A com binação estava m uito longe da m aneira tradicional e certinha com que Lucy geralm ente vestia a filha, e, num instante, pude perceber que o dia por aqui não tinha sido nada bom .
— Ei, Ursinha Carinhosa — cum prim entei, enquanto ela im plorou para dar um a espiadinha no bolo e poder experim entá-lo (deixei que ela espiasse, m as não que experim entasse).
Então, com o eu tem ia, Caroline anunciou com a sua voz aguda e estridente e sua dicção estranham ente articulada para um a criança de quatro anos:
— A m am ãe está chorando porque o vovô esqueceu o aniversário dela, e ela sente saudade da vovó. Porque a vovó era m elhor para os aniversários do que o vovô.
Ela estava se referindo, é claro, ao treinador. Senti um a dor no peito.
— Com o assim “o vovô esqueceu o aniversário dela”? Ele não vem ? — perguntei, quando Lucy apareceu no andar de cim a com sua calça de ioga desbotada, um a regata de fazer ginástica e um rabo de cavalo sem graça. Estava sem m aquiagem e sem nenhum a j oia, com exceção do relógio (e não era nem o relógio bonito que Neil lhe dera de presente no últim o Natal, m as sim um relógio digital). A coisa estava pior do que eu pensava.
— Ele está a cam inho — respondeu Lucy, tentando pegar o bolo das m inhas m ãos. Virei os om bros para que ela não espiasse o bolo antes que chegasse a hora de soprar as velas.
— Então, está vendo? Ele não esqueceu! — exclam ei.
— Neil teve de ligar para lembrá-lo.
Sem saber o que falar, desviei o olhar para o corredor e vi Lawton, Neil e m inha m ãe na cozinha, agrupados, todos com a expressão séria.
— Está tudo bem . Eu entendi. Ele está com a cabeça cheia, preocupado com toda aquela coisa de treino para os j ogos de prim avera... merda — lançou Lucy.
Independentem ente de quantas vezes ela se referira ao futebol com o “é só um j ogo”, essa era a prim eira vez que ela o cham ava de m erda, e eu pude ver um a expressão de raiva em seus olhos que m e deixou preocupada.
— Tem certeza que ele esqueceu? — perguntei, desej ando ter ligado para o treinador naquela m anhã. De fato, tinha passado pela m inha cabeça fazer isso, m as decidi que não o faria im aginando que poderia parecer presunçoso da m inha parte ou m esm o que o lem brete lhe parecesse um a ofensa.
— Ele nem ao m enos ligou. Nenhum a ligação, o dia inteiro. Verifiquei m inha caixa postal dez vezes, pensando que talvez eu tivesse passado batido pela m ensagem . Mas não. Havia três m ensagens suas m uito m eigas, e m ais ou m enos outras trinta de am igos e conhecidos. Incluindo... — Ela ticou na lista que estava na sua m ão esquerda o nom e de sua antiga professora de balé, depois o nom e do nosso barm an favorito do Third Rail, e depois o nom e de um punhado de senhoras que faziam aulas com a Sra. Carr no dom ingo de m anhã.
— Minha m ãe deve ter pedido a elas que m e ligassem ... Em seu leito de m orte... Todas disseram coisas m aravilhosas sobre ela e sobre o quanto se orgulhava de m im e da Caroline...
— Nossa — exclam ei, sentindo calafrios, abism ada por ver com o a Sra. Carr tinha pensado em tudo, e até m esm o na m aneira com o ela havia encarado a m orte.
Lucy pareceu afugentar as lágrim as com um a nova onda de raiva. Ela balançou a cabeça, com prim indo os lábios.
— Um m onte de senhoras do curso de dom ingo. Mas nada do m eu próprio pai.
Abri a boca para tentar encontrar um a explicação, m as Lucy m e interrom peu.
— Olhe, esqueça isso. Não tem problem a nenhum . Eu disse que não queria alvoroço este ano... então, aqui estam os. Nada de agitação.
Ela forçou um a risadinha, depois se virou e foi para a cozinha. Eu a segui, deixei o bolo, o presente e os chapéus sobre a ilha central da cozinha e cum prim entei a todos. Minha m ãe sussurrou: “Não foi um a boa ideia”, enquanto bati o olho nas peônias rosas e brancas que eu havia enviado naquela m anhã, um a pitada de alegria em m eio ao clim a pesado do am biente. Encom endei as flores na m esm a floricultura em que a Sra. Carr as com prava, e até verifiquei o histórico de pedidos que ela fazia. Depois de conversar com o proprietário da floricultura para saber se as flores deixariam Lucy anim ada ou se o presente seria m órbido, optei por enviar o m esm o arranj o que a m ãe escolhera para Lucy no ano passado — um buquê de peônias com folhagens, num vaso quadrado.
— Pelo m enos eu tenho você. Mal posso acreditar... Que gentil da sua parte m e enviar... as m esm as flores... — A voz dela ficou rouca de novo no m om ento exato em que o treinador atravessou a porta da frente.
— Oi, pessoal! — gritou ele, entrando apressado pela cozinha, com certeza vindo direto do treino. O treinador, vestindo um agasalho de m oletom cinza, estava com um punhado de poeira sobre o boné de beisebol branco, um apito pendurado num cordão ao redor do pescoço e um a sacola de presente am assada nas m ãos, com um lacinho de desculpas am arrado em volta da alça. Com todos observando-o, ele colocou a sacola e suas chaves sobre a m esa, próxim as às flores, depois, com um braço apenas, deu um abraço forte em Lucy, um beij o na cabeça e disse:
— Feliz aniversário, Lu. Trinta e três.
Ele soltou um assovio para am enizar as coisas, m as posso dizer que estava perturbado, num estado nada com um para ele.
— Obrigada, pai — disse ela, enquanto todos nós observávam os, inconform ados.
De canto de olho, pude vê-lo aj eitando a aba do boné, num gesto de nervosism o.
— Me desculpe por ter deixado o dia passar batido... Que dia... Que dia difícil!
— Você esqueceu o aniversário da m am ãe. — Caroline entrou na conversa, se enfiando no espaço entre a m ãe e o avô e olhando de um j eito m eigo para os dois.
— Não, não esqueci, querida — afirm ou o treinador, apontando para a sacola com o presente. Ele se abaixou para pegá-la no colo. — Eu viria de qualquer form a. Claro que viria.
— A m am ãe disse que você esqueceu — insistiu Caroline, enquanto Lucy deu as costas para os dois e com eçou a arrum ar a m esa com talheres do dia a dia, pratos sim ples e guardanapos de papel.
— Caroline — exclam ou Neil, em tom de reprim enda, o que, com o todos nós sabíam os, só ia fazer com que ela insistisse m ais ainda. — Não responda assim para o seu avô!
— Mas ela falou — retrucou Caroline. Foi quando percebi que eu estava literalm ente prendendo a respiração, agoniada pelo fato de que Lucy parecia extrem am ente chateada e o treinador, extrem am ente culpado.
Soltei o ar enquanto o treinador pigarreou e se defendeu.
— Meu bem , com certeza eu não esqueci o aniversário da sua m ãe. Eu só estava... ocupado até agora. — O treinador olhou para todos nós e disse baixinho: — Lawton, m e aj ude aqui.
— Ele só estava ocupado. Até agora — repetiu Lawton.
O treinador lhe lançou um olhar de frustração de quem estava pensando: Isso é o melhor que você consegue fazer?
Lawton deu de om bros enquanto Caroline continuou pressionando.
— Estava ocupado treinando o pessoal do futebol am ericano?
— Sim , ele estava ocupado treinando o pessoal do futebol — respondeu Neil, arrancando-a dos braços do treinador e a j ogando para cim a, no ar.
Caroline com eçou a rir e esqueceu o assunto por alguns segundos, enquanto o treinador, sem se dirigir a ninguém em particular, disse:
— Ok, então. Nada de falarm os m ais sobre futebol am ericano hoj e.
— Até am anhã? — questionou Caroline, olhando para ele com j ulgam ento e cara de travessura. Foi quase com o se Lucy tivesse dado um script para a filha e um curso de com o piorar as coisas, m esm o quando isso parecesse im possível.
— Sim , até am anhã, querida — respondeu o treinador, fingindo tranquilidade. Fiquei m e perguntando quem m ais percebeu isso no m om ento em que ele olhou para m im e para a m inha m ãe:
— Oi, Marie! Olá, Shea. Com o vão as coisas?
Nós duas m urm uram os que estávam os bem e com eçam os a bater papo. Em certo m om ento, o treinador m e perguntou se eu havia recebido notícias de Sm iley.
— Ainda não — respondi, um a parte de m im sentindo-se aliviada por isso.
— Ligue para ele. Você precisa persistir — recom endou o treinador.
Assenti e perguntei:
— E com o foi o treino?
— Foi bom — respondeu, olhando para Lucy. Depois, com um sorriso tenso, ele acrescentou: — Mas nada de falar de futebol am ericano por hoj e, está lem brada?
— Tudo bem , pai — interferiu Lucy, retirando quitutes da geladeira e entregando alguns filetes de cenoura para Caroline. — Se não falarm os sobre isso, qual seria o outro assunto? — Não acho que a pergunta de Lucy tenha sido intencionalm ente retórica, m as soou com o um a farpa porque, em seguida, ela deu de om bros e acrescentou: — O que quero dizer é que estam os na sem ana dos j ogos de prim avera. Eu entendo. Está tudo bem . Você pode contar para a Shea, e para todos aqui, sobre o treino.
— O treino foi bom . Só tive de cuidar de outras coisinhas hoj e... Sem pre tem algum a coisa... — explicou ele.
— O que aconteceu, pai? — perguntou Lawton, j ogando Caroline sobre o encosto do sofá. Ela saltitou, rindo, depois circulou ao redor dele, pedindo para brincar m ais.
— Ah, é um a longa história. Uns problem inhas com Reggie... Não deve ser nada.
— Com quem ? — perguntou Lucy.
Devo ter arfado, porque Lucy olhou para m im e disse:
— O que foi? Sou obrigada a decorar o nom e de um a centena de j ogadores?
— Reggie Rhodes, querida. Você sabe quem é ele — explicou Neil.
— Ele é o m elhor j ogador iniciante que j á tivem os desde Ry an Jam es — acrescentou Lawton.
— Ah, ele. Não o reconheci pelo prim eiro nom e. Sei quem é — declarou Lucy.
— Claro que sabe, querida — falou m inha m ãe, m exendo sua salada de tom ate e cebola.
— Então, o que aconteceu? Ele se m achucou no treino? — questionou Lucy.
Lawton deu risada e balançou a cabeça, tirando a tam pa de um a garrafa de Bud Light:
— Ele não está aqui ainda.
— O que você quer dizer com “ele não está aqui”? — retrucou Lucy.
— Lawton quis dizer que... o Reggie ainda está no ensino m édio. Ele virá ano que vem — explicou Neil.
— Bem , que sej a... Ele poderia ter se m achucado — interveio m inha m ãe, em defesa de Lucy. — Poderia ter sofrido um acidente de carro. Ou... ter escorregado e caído.
— Num a casca de banana? — brincou Lawton.
— O que aconteceu, pai? — indagou Lucy, fazendo um a careta para Lawton.
— Na verdade, nada... Um a confusãozinha... Mas vai ficar tudo bem .
O treinador balançou a cabeça e em seguida forj ou um tom de voz otim ista:
— E aí, quem está com fom e? Neil, vam os acender essa churrasqueira, filho!
Todos nós concordam os que a ideia era ótim a; sabíam os que não havia quase nenhum problem a no Texas que costelas assadas não pudessem corrigir.