Primeiro e Único
Vinte e cinco
A casa estava com pletam ente escura quando cheguei, m as, ao parar na entrada de carros, percebi que a porta da garagem estava aberta, e o treinador estava lá dentro, de pé, a luz do farol do m eu carro o ilum inando. Ele estava com um conj unto do Walker, um boné de beisebol azul-turquesa e os pés estranham ente descalços. A entrada da garagem era um a curva de noventa graus, e, onde havia duas vagas para carros, parecia m ais um a vaga única em m eio a um m onte de pás, rastelos, cortadores de gram a e bicicletas velhas enfileiradas no canto. Estercei o volante o m áxim o que pude e avancei enquanto o treinador gesticulava para eu continuar, até que ele finalm ente ergueu a palm a da m ão, m e pedindo para parar, e fez sinal de positivo. Ocorreu-m e que, nas centenas de vezes em que eu tinha ido de carro para a casa dos Carr, nunca tinha estacionado na garagem deles. Fiz essa observação m ental em m eio ao nervosism o depois que o treinador deu a volta, veio até a m inha porta e a abriu.
— É, essa curvinha não é fácil — observou ele.
— Nada fácil — retruquei, m e lem brando de que Lucy não teve perm issão para ir a nenhum lugar além da garagem assim que tirou a carteira de m otorista. Tam bém m e lem brei de que Connie tinha batido o carro um a ou duas vezes, m as é claro que eu não falaria disso agora. Peguei a sacola de com ida no assento do passageiro e saí do carro. Nós ainda não tínham os nos olhado até então.
— Por falar em dirigir, você precisa m andar consertar isso — ele disse, apontando para a parte am assada do m eu para-choque. Olhei para ele e desviei o olhar rapidam ente, com um a expressão séria, e eu diria que o treinador tam bém estava nervoso. Talvez até m ais nervoso do que eu. Esperei que ele não tivesse se arrependido do convite e dei ordem a m im m esm a para não agir de um j eito estranho. Se eu conseguisse, de algum a form a, m anter as coisas de m odo natural, talvez pudéssem os transform ar esse tem po que passávam os j untos num hábito.
— Eu sei — falei, com a voz voltando a ficar m ais fraca. Constrangida, pigarreei e repeti as palavras, dessa vez com a voz m ais firm e.
— Leve lá no m eu m ecânico — ele disse, inclinando-se para passar a m ão direita sobre o m etal. Ele deu dois tapinhas no para-choque antes de ficar de pé e dar dois passos em direção à m inha porta. — Essa coisa vai com eçar a enferruj ar logo, logo, se você não levar...
— Quem é o seu m ecânico? — perguntei, em bora j á soubesse que ele levava o carro ao Lloy d, na Perform ance Auto. Assim com o sabia quem era o seu dentista, a lavanderia para onde ele levava as roupas e a farm ácia onde ele com prava rem édios.
— Lloy d Fortão — respondeu.
— Lloy d Doidão?
— É, com certeza estão faltando alguns parafusos na cabeça do velho Lloy d — ele adm itiu, com um a risada. — Mas ele é o m elhor de todos em se tratando de carros. E de arm as tam bém .
— Ele conhece futebol am ericano? — perguntei. Posso dizer que tanto eu quanto ele estávam os protelando, nenhum de nós com pressa de entrar.
— Não. Só gosta de stock car. Mas gosta m uito de m im e finge que gosta do Walker. Diga que fui eu que te m andei lá. Ele vai te oferecer tratam ento especial.
— Tenho certeza que sim .
O treinador passou por m im e fechou a porta do carro, roçando o seu braço no m eu.
— Muito bem , m enina. Vam os entrar — ele disse, se encam inhando para dentro da casa. Eu o segui e parei quando ele apertou o botão para fechar o portão da garagem , depois o acom panhei. Passam os pela lavanderia, onde no rádio portátil estava tocando You don’t bring me flowers. O rádio tinha pelo m enos a m esm a idade que Lucy e eu, e agora havia até um a fita isolante enrolada nele, o item de construção favorito do treinador. Sem pre havia um rolo dessa fita no escritório ou no carro dele, assim com o um a variedade de elásticos de todos os tam anhos e cores, um a prova m aterial do seu j eito prático de ser.
— Barbra Streisand? — provoquei.
— E Neil Diam ond. Não se esqueça do Neil — apontou.
— Está ficando sensível, treinador?
Ele riu.
— Sensível? É isso que você cham a de derrotar o Stanford?
— Bem lem brado — falei, quando ele se enfiou na lavanderia para m udar a estação de rádio. Um a pilha de cam isetas e cuecas estava am ontoada sobre a secadora, j unto a um único par de m eias. Olhar para aquelas roupas, especialm ente aquelas m eias, m e trouxe um súbito e intenso sentim ento de tristeza. Eu detestava a ideia de im aginá-lo cuidando das próprias roupas, sendo tão sozinho.
Eu o segui até a despensa e depois até a cozinha, observando detalhes que norm alm ente passariam despercebidos por m im . Os rodapés altos, o brilho suave das paredes cinza-acastanhadas, o cheiro característico da casa — de m óveis antigos, lim peza, vinagre branco e m adeira. Percebi que o treinador estava acom panhando o m eu olhar, interpretando m al os m eus pensam entos.
— Eu sei. Está um a bagunça. A Lorna não vem nos fins de sem ana.
— Não está tão ruim — opinei, em bora estivesse tudo bastante bagunçado. Louça, pilhas e m ais pilhas de cartas e um a caixa de cereal aberta sobre o balcão.
— Eu estava arrum ando as coisas quando você chegou — ele explicou, fechando a caixa de cereal e lim pando algum as m igalhas com a m ão em form a de concha. Depois, j ogou-as na pia enquanto eu tirei a com ida da sacola, desem balando os nossos tacos para saber quais eram os de carne, que ele havia pedido, e quais eram os m eus, de frango.
— Precisa de pratos? — ele perguntou.
Dei de om bros e disse que não seria necessário, depois pensei no quanto Connie era refinada, e m udei a resposta.
— Bom , na verdade, acho que os pratos são um a boa ideia — corrigi e estiquei o braço para pegar dois de dentro do arm ário, pensando que nenhum a outra m ulher saberia onde tudo ficava na casa dele exceto Lorna e Lucy, m as essas não contam . Arrum ei os tacos no prato da m aneira m ais artística que pude e separei as rosquinhas de canela para m ais tarde. Depois, peguei dois guardanapos dentro de um a gaveta próxim a à dos talheres. — Não com prei nada para beber. Im aginei que você tivesse algo aqui.
O treinador assentiu, depois tirou duas canecas congeladas do congelador e um a garrafa de cervej a salsaparrilha da geladeira.
— Prefere tom ar cervej a de verdade? — questionou ele.
Sorri e falei:
— Essa está perfeita — respondi.
— Vai um a colher de sorvete de baunilha?
Dei risada, balancei a cabeça e falei:
— Com tacos? Não, obrigada.
— Sorvete de baunilha vai bem com tudo — ele com entou, colocando a cervej a nas canecas. — Mas, com parado a bolo de chocolate e a rosquinha de canela, eu passo sem tam bém .
Nós dois sorrim os enquanto ele levou as canecas para a sala de estar, depois colocou um a delas sobre a m esa de café, a outra sobre o braço da poltrona e se sentou. Levei os pratos, entreguei o dele e m e sentei no sofá em posição diagonal a ele.
— Foi um a vitória gratificante — com entei.
Ele abriu o sachê de m olho de pim enta, colocou um pouco sobre um taco e disse:
— É... Aqueles garotos fizeram um bom trabalho hoj e. Executaram o plano tático m uito bem , quase que perfeitam ente. Agora só...
— Agora só precisam os vencer o Texas — concluí a fala dele.
O treinador balançou a cabeça, concordando, enquanto tirou a tevê do canal da ABC, em que estava passando um j ogo entre Geórgia e LSU, e foi para a ESPN, que transm itia um a partida entre Cal e Oregon. Depois ele voltou para o ABC, o j ogo m ais com plicado entre os dois.
Conversam os sobre esses dois j ogos e sobre outros placares do dia, e passam os uns dez m inutos falando apenas sobre o Texas. Eu havia lido som ente as m anchetes, m as o treinador m e contou os detalhes sobre o equilíbrio entre o ataque ofensivo e a defesa contundente.
— Vai ser difícil vencê-los — resum iu com um suspiro profundo.
— Vam os conseguir — declarei, perguntando-m e se Sm iley m e dem itiria se estivesse m e vendo ou ouvindo agora. Por outro lado, desde que m e contratou, ele sabia que o treinador e eu erám os m uito próxim os. Ele deveria saber que eu não teria com o sim plesm ente desligar um botãozinho e m e tornar um a pessoa im parcial e distante dos m eus antigos am igos. Contanto que eu escrevesse m inhas m atérias com im parcialidade e que m antivesse a neutralidade em público, qual seria o problem a? Ocorreu-m e que talvez fosse Ry an quem veria problem as nesse m eu encontro com o treinador, m as rapidam ente esse pensam ento passou. Com Miller era um a coisa, m as não havia a m enor possibilidade de Ry an sentir ciúm es do seu treinador da faculdade. Ele am ava o cara quase tanto quanto eu.
Alguns m inutos depois, o treinador m e perguntou se eu tinha ouvido m ais algum a coisa sobre a investigação.
— Não. Só as fofocas e boatos de sem pre... especulações. Parece que J.J. e Galli estão bem esperançosos de que o caso sej a encerrado por falta de provas.
— Isso seria bom — com entou o treinador.
— Você não acha que isso foi algum a arm ação dos fãs de algum tim e adversário?
— Acho — respondeu o treinador no m esm o instante.
Olhei para ele, pensando na teoria alternativa, e falei:
— Ry an pensa que todos os vencedores, em algum m om ento, trapaceiam , j ogam suj o.
— Isso é ridículo.
— Foi o que eu disse a ele.
— Ele j oga suj o?
Sorri.
— Foi o que eu perguntei para ele.
— E?
— Ele disse que não precisa.
O treinador revirou os olhos, m udou de canal, depois voltou para o m esm o.
Hesitei, m e sentindo m eio desconfortável. Mas continuei:
— Ry an disse que alguém deu de presente aquela Escalade que o Cedric Washington exibia na faculdade. Ele deu a entender que teria sido um suborno... E que foi assim que o Cedric conseguiu entrar no Walker...
— Alguém, hã? Quer dizer alguém com o o pai de Ry an, por exem plo? — insinuou.
— Está falando sério? — questionei, sentindo os m eus olhos se arregalarem .
O treinador fez que sim com a cabeça.
— Bem , é o que dizem por aí. Ele queria que o filho tivesse um receiver de alto nível para quem passar a bola.
— Então... Você sabia disso? — gaguej ei, m e sentindo ligeiram ente chateada ao ouvi-lo discorrer sobre o assunto com tam anha naturalidade. Talvez Ry an estivesse certo. Talvez eu tenha sido ingênua.
— Eu sabia que era um boato. Com o eu disse, não tenho certeza... Não faço a m enor ideia de onde Ced tirou aquele carro. Só sei que ele não conseguiria com prar um a Escalade com o dinheiro que ganhava com o entregador de j ornal em Third Ward — observou o treinador, enquanto eu m e lem brava de Cedric se referindo carinhosam ente a seu bairro em Houston com o “os Trey ”. Ao parar para pensar nisso, Cedric m e lem brava Reggie, com um a personalidade extrovertida e um j eito afável de fazer a ponte entre os filhos das fam ílias privilegiadas de Walker e os atletas m ais braçais. Todos torciam por ele — fizeram até um a reunião im provisada na quadra, antes de um j ogo, na prim avera do nosso prim eiro ano, quando o Falcons o selecionou na sétim a posição. Ele vinha se saindo bem pela NFL desde então, continuava j ogando no Atlanta, estava casado e com três ou quatro filhos... — e talvez um a frota de Escalades.
— Algum a vez você perguntou para Cedric sobre o carro? — pressionei. — Ou para o Sr. Jam es?
O treinador pareceu m eio na defensiva ao responder:
— Questionei o Ry an sobre isso. E o pai dele tam bém . Am bos negaram . Questionei o próprio Cedric...
— E o que ele disse?
— Disse que ganhou o carro do tio. E que o veículo tam bém estava no nom e do tio, que estava pagando as parcelas.
— E você acreditou nele? — perguntei.
— E eu deveria cham ar um dos m eus m eninos de m entiroso? — ele questionou, repousando o prato. — O que eu poderia fazer? Confiscar o carro? Rastrear o proprietário? Colocar um detector de m entiras no tio dele? E, o m ais im portante, Cedric era um bom garoto. Se em penhava m uito tanto no cam po quanto na sala de aula. E, quer saber? — Antes que eu pudesse responder, ele acrescentou: — Fico feliz em ver que Ced tinha um carro bom ... Ele m ereceu, sej a lá de quem aquela m aldita coisa tenha vindo. Bom para ele.
Digeri isso, m e perguntando se eu tinha soado com o puritana ou j ulgadora.
— Você está certo. Eu não quis... — Minha voz sum iu enquanto eu procurava pelo verbo certo. Com ecei a dizer “acusar”, m as m udei para “sugerir”.
O treinador m eneou a cabeça, m as m anteve os olhos grudados na televisão.
— Desculpe, treinador — falei, em bora não soubesse ao certo pelo que eu estava m e desculpando.
Quando ele finalm ente olhou para m im , sua expressão estava branda.
— Tudo bem . Não estou bravo com você, m enina... Só estou aborrecido e decepcionado com toda essa história. O negócio é o seguinte: De certo m odo, Ry an está certo. Sem pre haverá algo suspeito. Jogo suj o. Trapaça. Ou sej a lá com o você prefira cham ar.
Fiquei encarando-o, tentando m anter a m ente aberta, em bora odiasse o rum o que a conversa estava tom ando.
— Na m inha época de escola, tinha um cara velho que se cham ava Fred Tripp, e ele costum ava nos cum prim entar com um toque de m ão e ao m esm o tem po nos entregava um envelope com cinco, sem pre que fazíam os um bom j ogo. Nós o cham ávam os de “Sr. Toca Aqui”, aí contávam os para os novatos: “Ei, você j ogou m uito bem . Prepare-se para o aperto de m ão!”.
— Cinco o quê? Dólares? — questionei, chocada diante do que ele estava m e contando.
— Sim . Cinco dólares. — Nós dois dem os risada. — É... Era assim que os novatos ficavam quando chegavam em casa, viam o que tinha dentro do envelope, e todos nós ríam os à custa deles.
Sorri.
— Mas, vej a, essa é a questão. Esqueça o valor. Alguns de nós aceitávam os o envelope. Outros não. — Assenti, com m edo de perguntar em qual dos grupos ele se encaixava. — Independentem ente do valor, aqueles cinco dólares eram contra as regras da NCAA, e todo garoto que aceitava o “aperto de m ão” do Sr. Tripp com etia um a infração. Sendo assim , Rhodes quebrou as regras? Não sei. Você pode perguntar para ele, m as ele vai responder que não. Exatam ente com o Cedric m e respondeu que não. Consegue entender o que estou querendo dizer?
Fiz que sim com a cabeça, m as sua resposta não m e agradou m uito e m e pareceu apenas um a variação do que Ry an havia dito na casa dele.
Nós dois voltam os a nos concentrar na tevê, no exato m om ento em que o Geórgia lançou um field goal longo, acertando por um triz. O treinador bateu palm as um a vez, em bora eu soubesse que ele não estava verdadeiram ente interessado no j ogo e que só estava feliz pelo kicker. Feliz por um a boa j ogada. Talvez um pouquinho m ais feliz por aquele tim e tão inferior, em bora não estivéssem os nas m elhores posições do ranking havia m uito tem po. Ficam os m astigando por alguns segundos, observando a com em oração do Geórgia.
O treinador m udou de canal de novo, voltando para o outro j ogo, enquanto eu com eçava a m astigar o m eu lábio inferior, um tique nervoso m eu, e perguntei:
— O que acha dos pais de Ry an?
— A m ãe dele é legal, m as m ansa dem ais. E, quanto a Sherwood... — O treinador balançou a cabeça. — É um filho da puta m etido a besta. Aquele tipo que pergunta: “sabe com quem está falando?”. Ry an se saiu um rapaz m uito bom , apesar do pai...
Balancei a cabeça, tentando analisar a escolha de suas palavras. Muito bom não era exatam ente um elogio copioso, m as poderia se tratar apenas do j eito discreto que o treinador tinha de falar.
— Mas m e conte. Com o vão as coisas com Ry an? — ele perguntou, do m esm o m odo que tinha feito na pista de corrida, com o se num período de poucas sem anas m uita coisa pudesse ter m udado.
— Bem — respondi, dando de om bros.
— Está ficando sério?
— Não — neguei de m odo tão autom ático que m e surpreendeu, e m e perguntei se eu havia dito a verdade. Por outro lado, se eu estava negando m inha relação com tão pouco esforço, isso não significava, por definição, que Ry an e eu não estávam os nam orando sério? Minha cabeça com eçou a doer de repente enquanto passei a bola para ele. — E você?
— O que tem eu? — O treinador term inou de com er o últim o taco, dobrou o guardanapo duas vezes e o colocou sobre seu prato.
Minhas m ãos suavam quando perguntei, da m aneira m ais despretensiosa possível:
— Você acha que pode nam orar alguém , em breve? Ou não está.... preparado?
— Pode ser que eu estej a... um pouco... preparado — respondeu ele, olhando bem fundo nos m eus olhos, enquanto m eu coração com eçou a disparar. — Mas só para a m ulher certa.
— Claro — sussurrei.
— Alguém que vá sem pre respeitar o que eu tive com Connie. Que respeite sem pre o m eu passado.
— Certo — falei, concordando com a cabeça.
— Melhor ainda se essa m ulher tiver conhecido Connie — acrescentou ele, aproxim ando-se de m im , com a voz m ais baixa. — Ela tem que ser inteligente. Forte. Sensata.
— Claro — concordei de novo, m e perguntando se eu era um a pessoa sensata. Àquela altura, j á não tinha m ais certeza.
— E essa m ulher precisa definitivam ente entender essa questão de treinador, entender de futebol am ericano. Ela tem que am ar futebol am ericano. Obrigatoriam ente.
— Certo — afirm ei, hipnotizada pelas suas palavras, pelos seus olhos e pelo som da sua voz. — E fisicam ente? Algum a preferência?
— Não necessariam ente. Mas gosto de cabelos castanhos. Castanho-averm elhado está ótim o. É assim m esm o que cham am ? Castanho-averm elhado? — Ele olhou bem para o m eu cabelo no m om ento em que m inha visão ficou em baçada. — Mas o cabelo é só um bônus. Um a conversão de dois pontos, se preferir usar um term o do futebol am ericano.
Tentei falar, m as não consegui.
Ele continuou m e encarando e lançou a pergunta:
— Conhece alguém que se encaixa nesse perfil?
Consegui sussurrar:
— Talvez eu.
— Ah, é? — ele interrogou, do j eito m ais charm oso que um hom em poderia ter feito, m as na dose certa, sem exagero. — Talvez?
— Talvez.
— Bem , então m e avise, porque, para ficar com um a m ulher que não sej a assim ... com o essa que descrevi... prefiro ficar sozinho. Sentado aqui, com igo m esm o, assistindo futebol am ericano na tevê.
Ele sorriu para m im , de um j eito discreto e vagaroso, e olhou ainda m ais fundo nos m eus olhos. Tão profundam ente que de repente eu soube. Tive quase certeza. Retribuí o olhar, e fiquei paralisada, com m edo, entusiasm ada e em estado de choque. Nunca, j am ais eu im aginaria que isso aconteceria.
— Shea?
— Sim ? — respondi, respirando por fim , m e perguntando se eu tinha escutado errado. Se aquilo tinha sido apenas um a ilusão.
— Você está bem ?
Fiz que sim com a cabeça, respirei fundo e falei:
— Então, o que acha que Lucy e Lawton diriam ? Se... você encontrasse essa m ulher?
Esperando pela resposta, afastei Ry an do pensam ento, dizendo para m im m esm a que eu não tinha feito nada de errado. Era um a conversa teórica. Só isso.
— Lawton aceitaria sem problem as, acho... Mas, Lucy... Não sei. Pode ser que haj a algum problem a. Por outro lado, ela quer m e ver feliz.
— Claro que quer. Você acha que... consegue? Ser feliz de novo?
— Acho que sim . Espero que sim .
— Tam bém espero que sim , treinador — adm iti, m e perguntando se havia a possibilidade de desm aiar de tanta atração.
Ao fundo, pude ouvir que alguém tinha m arcado ponto, m as nenhum de nós olhou para a televisão.
— Sabe de um a coisa, Shea?
Raram ente ele m e cham ava pelo nom e, o que m e pegou desprevenida.
— O quê, treinador?
— Já estou feliz. Aqui. Neste exato m om ento.
Sorri e falei:
— Sabe de um a coisa?
— O quê?
— Eu tam bém .
— Ótim o, então — disse ele, depois nós dois voltam os a assistir ao j ogo.
O resto da noite foi sobre futebol am ericano. Tanto ele quanto eu fingim os que não havíam os tido aquela conversa na qual ele m e disse, m eio que indiretam ente, que eu não era a única que se sentia atraída.