Primeiro e Único

Emily Giffin · Capítulo 25 de 46

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Primeiro e Único

Vinte e cinco

 

A casa estava com pletam ente escura quando cheguei, m as, ao parar na entrada de carros, percebi que a porta da garagem estava aberta, e o treinador estava lá dentro, de pé, a luz do farol do m eu carro o ilum inando. Ele estava com um conj unto do Walker, um boné de beisebol azul-turquesa e os pés estranham ente descalços. A entrada da garagem era um a curva de noventa graus, e, onde havia duas vagas para carros, parecia m ais um a vaga única em m eio a um m onte de pás, rastelos, cortadores de gram a e bicicletas velhas enfileiradas no canto. Estercei o volante o m áxim o que pude e avancei enquanto o treinador gesticulava para eu continuar, até que ele finalm ente ergueu a palm a da m ão, m e pedindo para parar, e fez sinal de positivo. Ocorreu-m e que, nas centenas de vezes em que eu tinha ido de carro para a casa dos Carr, nunca tinha estacionado na garagem deles. Fiz essa observação m ental em m eio ao nervosism o depois que o treinador deu a volta, veio até a m inha porta e a abriu.

— É, essa curvinha não é fácil — observou ele.

— Nada fácil — retruquei, m e lem brando de que Lucy não teve perm issão para ir a nenhum lugar além da garagem assim que tirou a carteira de m otorista. Tam bém m e lem brei de que Connie tinha batido o carro um a ou duas vezes, m as é claro que eu não falaria disso agora. Peguei a sacola de com ida no assento do passageiro e saí do carro. Nós ainda não tínham os nos olhado até então.

— Por falar em dirigir, você precisa m andar consertar isso — ele disse, apontando para a parte am assada do m eu para-choque. Olhei para ele e desviei o olhar rapidam ente, com um a expressão séria, e eu diria que o treinador tam bém estava nervoso. Talvez até m ais nervoso do que eu. Esperei que ele não tivesse se arrependido do convite e dei ordem a m im m esm a para não agir de um j eito estranho. Se eu conseguisse, de algum a form a, m anter as coisas de m odo natural, talvez pudéssem os transform ar esse tem po que passávam os j untos num hábito.

— Eu sei — falei, com a voz voltando a ficar m ais fraca. Constrangida, pigarreei e repeti as palavras, dessa vez com a voz m ais firm e.

— Leve lá no m eu m ecânico — ele disse, inclinando-se para passar a m ão direita sobre o m etal. Ele deu dois tapinhas no para-choque antes de ficar de pé e dar dois passos em direção à m inha porta. — Essa coisa vai com eçar a enferruj ar logo, logo, se você não levar...

— Quem é o seu m ecânico? — perguntei, em bora j á soubesse que ele levava o carro ao Lloy d, na Perform ance Auto. Assim com o sabia quem era o seu dentista, a lavanderia para onde ele levava as roupas e a farm ácia onde ele com prava rem édios.

— Lloy d Fortão — respondeu.

— Lloy d Doidão?

— É, com certeza estão faltando alguns parafusos na cabeça do velho Lloy d — ele adm itiu, com um a risada. — Mas ele é o m elhor de todos em se tratando de carros. E de arm as tam bém .

— Ele conhece futebol am ericano? — perguntei. Posso dizer que tanto eu quanto ele estávam os protelando, nenhum de nós com pressa de entrar.

— Não. Só gosta de stock car. Mas gosta m uito de m im e finge que gosta do Walker. Diga que fui eu que te m andei lá. Ele vai te oferecer tratam ento especial.

— Tenho certeza que sim .

O treinador passou por m im e fechou a porta do carro, roçando o seu braço no m eu.

— Muito bem , m enina. Vam os entrar — ele disse, se encam inhando para dentro da casa. Eu o segui e parei quando ele apertou o botão para fechar o portão da garagem , depois o acom panhei. Passam os pela lavanderia, onde no rádio portátil estava tocando You don’t bring me flowers. O rádio tinha pelo m enos a m esm a idade que Lucy e eu, e agora havia até um a fita isolante enrolada nele, o item de construção favorito do treinador. Sem pre havia um rolo dessa fita no escritório ou no carro dele, assim com o um a variedade de elásticos de todos os tam anhos e cores, um a prova m aterial do seu j eito prático de ser.

— Barbra Streisand? — provoquei.

— E Neil Diam ond. Não se esqueça do Neil — apontou.

— Está ficando sensível, treinador?

Ele riu.

— Sensível? É isso que você cham a de derrotar o Stanford?

— Bem lem brado — falei, quando ele se enfiou na lavanderia para m udar a estação de rádio. Um a pilha de cam isetas e cuecas estava am ontoada sobre a secadora, j unto a um único par de m eias. Olhar para aquelas roupas, especialm ente aquelas m eias, m e trouxe um súbito e intenso sentim ento de tristeza. Eu detestava a ideia de im aginá-lo cuidando das próprias roupas, sendo tão sozinho.

Eu o segui até a despensa e depois até a cozinha, observando detalhes que norm alm ente passariam despercebidos por m im . Os rodapés altos, o brilho suave das paredes cinza-acastanhadas, o cheiro característico da casa — de m óveis antigos, lim peza, vinagre branco e m adeira. Percebi que o treinador estava acom panhando o m eu olhar, interpretando m al os m eus pensam entos.

— Eu sei. Está um a bagunça. A Lorna não vem nos fins de sem ana.

— Não está tão ruim — opinei, em bora estivesse tudo bastante bagunçado. Louça, pilhas e m ais pilhas de cartas e um a caixa de cereal aberta sobre o balcão.

— Eu estava arrum ando as coisas quando você chegou — ele explicou, fechando a caixa de cereal e lim pando algum as m igalhas com a m ão em form a de concha. Depois, j ogou-as na pia enquanto eu tirei a com ida da sacola, desem balando os nossos tacos para saber quais eram os de carne, que ele havia pedido, e quais eram os m eus, de frango.

— Precisa de pratos? — ele perguntou.

Dei de om bros e disse que não seria necessário, depois pensei no quanto Connie era refinada, e m udei a resposta.

— Bom , na verdade, acho que os pratos são um a boa ideia — corrigi e estiquei o braço para pegar dois de dentro do arm ário, pensando que nenhum a outra m ulher saberia onde tudo ficava na casa dele exceto Lorna e Lucy, m as essas não contam . Arrum ei os tacos no prato da m aneira m ais artística que pude e separei as rosquinhas de canela para m ais tarde. Depois, peguei dois guardanapos dentro de um a gaveta próxim a à dos talheres. — Não com prei nada para beber. Im aginei que você tivesse algo aqui.

O treinador assentiu, depois tirou duas canecas congeladas do congelador e um a garrafa de cervej a salsaparrilha da geladeira.

— Prefere tom ar cervej a de verdade? — questionou ele.

Sorri e falei:

— Essa está perfeita — respondi.

— Vai um a colher de sorvete de baunilha?

Dei risada, balancei a cabeça e falei:

— Com tacos? Não, obrigada.

— Sorvete de baunilha vai bem com tudo — ele com entou, colocando a cervej a nas canecas. — Mas, com parado a bolo de chocolate e a rosquinha de canela, eu passo sem tam bém .

Nós dois sorrim os enquanto ele levou as canecas para a sala de estar, depois colocou um a delas sobre a m esa de café, a outra sobre o braço da poltrona e se sentou. Levei os pratos, entreguei o dele e m e sentei no sofá em posição diagonal a ele.

— Foi um a vitória gratificante — com entei.

Ele abriu o sachê de m olho de pim enta, colocou um pouco sobre um taco e disse:

— É... Aqueles garotos fizeram um bom trabalho hoj e. Executaram o plano tático m uito bem , quase que perfeitam ente. Agora só...

— Agora só precisam os vencer o Texas — concluí a fala dele.

O treinador balançou a cabeça, concordando, enquanto tirou a tevê do canal da ABC, em que estava passando um j ogo entre Geórgia e LSU, e foi para a ESPN, que transm itia um a partida entre Cal e Oregon. Depois ele voltou para o ABC, o j ogo m ais com plicado entre os dois.

Conversam os sobre esses dois j ogos e sobre outros placares do dia, e passam os uns dez m inutos falando apenas sobre o Texas. Eu havia lido som ente as m anchetes, m as o treinador m e contou os detalhes sobre o equilíbrio entre o ataque ofensivo e a defesa contundente.

— Vai ser difícil vencê-los — resum iu com um suspiro profundo.

— Vam os conseguir — declarei, perguntando-m e se Sm iley m e dem itiria se estivesse m e vendo ou ouvindo agora. Por outro lado, desde que m e contratou, ele sabia que o treinador e eu erám os m uito próxim os. Ele deveria saber que eu não teria com o sim plesm ente desligar um botãozinho e m e tornar um a pessoa im parcial e distante dos m eus antigos am igos. Contanto que eu escrevesse m inhas m atérias com im parcialidade e que m antivesse a neutralidade em público, qual seria o problem a? Ocorreu-m e que talvez fosse Ry an quem veria problem as nesse m eu encontro com o treinador, m as rapidam ente esse pensam ento passou. Com Miller era um a coisa, m as não havia a m enor possibilidade de Ry an sentir ciúm es do seu treinador da faculdade. Ele am ava o cara quase tanto quanto eu.

Alguns m inutos depois, o treinador m e perguntou se eu tinha ouvido m ais algum a coisa sobre a investigação.

— Não. Só as fofocas e boatos de sem pre... especulações. Parece que J.J. e Galli estão bem esperançosos de que o caso sej a encerrado por falta de provas.

— Isso seria bom — com entou o treinador.

— Você não acha que isso foi algum a arm ação dos fãs de algum tim e adversário?

— Acho — respondeu o treinador no m esm o instante.

Olhei para ele, pensando na teoria alternativa, e falei:

— Ry an pensa que todos os vencedores, em algum m om ento, trapaceiam , j ogam suj o.

— Isso é ridículo.

— Foi o que eu disse a ele.

— Ele j oga suj o?

Sorri.

— Foi o que eu perguntei para ele.

— E?

— Ele disse que não precisa.

O treinador revirou os olhos, m udou de canal, depois voltou para o m esm o.

Hesitei, m e sentindo m eio desconfortável. Mas continuei:

— Ry an disse que alguém deu de presente aquela Escalade que o Cedric Washington exibia na faculdade. Ele deu a entender que teria sido um suborno... E que foi assim que o Cedric conseguiu entrar no Walker...

— Alguém, hã? Quer dizer alguém com o o pai de Ry an, por exem plo? — insinuou.

— Está falando sério? — questionei, sentindo os m eus olhos se arregalarem .

O treinador fez que sim com a cabeça.

— Bem , é o que dizem por aí. Ele queria que o filho tivesse um receiver de alto nível para quem passar a bola.

— Então... Você sabia disso? — gaguej ei, m e sentindo ligeiram ente chateada ao ouvi-lo discorrer sobre o assunto com tam anha naturalidade. Talvez Ry an estivesse certo. Talvez eu tenha sido ingênua.

— Eu sabia que era um boato. Com o eu disse, não tenho certeza... Não faço a m enor ideia de onde Ced tirou aquele carro. Só sei que ele não conseguiria com prar um a Escalade com o dinheiro que ganhava com o entregador de j ornal em Third Ward — observou o treinador, enquanto eu m e lem brava de Cedric se referindo carinhosam ente a seu bairro em Houston com o “os Trey ”. Ao parar para pensar nisso, Cedric m e lem brava Reggie, com um a personalidade extrovertida e um j eito afável de fazer a ponte entre os filhos das fam ílias privilegiadas de Walker e os atletas m ais braçais. Todos torciam por ele — fizeram até um a reunião im provisada na quadra, antes de um j ogo, na prim avera do nosso prim eiro ano, quando o Falcons o selecionou na sétim a posição. Ele vinha se saindo bem pela NFL desde então, continuava j ogando no Atlanta, estava casado e com três ou quatro filhos... — e talvez um a frota de Escalades.

— Algum a vez você perguntou para Cedric sobre o carro? — pressionei. — Ou para o Sr. Jam es?

O treinador pareceu m eio na defensiva ao responder:

— Questionei o Ry an sobre isso. E o pai dele tam bém . Am bos negaram . Questionei o próprio Cedric...

— E o que ele disse?

— Disse que ganhou o carro do tio. E que o veículo tam bém estava no nom e do tio, que estava pagando as parcelas.

— E você acreditou nele? — perguntei.

— E eu deveria cham ar um dos m eus m eninos de m entiroso? — ele questionou, repousando o prato. — O que eu poderia fazer? Confiscar o carro? Rastrear o proprietário? Colocar um detector de m entiras no tio dele? E, o m ais im portante, Cedric era um bom garoto. Se em penhava m uito tanto no cam po quanto na sala de aula. E, quer saber? — Antes que eu pudesse responder, ele acrescentou: — Fico feliz em ver que Ced tinha um carro bom ... Ele m ereceu, sej a lá de quem aquela m aldita coisa tenha vindo. Bom para ele.

Digeri isso, m e perguntando se eu tinha soado com o puritana ou j ulgadora.

— Você está certo. Eu não quis... — Minha voz sum iu enquanto eu procurava pelo verbo certo. Com ecei a dizer “acusar”, m as m udei para “sugerir”.

O treinador m eneou a cabeça, m as m anteve os olhos grudados na televisão.

— Desculpe, treinador — falei, em bora não soubesse ao certo pelo que eu estava m e desculpando.

Quando ele finalm ente olhou para m im , sua expressão estava branda.

— Tudo bem . Não estou bravo com você, m enina... Só estou aborrecido e decepcionado com toda essa história. O negócio é o seguinte: De certo m odo, Ry an está certo. Sem pre haverá algo suspeito. Jogo suj o. Trapaça. Ou sej a lá com o você prefira cham ar.

Fiquei encarando-o, tentando m anter a m ente aberta, em bora odiasse o rum o que a conversa estava tom ando.

— Na m inha época de escola, tinha um cara velho que se cham ava Fred Tripp, e ele costum ava nos cum prim entar com um toque de m ão e ao m esm o tem po nos entregava um envelope com cinco, sem pre que fazíam os um bom j ogo. Nós o cham ávam os de “Sr. Toca Aqui”, aí contávam os para os novatos: “Ei, você j ogou m uito bem . Prepare-se para o aperto de m ão!”.

— Cinco o quê? Dólares? — questionei, chocada diante do que ele estava m e contando.

— Sim . Cinco dólares. — Nós dois dem os risada. — É... Era assim que os novatos ficavam quando chegavam em casa, viam o que tinha dentro do envelope, e todos nós ríam os à custa deles.

Sorri.

— Mas, vej a, essa é a questão. Esqueça o valor. Alguns de nós aceitávam os o envelope. Outros não. — Assenti, com m edo de perguntar em qual dos grupos ele se encaixava. — Independentem ente do valor, aqueles cinco dólares eram contra as regras da NCAA, e todo garoto que aceitava o “aperto de m ão” do Sr. Tripp com etia um a infração. Sendo assim , Rhodes quebrou as regras? Não sei. Você pode perguntar para ele, m as ele vai responder que não. Exatam ente com o Cedric m e respondeu que não. Consegue entender o que estou querendo dizer?

Fiz que sim com a cabeça, m as sua resposta não m e agradou m uito e m e pareceu apenas um a variação do que Ry an havia dito na casa dele.

Nós dois voltam os a nos concentrar na tevê, no exato m om ento em que o Geórgia lançou um field goal longo, acertando por um triz. O treinador bateu palm as um a vez, em bora eu soubesse que ele não estava verdadeiram ente interessado no j ogo e que só estava feliz pelo kicker. Feliz por um a boa j ogada. Talvez um pouquinho m ais feliz por aquele tim e tão inferior, em bora não estivéssem os nas m elhores posições do ranking havia m uito tem po. Ficam os m astigando por alguns segundos, observando a com em oração do Geórgia.

O treinador m udou de canal de novo, voltando para o outro j ogo, enquanto eu com eçava a m astigar o m eu lábio inferior, um tique nervoso m eu, e perguntei:

— O que acha dos pais de Ry an?

— A m ãe dele é legal, m as m ansa dem ais. E, quanto a Sherwood... — O treinador balançou a cabeça. — É um filho da puta m etido a besta. Aquele tipo que pergunta: “sabe com quem está falando?”. Ry an se saiu um rapaz m uito bom , apesar do pai...

Balancei a cabeça, tentando analisar a escolha de suas palavras. Muito bom não era exatam ente um elogio copioso, m as poderia se tratar apenas do j eito discreto que o treinador tinha de falar.

— Mas m e conte. Com o vão as coisas com Ry an? — ele perguntou, do m esm o m odo que tinha feito na pista de corrida, com o se num período de poucas sem anas m uita coisa pudesse ter m udado.

— Bem — respondi, dando de om bros.

— Está ficando sério?

— Não — neguei de m odo tão autom ático que m e surpreendeu, e m e perguntei se eu havia dito a verdade. Por outro lado, se eu estava negando m inha relação com tão pouco esforço, isso não significava, por definição, que Ry an e eu não estávam os nam orando sério? Minha cabeça com eçou a doer de repente enquanto passei a bola para ele. — E você?

— O que tem eu? — O treinador term inou de com er o últim o taco, dobrou o guardanapo duas vezes e o colocou sobre seu prato.

Minhas m ãos suavam quando perguntei, da m aneira m ais despretensiosa possível:

— Você acha que pode nam orar alguém , em breve? Ou não está.... preparado?

— Pode ser que eu estej a... um pouco... preparado — respondeu ele, olhando bem fundo nos m eus olhos, enquanto m eu coração com eçou a disparar. — Mas só para a m ulher certa.

— Claro — sussurrei.

— Alguém que vá sem pre respeitar o que eu tive com Connie. Que respeite sem pre o m eu passado.

— Certo — falei, concordando com a cabeça.

— Melhor ainda se essa m ulher tiver conhecido Connie — acrescentou ele, aproxim ando-se de m im , com a voz m ais baixa. — Ela tem que ser inteligente. Forte. Sensata.

— Claro — concordei de novo, m e perguntando se eu era um a pessoa sensata. Àquela altura, j á não tinha m ais certeza.

— E essa m ulher precisa definitivam ente entender essa questão de treinador, entender de futebol am ericano. Ela tem que am ar futebol am ericano. Obrigatoriam ente.

— Certo — afirm ei, hipnotizada pelas suas palavras, pelos seus olhos e pelo som da sua voz. — E fisicam ente? Algum a preferência?

— Não necessariam ente. Mas gosto de cabelos castanhos. Castanho-averm elhado está ótim o. É assim m esm o que cham am ? Castanho-averm elhado? — Ele olhou bem para o m eu cabelo no m om ento em que m inha visão ficou em baçada. — Mas o cabelo é só um bônus. Um a conversão de dois pontos, se preferir usar um term o do futebol am ericano.

Tentei falar, m as não consegui.

Ele continuou m e encarando e lançou a pergunta:

— Conhece alguém que se encaixa nesse perfil?

Consegui sussurrar:

— Talvez eu.

— Ah, é? — ele interrogou, do j eito m ais charm oso que um hom em poderia ter feito, m as na dose certa, sem exagero. — Talvez?

— Talvez.

— Bem , então m e avise, porque, para ficar com um a m ulher que não sej a assim ... com o essa que descrevi... prefiro ficar sozinho. Sentado aqui, com igo m esm o, assistindo futebol am ericano na tevê.

Ele sorriu para m im , de um j eito discreto e vagaroso, e olhou ainda m ais fundo nos m eus olhos. Tão profundam ente que de repente eu soube. Tive quase certeza. Retribuí o olhar, e fiquei paralisada, com m edo, entusiasm ada e em estado de choque. Nunca, j am ais eu im aginaria que isso aconteceria.

— Shea?

— Sim ? — respondi, respirando por fim , m e perguntando se eu tinha escutado errado. Se aquilo tinha sido apenas um a ilusão.

— Você está bem ?

Fiz que sim com a cabeça, respirei fundo e falei:

— Então, o que acha que Lucy e Lawton diriam ? Se... você encontrasse essa m ulher?

Esperando pela resposta, afastei Ry an do pensam ento, dizendo para m im m esm a que eu não tinha feito nada de errado. Era um a conversa teórica. Só isso.

— Lawton aceitaria sem problem as, acho... Mas, Lucy... Não sei. Pode ser que haj a algum problem a. Por outro lado, ela quer m e ver feliz.

— Claro que quer. Você acha que... consegue? Ser feliz de novo?

— Acho que sim . Espero que sim .

— Tam bém espero que sim , treinador — adm iti, m e perguntando se havia a possibilidade de desm aiar de tanta atração.

Ao fundo, pude ouvir que alguém tinha m arcado ponto, m as nenhum de nós olhou para a televisão.

— Sabe de um a coisa, Shea?

Raram ente ele m e cham ava pelo nom e, o que m e pegou desprevenida.

— O quê, treinador?

— Já estou feliz. Aqui. Neste exato m om ento.

Sorri e falei:

— Sabe de um a coisa?

— O quê?

— Eu tam bém .

— Ótim o, então — disse ele, depois nós dois voltam os a assistir ao j ogo.

O resto da noite foi sobre futebol am ericano. Tanto ele quanto eu fingim os que não havíam os tido aquela conversa na qual ele m e disse, m eio que indiretam ente, que eu não era a única que se sentia atraída.