Primeiro e Único
Quarenta e cinco
Acabei prologando a viagem e fiquei com m eu pai no Ano-Novo, preenchendo m eus dias com distrações nova-iorquinas típicas. Jantei em restaurantes m aravilhosos, visitei m useus e galerias de arte, e até patinei no gelo no Rockfeller Center. Enquanto isso, não assisti ao SportsCenter, tam pouco li notícias sobre esporte nem verifiquei o placar dos j ogos por um a sem ana inteira. Um recorde pessoal.
Isso não aliviou nem um pouco o m eu coração — eu continuava pensando no treinador praticam ente sem parar —, m as pelo m enos m e perm itiu analisar m inha vida com m ais clareza. Desde o funeral da Sra. Carr, havia quase um ano, eu havia saído da rotina, agitado m inha vida. Tinha feito isso com certeza. Eu tinha m udado tudo. Mas aqui continuava eu, sem avanços, e, possivelm ente, no pior lugar em que j á estive. Disse a m im m esm a que não havia nada do que se arrepender. E que às vezes ganham os e às vezes chegam os m uito perto. Ou, nas palavras do treinador: Um dia da caça, outro do caçador.
Três dias depois do Ano-Novo, na tarde em que eu iria em bora, m eu pai e eu saím os para um a longa cam inhada pelo Central Park, só nós dois.
Quando chegam os ao lago, ele pigarreou:
— Então, Shea. Podem os falar um pouco sobre trabalho?
— Sobre o m eu ou sobre o seu? — brinquei, m e preparando.
Ele sorriu.
— Sobre o seu.
— Tudo bem — falei, dizendo a m im m esm a para m anter a m ente aberta. Dessa vez eu realm ente não conseguiria pensar em outra estratégia.
— Você acha que vai voltar a trabalhar na Walker? No departam ento esportivo?
Balancei a cabeça, inflexível.
— Não, essa é única certeza que tenho. Não posso m ais fazer da Walker o m eu m undo. Por m ais fácil e tentador que pareça... seria com o andar para trás.
Meu pai concordou com a cabeça.
— Acha que quer continuar no j ornalism o?
— Sinceram ente? Não sei. Não estou certa de que sou boa nisso — confessei.
— Você é excelente. Estou im pressionado com suas m atérias, Shea.
— Obrigada. Acho que não sou boa, m as tam bém não sou tão ruim assim ... Não fui dem itida pela qualidade do m eu trabalho. Fui dem itida porque não consigo ser im parcial.
— Tudo bem , certo. Mas poderia ser im parcial em outra cidade, fazendo a cobertura de outro tim e, não poderia?
Dei de om bros.
— É provável que sim .
— Então, m e ouça. Sei que poderia encontrar um trabalho por sua própria conta, e não quero dizer o contrário, m as tenho dois contatos m uito im portantes. Um na ESPN, outro no New York Post. Não sei ao certo qual seria o cargo nem o salário, m as tenho certeza de que conseguiria um a entrevista para você.
— E aí... eu teria de m e m udar para cá?
— Sim . No caso de conseguir o em prego no Post. Mas, se for para a ESPN, teria de se m udar para Connecticut. Ainda m ais se quiser um pouco de distância de Astrid, que, cá entre nós, tem “cara de bunda”.
Olhei para ele, perplexa, e perguntei:
— Com o...?
— Você deixou escapar um a vez. Muito tem po atrás. Não se preocupe. Eu não falei nada para ela.
Senti m eu pescoço coçar e arder.
— Desculpe por isso.
— Sinceram ente? Está tudo bem . Foi engraçado. Sei que, consigo m esm a, você deve cham á-la assim sem pre. Ela pode ter cara de bunda, m as o coração está no lugar certo. Na m aior parte do tem po. Ela gosta m uito de você. Te adm ira m uito tam bém .
Eu não tinha certeza se ela realm ente m e adm irava, m as, sem dúvida, tinha a sensação de que havia pelo m enos um pouco de respeito.
— Gosto dela tam bém . — Obriguei-m e a dizer, pensando que pelo m enos eu não a odiava m ais. O que parecia um pequeno m ilagre.
— E aí, o que achou das oportunidades? Quer que eu ligue para os m eus contatos?
— Talvez sim — respondi, chocada por perceber que eu estava até entusiasm ada não apenas com o pensam ento de deixar a Walker com o tam bém o estado do Texas, algo que j am ais im aginaria apenas algum as sem anas antes. — Preciso trabalhar.
— Bem , não estou preocupado com o fato de você encontrar um em prego. Tenho certeza de que você tem m uitos contatos no Texas...
— Não se engane... Tenho poucos que não envolvam o treinador Carr.
— E tem m ais um a coisa... — ele disse.
Senti um a pontada no estôm ago.
— Podem os conversar sobre ele um pouquinho?
Dei de om bros, m e preparando.
— Claro.
— Talvez eu tenha seguido dem ais o m eu coração ao longo do cam inho. E o nosso coração, às vezes, pode m esm o nos m eter em encrencas... Mas, se eu não tivesse feito isso, hoj e eu não teria você.
Esse não era o ângulo que eu esperava, então m e senti confusa:
— Está falando da m inha m ãe? Que seguiu o seu coração quando ficou com ela?
— Bem , sim . Claro. E o que m ais poderia ter sido?
— O que m ais? Bem , ter um caso com um a m ulher que você conheceu no m eio do cam inho, engravidá-la antes m esm o de se divorciar da sua esposa... Então, você se casou com ela para fazer a coisa certa. E porque a m inha m ãe tem um j eitinho de conseguir tudo o que quer.
— Uau. Mas que visão sórdida a m eu respeito. E sobre você tam bém .
— Ué? Vai m e dizer que estou errada?
— Você está errada, sim . Acredite ou não, eu realm ente am ava a sua m ãe. Me apaixonei perdidam ente por ela. Mas nós sim plesm ente não conseguíam os nos entender. Éram os com o água e óleo. Um quadrado tentando encaixar-se em um círculo. Então, eu desisti. E, em vez de com eçar de novo e correr o risco de errar pela terceira vez, voltei para cuidar de Bronwy n e Astrid. Para tentar consertar o estrago que eu j á tinha feito.
Era a prim eira vez que eu enxergava a situação do ponto de vista dele, e, tam bém , a prim eira vez que não a via com o um a queda de braço entre duas m ães e suas respectivas filhas.
— Então, você está com parando o treinador com a m inha m ãe? Ou com Astrid?
— Nenhum a das opções. Estou só dizendo para você seguir o seu coração. Mesm o que, às vezes, isso cause um a trem enda bagunça na sua vida. E, pelo am or de Deus, você tem que ir a esse j ogo. Você é a garota que com eçou a viaj ar com o tim e quando ainda estava na terceira série.
— Segunda — corrigi.
— Exatam ente. Seria loucura perder esse j ogo.
Concordei com a cabeça, sabendo que ele estava certo.
— Você vai? — perguntei.
— Se você quiser que eu vá... Se precisar que eu vá... Mas, se não quiser, posso ficar e assistir de casa.
— Não é o m esm o que estar lá. A m ultidão, o barulho, a energia. É eletrizante.
— Ah! Está vendo? Ouça a si m esm a. Vai se arrepender se não for. Saiba separar os seus sentim entos por Clive e Lucy e vá apoiar o seu tim e — ele opinou, enquanto chegávam os ao Wollm an Rink.
Meneei a cabeça, m as não pude deixar de pensar que o treinador e Lucy tam bém eram o m eu tim e, pelo m enos sem pre tinham sido, e, além disso, era absolutam ente im possível separar m eus sentim entos pelo treinador e pelo Walker do m aior j ogo de nossas vidas. Para ser sincera, era difícil separar os dois de qualquer coisa da m inha vida — o que, de fato, era um sério problem a.
— Tudo bem . Eu vou — afirm ei, olhando ao redor da pista de gelo, aliviada pela ideia de que provavelm ente poucas pessoas na m ultidão duvidavam que o Walker ganharia do Alabam a.
— Que bom . Ótim o.
— Mas, depois, acho que vou voltar para a cidade e conversar com os seus contatos. Sobre aquelas oportunidades de trabalho.
— Sério? — perguntou m eu pai, surpreso.
— Sim . Sério — respondi, pensando que esse papo de “siga o seu coração” estava com eçando a ficar exagerado e que talvez tivesse chegado a hora de eu tentar outros m eios.