Primeiro e Único

Emily Giffin · Capítulo 1 de 46

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Primeiro e Único

Dedicatória

Ao m eu tio, Doug Elgin,

que inspirou a m inha paixão

por esportes universitários...

e m e ensinou que eles são

m ais que um j ogo.

Um

 

Eu deveria ter pensado em Deus. Ou no sentido da vida. Ou deveria sim plesm ente ter lam entado o fato de que a m inha m elhor am iga, naquele m om ento, era órfã de m ãe, e o fato de que a m inha m ãe perdera sua m elhor am iga. Em vez disso, m e peguei com os olhos cravados no caixão de m ogno lustroso forrado com cam adas generosas de seda crem e e criticando, em silêncio, o batom da Sra. Carr, cuj a cor rosa-neon não com binava com o seu vestido coral, o m esm o que ela usara no casam ento de Lucy, cinco anos atrás.

Porém , m ais problem ática do que o tom do batom foi a m aneira com o ele fora aplicado. Alguém , ignorando com pletam ente o que seria o padrão de beleza, passou o batom por fora do contorno dos lábios, com o se tivesse a intenção de deixá-los m ais carnudos. Era um a ilusão de ótica que j am ais enganaria alguém e que pareceu com pletam ente desnecessária, dadas as circunstâncias; afinal de contas, ninguém tiraria fotos num dia com o o de hoj e. Nada daqueles álbuns profissionais cheios de fotos entre fam ília e am igos fazendo pose com a Sra. Carr, que ficaria na posição horizontal, à frente de todos e no centro. Na verdade, todo aquele ritual de enfeitar um cadáver e deixá-lo para exibição no funeral, com o caixão aberto, m e pareceu, de repente, ridículo. Definitivam ente, a crem ação era a m elhor opção de todas. Era dessa form a que eu preferiria partir a ter de correr o risco de fazê-lo num daqueles dias ruins. Sem m arido nem irm ão, depois de algum tem po, criei m entalm ente um a m ensagem para transm itir os m eus votos finais a Lucy. Ela era realm ente a única pessoa que deveria falar. Além disso, Lucy assum iu a tarefa; era com o um com itê absoluto sem m em bros dissidentes; pelo m enos não houve ninguém que ousasse falar.

— Precisa de algum a coisa? — sussurrei para ela, furando a fila interm inável de am igos, fam iliares e estranhos que apareceram para dar os pêsam es. Nunca tinha visto tanta gente em um funeral, e, som ada a todas as outras pessoas que chegaram na noite anterior para o velório, aparentem ente toda a população da nossa pequena cidade tinha aparecido.

— De um lenço — ela respondeu. Diferentem ente dos últim os três dias, seus olhos estavam secos, m as, ao que parecia, ela estava à beira de um novo colapso, seus olhos azuis abatidos. Retirei um lenço do bolso e lhe entreguei, o que m ais um a vez m e fez lem brar o seu casam ento, quando perm aneci à som bra dela, vigilante, fornecendo balinhas de m enta e pó com pacto.

— Mais algum a coisa? Água? — perguntei, pensando o quanto era bom m e sentir necessária pelo m enos um a vez e lam entando aquele grande rito de passagem que transform aria a nossa dinâm ica habitual.

Lucy balançou a cabeça quando voltei para a segunda fileira de bancos, onde ela pediu que eu m e sentasse, j unto aos m eus pais. Ela estava a par de todos os detalhes — desde os assentos, à seleção de m úsicas e às orquídeas brancas no altar —, e foi por esse m otivo que ela, surpreendentem ente, não prestava atenção ao batom da m ãe ontem à noite, no velório, quando ainda havia a oportunidade de corrigi-lo. Pelo m enos eu esperava que ela não tivesse notado, pois, devido a toda essa eficiência, Lucy fora am aldiçoada pela capacidade im peditiva de se debruçar até m esm o sobre os assuntos m ais triviais por um período de sem anas e, às vezes, anos. Com o o rancor que ela fazia questão de sustentar contra Angel, a cabeleireira de sua m ãe que se atreveu a se ausentar durante essa sem ana num cruzeiro para o Caribe. Num discurso inflam ado, Lucy disse que, não fosse para arrum ar o cabelo de sua m ãe falecida, então que Angel tivesse com parecido pelo m enos em sinal de respeito àquela que havia sido sua m elhor cliente. Refletindo com igo m esm a, pensei que Angel deveria ter se perm itido um a folga; claro que suas férias tinham sido planej adas havia m eses e, logisticam ente, deve ser m uito difícil sair de um navio em um espaço de tem po tão curto. Mas não fazia m uito o tipo de Lucy pegar leve com alguém , especialm ente quando se tratava de sua fam ília, presente ou não, viva ou m orta.

Com o sua am iga m ais antiga e próxim a, fui beneficiada com a sua extrem a lealdade e, desde então, m em orizei m uito bem as suas regras. Não havia nada que não estivesse m uito claro, nem a possibilidade de um a segunda chance, nem m esm o quando eu conseguia reunir m eu próprio perdão ou a m inha indiferença; para Lucy, que se m antinha firm e nas suas crenças, não im portava. Você está morta para mim.

E lá estava ela de novo. A m orte. Estrem eci ao pensar na finalidade de tudo aquilo, praguej ando contra o câncer que tirou a vida da Sra. Carr após exatos dez m eses, sem apresentar nenhum sintom a até que j á fosse tarde dem ais. Ao adm itir que a oração não se parecia nem um pouco com andar de bicicleta, abaixei a cabeça e perm aneci em silêncio, conversando com igo m esm a, palavras desaj eitadas, m e esforçando ao m áxim o para não questionar a existência de Deus enquanto ao m esm o tem po lhe fazia pedidos. Por favor, ajude a Lucy a encontrar uma maneira de ser feliz sem a mãe. Parecia um pedido difícil de ser atendido, e era provável que o fato de Lucy ter um a filha, Caroline, que acabara de com pletar 4 anos e que era pequena dem ais para presenciar um funeral ou para algum dia se lem brar de Gigi, aum entou ainda m ais o sentim ento de perda. A nova geração era um lem brete constante de tudo o que a Sra. Carr perderia. Aniversários, referências, todos os m om entos decisivos da vida que seguiriam adiante, sem ela.

Voltei o m eu olhar e as m inhas preces para Lawton, irm ão de Lucy, um solteirão despreocupado e que vivia debaixo da asa da m ãe. Ele estava de pé, ao lado da irm ã, enxugando o rosto com um lenço que provavelm ente a Sra. Carr tinha providenciado para ele, antevendo que esse dia chegaria. Ela havia feito m uitos preparativos e planos ao longo dos últim os m eses, incluindo um pedido que fez sob o efeito de m orfina para que Lawton e eu nos casássem os. Matamos dois coelhos numa cajadada só, disse ela, um a expressão não exatam ente lisonj eira nem otim ista. Isso não aconteceria. Lawton não fazia o m eu tipo e eu fazia m uito m enos o tipo dele, m as, diante do pedido dela, sorri e disse que m e em penharia nisso, enquanto Lucy brincou dizendo que todo casal precisa de pelo m enos um a pessoa adulta. Olhei para o sol que irradiava pelo vidro m anchado por detrás do altar, m e perguntando se a Sra. Carr estava lá em cim a, em algum lugar, nos observando. Em caso positivo, será que ela conseguia ler a m inha m ente? Na dúvida, m andei o m eu últim o adeus a ela, sentindo a m inha garganta apertada e seca. Em seguida, fechei os olhos e balbuciei “Am ém ”, ciente da om issão óbvia da m inha oração: o treinador Carr.

Quando ergui a cabeça novam ente, ele estava bem na m inha linha de visão, saindo do outro lado do caixão e cam inhando em direção ao banco na m inha frente, com as m ãos para trás, cruzadas, da m aneira com o ele cam inhava quando se retirava do j ogo. Ouvi um suspiro quando ele se sentou, perto o suficiente para que eu tocasse o seu om bro, estendesse a m inha m ão e m e inclinasse um pouquinho. Mas eu m al conseguia olhar para ele, e havia sem anas que não conseguia, m esm o quando passava rapidam ente pela casa deles com algum a com ida congelada que só precisa levar ao forno e um engradado de cervej a Shiner Box. Eu sabia que o treinador Carr estava arrasado, e a sim ples ideia de olhar para ele num m om ento tão delicado era insuportável, tanto quanto olhar para um a daquelas fotos de soldados e bom beiros que recebem prem iações, segurando bebês no colo e chorando depois de algum a catástrofe. Eu acreditava piam ente que é sem pre m ais difícil estar na pele daquela pessoa da relação que fica para trás, sobretudo quando se pensa que está no cam inho certo para que os dois sej am felizes para sem pre.

A história entre o treinador Carr e Sra. Connie Carr com eçou, de m aneira m uito apropriada, na Universidade Walker, a faculdade que leva o m esm o nom e da nossa pequena cidade, ao norte do Texas, onde ele era o quarterback e estrela do tim e e ela, a m ais bonita entre as líderes de torcida. Exceto na tem porada em que ele j ogou para o Colts, logo depois que Lucy e eu nascem os, os Carr nunca saíram de Walker. O treinador trilhou seu cam inho e subiu os degraus até chegar à sua posição atual, e passou de técnico dos quarterbacks a técnico-auxiliar do tim e j únior, e agora ao cargo de técnico principal — e o m ais vitorioso — da história do Bronco.

O treinador Carr era um a espécie de divindade em nossa cidade, em todo o estado do Texas e no m undo do futebol am ericano universitário, que passou a ser o único m undo com o qual eu realm ente m e im portava. Connie j á era um a estrela por si só. No entanto, ela era m ais do que a esposa elegante do treinador. Connie trabalhava incansavelm ente nos bastidores, arrecadava fundos para o tim e, era adm inistradora, organizadora de eventos, terapeuta, m ãe de aluguel. Acom panhava até o hospital os j ogadores contundidos, participava de j antares sofisticados, tinha de atender aos grandes baj uladores e conseguia acalm ar os ânim os de todos os lados envolvidos. Connie fazia com que tudo se parecesse extrem am ente fácil, com sua grande dose de charm e e gentileza, m as eu sabia o quanto o trabalho exigia dela e quão solitária ela se sentia às vezes. Quando o treinador não estava fisicam ente ausente — participando de torneios ou m esm o fora, recrutando alguém —, m uitas vezes ele se ausentava m entalm ente, obcecado pelo seu tim e. Ainda assim , a Sra. Carr nunca titubeou em oferecer o seu apoio ao m arido, e, sinceram ente, não sei o que ele faria sem ela.

Respirei fundo, sentindo o cheiro fam iliar da loção pós-barba Pinaud da Clubm an. Bastaram algum as m oléculas no ar para que o gatilho de certas lem branças fosse disparado. Lucy e eu, sentadas no escritório dele, brincando de algum tipo de j ogo de tabuleiro enquanto ele elaborava tabelas com plexas e diagram as de j ogo. Nós três íam os no banco da frente da picape dele, eu punha a m ão para fora da j anela enquanto ouvíam os m úsica country e a estação de rádio esportiva. Lucy e eu ficávam os espiando o vestiário, não para olhar os garotos sem cam isa (em bora tenham os feito isso, tam bém ), m as para ouvir o discurso inflam ado do treinador depois do j ogo, deliciosam ente recheado de palavrões. O discurso era m uito parecido com o serm ão que ele m e deu na sua sala de estar quando eu tinha 17 anos, logo depois que os policiais decidiram que não m e prenderiam por dirigir bêbada e m e deixaram na casa dos Carr. Treinador, posso ficar aqui? Ainda consigo m e lem brar do j eito com o m e olhou — foi pior do que passar a noite na cadeia.

Me perm iti olhar de relance para ele, que estava de perfil, e fiquei com receio do que encontraria, m as m e senti aliviada ao ver que ele parecia m ais firm e e forte do que nunca. Não se parecia nem um pouco com um viúvo. Ele tinha seus 55 anos, m as aparentava ser m ais novo graças à sua cabeça cheia de cabelo, à pele m orena e à estrutura forte. Por anos, pensei “não é j usto” toda vez que via os pais de Lucy j untos. A Sra. Carr era bonita e lutava contra a idade com tanto em penho quanto lutou contra a m orte, m as seu m arido ficava com um a aparência cada vez m elhor, do j eito que sem pre acontece com boa parte dos hom ens. E agora... Agora realm ente não era j usto. Foi um a reflexão m uito apropriada para a cerim ônia de um funeral — as inj ustiças da vida e da m orte —, e eu m e senti aliviada por m anter um a sequência de pensam entos adequada, se aquilo não fosse m esm o um a oração.

Mas no segundo seguinte, quando pensei em futebol am ericano, o pêndulo balançou para a direção oposta. Lucy dizia que eu só pensava em futebol, o que estava m uito próxim o da verdade, pelo m enos antes de a Sra. Carr ficar doente. Mesm o depois, escapei para o j ogo que eu am ava e sabia que o treinador fez o m esm o, o que enfureceu Lucy, porque ela não com preendia o que estava acontecendo. Ela m e perguntava, em m eio às lágrim as, com o o pai poderia se im portar tanto com a contratação de um novato ou m esm o se preocupar excessivam ente com vencer um j ogo. Será que ele não via quão pouco aquilo im portava? Tentei explicar que o trabalho dele era um a distração, a única coisa sobre a qual ele ainda exercia algum controle. O futebol era nossa pedra de toque. Algo no qual poderíam os nos agarrar com o a luz no fim do túnel que brotava em Walker, no Texas, nossa pequena versão de Cam elot.

Alguns segundos depois, Lucy e Lawton se sentaram ao lado do pai, e vê-los assim , os três j untos, em vez dos quatro, foi m ais do que eu poderia suportar. Senti um nó na garganta quando o órgão com eçou a tocar. Notas altas e tristes preencheram a igrej a. Entre um acorde e outro, pude ouvir m inha m ãe chorando baixinho e ver Lawton e Lucy enxugando os olhos. Olhei ao redor para não chorar, para poder olhar para qualquer outra coisa que m e distraísse até com eçar o funeral .

Avistei m eu nam orado, Miller, que tinha j ogado no tim e do treinador anos atrás, durante a m inha fase ruim , de pé no corredor com alguns ex-com panheiros de tim e. Todos eles pareciam confusos com seus ternos desaj eitados e sapatos lustrados, desacostum ados com as reuniões do Walker que não fossem com em orações, com o os encontros universitários prom ovidos depois dos j ogos, desfiles e j antares de gala. Miller acenou para m im , fazendo um gesto com dois dedos e sorrindo discretam ente enquanto se abanava com o folheto distribuído para a cerim ônia. Desviei o olhar, fingindo não vê-lo. Em parte porque eu sabia que Lucy não o aprovava. E tam bém por ainda ter um sentim ento de culpa porque, quando ela m e ligou para dar a m á notícia, eu estava na cam a com Miller e havia deixado a cam painha do celular no m odo silencioso, sem a intenção. Mas fingi não vê-lo principalm ente por não ser o m om ento apropriado para acenar para o nam orado, ainda m ais quando não se tem m uita certeza de que o am a.

— Nada de gentalha na m inha casa — declarou Lucy im ediatam ente depois do enterro, enquanto m archava pelo gram ado na direção do recém -lavado Tahoe de Neil. Eu sabia que era só um a questão de tem po para que a sua tristeza se transform asse em raiva, e, para ser sincera, fiquei até surpresa que tenha dem orado tanto para isso acontecer. O treinador um a vez brincou dizendo que Lucy tinha apenas dois m odos de operar: feliz ou irritada.

— Defina gentalha — perguntei, porque eu realm ente não sabia o que ela queria, a não ser pelo fato de ela criar um a lista m ais am pla do que eu em se tratando dessas categorias.

— Em presários. Patrocinadores. Fãs. Todos os j ogadores, tanto os atuais quanto os ex. Exceto o Ry an. Mam ãe adorava o Ry an — concluiu ela em tom definitivo, apertando o cinto do seu casaco longo preto.

A Sra. Carr realm ente adorava Ry an Jam es, que por acaso foi o único vencedor do Troféu Heism an do Walker, m as ela tam bém adorava cada j ogador da reserva que nunca j ogava e os novatos que entravam para o program a. Troquei um olhar aflito com Neil, que calm am ente disse o nom e de sua esposa.

— Não vou falar duas vezes — retrucou ela em voz baixa. — Fui bem clara. Já chega. Só a fam ília e os am igos m ais íntim os.

— E com o planej a conseguir isso? — perguntou Neil, olhando ao seu redor para a m ultidão de pessoas conhecidas que cam inhavam form ando um círculo ao redor do j azigo da fam ília Carr. Ele em purrou os óculos retrô dem asiadam ente grandes (o tipo de óculos que só se pode usar quando se é tão j ovem e bonito quanto Neil), aj ustando-os no osso nasal, e acrescentou: — Metade da cidade j á está a cam inho.

— Não ligo. Eles não deveriam nem estar no cem itério. Que parte de “cerim ônia privada” eles não entenderam ? E eles não vão entrar na casa. Não m esm o. Diga a eles, Lawton — ordenou Lucy, virando-se na direção do irm ão.

— Dizer o quê para quem ? — indagou Lawton, parecendo com pletam ente desorientado, inútil com o sem pre.

— Diga a Shea e a Neil que agora é um m om ento só para a fam ília e para os am igos íntim os — retrucou ela, m ais para o nosso bem do que para o dele. Depois, levou a m ão aos cabelos para se certificar de que nenhum fio tinha escapado do seu coque m uito bem enrolado e baixo. E é claro que não tinha.

— Mas eles se consideram da fam ília, Lucy — intervim , e pude ouvir a Sra. Carr dizendo isso agora, referindo-se aos estranhos com o parte da “fam ília Walker”.

— Bem , é um a ofensa — resm ungou Lucy, tropeçando às vezes, quando a ponta do salto afundava na gram a fresca. Neil deslizou um braço pela cintura dela e a agarrou, e eu fiquei pensando no quanto teria sido pior se ela estivesse no m eu lugar, sem contar com o apoio de ninguém . — Estou farta dessas pessoas que agem com o se isto aqui fosse o churrasco do lado de fora de um m aldito estádio de futebol am ericano. E, se eu vir m ais alguém com gravata azul-turquesa... Quem é que usa gravata azul-turquesa para um funeral? — Sua voz vacilou assim que Miller, com sua gravata de listras, na cores azul-turquesa e dourada, veio correndo em nossa direção com um a expressão quase alegre. Olhei-o bem dentro dos olhos e balancei a cabeça, m as ele m al percebeu o m eu gesto.

— Ei, Shea! Espere aí! — gritou. Foi quando notei que ele não só estava usando as cores da faculdade com o tam bém estava com um broche dos Broncos preso na lapela onde estava escrito “Turm a de 2001”. Não sei com o ele havia conseguido guardar aquela coisa por m ais de dez anos, ainda m ais porque j á tinha perdido a carteira duas vezes desde que com eçam os a nam orar.

Lucy virou-se, com parando seu corpo pequeno com o 1 m etro e 93 centím etros de Miller.

— Desculpe, Miller — disse ela, com o queixo trem ulando. — Quer cantar o hino do tim e para nós? Ou quem sabe apenas reviver os dias de glória de quando você era... relevante?

— Ei, ei, m oça. O que eu fiz pra você? — resm ungou Miller, seus instintos em ocionais à altura do seu senso estético. — Por que m e cham ou de desrelevante?

— Irrelevante, Miller, e não confunda com incuidado, que, a propósito, tam bém é um a palavra que não existe. Estou te cham ando de irrelevante porque é o que você é. — Lucy m eneou os dedos longos e delicados, fazendo floreios no ar.

— Então, tudo bem — respondeu Miller, com as bochechas ainda m ais coradas que o habitual, e as costeletas encaracoladas úm idas de suor apesar do clim a frio naquele dia de fevereiro. Eu j á havia lhe pedido para cortar o cabelo, m as ele não deu ouvidos.

— Só quero dizer que sinto m uito. Muito m esm o. Pela sua fam ília. Pela sua perda. Eu gostava m uito da sua m ãe. De verdade. Ela era um a m ulher incrível.

Sei que a declaração foi sincera, m as Lucy se recusou a ceder. Preparei-m e ao vê-la cruzando os braços e dizendo:

— Ah, por-fa-vor, Miller. A única perda com a qual você realm ente se preocupou em toda a sua vida foi quando estava j ogando contra o Nebraska e se atrapalhou bem na linha de quatro j ardas porque estava chapado de tanta cocaína.

— Eu não estava chapado. Eu só... deixei a m aldita bola cair. Deus do céu.

Mordi o lábio inferior, chocada ao ver que Lucy se recordava do j ogo e até do núm ero de j ardas. Mas ela havia errado o resto. Foi T.C. Jones quem foi pego no teste antidoping depois do j ogo, e não Miller, que nunca usou cocaína e preferia m il vezes o efeito da m aconha. Para falar a verdade, considerando a sua expressão, m ais apática do que o norm al, provavelm ente ele tinha fum ado esta m anhã. Talvez até m esm o dentro do carro, a cam inho daqui.

— Lucy — cham ou Neil, deslizando o braço do cotovelo dela para o antebraço e conduzindo-a gentilm ente até o carro. Com o psiquiatra infantil, ele tinha um efeito calm ante sobre a m aioria das crianças agitadas e a capacidade rara de tranquilizar Lucy. — Vam os. Venha, querida.

Ela não respondeu; sim plesm ente entrou no carro com graciosidade, cruzou suas pernas finas e esperou até Neil fechar a porta. Enquanto Lawton desabava no banco traseiro, Lucy ficou olhando para a pulseira de pérolas que pertencera à sua m ãe.

— Você vai com a gente? Ou com os seus pais? — perguntou-m e Neil.

Olhei para trás na direção dos m eus pais enquanto cam inhavam até o carro da m am ãe. Em bora fossem divorciados há m uito tem po, os dois fizeram um sacrifício e conseguiram se com portar com o duas pessoas civilizadas, e, para o m eu alívio e surpresa, m eu pai havia deixado a esposa em Manhattan.

Pela j anela entreaberta, Lucy respondeu por m im :

— Nem um a coisa nem outra. Quero que ela vá com o m eu pai. É m elhor que ele não dirij a sozinho. Anda m uito teim oso — declarou ela, m e encarando. — Tudo bem , Shea?

Hesitei.

— Faça isso. E, por favor, confira se ele está usando o cinto de segurança. Um a m orte na fam ília j á é dem ais — ela acrescentou enquanto eu olhava para a encosta e avistava o treinador Carr em m eio a um am ontoado de gente de terno escuro.

— Não acha que ele vai preferir ficar sozinho? Tenho certeza de que ele não vai querer conversar...

— Bem , com você é diferente. Ele realm ente gosta de conversar com você — retrucou ela, m e cortando.