Primeiro e Único

Emily Giffin · Capítulo 22 de 46

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Primeiro e Único

Vinte e dois

 

Na sem ana seguinte, Sm iley finalm ente publicou a m inha m atéria sobre Rhodes, o que só serviu para colocar ainda m ais fogo na investigação, suscitando todos os inim igos que não suportavam ver o quanto éram os bons, e que tínham os alcançado agora o quinto lugar entre os tim es nacionais. Com 7 a 0, j á tínham os percorrido m etade do cam inho da nossa escala. Todo ano era m eio que um a surpresa ver o nosso tim e com m ais vitórias do que os dem ais, talvez porque o outono tem um j eito de nos surpreender no Texas, e nos engana com seu clim a am eno. Os sábados passam num ritm o constante até que, quando m enos se espera, novem bro chega. Essa tem porada em especial estava passando m uito rápido e sem nenhum a derrota para interrom per o nosso ritm o.

Enquanto isso, o Dallas Cowboy s tam bém se fortalecia, o que deixou Ry an tão otim ista quanto eu, e nós dois entram os num ritm o agradável e delicioso, dorm indo fora de casa várias vezes por sem ana. Eu ainda não tinha assistido a nenhum dos j ogos dele, o que o fez m e apontar isso m ais de um a vez, m as não conseguia deixar de m e sentir m eio paranoica com a possibilidade de Sm iley encrencar com o nosso relacionam ento e usá-lo com o m ais um preconceito indestrutível. Ry an era um dos Cowboy s, m as sem pre fora um Bronco tam bém .

Mas Ry an e eu fizem os outros progressos. Agora, no seu banheiro havia alguns produtos de higiene fem inina e, no closet, algum as peças de roupa m inhas penduradas. Até com ecei a cozinhar para ele, o que era um grande passo. Eu tinha protelado a decisão por sem anas, prim eiro porque Ry an tinha um personal chef, depois porque eu odiava quando ele vinha para a m inha casa e porque não m e sentia confortável na cozinha toda chique dele, m as o m otivo principal era que eu não queria dar crédito à tese antiquada da m inha m ãe de que era fundam ental cozinhar para o nam orado. Porém , tive a im pressão de que ela poderia estar certa, j á que Ry an fez um a pequena observação sobre a incapacidade de Blakeslee de ao m enos ferver água ou preparar um a torrada — e o fato de que ele “deveria saber que as coisas entre eles não dariam certo”. A longo prazo, não acho que a nossa relação se resum iria às m inhas habilidades dom ésticas (ou à falta delas), m as não consegui m e segurar e desej ei que ele gostasse de m im tanto quanto eu estava gostando dele: m uito.

Então, num a m anhã, antes de sairm os da casa dele para trabalhar, por acaso com entei que adoraria fazer o m eu escondidinho de abóbora para ele.

— É quase tão fam oso quanto você — contei, m e gabando.

— Hum ... Com binado! Vou dispensar o Ter hoj e. Na m inha casa?

— Sim . Faça o favor de chegar com fom e — brinquei.

Ry an m e lançou um olhar sexy e m e disse que ficar fam into ao m eu lado era sem pre inevitável. Sorri quando ele tirou o chaveiro do bolso, retirou um a das chaves e a entregou para m im .

— Tom e. Eu j á estava querendo te entregar m esm o.

— Tem certeza? — questionei, tentando ser legal, em bora soubesse que ligaria para Lucy para contar a novidade logo que estivesse sozinha. — Pode ser que você queira experim entar o m eu prato prim eiro.

Mais tarde, naquele m esm o dia, depois que fui ao superm ercado e com prei todos os ingredientes para preparar a m assa, o frango para fritar, o pão de m ilho e um a torta m ousse de chocolate, fui de carro para a casa de Ry an, entrei pela porta dos fundos e com ecei a cozinhar. Quando ele voltou do treino, os ingredientes j á estavam picados e a cozinha, organizada (outra coisa que m inha m ãe sem pre pregou e que provavelm ente era um ensinam ento que ela recebera de Connie — nada de louça suj a no balcão nem de roupas íntim as j ogadas no chão, pelo m enos não até conseguir um a aliança no dedo).

— Uau. Estou im pressionado! — exclam ou Ry an enquanto lhe entreguei um a taça de pinot noir da garrafa que eu tinha acabado de pegar no refrigerador dele.

— Espero que esse não sej a um dos seus m elhores vinhos... É?

— Os m elhores estão na adega. Mas nada é suficientem ente bom perto de você — afirm ou ele, com um sorriso charm oso.

— Obrigada — agradeci, em seguida ergui m inha taça e falei: — Às nossas infinitas vitórias!

— E à nossa chef! — ofereceu ele, erguendo a taça.

— E à nossa cozinha — com entei, rindo.

Brindam os e nossos olhos se cruzaram antes de tom arm os um gole. Ele assentiu, aprovando m inha escolha, depois se inclinou para m e beij ar.

— Com o foi o treino? — perguntei, olhando para a cebola picada que estava refogando na frigideira atrás de m im .

— Nada m au — respondeu ele, sentando-se num dos banquinhos do balcão enquanto voltei para o fogão. — Meu j oelho está bem m elhor. — Ry an havia contundido o j oelho no j ogo contra os Bears, nada grave, m as, para um quarterback com seus trinta e poucos anos, o m enor m achucado se tornava o pior de todos. Ele estendeu e flexionou o j oelho, fazendo cara de dor. — A ressonância m ostrou que está tudo bem . Foi só um a contusão m esm o.

— Ótim o — falei, m e sentindo a nam orada protetora e aliviada em ver que aquilo era verdade, não fingim ento. E eu realm ente fiquei preocupada. Com seu j oelho, sua reputação, seu ego frágil, enfim , tudo a respeito dele.

Acrescentei a abóbora picada, o pim então, a pim enta-j alapenho, o caldo dos picles e o orégano. A m istura fez a frigideira quente chiar, e eu, sabendo que ele estava m e observando, aj eitei a postura, fiquei m ais ereta e m exi os ingredientes por m ais alguns segundos antes de acrescentar o leite. Em seguida, abaixei um pouco o fogo e coloquei a tam pa.

— Você realm ente sabe o que está fazendo, não sabe? — perguntou Ry an, tom ando m ais um gole de vinho enquanto eu passava os pedaços de frango pela últim a vez na m inha m assa especial. — Está quente.

Resolvi não contar a ele que esse era o único prato que eu conseguia fazer de olhos fechados. Então, inclinei a cabeça para o lado, sorri e provoquei:

— Frango frito não é quente?

— Sim . Especialm ente se você tirar essa roupa e colocar um aventalzinho cheio de babados e um salto alto.

— Pode tirar o cavalinho da chuva. Estou aqui para cozinhar, não para fazer nenhum a dancinha nem para m e fantasiar de nada.

Ele deu risada e perguntou:

— Nem com o um a cheerleader do Dallas Cowboy s?

— Especialm ente com o cheerleader do Dallas Cowboy s. Nem pensar!

Ry an levantou-se, cam inhou até o fogão e passou os braços na m inha cintura.

— Já volto — avisou ele depois de beij ar m inha cabeça. — Quero vestir um a roupa m ais confortável e preciso fazer um as ligações rápidas. Tudo bem ?

— Claro — respondi, satisfeita por poder m e concentrar no m eu frango frito. Ry an saiu da cozinha com o celular na m ão, verificando as m ensagens de texto enquanto cam inhava. Tive um pensam ento passageiro e perturbador de que ele deveria estar verificando m ensagens de outras m ulheres, m as m e adverti dizendo para não bancar a paranoica enquanto transferia os legum es para o refratário, alternando as cam adas da m istura com queij o ralado e finalizando com um a de batata palha. Coloquei a tigela no forno preaquecido, olhei para o relógio da cozinha e arrum ei a m esa com porcelana, cristal e prataria.

Mais ou m enos m eia hora depois, exatam ente quando eu estava pondo o refratário sobre a m esa, Ry an reapareceu vestindo o que eu descreveria com o pij am a. O conj unto era cinza e as calças de cordão tinham um corte tão im pecável que pareciam feitas sob m edida. Eu o exam inei rapidam ente dos pés à cabeça, sorri e disse:

— Mas que belo traj e.

— Traj e? — Ele sorriu enquanto m e aproxim ei e passei a m ão sobre um a das m angas extrem am ente m acias, repousando-a sobre o om bro dele.

— Suéter de cashm ere?

— Um a m istura de cashm ere com algodão — explicou ele, sorrindo. — E talvez com um pouquinho de ly cra. Veste m elhor do que cashm ere puro.

Aquilo soou exatamente com o algo que Lucy diria; eu tinha certeza absoluta que ela j á tinha usado aquelas m esm as palavras com igo. Balancei a cabeça e disse a m im m esm a que guardaria aquilo, em bora pudesse contar nos dedos da m esm a m ão as peças que havia no m eu guarda-roupa com algum tipo de cashm ere.

— E aí, está pronto para com er? — perguntei, gesticulando para o banquete do outro lado da cozinha, onde eu havia posto a m esa. Tive a sensação de que estávam os brincando de casinha quando ele m e disse que o arom a estava m aravilhoso.

— Espero que o sabor estej a bom tam bém — desej ei.

— Sei que está — afirm ou. Depois, Ry an m e interrom peu a cam inho da m esa e segurou m inhas m ãos. — Shea?

— Sim — respondi, olhando para a expressão sincera e terna dele.

— Eu só... queria te agradecer — declarou ele, em tom gentil.

— Pelo quê?

— Por preparar o j antar para m im . — Ainda segurando m inhas m ãos, ele m e olhou fundo nos olhos e acrescentou: — Foi m uito gentil da sua parte. Adorei o que fez. Mesm o.

Diante da gratidão dele, m e em ocionei, especialm ente porque Ry an contava com cozinheiros especialistas que preparavam o j antar para ele todos os dias da sem ana, exceto quando estava escalado para algum treino im portante.

— Não precisa agradecer — falei, tom ada por um verdadeiro sentim ento de carinho. Talvez o m ais forte que eu j á havia sentido por ele.

Enquanto nos sentávam os à m esa, o sentim ento de satisfação perdurou e aum entou, até que m e dei conta do m otivo. Eu estava feliz. Feliz de verdade por estar ali naquele m om ento, o que sem pre m e pareceu algo com pletam ente diferente de reconhecer que eu fui feliz algum dia, e que acontecia com igo com frequência. Posso dizer que Ry an tam bém percebeu m eu estado de ânim o, porque sorriu o tem po todo e acariciou o m eu braço enquanto conversávam os. Não falam os sobre nada im portante, m as foi um bate-papo agradável e íntim o, e, sem pre que tinha a oportunidade, ele elogiava o j antar. Pude ouvir a voz da m inha m ãe dizendo: o meio de conquistar o coração de um homem é o estômago e senti orgulho de m im m esm a, reconhecendo que tinha definitivam ente acertado em cheio na m inha prim eira refeição. Ry an se serviu de porções generosas do escondidinho e o cham ou de “sim ples e delicioso”, enquanto eu tom ei a m aior parte do vinho da garrafa. Quando term inam os a refeição, eu j á estava bem alta.

— Então, o que vai fazer no Dia de Ação de Graças? — ele perguntou, depois de retirar os nossos pratos e voltar à m esa.

— O m esm o que você — respondi, pensando que eu não dava ao fim do ano a m esm a im portância que as outras pessoas em relação às festas. Em vez de m e concentrar nisso, eu pensava nesses dias com o um fim de sem ana de rivalidade contra o Texas, seguido de um a bowl season.

— Vai j ogar futebol am ericano? — indagou ele, sorrindo e acariciando o m eu braço de novo.

— Hã? Não. Vou assistir na televisão você j ogando — com entei, im aginando que não conseguia m e lem brar de um Dia de Ação de Graças que não incluísse o Cowboy s. — Com o m eu pai. Ele vem com Bronwy n e Astrid. — Revirei os olhos e fiz um a careta. Eu não tinha contado m uito sobre m eu pai para Ry an, a não ser a bizarrice cronológica dos seus três casam entos com duas m ulheres e um pouco sobre a m inha m eia-irm ã de nariz em pinado. Que ela “adorava” todas as coisas do Texas, e que cham ava tudo de “esquisito” ou “rústico” e com prava botas de caubói com o se elas fossem lem brancinhas exóticas de algum país estrangeiro.

— Bom , será que vocês não gostariam de assistir ao j ogo pessoalmente em vez de assistir pela tevê? Com os m eus pais? Você poderia convidar a sua m ãe tam bém ... — sugeriu.

— Seria ótim o — respondi quando m e dei conta do peso do convite. Ele não estava apenas m e pedindo para conhecer os m eus pais; estava propondo m e apresentar os dele, e, assim , apresentar os nossos pais uns aos outros. Depois de um a breve pausa, perguntei com a voz tím ida: — Então quer que eu conheça os seus pais?

— Sim , quero — ele afirm ou da m aneira com o fazia m uitas de suas declarações: com firm eza e confiança extrem as.

— Bom , então tudo bem .

Por um segundo, m e veio à cabeça o treinador, o fato de que m uitas vezes passávam os o Dia de Ação de Graças com os Carr e que os planos de Ry an certam ente rom periam essa tradição. Mas o afastei do m eu pensam ento, dizendo a m im m esm a para m e concentrar e m e lem brando de que, se eu fizesse tudo direitinho, este poderia ser, nas palavras de Lucy, “um m aldito conto de fadas”.

Ao longo das próxim as sem anas, quando o Walker acum ulou m ais duas vitórias, um a contra o Iowa e outra contra o West Virginia, Ry an e eu nos m antivem os num a fase de felicidade plena, nos encontrando para alm oçar, para j antar e nos falando o tem po todo. Em algum m om ento as coisas deixaram de parecer superficiais e com eçaram a parecer reais, tanto que baixei a guarda e parei de subestim ar a nossa relação para Lucy e m inha m ãe e contei a elas que as coisas entre nós estavam ficando sérias.

Minha m ãe ficou eufórica quando lhe contei que Ry an a convidou para o Dia de Ação de Graças.

— Você j á contou para o seu pai sobre o Ry an? — ela questionou, praticam ente esfregando um a m ão na outra. Eu sabia o que estava passando na sua cabeça: que Bronwy n poderia ter se casado com um cara rico, m as que um quarterback fam oso da NFL superaria qualquer tipo de investidor.

— Não, ainda não — respondi, em bora estivesse ansiando por esse m om ento. Por m ais que eu visse Ry an com o Ry an, havia m om entos em que eu m e tornava plenam ente consciente de sua fam a. Sem pre que o rosto dele aparecia na televisão, ou que nos viam j untos em público, eu ficava enaltecida, orgulhosa. Porém , para tristeza de Lucy, a notícia não tinha sequer chegado aos tabloides, com exceção de um pequeno com entário sobre o evento beneficente em prol dos autistas nas redes sociais do Dallas. Ninguém fora do círculo da Walker sabia que estávam os j untos para valer. Eu não tinha nem contado para Gordon, m eu único am igo no trabalho, porque, sem pre que encontrava um a brecha, eu sentia com o se estivesse m e gabando, querendo m e autoprom over. Ainda m ais porque não havia com o negar o fato de que Ry an era m otivo de orgulho, um a m edalha de ouro. E eu estava tão em polgada quanto m inha m ãe para contar a novidade a m eu pai.

— Bom , e o que você está esperando? Conte para ele! — disse ela, seus olhos castanhos cintilando.

— Quer que eu coloque o telefone no viva-voz? Talvez eu deva colocar Astrid na m esm a ligação... Que tal? — sugeri.

— Nossa! Seria perfeito! Vam os ligar? — perguntou.

— Não, m ãe, não vam os. Foi um a brincadeira — afirm ei, balançando a cabeça.

Por um m om ento ela pareceu m urchar, m as não se deu por vencida e com eçou a discutir sobre o que deveria vestir para ir ao j ogo.

— Azul, certam ente — refletiu. — Ou seria m elhor azul-turquesa, por causa do Walker?

— Qualquer tom de azul vai cair bem — com entei, dando corda para ela e im aginando que m inha m ãe ficaria totalm ente fora de controle se Ry an e eu, algum dia, num futuro não m uito distante, tivéssem os que planej ar um verdadeiro evento.

No dia seguinte, resolvi treinar com Gordon, durante um bate-papo sobre os quarterbacks da NFL, com o contaria ao m eu pai sobre Ry an.

— Eu levaria um tiro na cabeça se falasse sobre isso aqui nessa cidade, mas... — com eçou Gordon, depois que pedi a ele que classificasse os quarterbacks por ordem de im portância.

Dei risada, sabendo aonde ele queria chegar. Tendo nascido e crescido em Philly, Gordon adorava os Eagles, e os Cowboy s não tinham a m enor utilidade para ele além do contracheque. Em outras palavras, ele era um profissional de verdade, enquanto eu m uitas vezes m e sentia com o se estivesse brincando de ser repórter.

Ele continuou:

— Eu escolheria Aaron Rodgers em prim eiro lugar, Pey ton Manning em segundo, Tom Brady em terceiro e, em quarto, Ry an Jam es.

Tive um a ligeira vontade de dem onstrar m inha lealdade, m as tentei ser im parcial.

— Eu colocaria Aaron Rodgers em prim eiro, sim , talvez. Mas Ry an viria antes de Pey ton. E com certeza na frente de Brady — declarei.

Gordon argum entou:

— As estatísticas são um a coisa, m as o negócio passa a valer m esm o quando se obtêm grandes vitórias — e depois teve a audácia de sugerir que talvez até Brees deveria vir à frente de Ry an. — Aquele cara joga com o ninguém .

— Você não acha que o Ry an é um excelente j ogador? Sério! Ele é um quarterback m aravilhoso! — exclam ei e acrescentei estrategicam ente: — E é claro que estou sendo parcial.

— Todos aqui neste estado são. Principalm ente vocês, alunos da Walker — afirm ou Gordon.

— Sim . Mas eu estou sendo parcial m esm o, de propósito. Ry an e eu... nós... estam os m eio que... nam orando.

Gordon sorriu e continuou digitando.

— É sério. No com eço eu não queria contar porque sei que você faz a cobertura dos Cowboy s. Ah, sei lá, é com o se eu quisesse m e prom over com esse relacionam ento. E, pelo que sei, Sm iley tem certa política contra isso. Já que o Ry an veio da Walker e tal. — tagarelei e olhei na direção de Sm iley, depois voltei a olhar para Gordon. Por fim , ele voltou a m e olhar, atento, m as pareceu não acreditar, com o se estivesse esperando o fim da piada.

— Está falando sério?

— Sim . Estam os nam orando. Já faz alguns m eses...

Gordon assentiu, finalm ente acreditando em m im , depois disse:

— Bom , legal. Isso é... incrível.

— Sim . Quer dizer, acho que sim — falei. — E então acrescentei: — Gosto dele de verdade.

Gordon sorriu e declarou:

— Bem , acho que você gosta, sim . Tam bém , por que não gostaria? E digo isso de coração, com o parceiro m esm o.

Sorri e respondi:

— Pode deixar que vou fazer questão de contar para ele que, se você fosse gay, escolheria, pela ordem : Brees, Brady, Rodgers e Manning antes dele.

Gordon deu um a risadinha e corrigiu:

— Não. Se eu fosse gay, com certeza escolheria Ry an em prim eiro lugar. Ele tem o cabelo m ais bonito de todos. E pode contar para ele que eu disse isso.

Meu exercício de sim ulação deu certo, então naquela m esm a noite liguei para o m eu pai e, depois de um a conversa fiada m eio estranha, usei a m esm a pergunta tática para iniciar o assunto:

— Quem é o m elhor quarterback da NFL?

— Ah, Ry an Jam es, com certeza — respondeu m eu pai, seguindo o m elhor dos scripts.

Para ficar ainda m elhor, Astrid estava m atraqueando ao fundo, com o de costum e. Um a das coisas que m ais m e irritavam era isso: ela sem pre ficava grudada na orelha dele, ouvindo nossas conversas. Se algum dia eu viesse a escrever um livro sobre divórcio, um a das m inhas prim eiras sugestões para os pais certam ente seria: livre-se da segunda (ou terceira) esposa quando estiver conversando com o seu filho, pelo m enos por algum tem po. E, pela m isericórdia divina, não a coloque ao telefone nem diga algo do tipo: “Oi, Shea, diga ‘oi’ para Astrid”.

Mas, dessa vez, adorei o fato de ela estar ali, grudada no ouvido dele. Pude ouvi-la perguntando:

— O que tem o Ry an Jam es?

Meu pai repetiu a pergunta para m im , e Astrid concordou que Ry an era o m elhor de todos, depois acrescentou que tam bém am ava o Tom Brady. Eu seria capaz de apostar o m eu par de brincos de diam ante que esses eram os únicos j ogadores de futebol am ericano cuj o nom e ela sabia.

— Diga a ela que não estam os falando de quem aparece m ais na im prensa sensacionalista — provoquei, com o m aior desdém que pude sem ser grosseira dem ais.

Meu pai deu risada, depois perguntou sobre o m eu trabalho.

— Tenho lido algum as coisas que você escreve. Tudo m uito bom .

Fiz um a careta ao telefone, pensando que essas eram as prim eiras e únicas três palavras de feedback ou elogio que eu j á recebera do m eu pai na m inha carreira de j ornalista novata.

— Obrigada, pai. Estou m e divertindo.

— Aposto que sim . É m eio que o trabalho dos seus sonhos — ele afirm ou.

— Meio que o trabalho dos m eus sonhos? É o trabalho dos m eus sonhos — corrigi.

— Está certo. Foi isso que eu quis dizer.

— Por falar em sonho — com ecei, fazendo um a transição m eio esquisita de assunto, porém satisfatória —, estou m eio que nam orando o cara dos m eus sonhos tam bém .

— Ah, é? — indagou m eu pai, enquanto ouvi Astrid suplicando ao fundo: O que ela disse? O que ela disse?

Meu pai nem sequer se preocupou em colocar o telefone no m udo, m uito m enos em cobrir o receptor. Ela disse que está namorando o cara dos seus sonhos.

— Sim . Estou nam orando o m elhor quarterback da NFL — anunciei.

— Pode repetir? — pediu m eu pai.

— Ry an Jam es — contei, rindo com igo m esm a. Foi com o se eu pudesse praticam ente ouvir os tam bores rufando. — Estou nam orando Ry an Jam es.

Silêncio.

— Ele quer te conhecer quando você vier para cá. E nos convidou para assistir ao j ogo de cam arote, com os pais dele. No Dia de Ação de Graças.

Mais silêncio ainda, exceto por Astrid, que o enchia de perguntas.

— Pai? Ouviu o que eu disse?

— Está brincando.

— Não, pai, não estou. Ele é m eu nam orado. Me deu até um par de brincos de diam ante. Dos grandes. Estam os nam orando sério m esm o.

A essa altura eu j á estava cerrando o punho e socando o ar, eufórica, e Astrid, frenética. Escutei m eu pai retransm itindo tudo a ela, até o tam anho dos m eus brincos. De diamantes grandes.

De repente, Astrid com eçou a falar direto com igo, arrancando o telefone do ouvido do m eu pai.

— É sério que você está nam orando Ry an Jam es???

— Sim , Astrid. Estou, de verdade.

A voz dela ficou ainda m ais alta e m ais aguda que o habitual.

— Bom , então conte! Com o foi que aconteceu? Onde vocês se conheceram ?

— Estudam os j untos, Astrid — respondi, pontuando m inhas explicações com o nom e dela, deixando claro que j á estava ficando cansativo responder à m esm a pergunta.

— E ele te deu brincos de diam ante?

— Sim , Astrid. São m aravilhosos.

— Manda um a foto para a gente! Uau! — exclam ou, com a voz m ais estável. Ela estava em choque ou com invej a (eu esperava que am bos).

— Claro, Astrid. Vou fazer isso, Astrid — falei, saboreando o m om ento e pensando: Venci. Não im portava o que aconteceria dali para a frente: pelo m enos naquele m om ento, a filha da m inha m ãe finalmente tinha ganhado.