Primeiro e Único
Quatorze
Depois do j ogo, m e encontrei com Lucy e Neil no Third Rail, um barzinho em North Potom ac conhecido pelo frango a passarinho m aravilhoso e por um a ótim a j ukebox que tocava tanto m úsicas antigas quanto novas, tudo m esm o, de Merle Haggard e Johnny Cash a Tay lor Swift e Sugarland. Havia anos esse barzinho era o nosso ponto de encontro, e eu considerava um pequeno m ilagre e um a das alegrias sim ples da vida o fato de que o lugar nunca tinha sido invadido por alunos bêbados de escolas m istas, caipiras e coroas procurando parceiros m ais j ovens. Esses eram os três grupos que aparentem ente infestavam todos os outros bares ou restaurantes m eio decentes da cidade. Miller e eu certa vez discorrem os sobre o assunto e chegam os à conclusão de que o Third Rail tinha alguns pequenos m otivos para não atrair esses públicos: estacionam ento ruim , a proxim idade com a delegacia e o proprietário, que era ex-aluno de Arkansas, cham ado Chuck, que sem pre se recusava a m udar o canal da única televisão que ficava próxim a ao bar se o seu tim e estivesse j ogando. Mas esses defeitos nos favoreciam , j á que até m esm o nos fins de sem ana de j ogos em casa o bar nunca ficava lotado e sem pre tinha um clim a agradável. Por acaso, tam bém era o lugar preferido do treinador Carr, provavelm ente porque Chuck e o treinador eram chegados, e Chuck oferecera ao treinador um a m esa perm anente no espaço dos fundos. Alguém tinha até gravado as letras TCC com um canivete — Treinador Clive Carr — no m ogno.
Aquela noite estava um pouco m ais anim ada que de costum e, um as vinte e poucas pessoas espalhadas entre os velhos frequentadores de sem pre. Sara Evans estava cantando A Little Bit Stronger na j ukebox, o j ogo do Arkansas estava acabando e não havia o m enor sinal de Miller nem dos am igos dele. Nesses seis m eses ou m ais desde que term inam os, eu nunca m ais o vi, o que, num a cidade deste tam anho, era algo raro. Pedi um chope e avistei Lucy e Neil ao fundo, na m esa de bilhar. Ao m e aproxim ar deles, fiz um a pausa para observar Lucy j ogar, m e divertindo com a postura desaj eitada dela, os cotovelos posicionados em ângulos estranhos. Eu j á tinha oferecido algum as dicas, m as ela se recusava a com preender a geom etria básica. Era quase com o se fizesse questão de se sair m al, acreditando que o talento com a m esa de sinuca e com os dardos era incom patível com a fem inilidade. Um segundo depois, ela arriscou um a tacada fácil.
— Do que vocês estão brincando? — provoquei, cam inhando atrás deles. — Quem perder leva tudo?
— Sheadentária! — exclam ou Lucy, virando-se e m e cham ando pelo m eu apelido antigo, que ganhei de tanto ficar sentada no sofá assistindo futebol am ericano o dia inteiro. Ela j ogou os braços ao redor do m eu pescoço e disse, quase berrando, que estava feliz em m e ver. Lucy era m uito ruim de copo e conseguia ficar bêbada tom ando apenas um a cervej a, m as im aginei que hoj e ela tivesse tom ado um pouco m ais que isso. Já fazia um bom tem po que ela e Neil estavam ali. Ela m e entregou o seu taco e m e perguntou: — E aí, vai assum ir para m im ? Sou péssim a nesse esporte.
Olhei para a m esa, avaliando a situação, e dei risada.
— É um j ogo, não um esporte. E não, agradeço pelo convite — respondi, j ogando o taco de volta para ela, enquanto Neil m e cum prim entou com um abraço e depois fez as suas duas últim as tacadas, encaixotando a bola oito e ganhando de Lucy.
— E aí, há quanto tem po vocês estão aqui? — perguntei, m e esforçando para que a pergunta não soasse com o um j ulgam ento pelo fato de os dois terem perdido o final do j ogo.
Ela fez um a expressão de desagrado, depois levou o dedo indicador aos lábios.
— Shhh! Desde o intervalo. Mais ou m enos isso — respondeu ela.
Balancei a cabeça.
— E o Chuck pelo m enos deixou vocês m udarem de canal?
— Algum as vezes. Não conte para o m eu pai! Só fizem os isso porque precisávam os de um tem po sozinhos e a babá vem apenas um a vez por sem ana — j ustificou Lucy, tirando o bolero e deixando à m ostra um a regatinha preta de seda. Percebi que ela tinha engordado um pouco desde a m orte da m ãe e que estava voltando a ter um a aparência saudável.
— Foi por isso que você m e convidou para vir aqui? Que eu saiba esse barzinho se cham a Third Rail, não Segura-Vela.
Neil sorriu e explicou:
— Sim , m as a Lucy disse que você tem um nam orado agora.
— Eu não o cham aria bem assim — afirm ei, olhando para Lucy. É claro que eu tinha contado a ela sobre a prim eira noite em que Ry an e eu dorm im os j untos, assim com o contei sobre o Silver & Blue Debut, o treino do Cowboy s aberto ao público e um a espécie de ensaio geral antes do prim eiro j ogo deles. Com pareci a convite de Ry an, e cheguei até a m e m isturar com algum as das outras esposas e nam oradas dos j ogadores, o que levou Lucy à loucura. Mudei de assunto e voltei a falar sobre o j ogo do Walker, contando que quase tive um ataque do coração.
— Literalm ente. Tive sintom as de angina. Para ser sincera, não sei com o seu pai consegue lidar com essas coisas.
— Eu sei bem com o é. Mas tam bém não sei com o ele consegue — observou ela.
— Ele se saiu m uito bem na coletiva de im prensa. Estava em polgado... Descontraído e engraçado.
— E ele deu bronca em alguém ? Adoro quando ele faz isso — disse Neil.
— Ele não faz isso depois que vence — respondi.
— Ah, m eu Deus! O seu peguete acabou de entrar! — exclam ou Lucy, olhando atrás de m im . Olhei para a m esm a direção e vi Ry an cam inhando até nós, usando calça j eans, um a cam iseta branca perfeitam ente aj ustada no tórax e um boné de beisebol preto da Under Arm our. Um a barbicha e um a correntinha dog tag com pletava o look “Texas versus Malibu”. Resum indo: ele estava m aravilhosam ente atraente. Todos no bar, tanto hom ens quanto m ulheres de todas as idades, se viraram para olhar para ele, e sua presença causou um burburinho im ediato, m uito m enos sutil do que o im pacto que ele causara no Ritz, onde as pessoas sabiam se conter.
— Você sabia que ele viria? — indagou Lucy.
Balancei a cabeça, sorrindo. Eu havia dito a ele que estaria lá, m as nunca im aginei que Ry an apareceria. No m eio do cam inho até nós, ele cum prim entou dois caras com um toque de m ão. Quando chegou à m esa de bilhar, Ry an fez um a pausa dram ática, abrindo os braços com o se estivesse à espera de um abraço. Dei risada e balancei a cabeça, sem querer parecer ansiosa dem ais.
— Uau. Nada? Um a hora de viagem de carro para vir aqui te ver e não ganho nada? — questionou Ry an, com um sorriso sedutor, antes de se inclinar para m e beij ar, a aba do boné escondendo os seus lábios se encaixando nos m eus.
Lucy o cum prim entou, depois se aproxim ou para abraçá-lo e apresentar Neil. Os dois se cum prim entaram com um aperto de m ãos e trocaram gentilezas. Enquanto isso, um a j ovem garçonete usando um shortinho j eans preto, desbotado e bem j usto, veio correndo até nós. Radiante e afobada, ela m e lem brou um a criança que finalm ente consegue chegar ao início da fila do shopping para ver o Papai Noel e aí esquece qual era o seu pedido.
— Hum , olá, Sr. Jam es. Posso trazer algo para o senhor beber? Ou algo para com er? Frango a passarinho, nachos ou... algum a outra coisa? — indagou a m ocinha.
— Pode m e cham ar de Ry an — avisou ele com um sorriso tão charm oso que não pude deixar de pensar que aquilo m inava qualquer dem onstração de carinho que ele j á tivera para com igo. — As dam as prim eiro — acrescentou ele, gesticulando para m im .
Peguei o m eu chope e respondi:
— Já estou bebendo, obrigada.
A garçonete soltou um a risadinha sem m otivo aparente.
— Quero um Jack com Coca diet. Mas não m e deixe beber m ais do que duas doses — respondeu ele.
— Certo. Você não tem um j ogo im portante am anhã? — perguntou a garçonete, m ordiscando o lábio inferior, sensualizando descaradam ente. Depois ela soltou m ais um a risadinha.
— Segunda-feira — m urm urei para Lucy, enquanto Ry an respondia à garçonete que não, que ele ainda teria m ais dois dias para se preparar.
— Ah, tudo bem . Futebol de segunda à noite! — a m oça exclam ou, com um sorriso dissim ulado de nervosism o e a prom essa de m antê-lo ali pelo m áxim o de tem po possível.
Ry an piscou e agradeceu, depois se virou para Lucy, que com eçou a bom bardeá-lo com perguntas, aparentem ente fascinada com cada resposta, por m ais sim ples que fosse. Isso m e fez lem brar de com o ela agia com os garotos no ensino m édio, m esm o com aqueles nos quais ela não tinha o m enor interesse, dando a eles a im pressão de eram as criaturas m ais geniais, brilhantes e fascinantes que ela j á havia encontrado. Claro que eles caíam durinhos aos pés dela e se apaixonavam rápido, o que realm ente só com provava o am or próprio que sentiam , e Lucy sem pre fingia ficar surpresa com o resultado, alegando que não flertava com os caras e que só estava tentando ser legal. Mas nessa noite eu tinha certeza de que a m otivação dela era outra e que Lucy estava apenas tentando com pensar m inha reação apática à presença de Ry an, um palpite que foi confirm ado quando ela m e arrastou para o banheiro e m e deu um serm ão.
— Qual é o seu problem a? — retrucou ela, enquanto eu retocava o gloss. — Pensei que as coisas estivessem bem entre vocês dois. — Ela dim inuiu a voz e acrescentou: — Ah, fala sério, você está dormindo com ele!
Pedi que ela parasse de falar quando bati o olho no rodapé da porta e vi a som bra de um pé. Depois, falei:
— Está tudo bem . Tudo está correndo bem .
— Bom , então por que essa cara feia? Dá para fingir que está m enos feliz por vê-lo? Deus do céu! — ironizou ela.
— O que quer que eu faça? Que dê cam balhotas? Talvez algum as piruetas?
— Que merda! Mas é claro que sim , você deveria estar dando cam balhotas. Ry an Jam es é o solteirão m ais cobiçado de todo o Texas, talvez até do país inteiro. Ele é fam oso, divertido, rico, atleta, alto e incrivelmente lindo.
— Alto? Sério que isso faz parte da sua lista? O Miller era alto.
— Ah, fala sério. O que é que ele não tem ? Um diplom a de doutorado? O sangue da realeza? Você ainda está à procura de um barão ou de um duque? — indagou ela, tirando sarro da m inha paixonite de adolescência pelo príncipe Harry.
— Não sei, Lucy. O problem a é que... tudo isso é m uito constrangedor. Todo m undo fica olhando pra gente. — expliquei, sentindo a m inha insegurança dar as caras de novo.
— E desde quando você liga para o que os outros pensam ?
— Não sei — respondi, dando de om bros. — Não faz muito tem po.
— Bom , então pare com essa m erda. Agora. Vá lá e dê conta do recado, ok?
— Tá, tá bom , tá bom . Vou m elhorar. Prom eto — respondi.
— Bom . Porque isso é a sua vida — advertiu ela.
— Entendi — afirm ei, enquanto saíam os do banheiro.
Quando voltam os do bar, Ry an e Neil tinham m udado do bilhar para um a m esa. Os dois se levantaram enquanto nós duas nos sentam os, e Lucy m e lançou um olhar que dizia: Acrescente à lista: cavalheirismo.
— Eu estava aqui contando para o Neil sobre a sua brincadeira de adivinhação do troféu Heism an. Pergunte. Ela vai acertar. Sobre qualquer ano.
Olhei para Lucy, pensando que aquele era um terreno perigoso, j á que eu nunca lhe contei que eu tinha ligado para o pai dela naquela noite.
— 1975 — disse Neil, apontando para m im .
Eu sabia que o ganhador tinha sido Mike Garret, m as m e fingi de sonsa, na esperança de que m udassem de assunto. Foi um a estratégia errada, porque Ry an disse:
— Ah, fala sério. Você estava toda em polgada naquela noite, conversando com o treinador! 1965. Você acertou naquele dia.
— Mike Garret. USC — m urm urei.
— Que noite? — indagou Lucy, que nunca perdia um lance sequer.
— Naquela noite em que fom os para um evento beneficente em Dallas — explicou Ry an.
— Meu pai estava lá? — Lucy pareceu confusa.
— Não. A Shea ligou para ele — com entou Ry an em voz alta quando a garçonete trouxe a sua segunda dose.
— Ligou para ele? — Lucy olhou para Ry an, depois para m im .
Ele respondeu por m im :
— Sim . Para discutir os ganhadores do troféu Heism an. Clássico.
Lucy m e olhou de um j eito que não consegui com preender, e, por um segundo, fiquei preocupada. Mas depois ela sorriu e disse:
— Você é tão... fofa, Shea. Neil, a Shea não é um a gracinha?
Neil balançou a cabeça concordando, enquanto Lucy continuou:
— Que gentil da sua parte ligar para o m eu pai para conversar sobre isso, sabendo que ele anda se sentindo tão só... Você é a melhor.
Sorri, e então contei a m inha grande novidade, desesperada para m udar de assunto.
— Adivinhem ! Consegui o em prego no Dallas Post — anunciei, sacando da m inha bolsa o envelope lacrado.
— Ah, m eu Deus! Parabéns! Que notícia m aravilhosa! — declarou Lucy. — Por que não falou nada até agora?
Dei de om bros e respondi que estava esperando pelo m om ento certo, enquanto Ry an apertou a m inha perna e m e deu parabéns e Neil bateu sua caneca de chope contra a m inha.
— Para cobrir quem ? Texas? — perguntou Ry an, term inando sua Jack com Coca diet num a golada só. — Vai bancar o Benedict Arnold com a gente?
Respondi que não sabia enquanto abria o envelope. Depois, desdobrei a carta, li e reli, certa de que eu tinha entendido errado pela prim eira vez. Mas não. Estava bem claro. Senti que abri um sorriso tão largo que as m inhas bochechas até ficaram doloridas. Se Lucy queria que eu m e m ostrasse m ais anim ada, agora ela veria a m elhor am iga dar pulos de alegria.
— O que diz aí? O salário é bom ? — perguntou Lucy.
— Não m uito — respondi, percebendo que o salário seria m il dólares a m enos que o m eu m ísero salário atual.
— E então... — insistiu Lucy, m e pedindo a carta.
Segurei a folha a certa distância dela, saboreando os últim os segundos em que eu era única a saber da fabulosa notícia.
— Que droga, Shea! Conta logo! — retrucou Lucy.
— Adivinha quem o Post acaba de contratar para fazer a cobertura do... seu... Walker Bron-coooooos! — Aum entei o volum e da m inha voz gradativam ente, im itando Mac MacDonald, a voz dos Broncos, e soltei um gritinho no final, sem m e im portar nem um pouco com quem estava nos observando. Depois, m e levantei e segurei a carta com o um entregador de j ornal no V-J Day.
Em seguida, olhei para Lucy e disse:
— Não era isso que você queria?
Medindo o espaço entre a m esa onde estávam os e a m esa de bilhar, ergui as m ãos, esticando os braços, coloquei a pontinha do dedão no chão e fiz a m elhor pirueta de todas.
Só m ais tarde, depois de ter voltado para casa com Ry an, de ter feito sexo com ele pela terceira vez, de ter acordado na m anhã seguinte e transado com ele pela quarta vez, m e ocorreu que isso poderia ser um a arm adilha. Um a em boscada. Um a piada de m au gosto que Sm iley estaria pregando na garota da Walker. Eu não tinha lido um a palavra sequer nos j ornais a respeito de possíveis problem as da Walker com a NCAA, e tinha certeza de que aquilo não daria em nada, m as talvez Sm iley tivesse ouvido alguns rum ores. Talvez ele quisesse um a repórter que tinha um pé lá dentro quando a m erda realm ente com eçasse a ser j ogada no ventilador. Eu disse para m im m esm a que estava ficando paranoica e que, m esm o que algum a história viesse à tona, nosso nom e seria lim po e eu seria a repórter a fazer isso. Afirm ei para m im que essa seria a m inha grande chance. Que a m inha vida finalm ente com eçava a se aj eitar.