Primeiro e Único
Vinte e um
A m atéria foi publicada na m anhã seguinte e por volta do m eio-dia eu j á tinha recebido m ais de cinquenta m ensagens de texto e e-m ails, a m aioria de am igos, abism ados, e de ex-colegas da faculdade. Todos se surpreenderam com o texto, m as a surpresa m aior foi ver o m eu nom e com o autora. Muitas pessoas m e perguntaram se eu estava bem . Respondi que não havia recebido nenhum a am eaça de m orte por enquanto, em bora m ensagens enfurecidas dos fanáticos pelo Walker com eçassem a chegar.
Naquela noite, m inha m ãe entrou em estado de pânico e exigiu que eu lhe explicasse o que estava acontecendo e por que eu não lhe contara nada. Ela perguntou se o treinador não estava bravo com igo.
— Não, ele não está bravo comigo — expliquei.
— Ele está bem ?
— Sim , m ãe, ele está bem . Ele é o técnico do tim e. Está concentrado no próxim o j ogo. Um dia de cada vez.
— Bem , e o que a m atéria diz é verdade? — questionou ela.
Para qualquer outra pessoa eu teria respondido não, sem titubear. E teria dito ainda que as inform ações tinham vindo de investidores invej osos. Ou de alguém que teve um processo de transferência am argo. Alguém com dor de cotovelo. Mas com a m inha m ãe era diferente. Com o ela era m uito extrem ista em seus pontos de vista, m e vi obrigada a dizer:
— Provavelm ente algum as partes são verdade, sim . Do contrário, não teriam recebido um com unicado oficial e a investigação não estaria em andam ento.
Ela balançou a cabeça:
— Sem chance. Não acredito nisso.
Naquele m om ento, foi com o se eu estivesse m e ouvindo e m e vendo nela, m inha lealdade cega ao treinador Carr e a qualquer coisa relacionada a Walker, e isso m e deixou um pouco m al.
— Não é tão sim ples quanto parece. Não é a SMU nos anos 1980. Mas, sim , provavelm ente estam os j ogando suj o...
Minha m ãe balançou a cabeça com firm eza.
— Jogo suj o é algo tão sim ples — afirm ou ela. Posso garantir que m inha m ãe se referia ao m eu pai, e fiquei abism ada ao ver que ela sem pre se esquecia que tam bém j á havia traído. Foi assim que tudo com eçou. Foi assim que eu vim ao m undo. Ela concluiu: — Mas o que realm ente im porta é que o treinador Carr jamais j ogaria suj o. — Quanto a isso, tive de concordar, e o fiz em voz alta. Ela continuou: — Sabia que em todos esses anos de casam ento ele sem pre foi fiel à Connie? Sem pre. E sabe que pouquíssim os treinadores do nível dele agem da m esm a form a? Connie m e contava cada história. Você não acreditaria. Muitos treinadores trapaceavam descaradam ente, na cara dura. Acho que são piores que banqueiros.
Meu coração palpitou ao ouvir sobre Connie, o treinador e o casam ento deles. Am ei a afirm ação a respeito do caráter forte dele, m as m eu coração se encheu de outro sentim ento tam bém . Talvez culpa, talvez um a pitada de invej a, que por sua vez m e fez sentir confusa e ainda m ais culpada.
— Então eles eram realm ente felizes, não é? — perguntei, m eio cabisbaixa.
— Sim — respondeu m inha m ãe, m as depois hesitou, com o se estivesse pensando em acrescentar m ais algum a coisa. — Eles tinham um casam ento m uito feliz, m as não era fácil. É difícil ser casada com um treinador. Ela era m uito solitária. Às vezes ela m e contava que se sentia com o um a m ãe solteira. Principalm ente nas férias. Ela o am ava m uito, m as... — contou ela, com a voz cada vez m ais baixa.
— Mas o quê?
— Acho que ela teve que desistir dos seus próprios sonhos para ficar com Clive.
— E quais eram os sonhos dela?
— Connie poderia ter ido para a Broadway. Poderia m esm o. Com aquele corpo e aquela voz. Ela poderia ter sido um a estrela.
Concordei com a cabeça, m e lem brando de que a sua voz era linda e de que ela costum ava tocar piano e cantar durante as reuniões fam iliares m ais íntim as.
— Era isso o que ela queria? — indaguei, incapaz de im aginá-la em qualquer outro papel além do de coadj uvante.
— Ah, acho que sim . Quando o seu pai nos abandonou e voltou para Nova York, ela fez um com entário que sem pre m e intrigou. Connie disse que tinha invej a dele. Não por ele ter deixado a fam ília para trás, m as por ter saído de Walker. Do Texas. Havia m uito m ais coisas na personalidade de Connie do que as pessoas conheciam . Ela acom panhava todas as convenções da região sul e sem pre foi a esposa e m ãe perfeita. Mas, bem lá no fundo, era um a sonhadora daquelas que vivem com a cabeça nas nuvens. Ela passou por cim a de tudo isso para escolher o treinador e nunca olhou para trás. Mas... — Minha m ãe fez um a pausa, com o se quisesse conter um a onda de em oção.
— Mas o quê? — perguntei gentilm ente, sentindo pena da m inha m ãe e sem conseguir pensar sequer na hipótese de perder a m inha m elhor am iga.
— Mas acho que ela estava esperando chegar a sua própria vez. Algum dia. Ela tinha planej ado fazer m uitas coisas quando Clive se aposentasse. Conhecer o m undo. Morar fora... Falava m uito de Viena. Connie am ava Viena.
— Por que Viena?
— Ela m orou alguns anos lá quando era criança e o pai estava no Exército. — A carranca da m inha m ãe se transform ou num ligeiro sorriso. — Consegue im aginar o treinador em Viena?
— Lá pega a ESPN daqui? — perguntei, sorrindo para m inha m ãe.
— Exatam ente. Eis a questão — com entou ela.
Meu telefone vibrou, olhei para baixo e vi um a m ensagem de texto do treinador: Shea, não se preocupe com a matéria. Siga em frente.
— Quem é? — perguntou m inha m ãe enquanto eu olhava para o telefone.
— Nada. Mas preciso fazer as m alas agora. Viaj o am anhã de m anhã para Baton Rouge.
— O que vai ter lá em Baton Rouge? — inquiriu m inha m ãe, parecendo confusa.
— Hum . LSU. Tem os um j ogo contra eles, está lem brada?
Então, enquanto enxotava m am ãe do m eu apartam ento, respondi a m ensagem : Obrigada, treinador. Vou seguir em frente.
* * *
No dia seguinte, acertam os a LSU em cheio no estôm ago. Three yards and a
cloud of dust all day long [6]. Mas a vitória de 27 a 3 debaixo de um sol escaldante pareceu colocar m ais fogo na m ídia, e eu pude sentir que todos os j ornais de grande circulação, sites de esporte e blogs estavam prontos para divulgar algum a versão distorcida da m inha m atéria, em vez de destacarem o dom ínio que tivem os sob os Tigres. Mesm o assim , a vitória caiu bem , m elhor que as outras, e eu vi nos olhos do treinador que nossa determ inação estava renovada para fazer deste o nosso ano. Apesar da investigação, e talvez por causa da investigação, esta realm ente poderia ser um a tem porada histórica para nós. Afinal, a vitória seria o derradeiro foda-se que todos no m undo do esporte conheciam m uito bem .
— Siga em frente — sussurrei para o treinador enquanto ele entrava na sala para a coletiva de im prensa com Rhodes e Everclear.
Ele m e deu um a piscadinha:
— É isso aí, m enina!
Alguns m inutos depois, a entrevista com eçou e a prim eira pergunta, com o era de esperar, foi sobre a investigação, e dirigida a Reggie. Ele, cuj o desem penho era nada m enos do que excelente, se aproxim ou do m icrofone com extrem a com postura:
— Hum . Sim . Hoj e vou falar apenas sobre futebol.
Intrépido, o repórter pressionou:
— Conhece Ray m ond Mathews?
Eu sabia pelas m inhas investigações que esse era o nom e do em presário de Cincy, e pude ver pela expressão de Reggie que ele tam bém sabia de quem se tratava.
O treinador grunhiu em seu m icrofone, apressando-se para aj udar Reggie.
— Você ouviu o Sr. Rhodes. Vam os acabar com essa entrevista rapidinho se vocês não m antiverem as perguntas a respeito do j ogo de hoj e.
Mordi o lábio e abaixei a cabeça para olhar para o laptop, pensando que não havia nada m ais excitante no m undo do que ver o treinador Carr anim ado.