Primeiro e Único

Emily Giffin · Capítulo 43 de 46

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Primeiro e Único

Quarenta e três

 

Por três dias, m e revolvi em autopiedade e m ágoa, e fiquei trancada em m eu apartam ento. Mal com i, tive um sono perturbado e fiquei o tem po todo de pij am a. Toda vez que o telefone tocava, eu dava um pulo, esperando que fosse ele para m e dizer que eu não podia fazer aquilo. Mas isso não aconteceu, e, a cada hora que passava, eu ficava m ais e m ais depressiva, até que desliguei o telefone de um a vez. Não havia ninguém com quem eu quisesse conversar.

Na quarta noite, exatam ente quando eu estava com eçando a m e lem brar de m inha m ãe depois do divórcio, Lucy apareceu em m inha porta. Cheguei a pensar em não atendê-la, m as desisti. Ficam os olhando um a para a outra com o se vários m eses tivessem se passado desde nossa últim a conversa, até que ela m e perguntou se podia entrar. Respondi que sim e saí do m eio do cam inho, deixando a porta se fechar sozinha.

— Está doente? — ela perguntou, olhando para m eu pij am a e para m eu cabelo seboso.

— Um pouquinho. Nada dem ais. Você cortou a franj a — com entei.

Ela levou a m ão ao cabelo.

— Ficou m uito curta. Quando será que eu vou aprender?

Dei de om bros, esperando que ela percebesse quão pouco eu m e im portava com seu cabelo.

— Está chateada com igo? — perguntou, olhando para o sofá. Por fim , escolheu sentar-se de pernas cruzadas no chão, onde sem pre preferia ficar.

Respondi que não.

— Ressentida?

— Não — m enti de novo.

— Triste?

— Lucy. Pare.

Mas ela não conseguia parar; nunca conseguia.

— Você disse para o m eu pai que estava tudo acabado? — ela perguntou com a voz suave, com o se isso fosse m udar o fato de ela ter m e pressionado e insistido.

— Nunca com eçam os nada, de fato — respondi, sentando-m e a seu lado no chão, as duas com as pernas cruzadas, o que m e fez lem brar dos tem pos da pré-escola. Só faltavam os nossos tapetinhos coloridos e voltarm os trinta anos no tem po.

— Mas você conversou com ele?

— Sim .

— E ele aceitou num a boa?

Respirei fundo, firm ando a postura.

— Sim — falei, m antendo a resposta m ais sim ples possível. — Nós dois concordam os que foi m elhor assim .

— Fiquei sabendo que você saiu do trabalho tam bém — ela questionou, im placável.

Fiquei m e perguntando com o a notícia chegou até ela.

— Ou fui dem itida. É difícil definir. Mas, sim ... Estou oficialm ente desem pregada.

Lucy se inclinou para a frente a fim de colocar os braços sobre os m eus om bros, e depois caiu no choro. Recusei-m e a retribuir o abraço, sentindo um a onda de raiva, quase dizendo que ela não tinha o direito de chorar daquela m aneira. Ela quis as coisas do seu j eito; não tinha, portanto, o direito de se sentir lesada tam bém .

Foi então que ela disse:

— Shea, com ecei a sangrar. Faz dois dias... não estou m as grávida.

— Ah, querida. Sinto m uito, Lucy — falei, abraçando-a.

Ela fungou ruidosam ente, enxugando as lágrim as com a m ão.

— Sei que... acho que não era para ser agora... Sinto m uito. Pensei que j á tivesse chorado o suficiente. — Ela contorceu o rosto, num a tentativa fracassada de sorrir.

— Você acha que foi porque... — com ecei, depois parei.

— Não. Não tem nada a ver com isso — ela respondeu, lendo a m inha m ente.

— Não foi por causa do... estresse? — Eu sabia m uito bem que um aborto não funciona exatam ente assim , m as queria tentar apreender os sentim entos de Lucy de qualquer m odo.

— Não. O m édico só disse que não era um a gravidez viável. Vou conseguir engravidar de novo.

— Claro que vai.

— Ou talvez não. Talvez o destino não queira que Neil e eu tenham os outro filho. Sabe, de certo m odo eu m e sentiria bem com isso, porque odeio pensar que a m inha m ãe j am ais seguraria o m eu bebê.

Olhei para os olhos tristes dela, aliviada pela m inha decisão, e falei, m ais um a vez, o quanto eu lam entava pelo ocorrido.

— Você estava m esm o apaixonada pelo m eu pai? — ela indagou, usando o verbo no passado, com o se eu sim plesm ente tivesse, em questão de poucos dias, deixado de sentir tudo o que sentia.

— Sim .

— Mas... por quê?

Dei de om bros e perguntei:

— Precisa ter um por quê?

Ela balançou a cabeça.

— Deus do céu. Queria que não estivesse.

— Eu sei... Eu tam bém queria um m onte de coisas — retruquei.

— Com o o quê, por exem plo? O que m ais você queria? — ela questionou. Não sei dizer se ela estava m e testando ou puxando conversa, ou algum a coisa do tipo, m as respondi a pergunta escolhendo as palavras cuidadosam ente.

— Queria que a sua m ãe ainda estivesse aqui — adm iti, com eçando pela parte m ais im portante. — Queria que você não tivesse perdido o bebê. Queria que Ry an não tivesse estragado tudo. Queria ter sido um a repórter m elhor. Queria... queria que eu estivesse perdidam ente apaixonada pelo Miller.

Lucy abriu um sorriso:

— Miller? Ah, por favor, não desej e isso para si m esm a. Ele é pior do que gostar do m eu pai.

Sorri, percebendo que tinha esquecido um a coisa óbvia. A única que estaria na m inha m ente algum as sem anas atrás.

— Mas e se você quiser algo m ais obj etivo? Real?? — Ela assentiu com seriedade.

— Eu m e contentaria se o Walker ganhasse esta tem porada — com entei.

Ela sorriu.

— Eu tam bém . Você vai ao j ogo, não vai? — perguntou.

Hesitei, depois balancei a cabeça.

— Acho que não.

— O quê?! Está brincando. Só pode estar brincando! Você tem que ir. É a única pessoa no m undo que não pode faltar, de j eito nenhum . Digo, além dos treinadores e dos j ogadores. Você não pode perder esse j ogo!

— Não vou perder o j ogo. Vou assistir pela televisão.

Ela m e encarou, incrédula.

— Onde?

— Não sei. Aqui, provavelm ente — falei, apontando para a tevê.

— Mas quero assistir com a m inha m elhor am iga. Você precisa ir.

Dei de om bros, resistindo à vontade de dizer que nem sem pre conseguim os o que desej am os. — Vam os ver. Ainda faltam algum as sem anas — acrescentei.

— O que você vai fazer no Natal?

— Vou para Nova York — m enti, em bora a ideia tenha passado pela m inha cabeça. Qualquer coisa seria m elhor do que ficar com m inha m ãe neste ano.

— Ah. Vai ser divertido.

— Sim , vai — concordei, pensando que nada neste m undo parecia ter graça para m im . Nada m ais parecia im portar.

— Bem , se m udar de ideia e não for... passa o dia com a gente?

Eu sabia exatam ente o que significava a gente, e pensei que não haveria a m enor possibilidade de eu aceitar. Sem chance. Mesm o.

— Claro, Lucy. Obrigada.

— Por nada! Você é a m inha melhor am iga.

— E você, a m inha.

— Prom ete? — ela perguntou, m as eu sabia que não era exatam ente isso que ela estava querendo saber. Ela estava pedindo m eu perdão. Estava dizendo que sabia quão egoísta e infantil havia sido, m as que sim plesm ente não conseguia evitar. Assim com o não conseguia trazer a m ãe de volta, tam pouco o bebê que am ou por apenas algum as sem anas.

Então, olhei para ela e disse a verdade.

— Sim — respondi, pensando que ela não só era a m inha m elhor am iga com o tam bém a única coisa que m e restava. — Prom eto.