Primeiro e Único
Trinta e cinco
No dia seguinte, por volta do m eio-dia, eu ainda estava na cam a e Ry an j á tinha m e ligado cinco vezes. Seu tom era inconstante, m udando várias vezes até em um a única m ensagem de voz. Prim eiro ele pareceu triste e arrependido, depois, nervoso e acusatório, calm o e racional, com pena de si m esm o e depois m uito arrependido de novo. A única coisa que se m anteve em todas as m ensagens foi o sentim ento de frieza que m e arrebatava a cada vez que eu ouvia a voz dele, até m esm o quando Ry an afirm ava o quanto gostava de m im . Ele parecia tão convincente, tão sério, tão arrependido, m as eu tinha a sensação horrível de que ele diria ou faria qualquer coisa para conseguir o que queria.
Do m eu esconderij o debaixo das cobertas, apaguei cada um a das m ensagens, cada súplica, cada m entira excessivam ente sentim ental. Pareceu um com eço bastante sólido, m as, depois de ir ao banheiro e ver os hem atom as que os dedos dele deixaram em m eus braços, eu sabia que precisava fazer algo m ais do que sim plesm ente apagar as m ensagens. Por m ais que não quisesse vê-lo, eu sabia que teria de olhar em seus olhos, devolver aqueles brincos de diam ante e pedir que nunca m ais m e procurasse. Eu odiava a ideia de precisar rom per com as coisas dessa form a, de pôr fim em um a am izade de m uitos anos, m as não havia escolha.
Porém , bem lá no fundo, m e peguei pensando se eu m e m anteria tão segura sem o treinador por perto para ser m inha tábua de salvação. E se ele não tivesse aparecido na noite anterior e m e contado sobre seus sentim entos? Será que eu apagaria as m ensagens de Ry an? Ou será que eu estaria refletindo, m atutando, tentando entender as coisas para encontrar um a form a de dar m ais um a chance a ele, m esm o depois do que aconteceu no Third Rail? Será que eu diria a m im m esm a que nós dois continuávam os em um cam po m inado? E que todos com etem erros e m erecem o perdão? Será que eu m e autoconsagraria com o sua salvadora, acreditando que poderia fazer o que Blakeslee não conseguiu?
Meu telefone tocou de novo. Senti um a onda de raiva enquanto estiquei o braço para pegar o aparelho, m as fiquei aliviada ao ver que era Lucy. Não m e sentia preparada para falar com ela, m as atendi, sabendo que ela m erecia pelo m enos saber com o eu estava.
— Oi, querida — ela disse. Sua voz estava tão terna e carinhosa que passei do estado de não querer conversar com ela para um a vontade im ensa e desesperadora de lhe contar tudo. Ou quase tudo.
— Onde você está? — perguntei.
— No carro com Neil e Caroline. E você?
— Na cam a.
— Sozinha?
— Sim , claro que estou sozinha... Pode vir para cá? — perguntei, antes de perder a coragem de lhe contar tudo (pelo m enos tudo sobre Ry an).
— Claro. Só preciso deixar Neil e Caroline na... Ei, você está bem ?
— Sim . Só preciso conversar... — falei.
— Tudo bem . Logo m ais estou aí.
Desligam os e eu soltei um suspiro. Em seguida, liguei para o treinador, que atendeu logo no prim eiro toque.
— Bom dia — falei e, por um m om ento, m e senti preocupada com a possibilidade de ter exagerado na noite anterior.
Então ele disse:
— Sim , o dia está lindo — respondeu, m e fazendo sentir m elhor.
— Invictos num a tem porada regular — com entei.
— Sim . Mas não significa nada se não ganharm os m ais um a vez — ele pontuou, e foi quando percebi que ele j á tinha virado a página, passado do estado de com em oração para o de preparação.
— Você foi à igrej a? — perguntei.
— Não. Fiquei dorm indo. Acho que sonhei com você. E nunca sonho... Pelo m enos não que m e lem bre.
— Ah, é? E o que aconteceu no sonho?
— Estávam os sentados no sofá, eu segurando a sua m ão e conversando com você.
Sorri pela prim eira vez no dia.
— E nós nos beij am os?
Ele deu risada:
— Quase. Chegam os bem perto.
Abracei as pernas flexionadas, m e aninhando feito um caram uj o debaixo do cobertor, ouvindo o silêncio crepitar na ligação. Ele pigarreou e perguntou se Ry an tinha m e procurado.
— Sim , m as não falei com ele. Só m e deixou um m onte de m ensagens.
— E o que ele disse sobre o que aconteceu? — questionou o treinador.
— O que j á se esperava. Que está arrependido... Que não vai acontecer de novo... — Hesitei por um m om ento, depois acrescentei: — Ah! E disse que você exagerou. Muito.
— Ok. A sorte dele é que estou velho.
— Eu j á disse que você não é velho — falei do j eito m ais firm e que pude. Tínham os nossos obstáculos, m as eu estava determ inada a não perm itir que a idade fosse um deles.
— Sou bem m ais velho que o Ry an. E que você.
— Não m e im porto — insisti, para que ficasse bem claro. — E você tam bém não deveria se...
— Eu tam bém não m e im porto com isso. Mas precisam os conversar... Existem algum as preocupações a longo prazo que devem os ter.
Tive a sensação de que ele estava se referindo à m aternidade e a filhos, coisas com as quais eu não m e im portava, então deixei para lá. Em vez de m e ater a isso, abordei um problem a m uito m ais com plicado e contei que Lucy estava vindo para m inha casa.
— Ah, é?
— Sim . Vou contar a ela sobre ontem à noite. Digo, sobre o Ry an... Mas não vou contar que você esteve aqui...
Ele ficou tão silencioso que pensei que a ligação tinha caído.
— Você está aí? — perguntei, m e sentindo culpada pelo fato de estar m e preparando para m entir para Lucy.
— Sim , estou aqui. Ouvi o que você disse... E acho que é um a boa ideia.
— Me sinto m al por m entir para ela sobre algo tão im portante, m as...
— Não se sinta m al. Só não é o m elhor m om ento para contar sobre nós dois.
Senti um a explosão de afeto, entusiasm o e esperança. Um a em polgação por saber que conversaríam os sobre “nós dois”.
— Certo. Vam os. Finalm ente.
— Com certeza. Quando chegar o m om ento certo — ele disse.
Alguns m inutos depois, Lucy chegou à m inha porta com um de seus vestidos elegantes da Jackie O.
— E aí, o que houve? — ela perguntou, o arom a sutil de lavanda de seu perfum e preenchendo m eu apartam ento enquanto ela tirava o casaco e o colocava no encosto de um banquinho, e depois tirou os sapatos. As unhas dos pés tinham sido recentem ente pintadas com um a cor lilás que com binava com seu perfum e de lavanda.
— Term inei com o Ry an — contei. A declaração soou um tanto dram ática, m as eu m antive a obj etividade.
Ela ficou parada e m e olhou de um j eito trágico.
— Term inou?
— Sim . Acabou — respondi, fazendo um gesto no ar sem elhante a um corte com a m ão.
Lucy m e abraçou, m as não disse nada, e eu pude ler nesse silêncio o desej o de que a decisão não fosse definitiva, irrevogável.
— Ele precisa de aj uda — com entou ela.
— Sim — concordei, ciente do que ela queria dizer com aquilo.
— Você acha que não há nenhum a form a de perdoá-lo? Resolver as coisas?
— Sem chance — afirm ei, dobrando as m angas da m inha cam iseta e m ostrando a ela as m arcas no m eu braço, depois no outro; voltei a sentir certa dose de vergonha.
Ela estrem eceu, exam inou as m arcas m ais de perto e depois passou os dedos sobre m inha pele.
— Deus do céu, Shea. Sinto m uito. — Ela balançou a cabeça. — Sim plesm ente não consigo acreditar nisso.
— Eu tam bém não — falei, desdobrando as m angas da cam iseta. Pensei em todas as m ulheres ao redor do m undo que dependiam de m angas longas, golas altas, cachecóis e m aquiagem pesada e em todas aquelas que não conseguiam esconder as provas com tanta facilidade e por isso faltavam no trabalho com a desculpa de que estavam doentes, m entiam para a fam ília, forj avam acidentes, m enosprezavam o que acontecia, enfim , faziam de tudo para esconder a verdade.
— Mas tem m ais um a coisa — acrescentei, enquanto nós duas nos sentam os no sofá, em lugares com pletam ente diferentes daqueles em que o treinador e eu tínham os nos sentado na noite anterior.
— Ah, m eu Deus! Foi tão ruim assim ? O que m ais aconteceu? — exclam ou Lucy, com os olhos arregalados.
Meneei a cabeça.
— Sim , foi. Ry an veio até aqui depois que eu saí do bar. Ele sim plesm ente entrou enquanto eu estava no banho. Acho que esqueci de trancar a porta depois que entrei.
— Caram ba! O que aconteceu?
Obriguei-m e a olhar bem nos olhos dela e contei o que tinha acontecido, sem suavizar absolutam ente nada. O j eito com o ele tentou m e beij ar, com o m e “prendeu” na cam a e o quanto fiquei assustada. Pulei a parte da cena do resgate e falei:
— Aí ele finalm ente foi em bora. Tive sorte. Poderia ter sido pior.
Lucy balançou a cabeça, m e encarando.
— Meu Deus. Eu realm ente pensei que ele fosse um cara legal. Pensei m esm o, de verdade.
— Ah, sei lá, Lucy. De certa form a ele é — ponderei, pensando que não havia m otivo para transform ar Ry an Jam es num dem ônio. Estava tudo acabado entre nós, não im portava o porquê. Acabou porque eu am ava outra pessoa. — Ele é um cara legal e agradável. Para os am igos dele. Para a m ãe dele. E foi para m im tam bém . É generoso, faz m uitas doações para instituições de caridade, dá gorj etas altas... — Minha lista era real, verdadeira, m as pareceu insignificante perto de todo o resto. Então ele dava notas de vinte dólares de gorj eta para os m anobristas? E daí?
— Eu sei. Ele pode ser um cara m uito legal... e divertido, noventa e nove por cento do tem po — com entou Lucy, com o olhar m elancólico.
Sua avaliação foi tanto arbitrária quanto exagerada, m as m e abstive de com entar que m esm o o um por cento restante era dem ais.
— Você não acha que a cultura da violência está presente no futebol am ericano profissional? Meu pai m e disse que três entre quatro j ogadores da NFL têm um a arm a...
— No Texas esse núm ero deve ser quatro entre quatro j ogadores. E, sim , é um esporte brutal, anim alesco e selvagem . Falando sério, é a celebração da violência. Mas tenho que acreditar que a m aioria daqueles caras não bate em suas esposas e nam oradas. Mas talvez o façam . Francam ente, a psicologia do esporte não m e interessa neste m om ento...
Lucy m e interrom peu:
— Mas você acha que ele pode receber aj uda e... m udar?
Dei de om bros:
— Bom , Blakeslee não acredita nisso. E ela provavelm ente o conhece m elhor do que ninguém .
— Mas você é diferente da Blakeslee. Se há alguém que poderia aj udá-lo, essa pessoa é você.
Lutei contra um a pontada de aborrecim ento e falei:
— Talvez ele possa m udar. Mas eu não consigo acreditar nisso.
— Você não o am a o bastante para querer aj udá-lo? — ela indagou. Eu diria que a pergunta não teve um tom de j ulgam ento, m esm o assim m e senti incom odada com a obsessão dela em se concentrar no que Ry an precisava e na tentativa evidente de se agarrar ao que ela via com o um grande prêm io na m inha vida.
— Em prim eiro lugar, não, não o am o o suficiente para tom ar partido do distúrbio violento dele — declarei com firm eza. — Em segundo, acho que este é um j ogo m uito perigoso para pôr a vida em risco. É claro que poderia funcionar. Mas e se não der certo? Não quero ser dram ática e não acho que as coisas chegariam a esse ponto, m as, falando teoricam ente, é assim que m uitas m ulheres acabam m ortas.
— Tudo bem . Me desculpe. Não fique brava com igo.
Dei de om bros de um j eito passivo e agressivo ao m esm o tem po.
— Me desculpe — repetiu ela.
— Tudo bem , Lucy. — Por um m om ento, m e senti tentada a contar tudo, toda a verdade sobre m eus sentim entos pelo pai dela. Mas m e contive, dizendo apenas: — E o m ais im portante: eu não o am o.
— Por causa disso, certo? —Lucy questionou, m ordendo o lábio inferior. — Você não o am a por causa de tudo o que aconteceu?
— Não sei ao certo se isso faz diferença. Mas não. Eu não o am o. Ponto-final. Não o am ava antes disso. Apenas gostava dele — adm iti, fazendo questão de usar o verbo no passado. — Bem que eu quis am á-lo. Talvez eu pudesse ter nascido para am á-lo. Mas o sentim ento sim plesm ente não estava lá. Eu gostava da ideia de estar com ele. Foi em polgante. Ele era em polgante. — Forcei um sorriso e acrescentei: — Em polgante dem ais.
Lucy assentiu, e toda a sua esperança finalm ente se esvaiu.
— E aí? O que vai fazer?
— Bom ... Preciso devolver os brincos, pedir para ele parar de m e ligar e dizer, cara a cara, que está tudo acabado. Quero ele fora da m inha vida. Com pletam ente.
— Está com m edo?
— Não. Mas é m elhor eu ir com alguém . Talvez com você e com o Neil — sugeri, pensando que não queria envolver ainda m ais o treinador nessa história.
— Claro. Quando quiser. Você sabe que pode contar conosco.
— Sei, sim , Lucy. Obrigada.
Ficam os em silêncio, até que eu falei:
— Bom , não preciso nem pedir para você não com entar isso com ninguém ... exceto com Neil.
Ela m eneou a cabeça, concordando.
— Claro. Eu j am ais contaria a alguém .
— Eu sei... A pior coisa que poderia acontecer é que a m ídia espalhasse isso — alertei, im aginando m anchetes terríveis se espalhando; não m ostrariam um hom em com um problem a, m as o lado som brio e feio do futebol am ericano da Walker.