Primeiro e Único
Quarenta e dois
Havia apenas um a coisa a ser feita, e eu estava preparada para agir o m ais rápido possível, com o se contar da m inha decisão para o treinador fosse, de algum m odo, torná-la m enos real.
Mas, antes de ir para a cam a naquela noite, escutei alguém bater a m inha porta. Espiei pelo olho m ágico e vi o treinador olhando para m im . Senti um a dor ainda m aior no peito enquanto abri a porta com um a pergunta:
— Você não deveria estar na estrada?
— Vou pegar o últim o voo esta noite. Queria te ver. Deveria ter ligado antes — ele respondeu, deixando sua m ochila de couro cair sobre os pés e desabotoando o casaco azul-m arinho. — Mas acabou a bateria do m eu celular e eu esqueci o carregador.
— Atitude de novato.
— Ei, espere aí. Quem você está cham ando de novato aqui, hein, aprendiz?
— Você — respondi com um sorriso enquanto m eus braços perm aneceram im óveis ao longo do corpo.— E com o foi a visita?
— Ótim a. O m enino é bom e de ótim a fam ília — com entou, ainda se atrapalhando para desabotoar o casaco.
— Acha que vão escolhê-lo? — questionei.
— Ah, depende de quanto dinheiro vam os conseguir pagar por debaixo dos panos.
Eu o encarei.
— É brincadeira — ele falou, se inclinando para m e beij ar.
Virei o rosto devagar, e seus lábios encostaram no cantinho esquerdo do m eu, num estilo m eio “não m e beij e”.
— E então... vam os? Contratá-lo? — perguntei de novo, postergando, fingindo m e concentrar apenas no processo de recrutam ento do Walker.
— Acho que ou ele vem pro nosso tim e ou vai para o Ohio State. Vam os ver. Com o foi o seu dia? Por que está m e olhando desse j eito estranho?
— Não estou te olhando de um j eito estranho.
— Está, sim . — Ele m e encarou. — E agora está m e olhando de um j eito m ais estranho ainda. Te conheço. Conheço as caras que você faz.
Engoli em seco, aproveitando alguns segundos para fazer um anúncio m enor.
— Fui dem itida hoj e.
— Está brincando.
— Não.
— Merda. É sério que não está brincando?
Balancei a cabeça.
— Sim , é. Mas tudo bem . Eu m eio que j á ia desistir m esm o. Sm iley só m e deu um em purrãozinho.
— Shea, querida. Sinto m uito. E qual foi o m otivo? — Ele m e olhou de soslaio por um segundo, depois pareceu j untar as peças. — Ah, droga. Foi... por causa de nós dois?
Balancei a cabeça, olhando para m eus pés.
Ele deslizou dois dedos sobre o m eu queixo e o ergueu até que eu voltasse a olhá-lo nos olhos.
— Me conte a verdade.
— Bom , é... Quer dizer... Foi m ais ou m enos isso. Foram vários os m otivos — expliquei, desej ando ter conversado com Lucy antes de desistir do m eu em prego.
— Me sinto péssim o. Posso conversar com Sm iley ? Com certeza há um j eito de...
— Não. Não ligue para ele. Está tudo bem . Estou m eio que aliviada. Realm ente foi por vários m otivos...
— O que vai fazer? Voltar para o seu antigo em prego?
— Não, não posso. J. J. j á m e substituiu.
— Você não pode ser substituída — ele afirm ou, sem titubear.
Tentei sorrir, esperando que a afirm ação se estendesse a todos os sentidos.
— Vou encontrar outra coisa.
— Tudo bem ... — Ele pareceu não se convencer e continuava preocupado. — Me avise caso precise de aj uda. Com qualquer coisa. Você sabe que podem os conseguir algo na Walker. Sem pre haverá espaço para você lá.
— Obrigada — agradeci, pensando que o trabalho era m inha últim a preocupação naquela noite. — Vou ficar bem .
Ele ergueu os braços no ar, com o se tivesse m e cham ando para dançar, a expressão m udando de preocupação para pura afeição, o que m e partiu o coração e m e fez querer voltar atrás em tudo o que eu havia prom etido a Lucy. Porém , levei-o até o sofá e contei tudo. Tudo o que eu havia dito a ela. A escolha que eu havia feito.
— Bem . Aí está — ele desabafou, com um suspiro profundo.
— O que você acha? — perguntei, olhando para ele enquanto m e encarava de volta.
— O que eu acho?
— Sim . Me diga.
— Eu te entendo.
— Você concorda com ... a m inha decisão? — perguntei, querendo que ele brigasse com igo, que m e dissesse o quanto eu tinha sido tola.
— Sinceram ente? Não sei.
— Você sempre sabe — retruquei, furiosa.
— Respeito. Respeito o que você fez. E respeito a sua am izade com Lucy.
— Então é isso? — perguntei, percebendo o quanto eu tinha confiado que ele nos salvaria, que m e faria m udar de ideia, que encontraria algum a zona cinzenta de que ele tanto gostava. Mas eu estava com eçando a ter o sentim ento horrível de que ele realm ente concordava com igo. Que acreditava que não ficarm os j untos era a coisa certa a fazer. Que ele deveria, desde o com eço, ter achado a nossa decisão precipitada dem ais.
O treinador suspirou e disse:
— Ouça. Você não está sozinha. Tive um a conversa com a Lucy tam bém . Não tão direta quanto a sua, m as um a conversa. E acho... Acho que ela sente que eu a abandonei.
— A abandonou? Como?
— Depois que a m ãe partiu, ela só tem a m im ... digo, com o pai. E acho que a m agoei. Sei que ela se sente assim .
— Mas você é um pai m aravilhoso — com entei, com parando-o com o m eu próprio pai.
— Mas sou m elhor com o técnico de futebol. Se pararm os para com parar, eu sem pre coloquei o futebol am ericano em prim eiro lugar. E acho que ela te vê com o parte disso, porque você e eu partilham os o am or pelo esporte. Tem os esse laço. Quanto à Lucy e eu... não sei. Então, acho que, para ela, estar com você é só m ais um exem plo de que eu estou preferindo o futebol am ericano a ela. E eu não posso fazer isso. Se você não pode, im agine eu... Talvez ela se recupere... e talvez nós tenham os um a chance depois. Nunca diga nunca, certo? Mas, enquanto isso, você precisa viver a sua vida.
Eu sabia m uito bem o que ele queria dizer com “viver a m inha vida”, então balancei a cabeça.
— Eu nunca vou sentir por outra pessoa o que sinto por você... nunca m ais — confessei, m e desm oronando por dentro, m as conseguindo m e conter.
— Sim , vai, sim .
— Não, não vou. Não vai chegar nem perto — resm unguei, pensando que eu até poderia ir para os bares, sair com alguém , transar. Mas am or? Nunca m ais. Por ninguém .
Ele colocou o braço no encosto do sofá, inclinando o corpo em m inha direção:
— Shea. Pensei que só pudesse am ar Connie. E aí... aconteceu isso. E tudo tem sido assustador, m aravilhoso e especial. Acho que o que estou tentando dizer é que... não sabem os o que pode acontecer em nossa vida. E você tem que estar aberta para as coisas.
— Mas eu não quero am ar ninguém além de você.
— Eu não queria am ar m ais ninguém além da Connie. A vida é engraçada.
— A vida é trágica.
— Pode ser que sej a... Mas não podem os parar de viver. E você não pode desistir.
— Mas não estam os desistindo agora?
— Não. Estam os fazendo a coisa certa. Há um a diferença.
Assenti, em bora não estivesse m uito certa disso.
— Você vai ficar bem , Shea. Vai se sair m elhor do que um velho treinador de futebol am ericano.
— Você não é velho — m urm urei, sentindo invej a de todos os casais cuj a única barreira era um a década de idade.
— Não sou j ovem . E, sej am os honestos... Você deveria estar com alguém m ais j ovem para poder form ar fam ília, ter os seus próprios filhos... Provavelm ente devo ser m uito velho para tudo isso.
Peguei o “provavelm ente” e com ecei a m e im aginar tendo um filho com ele. Mas logo retruquei:
— Por que todo m undo não para de falar nisso? Não sou com o as outras m ulheres. Não preciso de todas essas coisas.
— Sei que não é e sei que não precisa. Mas você pode querer. Um dia. Precisa m anter a m ente aberta.
Concordei, deixando a cabeça recair sobre m inhas m ãos.
— Eu sabia — falei, m ais para m im m esm a do que para ele.
— Sabia o quê?
— Que ontem à noite seria a nossa últim a chance j untos.
— Sim , foi o que você disse m esm o... Mas serem os sem pre am igos — ele afirm ou, um a das declarações m ais tristes do m undo. Com o não reagi, ele acrescentou: — E sem pre terem os o futebol am ericano em com um .
— E você vai voltar a m e cham ar de “m enina” de novo — com entei, tentando fazer cara de coragem . — Faz um tem po que você não fala assim .
— Tem razão, m enina.
— Não podem os m ais nos tocar — observei, encarando-o.
— Certo — ele concordou, parecendo tão triste quanto eu.
— Nem nos beij ar — acrescentei, fitando sua boca, depois seus olhos. — Ele continuou m e encarando e balançou a cabeça, concordando. — Porque tom am os um a decisão e seria errado voltar atrás — falei, tentando convencer a m im m esm a.
Ele assentiu de novo, enquanto seu rosto se aproxim ou ainda m ais do m eu. Perto o bastante para eu sentir o cheiro de sua m aldita loção pós-barba.
— Mas você vai ter que parar de usar isso. Quando estiver perto de m im — adverti.
— O quê?
Balancei a cabeça e dei de om bros, ligeiram ente.
— Essa loção pós-barba. Isso m e mata.
— Com o o seu perfum e faz com igo. Por favor, dê um j eito nesse perfum e.
— Com binado — concordei, o rosto dele se aproxim ando ainda m ais, e nossa respiração ficando m ais intensa. — E que tal... m ais um beij o?
— Você quer dizer... assim ? — ele perguntou, seus lábios roçando os m eus.
— Sim . Assim m esm o — respondi, enquanto um a tontura fam iliar m e invadiu. — E aí, depois de hoj e... vai continuar com o antes... para sem pre.
— A m enos que Lucy m ude de ideia — ele pontuou, m e beij ando com m ais desej o, suas m ãos enroscadas no m eu cabelo.
— Ela não vai m udar de ideia — falei baixinho.
— Eu sei — ele sussurrou. — Então, vam os fazer valer a pena...