Primeiro e Único

Emily Giffin · Capítulo 46 de 46

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Primeiro e Único

Quarenta e seis

 

São 5h20, de acordo com o fuso horário, e faltam dez m inutos para o pontapé inicial aqui no Rose Bowl. Estou na arquibancada com Lucy, Lawton, m inha m ãe e Miller, que veio para Pasadena sem ingresso. Até duas horas atrás ele estava procurando um cam bista, m as no últim o m inuto conseguiu o ingresso de Neil porque Caroline teve um problem a estom acal e Lucy decidiu que ela não poderia ficar no quarto de um hotel aos cuidados de um a babá qualquer. Mesm o assim , ela fez Miller im plorar pelo ingresso.

— O ingresso com pensou o fato de eu ter que rastej ar. Eu estava quase surtando, cara! — gritou Miller em m eio ao barulho de duas bandas ensandecidas e 92 m il fãs enlouquecidos, todos vestindo verm elho ou azul-turquesa.

Balancei a cabeça, entendendo perfeitam ente. Tam bém estávam os enlouquecidos em nossos lugares da arquibancada — bem na frente da linha de cinquenta j ardas, um as vinte e poucas fileiras atrás, com um a vista deslum brante das m ontanhas que se erguiam a oeste do estádio. Até m esm o o tem po parecia fazer parte do script — quente, com um a brisa suave e um céu lim po. Um a noite perfeita para o j ogo de um cam peonato nacional.

Miller m e ofereceu um a m ordida do seu cachorro-quente quilom étrico cheio de m ostarda e m olho e eu balancei a cabeça, m e perguntando com o ele conseguia com er num a hora dessas. Ao olhar ao redor do estádio, tentei observar a atm osfera, m as estava tão dom inada pelo m edo que não pude apreciar o espetáculo. Minhas m ãos estavam suadas, o estôm ago enj oado e o coração acelerado. E o principal era que eu sabia que não haveria nada de engraçado nesse j ogo — e o m áxim o que eu poderia esperar era que não sofrêssem os.

Senti Lucy m e dar um tapinha no om bro e m e virei para olhar para ela na fileira atrás da m inha, sentada entre m inha m ãe e Lawton.

— Podem conversar com igo, por favor? Estou entediada.

— Não posso, Lucy — respondi, perplexa diante da sim ples ideia de tédio enquanto continuávam os na contagem regressiva (faltavam agora 6 m inutos e 20 segundos).

— Está ficando enj oada tam bém ? — ela perguntou, aj eitando seu laço grande e cheio de firulas, preso à blusa de seda azul-turquesa. — Talvez tenha pegado de Caroline.

— Não, não estou enj oada. Foi só o j ogo, Lucy — com entei, tentando conter um a nova onda de ressentim ento, que não era a prim eira desde que cheguei em Pasadena na noite anterior. O problem a não era só o fato de ela ter im pedido um relacionam ento antes m esm o de ele ter com eçado, m as o fato de agir com o se nada tivesse acontecido.

— Ah, fala sério! — exclam ou ela, dando um tapinha em m eu braço. — Anim e-se! Nós vam os ganhar! Eu sei que vam os!

— Sim , estou com um bom pressentim ento — adm itiu Lawton. — E você não vai acreditar... Meu pai achou um grilo em algum parque por aí ontem à tarde.

Sorri, im aginando-o com o frasco de vidro.

— Sério?

— Verdade — respondeu Lawton, erguendo os dedos com o se estivesse fazendo um j uram ento de escoteiro. — Eu estava com ele.

Assenti, com o se estivesse reafirm ando, em bora m eu pessim ism o de sem pre j á tivesse dado as caras. Felizm ente eu não era a treinadora, porque era provável que eu aconselhasse m eu tim e a não perder em vez de ganhar, um a receita infalível para a derrota. Tentei im aginar o que o treinador estava dizendo para o tim e agora, no vestiário, e, em bora eu possa invocar as suas palavras e a força que elas têm , estou encontrando dificuldade para m e lem brar de sua voz. Nunca m ais a ouvi desde a noite em que term inam os, o que parece que aconteceu há m uito tem po.

— Você ainda está com cara de quem vai vom itar — com entou Lucy.

— Deve ser porque é provável que eu vom ite m esm o — falei, enquanto acenava para um grupo de ex-colegas da Walker que estavam sentados em um a arquibancada acim a. Com m uitos deles eu havia conversado na noite anterior, no bar do hotel. É claro que todos souberam que eu tinha sido dem itida e presum iram que foi porque eu não escreveria coisas negativas sobre o nosso program a e sobre a investigação que estava em andam ento.

Você acha que os boatos são verdadeiros? Receberiam uma notificação oficial de inquérito? Seriam penalizados?, foram as perguntas que m e fizeram repetidam ente.

Respondi que não sabia e que, com frequência, situações com o essa levavam anos e anos para serem resolvidas. Continuo acreditando que no final das contas sairem os lim pos, ou que pelo m enos será com provado que não com etem os nenhum grande delito e que o treinador será absolvido. Eu j á não o colocava em padrões m íticos e o via com o um hom em com defeitos e com um a liderança infalível. Mas, de um m odo inesperado, isso só fez m inha crença e confiança nele aum entarem .

— Diga para a Shea que nós vam os ganhar —Lucy pedia para m inha m ãe agora, com o se algum a de nossas previsões realm ente im portassem .

— Vam os ganhar! — exclam ou m inha m ãe, batendo palm as j unto às nossas líderes de torcida. Ela tam bém havia, sem a m enor preocupação, ignorado o que tinha acontecido antes do Natal, não m encionou um a vez sequer o nom e do treinador, apesar de ter tido oportunidade em nosso quarto de hotel. A im plicação é que ela está m e fazendo um favor em vez de o contrário, o que só intensifica m inha am argura.

Miller com entou conosco que até m esm o Vegas tinha m udado de ideia, m ovim entando a linha de j ogadores um ponto a nosso favor, depois que dois atletas do Crim son Tide tinham se m achucado. É claro que ninguém desej a que um j ogador se m achuque gravem ente, m as ferim entos leves e oportunos são outra história, e, por dentro, sinto-m e m uito grata pelas contusões de pulso e quadril que sofreram os j ogadores do Alabam a. Sinto-m e ainda m ais grata por não estar lá em cim a, na sala de im prensa, fingindo m ais um a vez que este era apenas m ais um dia de trabalho.

— Você fez algum a aposta neste j ogo? — perguntou m inha m ãe a Miller.

Com a boca cheia de cachorro-quente, ele disse:

— Droga, claro que sim . Apostei quinhentos dólares. Dinheiro fácil!

Minha m ãe falou:

— Ainda dá tem po de eu apostar?

— Sim . — Miller pegou o celular do bolso e acrescentou: — Posso ligar para o cara que fez a aposta!

Não consegui m e conter e gritei:

— Já chega! Vocês dois! Dá para calar a boca?

— Ui, ui, ui! Desculpe! — retrucou m inha m ãe. — Esqueci que estou falando com a Srta. Pessim ism o.

Revirei os olhos e fiquei olhando para a frente, concentrada, m e preparando para as próxim as dolorosas horas de futebol am ericano universitário (isso se o j ogo transcorresse bem ).

Mas, logo no prim eiro tem po, as coisas não estavam nada bem . Mostram o-nos m onótonos e totalm ente despreparados diante das j ogadas do Alabam a. Eles logo fizeram dez pontos. É claro que não era um placar intransponível, m as um a lacuna difícil de preencher, considerando um tim e tão bom quanto o Bam a. Enquanto m inha m ãe e Lucy se valeram dos gritos de guerra e da euforia do Walker, e Miller e Lawton preferiram praguej ar contra o árbitro, rezei e im plorei para os santos do futebol am ericano — e até m esm o para Deus. Se conseguirmos virar o jogo, vou me contentar com uma dúzia de temporadas ruins. Aceito até perder algumas delas, incluindo perdas humilhantes para os Longhorns. Nunca mais vou mandar mensagens de texto para o treinador. Vou conseguir um trabalho em Nova York, deixar o Texas e nunca mais olhar para trás.

Nenhum a das nossas estratégias funcionou, e, quando o sol com eçou a se pôr nas colinas de Pasadena, os j ogadores foram para o intervalo e se retiraram para o vestiário com um placar de 23 a 7 para o Alabam a. O intervalo ficou insuportável diante do grito de guerra Vai, Tide, vai!, das apresentações eufóricas das bandas, e m ais otim ista no bate-papo entre m inha m ãe, Miller, Lucy e Lawton. Enquanto isso, tentei m e m anter calm a e coloquei todas as m inhas crenças no treinador. Lem brei a m im m esm a que ele sem pre se saía bem nas piores situações e que com certeza estava lá, no vestiário, reorganizando, reposicionando e dando um a inj eção de ânim o no nosso tim e. Dizendo a eles: “É agora ou nunca”.

Então, o segundo e últim o tem po da tem porada de futebol am ericano com eçou sob um céu azul-turquesa vibrante. Ao perceber isso, não m e segurei e o apontei para Lucy.

— Eu vi! — ela respondeu, olhando para cim a, com a m ão sobre o peito e o broche dourado que todos nós estávam os usando em m em ória da Sra. Carr. — Eu estava aqui pensando exatam ente a m esm a coisa. Incrível! Nunca vi o céu dessa cor.

Um lance depois, fizem os um a j ogada da linha de 31 j ardas acertando a linha de 49 do Bam a.

— Yesssss! Yes! Yes! É assim que se faz! — berrou Miller, socando o ar com o punho cerrado, com em orando e cum prim entando Lawton.

Bati palm as pela prim eira vez na noite, e, em seguida, m arcam os outro ponto fazendo um arrem esso de 25 j ardas para o nosso wide-receiver. O treinador definitivam ente conseguiu desequilibrar o Tide com um ataque m ais rápido e eu assisti com satisfação quando eles com eçaram a se aninhar para tentar conter a explosão repentina. Na j ogada seguinte, eles se concentraram no ataque, m as, com um a m istura de ataque e defesa, avançam os j ardas e, no últim o m om ento, nosso quarterback surpreendeu, fazendo um a nova j ogada antes de Everclear conseguir pegar a bola a 16 j ardas no rebote.

Virei-m e e gritei para Lucy e Lawton:

— Seu pai é um gênio!

Um segundo depois, Everclear ultrapassou Rhodes e conseguiu se infiltrar na nossa linha tão apertada que não caberia um a agulha, na end zone. E lá estava. Touchdown! Em um m inuto e doze segundos de um a execução im pecável, voltam os à caça. Quando Mike Green, nosso kicker, conseguiu m arcar um ponto extra, abri um sorriso e Miller e eu batem os um na m ão do outro para com em orar.

Na posse de bola seguinte, botam os para quebrar, e nossa defesa tam bém parecia m ais confiante. O Alabam a ainda conseguiu reverter um primeiro down, m as a drive acabou não rendendo um resultado positivo quando eles chutaram do m eio de cam po e nos encurralaram em nosso próprio território. O treinador optou por j ogadas m ais conservadoras nessa posição, e a pressão do terceiro tem po se transform ou em um a batalha pela bola em cam po com um a troca de field goals.

— Muito bem , m uito bem , pessoal! Nós vam os conseguir! — gritou Miller quando com eçam os o quarto tem po com a bola em nossa décim a segunda j arda.

Olhei para o painel do placar. Em bora estivesse 26 a 17 para o Alabam a, algum a coisa m e dizia que era perfeitam ente possível reverter a desvantagem de nove pontos no quarto e últim o tem po. Nos próxim os 6 m inutos e m eio, tiram os proveito da defesa fatigada do Bam a, atacam os im placavelm ente a linha de scrimmage, m as fom os interceptados bem na linha de 5 j ardas. Porém , Green conseguiu fazer m ais um field goal, dim inuindo a diferença no placar para 6 pontos faltando 8 m inutos para term inar o j ogo.

O Alabam a não facilitou nem um pouco na próxim a série de lances, avançando j ardas e fazendo os segundos voarem num a drive contínua que nos obrigou a pedir a interrupção da partida duas vezes. Conseguim os pressioná-los por um bom tem po na quarta j arda, m as, a essa altura, eles j á estavam em nossa décim a quinta j arda, em um a posição de acerto m uito fácil para qualquer kicker, ainda m ais para um que tinha sido perfeito naquela noite.

Apoiei a cabeça sobre as m ãos, um gesto que deixou Lucy preocupada.

— O que foi? Por que está fazendo isso? — ela indagou, cutucando m inhas costas.

— Eles vão acertar esse chute. Aí o placar vai voltar para 9 pontos de diferença... o que significa que vam os precisar de duas posses de bola para poder ganhar... E só podem os pedir tem po m ais um a vez.

— E o que isso quer dizer?

— Significa que não terem os tem po para ganhar — explicou Miller, por fim , irritado com ela tam bém .

— Mas ele tem que m arcar o field goal antes, certo? — ela perguntou.

— É... e ele ainda não acertou — acrescentou Lawton, enquanto os j ogadores se alinharam no cam po.

Levei a cabeça às m ãos de novo, sem conseguir assistir ao inevitável, m as, alguns segundos depois, Miller agarrou m eu braço e com eçou a gritar:

— Ele errou! Ele errou! O filho da puta errou!

Ergui a cabeça e vi o Walker retom ar o cam po.

— Ele perdeu o lance? — perguntei, gaguej ando e rindo ao m esm o tem po.

— Perdeu! Maldito! — esbravej ou Miller.

— Chupa Crim son Tide! — exclam ou Lawton.

— E agora, ainda podem os ganhar? — questionou Lucy em m eio ao barulho. Ela definitivam ente tinha um bloqueio m ental em se tratando da m atem ática básica do futebol am ericano.

— Agora tem os um a chance! — expliquei, depois detalhei dizendo que tudo o que precisávam os fazer era conseguir chegar à linha de 85 j ardas dentro de 3 m inutos e 16 segundos. Era m uito tem po, tem po demais, porque a últim a coisa que queríam os era que o Alabam a conseguisse a últim a posse de bola.

Voltei a olhar para o cam po quando o treinador com eçou a driblar o tem po com j ogadas rápidas e passes curtos, abrindo espaço no m eio de cam po com 1 m inuto e 40 segundos. Depois disso, com eçam os o ataque aos 2 m inutos, com um passe longo que Rhodes não conseguiu alcançar. Passe incom pleto. Na segunda down, o treinador ousou de novo, m as dessa vez funcionou, nos colocando na j arda 32 do Alabam a.

Miller e eu ficam os olhando um para o outro, com os olhos arregalados, enquanto o passe continuou e Everclear levou todo o tim e para a linha. Prendi a respiração quando ele fez um a j ogada inesperada para conquistar 8 j ardas. O relógio não parava e m eu coração estava saindo pela boca enquanto ele agarrava a bola, conseguia m antê-la e conquistava m ais 3 j ardas, em busca de m ais um primeiro down.

Os próxim os lances foram com o um borrão que só consegui ver assistindo ao replay no telão. Everclear lançou a bola para fora a fim de evitar um sack. Um a finalização para a linha de 18 j ardas. Primeiro down na linha de 10. Perdem os duas, com o relógio ainda correndo... Um a corrida desenfreada em busca de um m ilagre de 7 pontos, o que, m elhor do que 5 pontos, nos daria um a m argem faltando apenas 4 segundos para acabar a partida.

De repente, tudo se reduziu a isso. Nosso sonho da tem porada — todo o ano surpreendente e terrível — se reduziu a 4 m íseros segundos. Estávam os a um lance e 4 j ardas do cam peonato nacional.

Então, algo estranho aconteceu dentro de m im . Algo que eu j am ais esperaria sentir, nunca em nenhum j ogo do Walker. Um a sensação boa de perspectiva m e invadiu. Eu sabia que, fosse qual fosse o resultado disso, fosse um sentim ento de euforia ou devastação, ficaria registrado e indelevelm ente inscrito, repetido e perpetuado no coração e na m ente de todos os que am avam o Walker, hom em , m ulher ou criança. Mas tam bém percebi que o que ia acontecer no últim o lance não im portaria, de fato. Ainda desej ava ganhar, louca e desesperadam ente, m as não se tratava m ais de tudo o que eu sem pre quis na vida. Não chegava nem perto.

Os próxim os 4 segundos se passaram em câm era lenta. Everclear lançou a bola que driblou a defesa num a m ira direta e precisa, a bola girou no ar, rum o à end zone. Rhodes saltou com os braços estendidos, a defesa do Alabam a fez a m esm a coisa. A bola caiu e desapareceu em m eio a um m onte de cam isas verm elhas e cam isas azul-turquesa. Um silêncio coletivo recaiu sobre o estádio enquanto os j ogadores foram se levantando, desfazendo a pilha de hom ens, um por um , até que restou apenas o últim o. Era Rhodes, segurando a bola. Em seguida, ele a ergueu com o braço esticado enquanto o árbitro levantou os braços acim a da cabeça, sinalizando um touchdown. Um lance depois, o chute foi perfeito e o Walker venceu. O Walker venceu! Ah, meu Deus, o Walker venceu!

O estádio foi ao delírio com os fãs gritando, se abraçando, dançando, chorando e tirando fotos em todos os lugares para onde eu olhava. Eu continuava parada, sem conseguir acreditar, m e esforçando ao m áxim o para guardar aquele m om ento, m antendo os olhos concentrados em um a única pessoa que estava lá em baixo no cam po, acom panhando cada passo seu, enquanto o treinador abraçava seus j ogadores e depois os encharcava com Gatorade, com o de costum e.

A confusão continuou, e o estádio se encheu de tiras, fitas e confetes azul-turquesa e de m ilhares e m ilhares de flashes enquanto Miller não parava de gritar no m eu ouvido, j á com a voz rouca. Algo finalm ente m e tirou do transe. Fui abraçar Lucy, m as ela estava abraçando Lawton, então abracei Miller, que retribuiu com um beij o m olhado na boca. Eu o encarei, chocada, e ele rebateu:

— Não esquenta. Vou beij ar a sua m ãe assim tam bém !

E foi o que ele fez. Dei risada enquanto Lawton pulou sobre as costas de Miller, derrubando tanto m inha m ãe quanto eu. Então, Lucy se j ogou em cim a de nós com o que revivendo o últim o lance do j ogo, gritando o quanto m e am ava.

— Tam bém te am o — falei, rindo e chorando ao m esm o tem po. Depois, m e esforcei para levantar e poder observar o treinador um pouco m ais. Alguns segundos depois, J.J. apareceu, ofegante, com entradas para a ala VIP, pedindo a Lucy e Lawton para acom panhá-lo. Eles precisavam descer ao cam po para participar da cerim ônia de entrega do troféu.

— Não vam os sem a Shea — ela disse.

— Ora, então vão lá. Vocês três! — gritou J.J.

Balancei a cabeça, m e negando a ir, m as percebi que não teria escolha. Então, m e perm iti ser arrastada pelas fileiras e m ais fileiras da arquibancada de m etal, e, no m eio do cam inho, fui abraçando am igos, conhecidos e estranhos. Bem na hora de entrar no cam po, vi um garotinho que deveria ter uns 10 anos, soluçando de tanto chorar, com a letra “A” pintada nas bochechas, agora m anchadas pelas lágrim as. Parei, m e aj oelhei e disse a ele que tudo ficaria bem .

— Ano que vem você vai ganhar da gente — afirm ei.

Ele estava inconsolável, m as, de m aneira estranha, fiquei feliz por ele. Um dia, a lem brança desta noite iria retornar, fazendo-o sentir o gosto doce da vitória.

Continuam os andando, em círculos, até que encontram os o treinador. Ele estava encharcado de Gatorade, m as posso dizer que tam bém chorou, pois seus olhos estavam verm elhos. Observei-o abraçar Lucy e o ouvi dizer:

— Essa é para ela, Lucy.

— Eu sei, pai. Ela ficaria m uito orgulhosa de você. Eu estou m uito orgulhosa de você — ela disse, soluçando.

Então, chegou a vez de Lawton, e ele com eçou a chorar feito um bebê tam bém . Lem brei-m e dele chorando no enterro da m ãe.

— Queria que ela estivesse aqui. Queria m uito — ele adm itiu ao pai.

— Ela está aqui — afirm ou o treinador, confortando o filho, enquanto eu percebi que a dor verdadeira pode se assem elhar à alegria.

Com ecei a trem er bem no m om ento em que Lucy colocou a m ão sobre m inhas costas. Ela m e em purrou na direção do pai, para os braços dele. Eu a olhei de um j eito confuso, pensando se realm ente ela estava m e encoraj ando a abraçá-lo, m as ela m eneou a cabeça e disse:

— Eu estava errada, Shea. Vá até ele. Você pertence a ele.

Eu a encarei, processando o que ela acabara de dizer, percebendo que nunca tinha ouvido aquelas palavras saindo de sua boca antes: Eu estava errada.

— Vá — ela insistiu, sorrindo em m eio às lágrim as, m e em purrando de novo.

Então eu dei um passo à frente. O treinador sorriu para m im .

— Parabéns! — gritei em m eio a toda a agitação. Em seguida, fechei os olhos e m e j oguei contra o peito dele, sentindo seu coração pulsar debaixo da cam iseta m olhada, inalando o cheiro de sua pele suada.

— Você conseguiu, treinador — falei baixinho, bem próxim o ao ouvido dele.

— Sim , conseguim os, m enina — ele sussurrou, m e abraçando com m ais força. — Finalmente conseguim os.

Afastei-m e, olhando em seus olhos, e eu pude afirm ar que Lucy conversou com o pai. Que ele sabia, antes do j ogo, o que ela tinha acabado de m e falar: Eu estava errada.

Então, confirm ando m eu pensam ento otim ista, ele se inclinou e roçou os lábios sobre os m eus. Foi o beij o m ais breve de todos, m as um beij o verdadeiram ente real, bem aqui, na frente de Lucy e do m undo todo. Foi o m om ento m ais doce de m inha vida, em bora eu soubesse que outros estavam por vir. E em breve.

— Preciso ir. Mas te encontro hoj e à noite, pode ser? — ele perguntou, sorrindo de orelha a orelha.

Tonta de alegria, com ecei a sorrir, enquanto ele cam inhava e adentrava um a m ultidão usando roupas azul-turquesa. Por um m om ento ele se foi, m as logo reapareceu, sendo erguido por alguns j ogadores sortudos, representantes de todos aqueles que algum a vez j á vestiram um a cam isa do Walker, inclusive Miller e Ry an. Fiquei encarando o treinador, cuj o corpo tinha com o pano de fundo um céu negro de veludo coberto por m ilhões de estrelas, um planetário acim a do estádio m ais fam oso de futebol am ericano universitário, e fiquei encantada em pensar que podem os nos sentir tão felizes com um a vitória.

Por outro lado, eu soube que não foi a vitória em si que m e fez sentir assim , m as tudo o que a envolvia. O esforço. A paixão. A fé. As coisas nas quais o treinador Clive Carr m e ensinou a acreditar. Coisas que fazem o futebol am ericano se parecer com a vida... e a vida se parecer com um j ogo.

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