Primeiro e Único

Emily Giffin · Capítulo 3 de 46

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Primeiro e Único

Três

 

“February m ade m e shiver” (Fevereiro m e faz estrem ecer). A estrofe da m úsica American Pie, de Don McLean, ficou na m inha cabeça durante um m ês, um a m úsica sinistra com um a m elodia interm inável. Ela sem pre fora um a das canções favoritas do treinador, m as eu nunca liguei m uito, em parte porque a m úsica se im pregnava e perm anecia com você m uito tem po depois, m esm o quando queria se livrar dela, e tam bém porque era m uito depressiva, todo aquele papo de noivas, de Satanás dando risada e de canção m elancólica no escuro. Agora, a m úsica tam bém m e fazia lem brar de toda a dor da m orte da Sra. Carr, j unto a um a série de outras em oções que m e perturbavam .

Por um lado, eu m e sentia culpada. Culpada por não m e sentir tão triste quanto a Lucy, a m inha m ãe e o treinador. Culpada por conseguir passar um bocado de horas sem pensar na Sra. Carr. Nos m eus m om entos m ais egoístas, eu m e sentia até m esm o im paciente, desej ando que as coisas voltassem ao norm al. Apanhei-m e rezando para que a prim avera chegasse logo ao Texas, acreditando que a m udança de estação aj udaria, j unto ao início dos treinos que acontecia todo m ês de m arço e a toda esperança que acom panhava o renascim ento anual da nossa equipe. Em outras palavras, esperei pelo reaparecim ento do futebol quando m ais precisávam os dele. Com um a excelente tem porada no ano anterior, e a m aioria dos nossos j ogadores iniciantes retornando, m ais a vinda de Reggie Rhodes e a excelente turm a de iniciantes, quase não restavam dúvidas que este seria um excelente ano para nós. Muito bom m esm o e potencialm ente ótim o. Seria um ano doce e ao m esm o tem po am argo sem a Sra. Carr para com partilhá-lo conosco, m as era m elhor que fosse assim do que sim plesm ente am argo.

Mas o futebol am ericano poderia m e distrair do luto e da culpa, e, depois da m orte da Sra. Carr, m e peguei fazendo reflexões sobre a m inha própria vida, de um j eito que antes eu evitava. Eu não conseguia lutar contra o sentim ento de insatisfação pelo estado atual das coisas, tudo aquilo que sem pre m e fez sentir confortável e suficientem ente bem . Meu relacionam ento corriqueiro com Miller. Meu carro e m eu apartam ento sim ples — os quais eu m e recusava a ver com o parâm etros de m edição da vida de ninguém , m uito m enos na m inha —, eram m ais apropriados para um a garota com seus vinte anos do que para um a m ulher com trinta e poucos. Pelo m enos eu tinha um guarda-roupa decente, todas as roupas escolhidas por Lucy e com pradas com um excelente desconto na sua loj a, m as a m aior parte delas perm anecia pendurada dentro do arm ário, j á que eu não tinha a oportunidade de usá-las. Eram roupas boas dem ais para o m eu trabalho na Walker — o que era outra coisa sobre a qual com ecei a refletir. Eu era a diretora-assistente esportiva, o que significa que trabalhava nos bastidores do departam ento atlético, assistindo a partidas interm ináveis, registrando estatísticas e repassando-as para a m ídia. Foi o único em prego que tive desde os m eus tem pos de estágio, em que trabalhei no m esm o escritório, e algo do qual sem pre m e senti orgulhosa e a única e verdadeira fonte da m inha identidade. Mas, de repente, até m esm o o trabalho que eu tanto am ava pareceu pequeno e sem im portância, especialm ente tudo o que não envolvia o futebol am ericano em si. Sei que eu tentava explicar o m eu trabalho dizendo que estava sim plesm ente seguindo a m inha paixão — um argum ento criado para j ustificar o m eu salário m iserável. Sim , o futebol am ericano era a m inha paixão, e Walker, a m inha casa, m as bem lá no fundo eu sabia que perm anecia lá porque m e sentia segura e porque era fácil, não porque fosse exatam ente o certo.

Eu sabia que deveria estar escrevendo sobre esportes, esse era o m eu plano desde que m e form ei em Jornalism o. Mas, de algum a form a, esse sonho nunca se m aterializou. Não sei ao certo por quê, m as provavelm ente tenha sido pelo fato de eu ter de sair do casulo, da Universidade de Walker. Abandonar o treinador Carr. E essa era a últim a — e talvez a m aior — decisão que eu teria de enfrentar nas sem anas que sucederam a m orte da Sra. Carr.

Era difícil dizer ao certo quando a m inha paixão com eçou de fato, porque, desde m uito m enina, sem pre adorei o treinador Carr. Eu o coloquei num pedestal com o um punhado de garotinhas fazem com os seus pais — da m aneira que eu poderia ter feito com o m eu se as m inhas lem branças m ais antigas não fossem dele brigando com a m inha m ãe. Era a voz da m inha m ãe que eu sem pre ouvia no m eio da noite, m as foram aquelas acusações enfurecidas que form aram as m inhas prim eiras opiniões a respeito do m eu pai: traidor, filho da puta mentiroso. Eu era criança dem ais para entender qualquer coisa a respeito de infidelidade ou de outros assuntos, porém , m ais tarde eu j untaria todos os pedaços dessa cronologia sórdida. O que quer dizer que eu saberia que os m eus pais se conheceram quando a m inha m ãe tinha acabado de sair da faculdade e estava trabalhando num a corretora em Dallas, e que na época m eu pai trabalhava num banco de investim ento, e era realocado de cidade de acordo com os contratos que fechava.

Eles form avam um casal que dificilm ente daria certo, m as m inha m ãe se apaixonou pelo bonitão de Wall Street que tinha o cabelo penteado para trás e que usava ternos risca de giz, e m eu pai sentiu-se igualm ente deslum brado pela garota ousada e audaciosa a quem ele cham ou de “rosa am arela do Texas”. O único problem a do rom ance ardente e a longa distância entre os dois e que m e rendeu um a surpresa (m inha m ãe alega que foi um acidente, m as sem pre tive m inhas dúvidas) foi que o m eu pai j á era casado e que havia um bebê a cam inho. Ops. Minha m ãe ganhou a disputa contra a m ulher grávida e laçou o m eu pai, e conseguiu até m esm o que ele se transferisse de Nova York para o Texas depois que o período de três m eses de experiência no trabalho dele em Manhattan lhe pareceu “dem asiadam ente extenso”. (Felizm ente a m inha m ãe trouxe um a caixa com terra de Dallas para Upper East Side, onde nasci, e a colocou debaixo da cam a onde ocorreu o parto, pois assim , tecnicam ente, ela poderia dizer que eu havia nascido em terras texanas.)

Por alguns anos, desde que voltam os para Dallas, m eus pais estavam felizes, pelo m enos segundo a m inha m ãe. Até que, com o se diz por aí, tudo que vai volta, ele fez tudo de novo: traiu a m inha m ãe com a sua prim eira esposa, e acabou ficando com ela e com a m inha m eia-irm ã, Bronwy n. O divórcio sem pre dói, m as dói ainda m ais quando se perde assim , para um a m enina exatam ente da m esm a idade que tinha visto a m inha infância com o nada m ais do que um incôm odo e um a interrupção de sua própria autobiografia. Quando éram os crianças, Bronwy n costum ava contar a m esm a história sem pre que tinha a oportunidade, relatando que o seu pai im plorou para a sua m ãe aceitá-lo de volta depois de ter caído em si em relação à m inha m ãe. E, em seguida, a parte do conto de fadas de que ela m ais gostava: com o ela entrou no triplex da Avenida Madison, com pétalas de rosa sendo lançadas sobre ela pelos três lances de escada até um quarto cor-de-rosa sofisticado, observando a cam a com dossel e lençóis de prim eira linha enquanto m eu pai a levava para o novo quarto.

— Vou ficar aqui com você ou com a m am ãe? — Bronwy n teria perguntado certa vez enquanto os dois estavam atrás dela, sorrindo, com as m ãos rom anticam ente entrelaçadas.

— Com os dois. Vam os nos casar. De novo — anunciaram .

Com o diz a lenda, os três, em seguida, pegaram as pétalas e as j ogaram ao redor da sala e im ediatam ente com eçaram a fazer planos para o casam ento na Toscana, ao qual eu seria obrigada a com parecer. Era um a versão deturpada e distorcida da Cinderela, e Bronwy n aparentem ente nunca acreditou que eu era inocente nessa história do prim eiro caso do m eu pai, assim com o tam bém nunca acreditou que eu havia sofrido com o m esm o destino que o dela, só que o m eu não teve final feliz.

Mas a pior parte do divórcio não foi perder o m eu pai; foi com o a m inha m ãe desm oronou depois da vitória de Astrid e Bronwy n. Ainda consigo m e lem brar de quando eu chegava em casa e a encontrava na cam a, com as cortinas fechadas e o quarto cheirando a cigarro.

Jerry Springer estava se esgoelando na televisão, com o se o único consolo da m inha m ãe fosse ouvir pessoas que tiveram vidas ainda m ais deprim entes do que a dela. Anos depois, descobri que ela teve um a espécie de colapso nervoso, que exigiu a intervenção de Connie Carr seguida de um a internação de seis sem anas num centro de tratam ento disfarçado de Spa 5 estrelas em Austin.

Na época, eu só sabia o que a Sra. Carr havia m e contado: que a m inha m ãe estava doente e que precisaria ficar fora por um tem po para se recuperar e que Lucy e eu dividiríam os o quarto e seríam os com o irm ãs de verdade. Senti saudades da m inha m ãe, m as fiquei contente por estar em um a casa feliz onde havia sem pre alguém com quem brincar e onde os adultos agiam com o adultos. Adorava a form a com o tudo era perfeitam ente organizado — o j antar era pontualm ente servido às sete horas, as orações eram feitas em voz alta e as cam as, arrum adas todas as m anhãs. Adorava a m aneira com o a Sra. Carr estava sem pre de bom hum or, cantando em voz alta enquanto fazia as tarefas dom ésticas. Acim a de tudo, eu am ava a m aneira com o o futebol am ericano estava im buído na vida cotidiana, com o enaltecia as coisas sim ples, fazendo com que tudo parecesse im portante e vívido. Eu j á era um a grande fã de futebol am ericano, m as foi durante essa época que realm ente aprendi as particularidades do j ogo, com ecei a praticar com o treinador, a estudar os diagram as de j ogo dele e até a desenhar por m inha conta o “X” e “O” das coisas que eram as m ais fáceis para m im : a end around (um a j ogada cuj o obj etivo é enganar a defesa); a Hail Mary (que significa literalm ente Ave Maria em inglês, e é com o um a cartada final, um a j ogada utilizada com o últim a opção para vencer ou em patar a partida; nessa j ogada, o intuito é lançar a bola na end zone nos segundos finais da partida e torcer para que o wide receiver consiga segurá-la); a blitz (um a j ogada estratégica na qual o obj etivo é deixar o quarterback e a proteção dele em dúvida sobre quais são os j ogadores envolvidos no lance e quais darão cobertura) e a triple option (um a j ogada na qual há três opções: wishbone, veer ou I formation) de esquem a tático para correr com a bola e avançar com ela pelo cam po.

À m edida que o tem po passou e m inha m ãe voltou a ser o que era, aquela adm iração de infância que eu sentia pelo treinador Carr se transform ou num tipo de reverência. Eu continuava vendo-o na m aior parte do tem po com o o pai de Lucy e um am igo m uito próxim o da fam ília, de fato o único hom em que havia na m inha vida, exceto por um ou outro nam orado da m inha m ãe. Mas, às vezes, especialm ente durante a tem porada de j ogos, m inha afeição por ele beirava a adoração a um herói.

Quando entrei na faculdade, fiquei chocada ao descobrir que o treinador tinha tietes — algum as delas da m inha idade. A garotas com entavam sobre o quanto ele era atraente e estrem eciam , literalm ente, quando ele passava por nós no campus, desfalecendo quando ele parava para m e perguntar com o estavam as coisas e se eu tinha notícias de Lucy. Em bora ele aparentem ente não notasse a tietagem , a futilidade delas continuava m e irritando. Tratei a situação com o desdém habitual que eu sentia pelas garotas im becis do grêm io, m as, no fundo, acho que senti um pouco de ciúm e territorial do m eu ídolo.

Depois da form atura, quando com ecei a trabalhar para a m inha universidade, eu j á nem dava m ais tanta im portância ao assunto. Eu aceitava, com o verdade absoluta, que o treinador era o sol e que todos os outros, inclusive eu, orbitavam ao redor dele, exatam ente da m esm a form a que era em Walker, no Texas. Então, m ais ou m enos três anos atrás, a Sports Illustrated publicou um a grande m atéria de capa com o treinador Carr, cuj o título era “A pequena instituição que tem grande poder: com o o Walker cam inha com — e derrota — os grandões do futebol universitário”. Na m atéria, Alex Wolff fala sobre o nosso campus tranquilo e pitoresco, e sobre o nosso corpo discente pequeno e hom ogêneo. Considerando que tínham os o quarto m enor corpo discente de qualquer outra universidade da Prim eira Divisão — à frente apenas da Tulsa, da Rice e da Wake Forest, nenhum a das quais era sinônim o de futebol —, Wolff m ostrou-se encantado pela nossa com petência de trazer j ogadores de baixa renda de diferentes áreas do país, considerando os nossos elevados padrões acadêm icos, nossos alunos bem preparados e a localização num a cidade pacata que tinha m ais igrej as do que bares, e que fica entre Waco e Dallas. Ele discursou bastante sobre as teorias de sem pre, m as, por fim , com entou sobre o nosso enorm e talento, sobre as nossas habilidades inovadoras e arroj adas, sobre o nosso bucólico campus de tij olos verm elhos, m as encerrou falando sobre o carism a do treinador Carr e de sua “sabedoria” ao selecionador os j ogadores.

Por assistir o treinador em ação, eu sabia que ele de fato abraçava todos os nossos defeitos e encontrava um a m aneira de transform ar o negativo em positivo ao conversar com os pais dos iniciantes, especialm ente com as m ães, que, na m aioria dos casos, eram quem tom avam a decisão final sobre onde seus filhos iriam j ogar. Era o ponto m ais forte da sua lábia. Depois de seduzir todo m undo na sala de estar, e, m uitas vezes a vizinhança inteira, ele explicava (norm alm ente quando o candidato estava distante, longe do alcance de sua voz) que os selecionados se divertiriam m uito, m as que não fariam nada que pudesse m etê-los em algum a encrenca. Em seguida, o treinador destacava de m aneira incrível o alto índice de graduação da Universidade de Walker e o fato de que praticam ente ninguém tinha ouvido falar de qualquer um dos seus atletas indo para o Centro de Práticas Esportivas para praticar qualquer outra coisa que não fosse o futebol am ericano. Durante todo o tem po em que ele atuou com o treinador principal, não houve escândalos — apenas algum as violações do código de honra, de que poucos ficaram sabendo, algum as brincadeiras que deram errado e algum as ocorrências de em briaguez ao volante. A Walker tinha um program a totalm ente lim po e transparente no qual o treinador Carr transform ava garotos em hom ens m elhores. E fazia tudo isso sem pre ganhando, em sucessivas tem poradas gloriosas. Com o Wolff tão eloquentem ente explicou:

Se um garoto assina contrato com a Walker, tem a probabilidade de sair com um diploma, com um troféu e com avaliações muito claras de olheiros, uma combinação irresistível feita por Clive Carr, o estimado treinador que é o responsável pelo processo de seleção. O Knute Rockne da nossa geração, tão enérgico quanto Clint Eastwood, eloquente como Perry Mason e bonito como George Clooney.

Lem bro-m e de ter lido aquele parágrafo e de ficar com os olhos grudados nas fotos do treinador Carr — em um a delas, ele foi fotografado sem perceber, e está de pé na lateral do cam po, com seu fone de ouvido e chapéu, e a outra foto, m ais estilizada, era um retrato m ais pom poso dele, num a quadra. Quando vi as fotos, pensei: Ah, meu Deus.

Tudo o que Wolff escreveu era verdadeiro, m as ainda assim eu m e sentia ligeiram ente aborrecida por ter de dividir o m eu ídolo, o meu treinador, com as m assas. Lem bro-m e que revirei os olhos, e que depois enfiei a revista dentro de um a gaveta, j unto com cupons, clipes e convites de casam ento; em relação a estes últim os, eu havia m e esquecido de confirm ar presença.

Assim que bati a gaveta e a fechei, vi o núm ero de Miller num guardanapo que ele havia m e dado na sem ana anterior, em m ais um a noite de bebedeira. Não dei a m enor bola para ele depois que Lucy o rotulou de perdedor e decidi que provavelm ente ela estava certa. Mas, naquela m anhã, logo depois que com i um prato de sêm ola e um biscoito engordurado, peguei o telefone e liguei para ele. Miller atendeu ao prim eiro toque, saím os naquela noite e estam os nam orando desde então.

Só agora, com a m orte da Sra. Carr servindo com o alerta, percebi o quanto m e tornei um a pessoa presa e o quanto a m inha vida se tornara um a rotina. Algo tinha de ser feito. Eu precisava encontrar um a m aneira de m udar as coisas. De seguir em frente.

Eu estava pensando exatam ente nisso certa tarde, enquanto cam inhava pelas dependências da Walker. Em bora eu estivesse no campus todos os dias, inclusive nos fins de sem ana, eu norm alm ente só ia do m eu escritório, na casa de cam po antiga, para a central de atendim ento ao aluno, onde eu pegava o m eu alm oço. Para falar a verdade, não conseguia m e lem brar de quando foi a últim a vez que cam inhei pelo campus sem um propósito específico. Talvez tenha sido na m inha época de aluna, uns doze anos atrás. Dei um a volta inteira ao redor da área arborizada, fui da Wait Chapel até a quadra, depois para os dorm itórios, prédios de ciências e de negócios que ficam às m argens do rio Brazos, em seguida passei pelas m ansões com a entrada decorada por pilares onde m oravam o pessoal das repúblicas da faculdade. Andei, andei e pensei na Sra. Carr, no treinador, em Miller, no m eu trabalho e na m inha vida.

Então, assim que voltei para o escritório, vi um bilhete na m inha m esa: O treinador Carr quer falar com você. Fiquei olhando a m ensagem por alguns segundos de nervosism o, m e perguntando o que ele queria falar com igo. Provavelm ente só queria conversar sobre a pequena m atéria que Lucy m e pediu para escrever sobre a vida da sua m ãe, que seria publicada no j ornal da nossa cidade. Alguns dias atrás, eu havia entregado um rascunho para o treinador, com um a nota que dizia: Quero saber o que achou. Se for preciso, faço qualquer alteração, sem problemas. Só poderia ser esse o m otivo pelo qual ele queria falar com igo, decidi, enquanto m e levantei da cadeira e cam inhei até o outro lado da casa de cam po antiga, saí pela porta e atravessei o estacionam ento, chegando até o novo, m oderno e reluzente com plexo de futebol. Depois de atravessar o saguão de m árm ore, peguei a escada em espiral e subi três lances, adm irando o santuário dos Broncos, os gabinetes envidraçados cheios de troféus, banners e fotos, e depois digitei o código de segurança para liberar as portas que levariam até a ala dos treinadores.

Quando cheguei ao escritório enorm e, no canto da ala, encontrei a Sra. Heflin, secretária de longa data do treinador e recepcionista, trabalhando.

— Vá em frente, querida — disse ela, j ovial com o sem pre. Sentindo certo desconforto, olhei para porta fechada, que norm alm ente era um sinal de que ele não queria ser perturbado. — Não se preocupe. Ele está esperando por você — ela afirm ou.

Meneei a cabeça, m as, ainda assim , bati com cuidado e fiquei tensa ao ouvir a sua saudação fam iliar, em voz alta, m e pedindo para entrar. Em purrei a porta e vi o treinador sentado à sua m esa, ouvindo a m úsica This ain’t no love song (Esta não é um a canção de am or), de Trace Adkins.

— Venha, m enina! — pediu ele, levantando a cabeça e desviando o olhar de um a tabela com plexa, com os j ogadores de ataque listados no topo e os j ogadores de defesa, abaixo. — Sente-se.

Sentei-m e no sofá de couro m arrom , de frente para a m esa dele, e olhei para as fotos em olduradas que havia ao redor, os artigos de j ornal e as m ensagens de m otivação que decoravam o seu escritório. Nunca m e cansava de olhar para tudo aquilo.

— Bom dia — saudou-m e o treinador, enquanto Brad Paisley com eçou a cantar She’s everything (Ela é tudo). Eu am ava o gosto m usical do treinador, e am ava o fato de ele continuar preferindo o rádio ao iPod cheio de m úsicas country que Lucy lhe dera recentem ente, alegando que o pai gostava de ser surpreendido pela m úsica que viria a seguir.

— Bom dia — respondi, evitando olhar para ele enquanto Brad cantava: “She’s every thing to m e”.

— Bom . Li o seu artigo — disse ele, tirando o papel de dentro da gaveta.

A cópia estava lim pa, sem nenhum a anotação que eu pudesse ver, m as a feição dele estava inexpressiva o suficiente para que eu m e questionasse se eu havia tom ado a direção certa ao escrever aquilo. Será que estava bizarro dem ais, com um tom anim ado dem ais? O treinador Carr gostava das coisas sim ples e obj etivas. Nada de alvoroços, era o que ele sem pre dizia.

— Posso m udar. É só o prim eiro rascunho — m enti. — Então, se tem algum a coisa que o senhor não gostou...

Ele m e interrom peu.

— Não precisa m udar nada. Está perfeito.

Baixei a cabeça e agradeci, com as bochechas queim ando.

— O Walker tem sorte de poder contar com você. E eu tam bém .

Sorri, m as percebi que, em bora suas palavras fossem prom issoras, ele estava com um a carranca, com um a expressão preocupante. Do m esm o j eito que fazia quando olhava para um j ogador que estava prestes a perder o lance inicial.

— Obrigada, treinador — m urm urei.

— Quando J.J. se aposentar, você vai estar preparada para se tornar um a das diretoras esportivas de im prensa m ais j ovens de um a grande escola de futebol am ericano do país. Para m uitos, essa é um a excelente posição.

— Treinador... Por que estou sentindo com o se o senhor estivesse se preparando para m e dem itir?

Ele deu risada e m e pediu para não ser ridícula.

— Além disso, não posso dem iti-la. Não sou seu chefe direto.

Tive de m e conter para não dizer que ele poderia fazer o que bem quisesse, que o nosso diretor esportivo poderia ser o chefe, tecnicam ente, m as que todos sabiam que era o treinador quem m andava em tudo por aqui. Em vez disso, perguntei:

— E tem algum porém?

Ele sorriu, depois fez um a pausa e disse:

— Porém ... isso é realm ente... a sua paixão?

— É um em prego excelente — respondi, m as sabia m uito bem aonde ele queria chegar. Era quase com o se ele tivesse lido a m inha m ente.

— Sem dúvida. É um a posição espetacular. E, para alguns, até m esm o a posição perfeita. J. J. am a fazer m alabarism os com as bolas... É um adm inistrador que am a esporte. Todos os esportes.... Mas você realm ente nasceu para fazer isso?

— O que o senhor quer dizer? Eu am o futebol am ericano — retruquei, percebendo o m eu erro im ediatam ente. O futebol era apenas um a pequena parte do m eu trabalho, pois a Walker tinha outras quatorze m odalidades de esporte.

— Certo. Sei que você am a escrever tam bém . Mas o seu trabalho não envolve nem futebol nem escrita. Está relacionado com a m anutenção da im agem da instituição. Acom panhar as corridas m asculinas de cross country e os j ogos de vôlei fem inino. Elaborar com unicados de rotina para a im prensa, produzir guias de m ídia. Ao final do dia, acaba sendo um trabalho de Relações Públicas, não algo que envolva a escrita em si.

— Às vezes eu escrevo. Gosto de escrever assim — falei baixinho, olhando para baixo, para as m inhas m ãos.

— Eu sei, m enina. Eu sei. É essa a m inha dúvida.

Fiz que sim com a cabeça, m as ainda assim não consegui olhar para ele.

— Você deveria estar escrevendo — acrescentou ele.

— Mas eu escrevo.

— Escrevendo em tempo integral. No ensino m édio e na faculdade você escrevia m ais do que aqui.

— Sim . Matérias ridículas para o j ornal da escola — retruquei, fixando o olhar bem acim a da cabeça dele, num a prateleira cheia de fotos que tinham vindo do nosso departam ento, o registro de vários m om entos ao longo de anos, incluindo um a foto de quando eu estava no últim o ano da faculdade, de Ry an Jam es na lateral do cam po com um dedo apontado para cim a e o outro braço ao redor do seu treinador querido.

— Eram m atérias de nível profissional, Shea. Diferente de qualquer trabalho de aluno que eu j á vi.

Senti um calafrio quando m eus olhos encontraram os dele.

— Obrigada — falei, esforçando-m e para não desviar o olhar.

— Além disso... você não deveria se lim itar a Walker. Há um m undo im enso lá fora.

Foi um a afirm ação estranha, partindo de um hom em cuj a vida inteira girou em torno da Walker, e não consegui m e conter em relação a esse ponto, o que foi um a ousadia e tanto para m im .

— E quanto ao senhor? Recusou a proposta de Bills.

Assim que as palavras saíram , percebi que a com paração foi infeliz. Ele era o técnico principal de futebol am ericano. Ele era o Walker.

O treinador deu de om bros:

— Eu nunca conseguiria m orar em Buffalo. Frio dem ais. E eu am o o j ogo universitário.

— Bem , e eu am o o Walker — afirm ei.

Ele m e encarou. Então, quando eu não podia suportar nem m ais um segundo, ele retirou um pedaço de papel dobrado de dentro da gaveta e esticou o braço em cim a da m esa para entregá-lo a m im . Desdobrei o papel e olhei para o núm ero de um telefone e, abaixo dele, o nom e Frank Sm iley.

— Você o conhece, certo? — perguntou o treinador.

Balancei a cabeça, afirm ando. Eu havia falado com Sm iley apenas algum as vezes, de passagem , em coletivas de im prensa, m as sabia exatam ente quem ele era: o editor de esportes do The Dallas Post, o único j ornal de grande circulação com um a legítim a seção de esportes que havia no Texas. Sm iley era um repórter rabugento e audacioso, das antigas, que não escondia de ninguém que ansiava pela volta dos bons tem pos, aqueles tem pos em que os caras não cham avam a atenção para si m esm os; que os atletas universitários realm ente com pareciam às aulas e se form avam depois de quatro anos; os investidores não com pravam carros esportivos, e as em issoras não tinham o controle das coisas; o dinheiro não im perava nas entrevistas coletivas; a rivalidade de fato tinha o seu significado e os j ogadores perm aneciam com o m esm o tim e profissional para a vida inteira, bem com o os treinadores. Seu com portam ento na sala de im prensa era lendário, pois ele sem pre sabia arrancar a resposta de um treinador, fazendo a pergunta certa com o tom apropriado. Sabe-se lá com o, acabavam gostando dele m esm o quando se m ostrava inconveniente, e o entrevistado se sentia na obrigação de soltar algum a inform ação porque não dava para agir com indiferença diante de um cara tão anim ado. Era profissional, sem a m enor dúvida.

— Ele está procurando um repórter — anunciou o treinador.

— Para qual furo de reportagem ? — perguntei, cruzando os braços, certa de que Sm iley não estava procurando um a repórter do sexo fem inino e sem experiência.

— Não sei. Não tenho os detalhes. Ele só com entou que perdeu dois caras pro ESPN e outros dois para um site de esportes...

— Posso até ouvir o discurso agora....

O treinador sorriu, depois im itou Sm iley com perfeição:

— “Ninguém m ais quer suj ar as m ãos de tinta logo de m anhã?” — disse ele, referindo-se, claro, à tinta dos j ornais.

— Eu quero — afirm ei, levantando as m ãos espalm adas.

O treinador piscou para m im , depois apontou para a pilha de j ornais sobre a m esa.

— Enfim . Sm iley perguntou se eu conhecia alguém . — O treinador olhou para m im propositadam ente.

— E? O senhor conhece? — perguntei, m e fazendo de desentendida.

— Claro que conheço.

— E quem é? — questionei, bancando a idiota enquanto, por dentro, entrava em pânico.

— Você.

Não hesitei.

— Eu j á tenho em prego.

— Certo. Mas esse outro é m elhor. E, se você consegui-lo, deve aceitar. Mesm o que isso signifique que terá de dizer algum as coisas agradáveis em relação aos outros program as.

Sorri e falei:

— Sem chance. Isso é quebra de acordo.

— Shea, ligue para Sm iley. Pode ser um a grande oportunidade para você — insistiu o treinador, com a expressão séria de quem faz negócios.

Tive a sensação de que ele estava pensando em Connie, provavelm ente algo em relação à brevidade da vida dela, à im portância de agarrar um a oportunidade, e a todas coisas pelas coisas eu andava obcecada ultim am ente. Assenti, sabendo que ele estava certo e que eu não poderia de form a algum a m e recusar a com parecer àquela entrevista. Ou a qualquer outra coisa que o treinador m e pedisse para fazer.

— Ok. Vou ligar para ele.

— Que bom — disse o treinador, recostando-se em sua cadeira com um a expressão de satisfação. — Ah, m ais um a coisa.

— Sim ? — respondi, enquanto Kenny Chesney cantarolava “Com e over, com e over, com e over” (Venha, venha, venha) ao fundo.

— O que você realmente sente pelo Miller?

Dei de om bros, e a resposta ficou clara.

— É.... Foi o que eu im aginei.... Entre você e eu, quem está certa é a Lucy.... Você é dem ais para aquele rapaz.

Eu o encarei, chocada, e ele ficou m e encarando tam bém , depois piscou.

— Não estava esperando por essa, estava?

— Não, treinador. Com certeza não — respondi por fim .

Sorri e balancei a cabeça, com ovida pela preocupação dele, m as inexplicavelm ente constrangida. Depois de todos aqueles anos, a adoração pelo herói ainda vinha à tona em m om entos inesperados, m e perturbando.

— Então, está bem . — Ele m e deu um sorriso discreto e voltou a olhar para o diagram a com plexo, sinalizando que a nossa conversa tinha term inado.

Levantei-m e e pedi licença discretam ente, sem querer quebrar a concentração dele nem desperdiçar m ais um segundo do seu tem po. Quando passei pela Sra. Heflin e, em seguida, voltei para o m eu escritório, pensei em com o eu deveria m e vestir para a m inha prim eira entrevista de verdade e em outra questão, que m e preocupou m ais. Com o exatam ente eu daria aquela notícia a Miller.