Primeiro e Único
Cinco
Mais ou m enos um a sem ana depois, concordei em encontrar Lucy na casa dos pais dela. Minha m ãe tam bém foi, com o obj etivo de desfazerm os o closet de Connie, um a tarefa que eu não poderia tem er m ais.
— Algum a notícia do Miller? — perguntou Lucy enquanto esperávam os pela m inha m ãe, que estava atrasada com o sem pre.
— Não — respondi, observando-a m exer o chá, colocando o açúcar do m esm o j eito que o treinador Carr.— Talvez sej a m elhor assim .
Lucy assentiu, concordando. Foi quando ouvim os o estrondo da porta da garagem .
— Meu pai chegou — anunciou Lucy.
Instintivam ente, endireitei o corpo e fiquei m ais ereta, depois passei a m ão pelo cabelo, aj eitando-o.
Lucy sem icerrou os olhos e m e olhou de um j eito engraçado.
— Você está aj eitando o cabelo? — perguntou, encarando-m e.
— Não. Claro que não — rebati, sentindo-m e constrangida sem saber por quê.
— Tá bom ... é que você fez o m esm o gesto que sem pre faz quando está num bar e um cara bonito se aproxim a de você.
— Que gesto?
Ela m e im itou perfeitam ente.
— Eu não fiz isso — retruquei, sentindo plena certeza de que eu não estava falando a verdade. Talvez eu tivesse aj eitado o m eu cabelo, m as não daquele j eito.
— Que bom . Porque, se tivesse feito... isso seria realm ente, m uito... estranho.
— Você está estranha — falei, com aquele j eito de garotinha que m uitas vezes eu usava quando estava perto de Lucy, e ela fazia com igo.
Um segundo depois, a porta lateral se abriu e o treinador apareceu usando o uniform e de aquecim ento do Walker e um boné de beisebol. Desviei o olhar enquanto Lucy o cum prim entava com um beij o e o lem brava o m otivo de estarm os ali, j untas.
— Bom , obrigada, m eninas. Acho que está na hora de... — disse ele com a voz rouca e ao m esm o tem po suave.
Nós três ficam os parados ali, em um a situação em baraçosa, até que a cam painha da porta tocou e Lucy anunciou:
— Deve ser a sua m ãe.
Ela foi para a antessala, deixando-m e sozinha com o treinador.
Ele falou prim eiro.
— Ligou para o Sm iley ?
— Sim — respondi, sentindo-m e aliviada porque naquela m anhã, finalm ente, eu havia conseguido fazer a ligação. — E term inei com o Miller tam bém .
O treinador ergueu as sobrancelhas e soltou um assovio.
— Está surpreso?
— Muito. Com o você está se sentindo?
Hesitei por um m om ento, depois respondi:
— Esperançosa... Em bora neste exato m om ento eu só estej a pensando na Lucy.
O treinador pigarreou e se serviu de um a caneca de chá.
— Sabe, não quero apagar todos os vestígios da Connie, m as acho que tam bém não é bom m anter um m useu. E, no fim das contas, são apenas coisas. Coisas m ateriais. Coisas boas que devem ser usadas e aproveitadas. Connie gostaria que fosse assim .
— Claro — concordei, desviando o olhar para o balcão, perguntando-m e por que Lucy e m inha m ãe estavam dem orando tanto. Hesitei, m as depois criei coragem e perguntei: — Com o o senhor está?
Ele pareceu surpreso com a m inha pergunta, depois suspirou fundo e respondeu:
— Estou bem . As m anhãs têm sido difíceis. Era nesse horário que Connie e eu costum ávam os conversar m ais... É m uito difícil acreditar nisso tudo que aconteceu... É com o.... — Ele balançou a cabeça, procurando as palavras. — É com o um a experiência fora do corpo... Não vej o a hora de a nova tem porada com eçar. O futebol am ericano aj uda m uito. É um a distração. Me m antém ocupado, entende?
— Sim , entendo... Sinto m uito, treinador. Não sei se deveria ter perguntado isso para o senhor, m as... sinto m uito, m uito m esm o — falei, sentindo um a dor invadir-m e o peito.
— Sei que sente, m enina — disse ele, esticando o braço para segurar a m inha m ão. — Obrigado por perguntar.
Ele puxou a m ão de volta e a colocou sobre o balcão quando m inha m ãe e Lucy entraram na cozinha.
— Oiiiiiii, Clive! — cum prim entou m inha m ãe. Ela era a única pessoa que cham ava o treinador pelo prim eiro nom e. Até m esm o Connie o cham ava de Poppins, em bora eu não soubesse por quê. Certa vez, perguntei a Lucy qual era a história que havia por trás do apelido, m as ela disse que não conseguia se lem brar, o que m e espantava.
— Oi, Marie — respondeu o treinador, beij ando-lhe o rosto.
— Com o você está? — perguntou m inha m ãe, fazendo com que a pergunta se parecesse com pletam ente diferente da que eu havia acabado de fazer a ele. Enquanto a m inha tinha sido m ais hesitante, a dela foi m ais ousada, na fronteira da condescendência, igual aos potes de Tupperware cheios de sopa no refrigerador, todos com etiquetas com descrições escritas à m ão por ela, tais com o: “Tom ate com m anj ericão para aquecer o seu coração” e “Crem e de cogum elo para esquentar as suas noites em frente à TV”.
— Levando. Me segurando — respondeu o treinador rapidam ente.
Posso afirm ar, pelo seu tom de voz e pela sua linguagem corporal, que ele estava nervoso — algo que aprendi por observá-lo ao longo desses anos. Mas eu tam bém sabia que ele apreciava a lealdade da m inha m ãe, e o fato de que, diferentem ente de m uitos, o carinho que ela sentia por ele e pela sua fam ília não estava ligado a vitórias no j ogo de futebol.
— Bem , vou para o escritório. Se precisarem de m im ... — avisou ele.
— Tudo bem , pai — respondeu Lucy.
— Com o você acha que ele está se sentindo de verdade? — sussurrou m inha m ãe depois que o treinador saiu da cozinha.
Lucy deu de om bros e sussurrou de volta:
— É difícil dizer. Ele não conversa sobre isso.
Depois de duas horas extensas e exaustivas, tínham os m exido apenas em um a pequena parte do closet da Sra. Carr, separando as roupas, lenços, cintos e bolsas em três pilhas: doar para instituições de caridade, guardar no sótão, transferir para o closet de Lucy. Minha m ãe e eu ficam os sentadas com as pernas cruzadas no chão do quarto enquanto esperávam os Lucy aparecer com um a nova pilha de coisas, e, a cada nova rem essa, discutíam os e a aj udávam os a definir qual seria o destino das peças. Foi um a tarefa dolorosa. Cada item desenterrava lem branças, às vezes, de três perspectivas diferentes. Com o estávam os reunindo um a cronologia e um a biografia inteiras, um com posto de dias bons e ruins, de grandes ocasiões e de m om entos de silêncio, passou pela m inha cabeça que poucas coisas contam m elhor a história de vida de um a m ulher que um closet.
— Ah, Lucy, você tem que ficar com esta — sugeriu a m inha m ãe, pegando um dos lenços coloridos e favoritos de Connie, da Herm ès.
— Eu j am ais poderia usar — disse Lucy, passando o lenço por entre os dedos, com o lábio superior trem endo. — Isso é tão... ela.
— Mas, querida, tam bém se parece com você — argum entou m inha m ãe, o que era verdade. À m edida que crescíam os, pude ver que Lucy se vestia cada vez m ais com o a m ãe. Ela sem pre fora um a pessoa elegante, m as seu j eito de se vestir estava ficando m enos tendencioso e m ais sofisticado, atem poral. Mesm o o público que frequentava a sua loj a com eçava a am adurecer.
Lucy colocou o lenço de seda ao redor do pescoço e sussurrou “ok”, passando para um a cam isa rosa de m anga com prida.
— Ah, esta aqui traz boas lem branças — disse m inha m ãe.
Lucy franziu a testa e disse que nem se lem brava de ter visto a m ãe com aquela peça.
— Eu estava com a Connie quando ela a com prou, na Neim an’s. Ela usou essa cam isa na últim a reunião do clube de j ardinagem . Na casa de Ly nn Odom . Foi um ótim o dia.
— Você quer levá-la? Odeio a ideia de im aginá-la na m ão de estranhos.
Piscando para conter as lágrim as, m inha m ãe disse:
— Tudo bem , querida. Eu vou levá-la... Não posso prom eter que vou usá-la, m as vou adorar a ideia de ficar com ela. — Minha m ãe retirou um lenço com m onogram a que m antinha em sua bolsa, um hábito que herdou de Connie.
Lucy fez um gesto apontando para a pilha de doações.
— Mais algum a coisa? Por favor? — perguntou ela, parecendo confusa, com a voz baixinha e triste. Tudo em relação a ela parecia m uito frágil, um contraste enorm e com sua personalidade norm alm ente forte. — Eu realm ente prefiro que essas coisas fiquem com você. Shea, com você tam bém .
Hesitei. Eu realm ente não m e sentiria bem ficando com qualquer peça de Connie, m as m e senti desesperada para confortar Lucy, do j eito que ela tantas vezes fez por m im .
Minha m ãe respondeu por nós, acariciando os cabelos de Lucy.
— Ouça, querida. Que tal eu levar para m inha casa toda essa pilha das peças que separam os para doações? Assim , você terá um pouco m ais de tem po para decidir... Vou m anter tudo guardado para você. Por enquanto.
— Obrigada, Marie — agradeceu Lucy, e deu um abraço longo na m inha m ãe. As duas sem pre foram m uito próxim as, pois tinham personalidades m uito parecidas, talvez m ais próxim as um a da outra do que eu de Connie. Mas estava claro nos últim os m eses que elas tinham ficado ainda m ais próxim as, e que m inha m ãe era um a grande fonte de conforto para Lucy. Não só um a figura m aternal, m as tam bém um a am iga verdadeira.
— Só m ais um a peça e term inam os por hoj e — afirm ou Lucy, puxando um a caixa de sapatos e um recibo de dentro de um a sacola preta da Saks, com desenhos de flocos de neve. Ela verificou a data e disse: — Dezem bro do ano passado. Um pouco antes de ela receber a notícia...
Prendi a respiração enquanto Lucy abria a caixa, revelando um par de sapatos pretos estilo chanel, de cam urça. Ela rem oveu a etiqueta que estava presa em um a das pontas, depois pegou o sapato e passou os dedos pela sola intacta. Senti um nó na garganta. Havia algo m uito trágico naquele par de sapatos belíssim o e nunca utilizado. Im aginei a Sra. Carr experim entando-os, passeando pelo tapete m acio da loj a, se perguntando se deveria ou não com prar. Minha m ãe deve ter pensando a m esm a coisa, porque sugeriu:
— Talvez você ainda possa devolvê-los.
A expressão de Lucy se anuviou.
— Ah, eu não poderia fazer isso.
Im ediatam ente, m inha m ãe se deu conta do erro que com etera.
— Eu sei, querida. Você está certa. Claro que não poderia.
— Shea, você vai ficar com eles. É o seu núm ero — declarou Lucy.
Balancei a cabeça, desej ando que m e surgisse algum a desculpa bem rápida.
— Por que não? Não gostou deles? — perguntou Lucy, parecendo m agoada.
Era o tipo de pergunta que, por m ais que eu pensasse num a resposta, sairia perdendo e eu não poderia de form a algum a ofender o gosto de sua m ãe.
— Gostei sim , m as... eles não fazem m uito o meu tipo.
— O que você quer dizer com “não fazem m uito o m eu tipo”? São lindos, saltos clássicos. Com o não fariam o seu tipo? E por que você não quer levar nada que foi da m inha m ãe? — Lucy disse isso bem na hora em que o treinador Carr apareceu na porta do quarto.
— Com o estão indo as coisas por aqui, garotas? — perguntou ele.
— Bem — respondeu Lucy, assoando o nariz e aparentando estar bem , apesar de tudo.
— Você precisa do seu quarto agora? Term inam os... por enquanto.
— Fiquem o tem po que for preciso — respondeu o treinador, olhando para o lenço de seda ainda no pescoço de Lucy.
Lucy retirou o lenço e o girou no ar, depois o observou trem ulando até cair no chão.
— Lem bra desse, pai? — ela perguntou com a voz pesarosa.
— Claro que sim . A sua m ãe o usava m uito. — A voz do treinador pareceu triste e distante.
— Pai? Tem certeza de que está pronto... para isso? Não é cedo dem ais? — indagou ela.
O treinador engoliu em seco e disse:
— Era cedo dem ais para que ela nos deixasse, m as ela se foi m esm o assim . Então, tem os de seguir em frente. — Ele desviou o olhar do lenço para a caixa de sapatos aberta e esparram ada no chão, entre nós.
— Pai, não acha que a Shea deveria ficar com eles? — Lucy tirou am bos os sapatos da caixa, apoiando os saltos sobre os seus dedos m indinhos. — São o núm ero dela. Não acha que a m inha m ãe gostaria de ver a Shea usando?
Eu o observei processando a pergunta antes de balançar a cabeça devagar, concordando.
— Sim , Lucy. Acho que devem ficar com ela sim .
— Então, aqui está — afirm ou Lucy, soltando os sapatos em cim a do m eu colo, dando o assunto por encerrado.
— Obrigada — agradeci, olhando para os sapatos, e depois os coloquei cuidadosam ente de volta na caixa. Eu ainda não conseguia m e im aginar calçando-os, m as os m anteria guardados no m eu arm ário, m uito bem escondidos.