Primeiro e Único

Emily Giffin · Capítulo 32 de 46

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Primeiro e Único

Trinta e dois

 

— Ora, ora, ora — disse Ry an, os m úsculos do pescoço ficando evidentes enquanto ele encarava algo atrás de m im . — Olha só quem vem aí.

Eu j á sabia quem era antes de m e virar e olhar para Miller, que vinha em polgado em nossa direção, parecendo tão feliz quanto eu estava m e sentindo segundos antes. Quando ele chegou à m esa, vi m eu cartão de crédito em sua m ão.

Levantei e com ecei a considerar m inhas opções. Eu sabia que cum prim entá-lo com um abraço e sussurrar em seu ouvido seria encrenca, m as era a m elhor opção que eu tinha. Minha única esperança.

Então, foi o que fiz: m e afastei de Ry an, indo em direção a Miller, m e inclinando rapidam ente para sussurrar:

— Não com ente nada sobre a outra noite.

É claro que o tiro saiu pela culatra, j á que ele estava bêbado dem ais para entender.

— O quê? Não entendi — ele falou em voz alta. Então, segurando-o para que o m undo visse, declarou: — Estou com seu cartão de crédito!

Ry an levantou-se, o peito estufado, com o se estivesse pronto para dar um soco. Mas, no segundo seguinte, ele se aj eitou, parecendo m ais am eaçador do que se estivesse em um a típica briguinha de bar.

— O que tem os aqui? — ele perguntou enquanto Miller m e entregava o cartão.

— Meu cartão de crédito — m urm urei, enfiando-o no bolso de trás.

Àquela altura, Lucy j á tinha dado um abraço em Miller e com entado, em tom de brincadeira:

— Bom te ver, Miller. Gosto m ais de você depois de um a grande vitória! Ou talvez só porque você não estej a m ais nam orando a Shea.

Miller sorriu, m as falou:

— Não banque a vaca, Lucy.

Lucy fez um a careta, colocou a m ão nos quadris e exclam ou:

— Gente, vocês ouviram isso?! Miller acabou de m e cham ar de vaca.

— Não, não cham ei — retrucou ele, ainda sorrindo. — Só te dei um conselho, de todo o coração. Não banque a vaca! — Em seguida, ele ergueu seu copo, reclinou o corpo, encarou o teto e gritou, a voz enchendo o bar: — Foda-se, Texas!

Depois de alguns segundos, todos explodiram num coro de “Foda-se, Texas!”, exceto Ry an, que estendeu a m ão e agarrou m eu braço.

— Pode vir aqui um pouquinho? — ele perguntou, m e puxando pelo braço e m e levando na direção do banheiro, nos fundos. Claro que não foi um a pergunta nem um convite; foi um a ordem .

— O que está fazendo? — resm unguei, em bora soubesse m uito bem o que ele estava fazendo.

— Você se im portaria de m e contar por que Miller está com o seu cartão de crédito? — ele interrogou enquanto m e arrastava.

— Esqueci no bar aquele dia. Eu te contei — expliquei, com o coração saltando pela boca.

— Sim ... E com o é que ele foi parar nas m ãos do Miller?

— Acho que ele... encontrou no balcão do bar.

— Pensei que você havia dito que não tinha encontrado com ele!

Ocorreu-m e que eu poderia contar outra m entira, dizendo que Miller tinha chegado ao bar depois que saí, m as eu sabia que a prova estava ali. Ry an era esperto e determ inado dem ais para não investigar as coisas a fundo.

— Tudo bem . Ele estava aqui. Eu o vi na véspera do seu j ogo.

— Então você mentiu para m im ?

— Me desculpe.

A confissão deve tê-lo surpreendido e indignado ainda m ais, porque Ry an gritou:

— Te desculpar? — Ele apertou m eu braço com m ais força. Tentei m e desvencilhar, m ais preocupada com um provável escândalo do que com qualquer outra coisa, m as não consegui.

— Desculpe. Ele apareceu no bar aquela noite... Mas foi só isso. — Tentei m e soltar de novo, m as assim com o aquelas arm adilhas chinesas de dedo, quanto m ais eu puxava, m ais, ele apertava. — Não posso controlar quem entra no bar!

Ele deu um passo em m inha direção, m e encostando contra a parede.

— Você m entiu para m im ! — ele berrou, apontando o dedo contra m eu peito.

— Eu sei, sinto m uito — falei, m e encolhendo para m e esconder ao ver um a garota passando para o banheiro fem inino. Ela m e olhou nos olhos e ficou nos encarando, obviam ente entendendo tudo.

— Você sente m uito? — ele perguntou com a voz sarcástica. — Você está sem pre dizendo isso, Shea. Não está?

— Mas eu sinto m uito — repeti, m e sentindo patética e envergonhada. Não por ter m entido, m as por estar encurralada assim , em um bar, ainda por cim a.

— Mentira! — berrou ele. — Sente nada!

— Sinto, sim , Ry an. Sinto m esm o. Só m enti porque você estava m uito chateado por causa do j ogo e eu não queria deixar as coisas ainda piores. Não tem nada acontecendo... Eu só o vi no bar. E ele achou o m eu cartão de crédito. Foi isso. — Falei da m aneira m ais rápida que pude, m as nada parecia funcionar.

— Você só o viu no bar? — ele gritou ainda m ais alto, enquanto outra garota e um cara que estava com ela ficaram olhando para nós.

— Digo nós conversam os. Mas estávam os com um pessoal... foi isso. — Quanto m ais eu balbuciava, m as irritado ele ficava. Em determ inado m om ento, ele agarrou m eu outro braço, e ficam os a um centím etro de distância apenas, então não tive outra opção senão ficar cara a cara com ele, vendo todas as suas veias saltarem , e as linhas de expressão do seu rosto distorcidas de raiva.

— E m esm o assim ele achou o seu cartão de crédito. Hum . E com o é que isso aconteceu, exatam ente?

— Esqueci o cartão. E ele guardou para m im , foi isso. Você acha m esm o que ele m e entregaria na sua frente se estivesse rolando algo entre nós? — Agora eu estava desesperada, m inhas bochechas pegando fogo.

— Sim . Acho que entregaria. Acho que ele sim plesm ente amou m e desrespeitar na frente de todo m undo.

— Ninguém desrespeitou você. Deixe de loucura!

— Loucura? — ele retrucou, apertando ainda m ais.

— Ai! — falei, fazendo um a careta. — Ry an, você está m e m achucando. Me solta!

— Não estou louco, Shea. Foi você quem ficou bêbada, esqueceu seu cartão de crédito e pediu para o ex-nam orado guardá-lo. Foi você que não fez o que tinha prom etido. Foi você que m entiu para m im . O que eu deveria pensar?

— Você está exagerando — resm unguei, com o suor escorrendo pelas laterais do rosto. — Me solta!

— Não. Me responda. O que eu deveria pensar?

Meu braço estava doendo dem ais para tentar soltá-lo, então parei e disse:

— Você está fazendo um escândalo.

— Responda a pergunta. O que eu deveria pensar?

Respondi que não sabia. Minha voz saiu quase com o um choram ingo.

— Tudo bem . Vou te dizer o que estou pensando. Você transou com ele, não transou? Adm ita, Shea. Você transou com ele.

— Não.

— Sim , transou — ele gritou novam ente, m e chacoalhando.

— Não, Ry an — neguei, prestes a chorar. — Não transei. Juro que não. Não aconteceu nada.

Àquela altura, Lucy apareceu, e logo entendeu tudo, com os olhos arregalados, horrorizada.

— O que está acontecendo aqui? — ela questionou, e Ry an finalm ente m e soltou.

— Nada. Estou caindo fora — Ry an afirm ou.

Ele se virou e saiu, furioso, m e deixando com Lucy.

— O que diabos aconteceu aqui? Isso foi porque o Miller chegou? — questionou.

Fiquei em choque, m as consegui não chorar enquanto contava a história nos m ínim os detalhes.

Ela olhou para a m arca verm elha no m eu braço e fez um a careta.

— Não m achucou — falei, desej ando estar com m eu casaco.

— Meu Deus! — exclam ou.

Ainda em choque, falei:

— Posso ver o quanto fiz m al para ele. Deus do céu, eu não deveria ter m entido.

— Isso não j ustifica a atitude dele. Não há nada que j ustifique isso — ela com entou.

— Eu sei — concordei, em bora com eçasse a ouvir as j ustificativas que invadiam m inha m ente: Ele tem mãos grandes. Não sabe a força que tem. E o m ais patético: A culpa é minha.

Lucy ficou angustiada.

— Shea, querida. Não gostei disso. Nem um pouco. Acho que talvez Blakeslee tenha dito a verdade em relação a ele. De algum a form a...

Talvez. De alguma forma. Pude ver e ouvir o quanto ela estava tentando am enizar as coisas, encontrar um a m aneira de isentar Ry an, sem querer acreditar no que tinha acabado de acontecer. Com certeza Ry an não era aquela pessoa, e com certeza eu não estava em perigo.

— Eu só quero ir para casa — falei.

— Você não vai dirigir.

— Está tudo bem , posso dirigir, sim . Falando sério.

Contra a sua vontade, Lucy concordou, depois disse:

— Tudo bem , m e ligue assim que chegar em casa. Estou m uito preocupada com você.

— Não fique. Vou ficar bem . Prom eto — afirm ei, com o que desej ando que aquilo realm ente fosse verdade.

Quando destranquei a porta do m eu apartam ento, o celular tocou. Esperei que fosse Lucy ou talvez Ry an, m as era o treinador. Ele estava com a voz bem alegre quando disse “alô”, o que m e fez lem brar do que aconteceu naquela noite: o Walker daria m ais um passo rum o à terra prom etida.

— Oi, treinador — saudei, tentando invocar a alegria que tinha sentido pouco tem po atrás.

— Onde você está? — questionou.

— Em casa.

— Sozinha?

— Sim .

— E aquele j ogo, m enina, o que foi aquele jogo? — perguntou ele, dando risada.

— Foi ótim o. Maravilhoso. Estou m uito feliz por você. E orgulhosa — com entei, tentando parecer o m ais natural possível, com o se nada tivesse acontecido.

Acho que não m e saí m uito bem na tentativa, porque ele perguntou:

— O que houve?

— Nada — respondi, enquanto fui para o sofá e m e aninhei em posição fetal, apoiando o telefone entre o om bro e a orelha.

— Vam os, diga a verdade. O que está acontecendo? Me conte.

Respirei fundo e confessei:

— Tive um a briga com Ry an. No Third Rail. Foi isso.

— Ah, m eu Deus. Por quê?

— Por causa de uns assuntos do passado. Ele acha que eu ainda tenho algum a coisa com Miller e eu não tenho. É óbvio — respondi.

— E ele ficou com ciúm es?

— Sim . E m uito bravo... Foi horrível.

— O que aconteceu? Quer conversar sobre isso?

Para ser sincera, eu não queria, m as senti que tinha de explicar para ele, ainda que superficialm ente.

— Estávam os no Third Rail com Lucy e Neil, com em orando, e... — Minha voz vacilou, m as eu continuei: — Miller apareceu, Ry an ficou bravo e as coisas ficaram feias.

— Feias?

— Sim — confirm ei, pensando que essa palavra resum iria tudo. — Por causa do Ry an. Miller sim plesm ente agiu daquele j eito alegre de sem pre.

— E o que o Ry an fez?

— Você sabe... ele só... perdeu a cabeça e agiu de um j eito estúpido.

— Você está bem ?

— Sim — respondi, m e lem brando de com o aquelas pessoas no bar ficaram olhando para m im . Com cara de pena e preocupação, o oposto de com o geralm ente olhavam para m im quando eu estava com Ry an. — Estou bem .

— Quer que eu vá até aí?

A resposta era “sim ” e “não” ao m esm o tem po, então falei:

— Não sei...

E então, com o eu tive a sensação de que ele só estava preocupado com igo e tentando fazer a coisa certa, falei:

— Não precisa. Estou bem .

— Sei que não preciso fazer isso. Quero te ver — ele declarou e, por alguns segundos, foi com o se nada pudesse atrapalhar aquele m om ento. Ele era sim plesm ente um hom em que gostava de um a m ulher. Pude sentir em sua voz. Tive certeza disso e, apesar do que tinha acontecido, senti certa em polgação pelo fato de o treinador querer dividir um a noite tão especial com igo.

— Quero te ver tam bém — falei.

— Com binado, então. Só preciso fazer um as ligações e logo apareço aí.

— Certo — concordei de novo, paralisada na m esm a posição, sem ao m enos afastar o telefone quente do m eu rosto m esm o alguns segundos depois de o treinador ter se despedido e desligado. Calculei que, considerando as ligações que ele disse que faria, m ais o traj eto de carro até m inha casa, eu tinha pelo m enos vinte m inutos, tem po suficiente para tom ar um banho rápido e m e aj eitar. Lutando contra um a enorm e sensação de cansaço, m e esforcei para sentar, m andei um a m ensagem para Lucy dizendo que tinha chegado em casa e que estava tudo bem , depois fui para o corredor, entrei no m eu quarto, depois no banheiro, e com ecei a tirar a roupa. Quando tirei a calça j eans, o cartão de crédito que estava no bolso de trás caiu no chão. Fiquei olhando para ele, m as não o peguei. Depois, com ecei a tirar a blusa, deixando os braços por últim o, especialm ente o esquerdo, que doía. Então, tirei a calcinha e o sutiã, e fiquei encarando m eu corpo nu de frente para o espelho. De frente não dava para ver as m arcas no braço, o que m e fez sentir m elhor, de algum a form a. Dei alguns passos até o chuveiro e m udei a tem peratura para a m ais quente, m e perguntando se o que tinha acontecido no bar havia m e transform ado em m ais um a vítim a para as estatísticas.

Esperando a água esquentar, pensei que aquilo tinha sido m uito leve para ser levado em conta, m as logo em seguida m e adverti para deixar de ser estúpida. É claro que tinha de ser considerado. Mas essa constatação não faria diferença, porque, de um j eito ou de outro, eu term inaria m esm o com Ry an na prim eira chance que tivesse. Por m uitos m otivos. Porque ele não confiava em m im , e nada j am ais funcionaria entre nós sem confiança. Porque eu não o am ava de verdade e sabia que j am ais am aria. Mas, principalm ente, porque ele tinha, de m aneira m uito clara, ultrapassado o lim ite.

Entrei no banho, inalando o vapor, deixando a água escorrer sobre m inhas costas, depois sobre o rosto, pensando em quantos relatos e m atérias eu havia lido ao longo dos anos sobre m ulheres que se enfiam no chuveiro depois de um “incidente”. Essas histórias sem pre fizeram sentido, m as agora faziam m ais ainda. Eu não havia sido gravem ente ferida, m as ainda assim m e sentia violentada.

Depois de alguns m inutos, desliguei o chuveiro, saí e m e enrolei em um a toalha. Olhei para o espelho, que estava em baçado dem ais pelo vapor para m ostrar o m eu reflexo, o que m e deixou aliviada. Respirei fundo algum as vezes, pensando no treinador, depois voltei para o quarto.

E foi aí que o vi, sentado na beirada da m inha cam a.