Primeiro e Único
Dois
Esperei, sem icerrando os olhos diante do sol de inverno enquanto observava o treinador Carr conversar com as poucas pessoas que restavam ao redor da sepultura. Lucy estava certa. Todos ali eram insensíveis, j á que sabiam que ele não gostava de falar sobre perdas, e, para com eçar, quem não soubesse disso nem deveria estar ali.
Finalm ente ele conseguiu se desvencilhar do grupo e cam inhou em m inha direção. Meus pensam entos ficaram acelerados enquanto eu m e perguntava com o diria ao treinador que ele tinha com panhia para voltar para casa.
— Oi, treinador — falei quando ele parou bem na m inha frente. Olham o-nos rapidam ente antes de eu voltar a olhar para o chão.
— Oi, m enina — respondeu ele, parecendo cansado. — Quer um a carona?
— Hum ... Lucy quis que eu fosse em bora com o senhor... para conferir se está usando o cinto de segurança — gaguej ei.
Ergui a cabeça e ele m e lançou um olhar de soslaio.
— Tudo bem ... Mas posso m ascar o m eu tabaco?
— Achei que o senhor tinha parado...
Algum as de suas calças Levis ainda tinham a m arca reveladora da lata de Copenhagen no bolso direito de trás, m as fazia anos que eu não o via m ascar tabaco. Tudo o que a Sra. Carr pediu de presente de Natal foi que o treinador pusesse um fim a esse vício. Isso e a vitória em cim a do Cotton Bowl —seus dois desej os se realizaram , acom panhados por um a pulseira de diam antes que ela não havia pedido.
— Parei sim . Estava brincando — disse ele.
— Ah — exclam ei, forçando um sorriso, percebendo que as circunstâncias tinham com prom etido o m eu radar sem pre aguçado que identificava o senso de hum or dele.
O treinador fez um gesto em direção ao seu carro com o se fosse um a perm issão para que eu o acom panhasse, m as, para o m eu alívio, ele não abriu a porta do carro para m im , com o sem pre fazia. O treinador fazia isso para toda m ulher, inclusive e especialm ente para a sua esposa, que perm aneceu com ele por m ais de trinta anos. Sempre, toda vez, m e contou Lucy em certa ocasião, quando com entei sobre o cavalheirism o dele. Lem bro-m e da form a com o ela sorriu, sentindo-se m ais orgulhosa dessa atitude do que de qualquer outra realização que seu pai houvesse alcançado em cam po. Isso era a única coisa que eu realm ente invej ava a respeito de Lucy, j á que m eus pais eram unidos apenas pelo ódio que sentiam um pelo outro. Só que agora, estranham ente, a sortuda era eu. Porque o divórcio era m elhor do que a m orte.
O treinador deu a volta e foi até o lado do m otorista do seu Ford Explorer, depois entram os e fecham os as portas do carro ao m esm o tem po, em uníssono. Ele ligou o carro e fez um a m anobra de inversão perfeita enquanto eu calculava m entalm ente a quantos quilôm etros de distância estávam os da casa dos Carr. Dez m inutos no m áxim o, m as um a eternidade, j á que eu não conseguia pensar em um único assunto para conversar. Perguntar com o ele estava se sentindo não m e pareceu apropriado, e dizer o quanto eu sentia por tudo aquilo m e pareceu um eufem ism o gigantesco. Então, eu não disse nada, só olhei de relance quando ele esticou o braço para pegar sua garrafa térm ica prateada do Walker, a m esm a que eu vira a Sra. Carr encher de café fresquinho pelo m enos um a centena de vezes ao longo dos anos. Provavelm ente m ais que isso. Tive curiosidade de saber quem teria feito o café para ele hoj e de m anhã e se ele ao m enos sabia usar a m áquina de café europeia e sofisticada que eles tinham . Confuso com essas engenhocas m odernas, o treinador era o único hom em faz-tudo que eu conhecia no estado do Texas. Ele ainda tinha um celular antigo, daqueles sem acesso à internet, e insistia que aquela era a única m aneira de evitar que os quarterbacks inevitavelm ente rastreassem o seu endereço de e-m ail. Ele tom ou um gole de café e fez um a careta, devolvendo a garrafa térm ica ao porta-copos perto do painel do carro.
Quando não consegui m ais suportar o silêncio, pigarreei e repeti o que tinha ouvido os outros dizerem entre a cerim ônia e o sepultam ento. Que a cerim ônia havia sido perfeita. Que Lucy se saiu m uito bem .
— Sim , se saiu bem m esm o. Estou orgulhoso dela. — A voz dele vacilou e, por alguns segundos, prendi a respiração e desviei o olhar, aterrorizada com a ideia de que por fim , ele desm oronaria.
Mas, quando o treinador voltou a falar, percebi que era tudo coisa da m inha cabeça. Ele continuava calm o, em com pleto controle.
— Lawton disse que você aj udou a Lucy a escrever o discurso...
— Só dei um a aj udinha — respondi, o que não era bem verdade. Claro que ali estavam todas as ideias e os sentim entos de Lucy, m as eu tinha reescrito e reorganizado as seções inteiras porque ela havia dito que suas próprias palavras não seriam suficientes para hom enagear sua m ãe.
— Por favor, faça-o ficar m elhor — ela im plorou até que peguei o m eu m arcador e a m inha caneta verm elha. Provavelm ente, Lucy era m ais inteligente do que eu e sem pre se saiu m elhor na escola, m as escrever era a m inha especialidade.
O treinador m e olhou de um j eito que m ostrava que ele não acreditou m uito no que eu disse.
— Bom . Acho que Connie teria gostado.
Percebi que ele disse teria gostado em vez de gostou, o que era um indício de que ele não estava tão certo assim quanto à existência de Deus, o que m e fez sentir um a pontada de desespero seguida de um vazio m edonho. Naquele m om ento, desej ei, desesperadam ente, que o treinador tivesse um a fé firm e e verdadeira, em bora eu não soubesse ao certo por que isso era tão im portante para m im .
Ao sairm os do cem itério, entrando na Avenida Bained, a principal que atravessa Walker de leste a oeste, reuni as m inhas forças e criei coragem para falar de novo.
— Treinador Carr?
— Sim , m enina — atendeu ele, esperando.
— O senhor, poderia... é... colocar o cinto de segurança?
Era a prim eira vez que eu lhe dizia o que fazer — a m enos que se considere aquela ocasião que eu disse: “passe o sal” e acrescentei um : “por favor” para suavizar a frase.
Ele deu um a risadinha, deixando evidentes linhas de expressão ao redor dos seus olhos enquanto passava o cinto por cim a do om bro.
— Pronto. Está bom assim ?
— Sim — respondi com um a única sílaba, m ais perto de não ter absolutam ente nada para dizer.
— Tudo bem , então — acrescentou, seu tom de voz ficando diferente de novo, m as só que dessa vez num a direção oposta: alto, norm al, quase alegre. De repente, ficou claro para m im o que ele estava fazendo. O treinador estava fingindo, o que fez com que eu m e sentisse ainda m ais culpada por ter entrado naquele carro e por estar ali, ao lado dele. No lugar dela. Ele term inou a frase com : — Devem os conversar sobre o National Signing Day?
É claro que ele estava se referindo ao grande dia da sem ana passada, sem pre a prim eira quarta-feira de fevereiro, e o prim eiro dia a partir do qual um aluno do terceiro ano do Ensino Médio poderia assinar um a carta de intenção vinculativa, com prom etendo-se a j ogar no tim e particular de um a faculdade ou de um a universidade. Era um dos dias m ais im portantes do ano no Texas.
Este ano, o Walker causou um grande alvoroço trazendo um dos novatos m ais fam osos do país, Reggie Rhodes, um craque que j ogava na posição de tailback no Louisville, e que com o tal vencera o Texas, o Alabam a e o Ohio State. Era im possível sentir-se anim ado com a notícia, pois a Sra. Carr faleceu exatam ente na m esm a sem ana, m as o assunto serviu com o um a tábua de salvação, e o fato de o treinador m encionar o futebol m e encheu de alívio.
— Claro — respondi, sentindo os m eus om bros relaxarem um pouco enquanto eu olhava para ele.
O treinador estendeu a m ão e ligou o rádio. Ignorou as estações m ais habituais e pulou direto para a Ticket, na frequência AM, sintonizando um a conversa anim ada sobre Rhodes e com o todos se sentiram frustrados com Austin.
“Os fãs do Bronco j á estão contando as horas para o prim eiro sábado de dezem bro, quando terão a chance de se vingar am argam ente da derrota para os Longhorns”, declarou Bob Sturm .
— Espero que sim — o treinador respondeu para o locutor do rádio.
— Com o Rhodes em cam po e a Sra. Carr lá em cim a nos dando um a forcinha... não podem os perder.
— Sim . É o m ínim o que o “hom em lá em cim a” pode fazer por nós — afirm ou, enquanto eu im aginava a Sra. Carr agitando, lá do céu, seus pom pons azul-turquesa.
Na prim eira foto que tiraram de Lucy e eu j untas, nós estávam os deitadas um a ao lado da outra num cercadinho, olhando para o teto, com os olhos vesgos, e a m esm a carinha que os bebês fazem de que não estão entendendo nada. Não devíam os ter m ais do que dois ou três m eses de vida, éram os apenas dois pontinhos — um a com cabelo loiro e ralo e olhos azuis que ficaram verm elhos com o flash da foto (Lucy ), e a outra com um a cabeleira escura e olhos pretos (eu). Vestíam os m acacões iguais com o logotipo antigo do Walker, um W cursivo envolvido por um a ferradura de cavalo. Não consegui encontrar o negativo da foto, e a única cópia que restou estava am arelada e enrugada pelas páginas grudentas de um daqueles álbuns antigos e baratos da m inha m ãe. Então, com cuidado, desgrudei a foto, levei-a a um a loj a especializada em restauração de fotografias e depois a coloquei num porta-retrato — e dei um a cópia para Lucy.
Coloquei o m eu porta-retrato num a prateleira sobre a lareira falsa do m eu apartam ento, j unto com um punhado de outras fotos m arcantes, e a cópia de Lucy, dei de presente a ela no seu aniversário de 30 anos, algum as sem anas depois do m eu. Por um ano, m ais ou m enos, ela tam bém m anteve a foto num lugar de destaque na casa de cam po de três quartos que ela e Neil com praram . Mas, recentem ente, notei que o porta-retrato estava em cim a de um a côm oda do quarto de hóspedes da casa, e, ainda m ais preocupante, nossa foto foi substituída por um a de Caroline, que está de pé ao lado de um a cerca branca, usando um vestido rosa com um m onogram a.
Quando questionei Lucy pela falta de consideração, ela pareceu encabulada, algo que m uito raram ente lhe acontecia.
— Tem os fotos j untas m uito m elhores que essa. Com o aquela ali — respondeu, apontando para um a foto em que estam os j untas, de braços dados, o cabelo preso com coque alto e usando saias de tule volum osas e am arelas, em nosso prim eiro recital de balé. — Me diga, você não detestava o fato de eles enfeitarem a gente desse j eito?
Eu sabia a quem ela se referia com eles: m inha m ãe e os pais dela, todos os graduados da Walker e os am igos íntim os da época da escola. Meu pai tinha adotado os Broncos porque William s, a universidade dele, não tinha bem um tim e de futebol. Lucy, enquanto aj eitava o porta-retrato e colocava a nossa foto em destaque de novo, disse:
— Eu nunca vou colocar essas porcarias sem graça na Caroline. Você nunca sentiu com o se tivessem feito um a lavagem cerebral em você? Nunca ficou cansada de tudo isso? Sem pre a m esm a coisa, ano após ano...
— Não — respondi, concluindo que aquilo explicava tudo. Lucy estava com pletam ente certa ao dizer que as nossas m ães nos usavam com o m ais um a form a de enaltecer a paixão que sentiam pelo Walker, além das bandeiras e faixas que estendiam na sacada de nossas casas nos dias de j ogos. Mas nunca consegui com preender por que, ao que parecia, ela se ressentia pela nossa história em com um , do m esm o j eito que o nosso am igo Aubrey parecia m agoado com o cabelo ruivo e as sardas que herdou do pai, e com o os filhos do pastor Wilson se recusavam a participar dos retiros da igrej a. O futebol era a nossa religião, a própria essência da nossa cidade e do estado, e torcer para os Broncos deve ter sido um a tarefa m uito fácil para ela, um a experiência divertida na sua cadeira confortável do cam arote que ficava na linha de cinquenta j ardas. Ela torcia pelo tim e do seu pai, é claro, torcia para que o tim e ganhasse e ficava decepcionada quando perdiam . Mas ela nunca foi verdadeiram ente devota a ele. Nunca se tornou um a torcedora fiel.
Certa vez, o treinador Carr explicou o fato da seguinte m aneira: eu nasci no dia 22 de fevereiro de 1980, no m esm o m om ento em que o tim e olím pico de hóquei dos Estados Unidos derrotou a União Soviética nas sem ifinais dos Jogos Olím picos de Inverno em Lake Placid, no j ogo cham ado de “O m ilagre no gelo”. Teria sido m ais apropriado se fosse um j ogo de futebol épico, explicou o treinador, m as o fato de aquela partida ser am plam ente considerada um dos m aiores m om entos do esporte ainda parecia digno de atenção — um sinal do m eu destino. E então veio Lucy, que nasceu em m arço, na noite em que J.R. foi m orto em Dallas, o m elhor seriado de todos os tem pos, exibido em horário nobre. Em outras palavras, Lucy veio ao m undo num a noite rara em que ninguém no Texas estava pensando m uito em esportes. Falei para o treinador que a analogia teria sido m elhor se Lucy tivesse se tornado atriz em vez de proprietária da única loj a de roupas de luxo em Walker. Mas, ainda assim , a versão dele era engraçada.
De qualquer form a, talvez Lucy estivesse certa sobre a tentativa de lavagem cerebral por parte de nossas m ães. Mas eu, desde o com eço, aceitei tudo sem questionar, e de m uito bom grado. Quando m enina, m e vestia com o um a verdadeira líder de torcida do Walker todo Halloween (exceto nas poucas vezes em que m e equipava com pads (proteções m acias revestidas de borracha para serem usadas nas coxas, nos quadris, as caneleiras, j oelheiras etc.) e com o m eu capacete para parecer um j ogador. Antes dos j ogos, eu pintava a cara com pequenas ferraduras e cantava com entusiasm o o nosso hino depois de cada touchdown. Colecionava autógrafos e pendurava pôsteres do tim e no m eu quarto, e desenhava coraçõezinhos ao redor dos j ogadores bonitos, exatam ente com o Lucy fazia com o Keanu Reeves e o Leonardo DiCaprio.
À m edida que cresci, m inha obsessão se tornou m ais intensa e focada. Eu m e debruçava sobre as revistas do Walker, estudava os m ínim os detalhes de cada j ogador, decorava o núm ero e a posição de cada um em cam po, decorava a cidade natal, o peso e a altura deles. Tam bém decorei coisas inúteis, estatísticas interm ináveis e resultados dos j ogos, as rushing yards (distância que o quarterback avança com a posse de bola), as receiving yards (j ardas que se avançam com os lançam entos com pletados), os sacks (j ogada na qual a defesa derruba o quarterback) e as interceptions (a interceptação, literalm ente, da bola feita pelo j ogador da defesa que pega um passe aéreo originalm ente feito para o atacante adversário), para quem quisesse ouvir, incluindo alguns dos m aiores incentivadores do Walker, que sem pre queriam ouvir m ais e m ais sobre as m inhas habilidades nas festas sociais prom ovidas pelos Carr.
“Pergunte a ela sobre o j ogo do Texas que aconteceu no Dia de Ação de Graças de 1978”, dizia o treinador Carr, sorrindo, enquanto eu presenteava os convidados com a partida épica que antecedeu o dia do m eu nascim ento. Jogada por j ogada, eu sabia tudo de cor.
Na época em que com ecei o ensino m édio, eu j á era um a pesquisadora dedicada ao futebol am ericano, assinava o The Sporting News, viaj ava para assistir a qualquer j ogo que acontecesse fora da cidade e que não precisasse ser de avião e ficava pendurada à beira dos cam pos depois do final das aulas. Tornei-m e presença fixa nos treinos, m ascote honorária em todos os sentidos, e m e esforcei ao m áxim o para m e fazer útil, com m edo de que alguém resolvesse m e m andar de volta para casa. Às vezes eu aj udava o pessoal da com issão técnica a distribuir Gatorade ou recolhia as bolas que eram chutadas para fora da cerca de aram e que separava o cam po de treino principal do cam po onde havia plantação de trigo. Outras vezes eu aj udava a segurar a câm era de vídeo, que era bem pesada, ou dobrava as toalhas, cronom etrava o tem po usando o cronôm etro que o treinador Carr m e deu de presente no m eu aniversário de 12 anos. Mas, na m aioria das vezes, eu ficava sentada na arquibancada, assistindo e ouvindo. Vidrada. Alim entando o m eu vício. Eu era sim plesm ente apaixonada por futebol am ericano; cada aspecto do esporte. O cheiro da gram a recém -cortada, a visão da huddle (a reunião que os j ogadores do tim e fazem em cam po para discutir a próxim a j ogada) tendo com o pano de fundo o céu azul de cartão-postal, o barulho do quarterback berrando as j ogadas que eu j á conhecia de cor. Um a delas, aliás, se cham ava Shea 80, um a referência a m im e ao ano em que nasci — um a screen pass (j ogada ensaiada e de passe curto, cuj o obj etivo é criar um a oportunidade para que o j ogador-alvo consiga avançar com a bola dom inada) para o fullback. Mas, acim a de tudo, eu adorava ter a visão inspiradora do treinador Carr andando sobre as linhas laterais com sua prancheta e seu apito, despej ando sarcasm o (sua m arca registrada) e coloquialism os divertidos, m uitas vezes bem baixinho; fazendo todos se m atarem de rir m esm o quando não queria ser engraçado; pedindo para os linebackers não seguirem a rota cênica da bola e para os receivers fingirem que estavam correndo atrás de um McLanche Feliz, afirm ando que talvez eles pudessem até conseguir pegá-lo; cham ando a atenção dos linemen, dizendo que eles pareciam bezerros m ortos em m eio a um a tem pestade de granizo e, lem brando o nosso quarterback de que, nas palavras de Darrell Roy al, seu próprio treinador considerado um herói, apenas três coisas podem acontecer quando se arrem essa a bola, sendo que duas delas não eram nada boas.
No ensino m édio, cresci e m e tornei um a garota bonita, e um pouco m enos m oleca, e passei a viver um pouco m ais da m inha própria vida além do Walker. Durante quatro anos, Lucy teve grande participação nisso, e as nossas prioridades entraram em sintonia m aior em com paração aos anos do ensino fundam ental. Ela era líder de torcida, enquanto eu j ogava futebol e participava das corridas, m as nós duas convivíam os com o m esm o grupo de pessoas, estudávam os na m esm a sala e am bas paquerávam os m uito os garotos. Com o era a m enina m ais popular da nossa sala, Lucy, com um estalar de dedos, conseguia o garoto que quisesse, m as costum ava rej eitar aqueles que ficavam m uito im pressionados com o fato de o pai dela ser fam oso e os repassava para m im . Por dois anos, nam oram os dois m elhores am igos; eles eram j ogadores de beisebol, os dois se cham avam Scott e nos tornam os inseparáveis (até que term inam os o nam oro sim ultaneam ente, quando Lucy nos declarou livres dos Scotts). Mesm o em m eio à norm alidade turbulenta da adolescência, continuei m uito dedicada ao futebol am ericano, trabalhando com o editora esportiva do nosso j ornal. Eu fazia coberturas da nossa equipe do colégio (m al treinada e que sem pre perdia os j ogos), m as convenci o professor de j ornalism o a m e deixar escrever m atérias sobre o Walker — relatos obj etivos dos j ogos, bem com o inform ações m ais extensas. Eu era a única repórter do colégio com credenciais da im prensa e acesso direto ao treinador Carr, então conseguia apim entar as m atérias com inform ações privilegiadas sobre os proj etos previstos ou sobre as contratações para o ano seguinte. Muitas vezes Lucy m e acom panhava nesses m eus com prom issos, e, em bora os detalhes a deixassem entediada, ela dizia que aquela era a única m aneira de passar m ais tem po com o pai.
Quando chegou a hora de entrar para a faculdade, não houve a m enor dúvida de qual seria a m inha escolha, m esm o quando a m inha m édia de notas caiu para “B m enos”. Meus pais fingiram preocupação, alertando-m e que a Walker era
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praticam ente um a Ivy League em se tratando de padrões acadêm icos, m as
eu sabia que, longe de ser um crim e hediondo, bastaria um a ligação de trinta segundos do am igo m ais íntim o da nossa fam ília para que eu conseguisse entrar. Felizm ente, não precisei recorrer a isso, pelo m enos não até onde eu sabia, pois o m eu teste de redação, no qual escrevi sobre a m inha paixão pelo tim e de futebol am ericano da Walker, superou o m eu histórico escolar m edíocre. Havia até m esm o um a observação escrita à m ão na m inha carta, que dizia: Vamos, Broncos!.
Quanto à Lucy, ela nem sequer se candidatou para a Walker, nem m esm o com o segunda opção. Fiquei chocada com a sua decisão de ir para a Universidade do Texas, nossa m aior rival, e m e lem bro que cheguei a questionar com o ela poderia ser tão insensível.
— Digo... você é a filha do treinador Carr!
— É j ustam ente por ser a filha do treinador Carr. É com o se eu nem tivesse o direito de opinar sobre isso. Mas você tem . — Lucy tentou explicar.
— É claro que você tem . Vai para a Universidade do Texas.
— Ah, m eu pai. Você precisa superar isso! — exclam ou ela, explicando pela quinquagésim a vez que escolheu a Universidade do Texas porque queria dar um tem po da nossa cidade. Lucy alegou que em Austin nem tudo girava em torno do futebol e que a cidade seria revigorante.
Eu disse a ela que j á tinha superado a questão, m as, na verdade, não tinha. Eu j am ais conseguiria entender com o ela pôde fazer um a escolha tão traiçoeira — tanto por m e abandonar por quatro anos com o, o pior, por aliar-se ao nosso arqui-inim igo. O treinador Carr foi com preensivo, insistiu que queria vê-la cuidando da sua própria vida, m as ele tam bém a alertou dizendo que j am ais queria ouvir as palavras Hook’em, Horns (chifre neles! um a espécie de grito de guerra da Universidade do Texas que faz alusão ao sím bolo do tim e) saindo da boca de sua filha e m uito m enos vê-la fazendo aquele sinal terrível de chifres com a m ão. O treinador acrescentou tam bém que as cores laranj a e branca estavam banidas do seu código postal. Lucy disse que poderia cum prir as regras com facilidade, m as certo dia, quando nós duas voltam os para casa para o fim de sem ana, ela se esqueceu de tirar a cam iseta do Texas, um a infração bastante inofensiva, a não ser pelo fato de que tínham os acabado de perder para eles na sem ana anterior. Estrem eci quando a vi com a cam iseta, m as foi a m ãe dela quem a fez tirar antes que seu pai chegasse em casa. O treinador é um a pessoa durona — com o não poderia deixar de ser para um técnico de futebol —, m as, às vezes, coisas pequenas o tiravam do sério. Um com entário estúpido no program a de rádio: “Bem , Jim de North County, talvez você possa voltar ao planeta Terra e trazer algum as j ogadas na próxim a sem ana?”, ou algum a pergunta ridícula da im prensa: “Se estou chateado? Tivem os a sorte de perder o j ogo e o nosso quarterback deixou o cam po num a m aldita m aca. Não, im agine, não estou chateado, não”. E a todo m om ento ele questionava a lealdade das pessoas: “Ou está com a gente, ou não está. Aqueles fãs que só nos apoiam quando o tim e está ganhando não serão perm itidos”.
Na verdade, se Lucy tivesse algum arrependim ento nesse dia terrível — pensei, enquanto seu pai e eu finalm ente chegam os à rua My rtle, que tinha carros estacionados em am bos os lados —, certam ente o fato de ter escolhido a Universidade do Texas seria um deles.
Um a vez dentro da casa colonial de três andares e tij olos, o treinador foi direto para o seu escritório, enquanto eu encontrei Lucy na cozinha, em purrando um purê de batata no prato. Eu sabia que ela não com eria — fazia dias que não com ia, e estava perdendo um peso que não poderia se dar ao luxo de perder, m as vê-la com um garfo na m ão pareceu um progresso.
— Com o você está? — perguntei quando ela se afastou de várias senhoras que estavam ocupadas aj eitando os pratos na área do j ardim da Sra. Carr. Havia m ais com ida do que o treinador j am ais esperaria com er, e eu m e lem brei de que precisava passar no abrigo de m oradores de rua, onde a Sra. Carr trabalhava com o voluntária, para deixar alguns alim entos.
— Um pouco m elhor. Desculpe pelo que fiz. Perdi a paciência com Miller. Sei que ele é inofensivo — respondeu ela.
Balancei a cabeça, considerando desnecessário o pedido de desculpas. Dificilm ente eu m e m agoava com Lucy e sem pre aceitava as suas críticas à m inha vida e aos m eus nam orados, tanto porque suas intenções sem pre foram as m elhores com o porque geralm ente ela tinha razão. Lucy tinha passe livre com igo. Melhor assim .
— Obrigada por ter vindo com o m eu pai — agradeceu, pousando o prato sobre a m esa e se inclinando no balcão. Lucy parecia pálida, m as relaxada, e eu suspeitava que ela havia tom ado um a daquelas pílulas brancas que o m édico lhe receitara para “atravessar os próxim os dias”.
— Não precisa agradecer — respondi, desej ando, subitam ente, ter tom ado um a dessas pílulas tam bém .
— Com o acha que ele está? Com o ele se com portou no cam inho de volta para casa? — perguntou.
Dei de om bros e respondi que não sabia ao certo.
— Nem conversam os direito a respeito de nada... Exceto sobre... você sabe.... futebol am ericano.
Os olhos de Lucy se encheram de lágrim as e seu queixo com eçou a trem er.
— Oh, Lucy.... Sinto m uito, querida — falei, m e perguntando se eu havia dito a coisa errada ou se aquilo era apenas m ais um dos m om entos terríveis em que ela encarava a dura realidade de que sua m ãe havia partido. Eu a envolvi com os m eus braços e a levei até a lavanderia, para term os um pouco de privacidade. — Eu não deveria estar falando de futebol — acrescentei, pensando que finalm ente tinha conseguido enxergar o m otivo do seu choro. Percebi que a vida continuava fluindo, que tudo voltou ao norm al, e que isso parecia m uito errado. A Sra. Carr não era a m inha m ãe, m esm o assim tive a sensação irracional de que o m undo inteiro, ou pelo m enos o estado do Texas, deveria ter parado por um tem po, em respeito e sinal de luto.
Lucy balançou a cabeça.
— Não, não é isso. Está tudo bem . Não tem problem a falar de futebol — explicou Lucy, que depois acrescentou um a observação de partir o coração. — Só m e sinto feliz em ver que ainda resta algo para o m eu pai am ar.
* * *
Naquela noite, depois que todos foram para casa, m enos a m inha m ãe e eu, sentam o-nos ao redor da m esa da cozinha e conversam os sobre Connie. Rim os ao lem brar que ela não conseguia dirigir na interestadual sem entender os m apas, e do quanto ela era com petitiva em se tratando de sua torta de nozes, considerada a m elhor em toda Walker. Connie tinha até m esm o vencido torneios de culinária em Dallas, m as sem pre votava em outros candidatos porque, segundo ela, votar em si m esm a parecia indelicado. Conversam os sobre com o ela adorava suas “histórias” — gravava as novelas e atualizava as situações dos personagens com o se todos fossem pessoas da fam ília que deveríam os conhecer. Falam os tam bém com que frequência ela estragava as letras de m úsica, e a nossa favorita era a do Bob Dy lan, em que “The answer, m y friend, is blowin’ in the wind” (A resposta, m eu am igo, está soprando no vento), se transform ava em : “The ants are m y friends, they ’re blowin’ in the wind” (as form igas são m inhas am igas, e estão soprando ao vento). Rim os e choram os até que ficam os esgotados e não havia m ais m em órias a serem com partilhadas.
Àquela altura, todos resolveram m e colocar contra a parede. Ou, m ais precisam ente, colocar Miller, que não estava m ais ali para se defender, contra a parede. Eram m inha m ãe, Lucy e Neil versus Miller — um a disputa m uito provavelm ente inj usta —, todos eles dizendo, de diferentes m aneiras, que Miller não era bom para m im . Até Lawton resolveu opinar, e eu não tinha m uita certeza se ele estava apto a isso, visto que nunca teve um relacionam ento que durasse m ais de três m eses. Som ente o treinador Carr se m anteve em silêncio em relação ao assunto, pois tinha ido para a Fam ily Room , onde desm oronou em sua poltrona. Ele estava próxim o o suficiente para ouvir a nossa conversa, m as parecia concentrado na TV, assistindo a j ogos de basquete de tim es universitários, vasculhando os canais, com o som no m udo. Eu odiava ver a m inha vida sendo dissecada, especialm ente na com panhia de pessoas diferentes, m as levei o papo adiante, quando m e ocorreu que aquilo poderia ser um a excelente distração para todos.
— Ela realm ente precisa largar esse cara — opinou Lucy, transferindo o seu chardonnay de um a taça de plástico que o garçom havia trazido por um a de cristal que ela tirara da cristaleira. Depois, voltou a se sentar à enorm e m esa de m adeira que a própria Sra. Carr havia m ontado e pintado.
Com exceção de um prato de biscoitos de açúcar da Star Provisions, um a padaria fam osa da nossa cidade, toda a com ida foi recolhida e a cozinha, arrum ada.
— Miller não é tão ruim assim — falei no exato m om ento em que m eu telefone tocou, dentro da bolsa.
— Falando no diabo... — lançou m inha m ãe.
— Ah, agora Miller é o diabo? — retruquei, resistindo à vontade de verificar o celular, em bora eu tivesse certeza de que era ele, j á que, quando saiu, eu tinha lido a m ensagem em seu lábios dizendo que m e ligaria.
— Ele não é tão ruim assim . Só tem um a cabeça de vento. E não tem am bição para nada. É um m aconheiro e tem um linguaj ar de m erda — acrescentou Lucy.
— Cabeça de vento? — questionei, porque essa era a acusação m ais grave e porque ele era um a pessoa m uito doce, à sua m aneira sem -noção de ser.
— Bem , ele se esqueceu do seu aniversário no ano passado — interveio Neil, referindo-se a um j antar que ele e Lucy tinham m e oferecido enquanto Miller tinha aparecido de m ãos vazias.
— Só passou despercebido. Nada dem ais. Além disso, não há m uito o que com em orar aos 32 anos — retruquei. Lucy em itiu um som de zom baria. — Ele m e deu um presente... depois — acrescentei, lem brando-m e do vidro de Coco Madem oiselle que ele m e dera no dia seguinte.
Lawton ergueu as sobrancelhas.
— Rá! Com certeza!
— Falsificado — adicionei, sentindo o m eu rosto arder.
— E ainda é um professor de Educação Física m aconheiro — disse Lucy.
Ciente do quanto aquilo soou ridículo, reproduzi alguns argum entos de Miller em defesa do uso de drogas — a m aconha era de fato m elhor que o álcool, e ele fum ava por causa da sua dor crônica nas costas.
— Uau!! Você vai m esm o vir com esse papo de que a m aconha é m edicinal? — indagou Lucy.
Minha m ãe balançou a cabeça e falou m eu nom e com um tom de preocupação.
Lucy continuou disparando:
— Ele usa aquele linguaj ar pobre para aj udá-lo com a dor nas costas tam bém ?
— É. Até eu sei que ele tem um linguaj ar de m erda — falou Lawton.
— Tá legal. Isso... eu realm ente não posso defender. Sei que ele tem alguns problem as com pronom es... Mas estam os nos esforçando para m elhorar isso.
— Está vendo? Você fala com o se fosse a m ãe dele. Tam bém dá m esada para ele? Ele cum pre as tarefas que você m anda fazer?
Revirei os olhos, m as não pude deixar de pensar em quantas vezes fui eu quem pagou a conta e que Miller andava sem pre sem grana.
— Mas ele é um a gracinha, com aqueles olhos e aquele corpo — opinou a m inha m ãe.
— Ah, corta essa m ãe, que noj ento! Papa-anj o! — sussurrei.
— Ele só tem m úsculo. Cérebro, que é bom , nada — lançou Lucy, virando-se para olhar para o pai. — Não é verdade, pai? Qual é a m édia de notas dele?
O treinador nem sequer fez um a pausa.
— Não tenho a m enor ideia de quais eram as notas desse garoto. — Ele m anteve os olhos grudados na televisão, m as era evidente que estava ouvindo cada palavra da nossa conversa.
— Fale um núm ero aproxim ado — exigiu Lucy.
— Bem , ele não tinha notas excelentes — respondeu o treinador Carr, trocando de canal. — Mas acho que vocês estão deturpando a im agem do Miller. Ele é um cara legal, e não há nada de errado em ser professor de Educação Física — acrescentou ele, apontando o dedo para Lucy.
— Exatam ente. Os alunos adoram ele... ele é um ótim o treinador — afirm ei, notando que fiz isso com a m esm a voz de adm iração que a m aioria das pessoas usa quando se refere aos neurocirurgiões.
— Do tim e do ensino fundam ental — acrescentou Lucy, tom ando m ais um gole do seu vinho.
— Alguém tem de treinar os alunos dessas séries... Nem todo m undo pode ser o seu pai — falei.
— Sim . Eles não viram j ogadores do nada, com o num passe de m ágica — interveio o treinador. — Precisam de técnicos bons ao longo do cam inho.
— Shea, querida, acho que a Lucy está certa. Ele não é um cara para casam ento — disse m inha m ãe.
— Quem falou em casam ento aqui? — rebati, fazendo questão de lem brar a todos de que eu não estava com a m ínim a pressa para isso, ao contrário da m aioria dos m eus am igos e conhecidos, que se casaram com seus vinte e poucos anos, logo depois de term inarem a faculdade. Era algo que eu desej ava, provavelm ente, em bora não tivesse m uita certeza se queria ter filhos, o que j á excluía boa parte da pressão. Ainda assim , eu tinha de adm itir que a ideia de m e casar com Miller passou pela m inha cabeça nos últim os tem pos. Ele não era o hom em m ais inteligente do m undo, m as o treinador estava certo, Miller era um cara legal — e, para ser sincera, eu não tinha m uita certeza de que poderia conseguir algo m elhor dentre as opções de hom ens disponíveis.
— Você está perdendo o seu tem po precioso com ele — insistiu Lucy, quando o m eu telefone tocou de novo. Dessa vez não consegui resistir e peguei o celular.
Com o j á era de esperar, era um a m ensagem de texto dele. Esqueci o meu casaco. Vc ainda está aí? Vou passar aí.
Antes que eu tivesse tem po de responder à m ensagem , alguém bateu à porta e eu não tive escolha a não ser confessar.
— Acho que é o Miller. Ele esqueceu o casaco — desabafei.
— Claro que esqueceu. Isso vai ser divertido — disse Lucy, anim ando-se. Ela se levantou e cam inhou em direção à antessala.
— Não se atreva — cham ei-a, m as eu sabia que não havia nada que pudesse im pedir Lucy quando ela tinha um a ideia fixa na cabeça.
Ela voltou com Miller, todo am arrotado e visivelm ente necessitando de colírio nos olhos.
— Vej am só quem chegou! — anunciou ela, depois fez um breve pedido de desculpas pelo que havia dito a ele m ais cedo e o acolheu: — Sente-se, sente-se.
Lancei um olhar de advertência para ele e balancei a cabeça. Pelo m enos dessa vez ele com preendeu.
— Obrigado, Lucy, m as não posso ficar.
— Por quê? O que vai fazer hoj e à noite?
Respondi por ele:
— Uns caras que m oram em outra cidade vão à casa dele. Robert Siler e My les Savage.
— Sim . E... eu só vim buscar o m eu casaco.
— O seu casaco ou a Shea? — questionou Lucy.
Miller sorriu e disse:
— Bem , am bos. Se ela j á quiser ir....
— Claro — respondi, levantando-m e na esperança de conseguir fugir da situação. Seria m elhor do que ficar ali aguentando m ais desaforo ou ter de pegar carona com a m inha m ãe e de quebra ganhar m ais um serm ão sobre com o eu deveria aproveitar os m eus 30 anos para não acabar “aos 40 sozinha”. Tal com o Lucy, ela acreditava que tinha a m elhor das intenções, m as não conseguia deixar de fazer as coisas do j eito que bem queria para m im , ou sej a, que eu m e tornasse um a dona de casa m im ada, casada com um m édico ou advogado ou, em suas próprias palavras, “até m esm o um veterinário ou um dentista”.
— Não. Fique. Eu insisto — disse Lucy, conduzindo Miller até a cadeira que estava bem na frente dela. — Estávam os agora m esm o falando sobre você. E do seu relacionam ento com a Shea.
— Lucy — cham ei-a num tom m ais áspero.
Dessa vez, Miller m ordeu a isca.
— Tudo bem — respondeu ele, sorrindo.
— Então, Miller, você acha que você e a Shea com binam ? — perguntou Lucy.
— Cadeira elétrica, cara, cuidado! — alertou Lawton.
Miller esticou o braço para segurar a m inha m ão, e eu, contra a m inha vontade, deixei.
— Sim . Form am os o par perfeito — respondeu ele.
— Perfeitam ente — m urm urei.
— O par perfeito, hum ? E por que diz isso?
— Bom , prim eiro porque nós dois am am os futebol am ericano. Certo, treinador? — O treinador ergueu a m ão no ar, com o punho cerrado.
Lucy cruzou os braços.
— Bem , isso significa que a Shea com binaria com qualquer outro hom em do estado do Texas. Exceto com o Neil, que não é assim tão fanático por futebol.
Sem pre achei que essa era um a das coisas de que Lucy m ais gostava no m arido. Ele não era o tipo que passava os dias na frente da televisão, assistindo aos j ogos. Mesm o assim , o com entário soou ligeiram ente com o um a castração, pelo m enos diante do sogro, um treinador legendário. Então, Neil se pronunciou:
— Ei, espere aí. Eu gosto de futebol am ericano. Amo futebol am ericano.
— Não é só o futebol. Ela m e faz bem . Me faz ser um cara m elhor — acrescentou Miller.
— E o que você faz por ela? — questionou Lucy, im passível.
Minha m ãe estava literalm ente na ponta da cadeira, esperando.
— Bom , eu faço ela dar risada. — Deixei escapar um a risadinha, e Miller apontou para m im e disse: — Está vendo?
— Já está tarde — lancei, levantando e gesticulando para Miller. — Onde está o seu casaco? Vou pegá-lo.
Miller apontou para o corredor, na direção do quarto principal.
— Está em cim a da cam a.
Hesitei, m as era tarde dem ais para retirar a m inha oferta, então segui adiante, passando pelo treinador. Quando entrei no quarto, avistei o casaco de Miller j ogado no lado da cam a do treinador, perto da j anela. Eu só sabia que aquele era o lado da cam a do treinador porque a Sra. Carr passara as suas últim as sem anas do lado m ais próxim o ao banheiro. Um a onda de tristeza m e invadiu quando cam inhei rapidam ente em direção ao pé da cam a e estendi o braço para pegar o casaco. Então, voltei para cozinha e disse para Miller que agora realm ente era hora de ir em bora.