Primeiro e Único

Emily Giffin · Capítulo 41 de 46

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Primeiro e Único

Quarenta e um

 

Mais tarde naquela noite, depois que a ressaca de Pabst Blue Ribbon tinha passado, escrevi um a carta para Lucy, à m ão, colocando tudo no papel da m aneira m ais clara que poderia. Mas, com o eu a conhecia bem , tinha certeza de que ela devolveria o envelope sem nem abri-lo. De certo m odo, eu tam bém tinha consciência que era covardia não encará-la, não conversar olhando em seus olhos. Até com Ry an eu tinha feito isso. Então, liguei para ela e deixei um a m ensagem em sua caixa postal pedindo, im plorando para conversar, e, depois que atingi o lim ite de tem po da m ensagem , voltei a ligar. Na ligação seguinte, Neil atendeu o celular dela, sussurrando:

— Espere aí. — Ouvi o barulho de um a porta abrindo e fechando, e depois ele voltou a falar: — Pronto. Estou na garagem agora.

— Com o estão as coisas? Muito m al? — perguntei.

— Er... num a escala de zero a dez? Mais ou m enos dez mil.

— Merda.

— É. As coisas não estão nada bem por aqui, Shea. Acrescente a isso um ligeiro enj oo m atinal em plena segunda-feira. Que tal? Minha vida está um inferno.

— Sinto m uito, Neil. Eu realm ente preciso falar com ela.

— Sim . Bem ... acho que isso não vai acontecer tão cedo.

— Fala sério, Neil — im plorei. — Você precisa m e aj udar. Pode conseguir fazer com que ela aceite conversar com igo.

— Não posso levá-la a fazer algo que não quer. Você sabe disso. Mas, talvez, se você aparecesse aqui...

— Quando? Agora? O que ela está fazendo agora?

— Está na banheira... Quem sabe isso a am oleça um pouco.

— Então, posso ir agora?

— Tudo bem . Mas não se atreva a contar que eu te pedi para vir. Vou apagar o registro da cham ada aqui do celular dela.

— Tudo bem . Obrigada, Neil. Muito obrigada.

— De nada. Mas... Shea?

— Sim ?

— Quer um conselho? Você não pode fazer isso com ela, digo... am or verdadeiro é um a coisa, m as, por m enos do que isso... sim plesm ente não vale a pena.

Vinte m inutos depois, bati à porta da casa da Lucy. Neil atendeu, esboçando um a reação exagerada de surpresa.

— Nossa. Oi, Shea — ele m e cum prim entou, olhando para trás, com a voz forçada.

Lucy apareceu logo atrás, com a expressão inescrutável, m as fria.

— Lucy — cham ei, olhando para ela. — Posso entrar? Nós precisam os conversar. Por favor.

Ela ficou m e encarando por alguns segundos extensos e desconfortáveis, até que deu de om bros, respondendo que sim , e depois se afastou. Neil m e lançou um olhar esperançoso e m e apressou para segui-la, nós dois indo atrás dela até a sala, que nunca utilizavam de verdade. Ela se sentou de m aneira inflexível no sofá, depois apontou para a poltrona de frente para ela, onde eu m e sentei, cruzei e descruzei as pernas. Enquanto isso, Neil tentou sair furtivam ente, m as Lucy o cham ou, com o se precisasse de reforço, e ele, contra a própria vontade, retornou, sentou-se a seu lado e ficou encarando o chão.

— Obrigada por m e receber, Lucy — com ecei, em basbacada com o fato de estar tão nervosa por conversar com a pessoa que eu m ais conhecia neste m undo.

— De nada — ela disse, com a voz e o olhar distantes. Com certeza, ela não facilitaria as coisas. Não m esm o.

— Com o você está? — perguntei, colocando a m ão sobre a m inha barriga para indicar que eu m e referia a sua gravidez.

— Não m e sinto tão enj oada quanto da outra vez.

Sorri discretam ente e falei:

— Que bom .

— Sim . Dizem que enj oam os m ais quando se espera um a m enina. Então, talvez sej a m enino desta vez — ela acrescentou com a voz recatada e obj etiva, e pude im aginá-la dizendo a m esm a coisa para um estranho na fila do superm ercado, m as, ainda assim , era um bom sinal. Um sinal de que ela dividiria com igo qualquer coisa a respeito da gestação.

Assenti e falei:

— Nossa, que legal.

— Sim , é m esm o.

Sabendo que eu não poderia protelar por m uito m ais tem po o verdadeiro m otivo da m inha visita, respirei fundo, tentando m e lem brar do que eu havia escrito na carta.

— Lucy, sinto m uito por ter te m agoado. E... eu realm ente entendo com o você deve estar se sentindo.

— Ah! Você sabe o que é perder a sua m ãe e depois descobrir que a sua m elhor am iga está saindo com o seu pai? — ela questionou, cruzando os braços.

— Bem , não... Claro que não sei o que é isso.

Ela m e encarou e ficou esperando, enquanto eu m e recordava de duas linhas que havia escrito, e tentava fazer o m elhor para recitá-las, palavra por palavra.

— Perder a sua m ãe faz tudo ficar m ais difícil e com plicado. E tenho certeza de que você sente que nós estam os te traindo, bem com o traindo a sua m ãe....

— Sinto mesmo. Shea, isso é um a grande traição. — A voz dela vacilou enquanto Neil segurou sua m ão, m as m anteve os olhos no chão.

Respirei fundo um a vez, depois outra, e prossegui:

— Não é algo que eu encararia com facilidade. Nunca, não m esm o. Eu j am ais seguiria por esse cam inho...

— Seguir por esse cam inho? É isso que você cham a ter um relacionam ento com o m eu pai pelas nossas costas? Porque, vam os direto ao assunto? Você estava se encontrando com o m eu pai pelas costas. Com o acha que m e sinto em relação a isso?

Neil deslizou para se aproxim ar m ais da m ulher, colocou o braço sobre o om bro dela e interveio:

— Lucy, deixe ela falar, querida.

Ela balançou a cabeça, concordando, aceitando a sugestão dele, o que foi surpreendente.

— Muito bem . Continue. O que você estava dizendo?

— Eu só quis dizer que... eu j am ais, nunca... seguiria adiante com isso se não gostasse de verdade do seu pai.

Lucy fez um a careta e balançou a cabeça, m as eu continuei, fazendo o m eu m elhor para contar a verdade.

— No com eço foi só um a paixonite boba, o que j á era suficientem ente ruim , porque não se deve sentir esse tipo de coisa pelo pai da sua m elhor am iga. E tam bém porque não devem os nos apaixonar por um a pessoa m ais velha. Nem por um hom em que acabou de perder a esposa. Mas, se o sentim ento vem de apenas um a das partes, a questão é m uito diferente, e eu nunca teria trazido esses sentim entos à tona, nem m esm o os aceitado, se a sua m ãe ainda continuasse entre nós. Eu tinha um profundo respeito por ela e pelo casam ento dos seus pais, e faria qualquer coisa que fosse possível para trazê-la de volta e vê-los j untos e felizes de novo.

Parei e olhei para ela com firm eza, e vi algo cintilando em seus olhos. Agora ela estava realm ente m e ouvindo. Se eu não conseguisse o seu consentim ento, pelo m enos tinha conseguido a sua atenção. Continuei:

— Am o a sua fam ília, Lucy. A fam ília com a qual eu cresci. A única com quem eu cresci. Am ava a sua m ãe, e am o o seu pai e Lawton tam bém . Esta sem pre foi e sem pre será a m elhor fam ília que eu j á conheci, e o m aior privilégio da m inha vida é estar perto de vocês todos. Sinceram ente, acho que eu não seria a pessoa que sou hoj e se não fosse pela sua fam ília. Devo a vocês a m inha paixão pelo Walker e pelo futebol am ericano. Vocês são para m im o exem plo de bons pais, irm ãos, cônj uges, am igos. Todos vocês m e apoiaram ao longo desses anos e m e ensinaram m uito sobre lealdade, honestidade, integridade e com prom etim ento. E eu serei sem pre grata a todos vocês por essas coisas e m uitas outras que fizeram por m im .

— Então, por favor, pare com isso. Por favor, por favor — im plorou Lucy, as m ãos j untas, com o se estivesse fazendo um a oração.

— Eu faria se pudesse. Mas eu estou...

— Não diga — ela interrom peu, ainda com um a expressão de súplica. — Não diga isso, Shea. Por favor.

Quase parei. Quase desisti por ela. Mas, então, pensei nele. A única pessoa no m undo com quem eu realm ente m e im portava m ais do que Lucy. E soube que eu tinha de continuar.

— Mas, Lucy. Estou apaixonada por ele — insisti, m eu coração batendo tão forte que pude ouvir o sangue pulsar em m eus ouvidos. — Já estava, m esm o quando eu não sabia ainda e não consigo evitar, nem m udar isso... Tentei m e distanciar. Tentei deixando a Walker para trabalhar em outro lugar. Tentei nam orando Ry an Jam es. Nada funcionou. Meus sentim entos são fortes e verdadeiros, e acho que ele se sente do m esm o j eito.

— Mas você pode superar isso! — ela exclam ou, com os olhos m arej ados. — Vocês dois podem superar e esquecer isso. Vocês têm que fazer isso. Por favor, Shea! Por favor, esqueça!

Apoiei a cabeça sobre as m ãos, m eus pensam entos acelerados, desej ando que houvesse a possibilidade de trocar um a palavra com o treinador, tentando, desesperadam ente, canalizá-lo. Eu tinha certeza do que ele diria: Mantenha-se firme no que você quer. Faça o que é certo. Não vá pelo caminho mais fácil.

Com esse conselho pairando em m inha cabeça, abri a boca e falei:

— Minha m ãe m e contou que você quer que eu escolha. Eu queria dizer que não acho j usto da sua parte fazer isso. Mas, com o os sentim entos nem sem pre são j ustos, e se você quer m esm o que eu faça um a escolha, então é isso que vou fazer.

— E? — ela indagou, com o rosto todo m olhado de lágrim as, que ela agora não se preocupava em enxugar.

Prendi a respiração, pronta para apertar o gatilho, pronta para provar aquilo no qual sem pre acreditei: que o am or supera tudo. Mas, ao olhar fundo nos olhos da m inha m elhor am iga, não tive tanta certeza assim . Pensei em tudo o que tínham os passado j untas. No que eu tinha perdido por ser filha de pais divorciados. No que ela tinha perdido para o câncer, naquele ano. E, nesse m om ento, decidi que eu talvez estivesse errada. Talvez os laços de um a am izade fossem m ais fortes do que qualquer outra coisa neste m undo.

— Estam os no m esm o tim e e sem pre estivem os desde que éram os bebês — anunciei, encarando seus olhos grandes e vítreos. — E vam os continuar j untas até nos transform arm os em duas velhinhas que usam roupas fofas, assistindo ao futebol am ericano pela televisão... Por sua causa, e tam bém por m inha causa... — Ela m e deu um sorriso tím ido. — Bom , eu realm ente espero que você m ude de ideia. Eu realm ente espero que você não m e faça escolher entre duas pessoas que são im portantes para m im ... Mas, se eu tiver de escolher... então, escolho você, Lucy. Escolho você e a nossa am izade. Agora e sem pre.

Ela se levantou e cam inhou devagar até m im , e eu m e levantei para olhar para ela, esperando, torcendo para que ela dissesse: Você não precisa escolher.

Em vez disso, ela m e deu um abraço e disse:

— Obrigada, Shea. Quero ser um a grande pessoa. Quero m esm o. Mas sim plesm ente não posso... não consigo.

Eu a abracei, entorpecida, e adm iti:

— Bom , estou feliz por term os conversado.

— Eu tam bém , Shea... Obrigada.

Assenti, sentindo a frustração m e invadir aos poucos. Era exatam ente assim que eu m e sentia quando o Walker perdia, só que dessa vez era m uito, m uito pior. Porque eu nunca tinha perdido algo tão im portante antes.

Alguns m inutos depois, nós duas nos sentam os, e, com o que por um m ilagre, conseguim os m udar de assunto, e ficam os batendo papo sobre a sua gravidez, a próxim a consulta ao m édico e sobre com o ela planej ava decorar o quarto sem saber o sexo do bebê. Então, quando não conseguia suportar por nem m ais um segundo, eu disse a ela que precisava ir em bora e deixá-la descansar. Ela m eneou a cabeça e m e levou até a porta, depois m e deu outro abraço.

— Eu te am o, Shea.

— Tam bém te am o, Lucy — respondi, aliviada por perceber que tinha sido sincera, m esm o que a tivesse odiado um pouquinho tam bém .