Primeiro e Único

Emily Giffin · Capítulo 9 de 46

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Primeiro e Único

Nove

 

Depois do alm oço, fui para o Lea Journo Salon, onde Lucy tinha agendado um horário com o seu cabeleireiro favorito em Dallas — Ricardo, um gay cheio de tatuagens — para arrum ar o m eu cabelo.

— Você quer um penteado discreto, m ais radical ou algo entre os dois? — perguntou Ricardo enquanto soltava o m eu coque e desgrenhava o m eu cabelo.

Respondi que queria algo m ais radical, pensando, com igo m esm a, num a frase que o treinador sem pre dizia: Ou vai ou racha!

— Quer um penteado Old Hollywood? Ou m eio Victoria’s Secret? Cindy Crawford? Ou algo m ais Miss Am érica? — questionou Ricardo.

— O que você quiser. Só quero que m e deixe... glam orosa — respondi.

— Ah, querida, glam our é a palavra de ordem dessa cadeira — disse ele, virando-se para dizer à sua assistente tím ida e de óculos que m eu cabelo j á podia ser lavado e que precisaríam os de um cam inhão de bobes.

— Aqueles roxos? — perguntou a assistente.

— Não, m enina! Os azuis! Você ouviu o que a senhorita aqui disse?! Ela quer algo radical! Boom ! Shazam !

Exatam ente quarenta m inutos depois, quando o m eu cabelo j á estava praticam ente seco, Ricardo desligou o secador e disse:

— Querida, você está m e dando trabalho. Meu pai do céu! Você tem muito cabelo!

Sorri, ciente de que aquilo era um elogio e pensando que era bom ter pelo m enos um a característica m arcante. Duas, se considerarm os a m inha clavícula.

— E então? Presum o que você tenha grandes planos para esta noite, certo? — perguntou Ricardo quando com eçou a enrolar os bobes no m eu cabelo.

— Sim , vou participar de um evento beneficente no Ritz.

— Am o o Ritz! Muita gente prefere o Crescent Club, m as nem se com para com o Ritz. É um restaurante clássico. Sabia que toda noite eles têm um especialista em guacam ole? Não é divino?

— Diviníssim o — respondi.

Em seguida, fiquei m e perguntando quantos gay s tinham o dom de fazer com que em um a hora você se sentisse a m elhor am iga deles. Me rendi e falei:

— Então, adivinha com quem eu vou?

Ele aceitou a brincadeira na m esm a hora:

— Ah, eu adoro j ogo de adivinhação! Magnata, político, chef, ator, m odelo ou... cabeleireiro das estrelas?

Dei risada e falei:

— Nenhum desses. É um atleta. Jogador de futebol am ericano.

— Meniiiiina! Não m e fala, não m e fala! Aquele gato do Dallas Cowboy s? Com o é m esm o o nom e dele? Jam es Ry an?

— Ry an Jam es — respondi.

Vi que a assistente de Ricardo ficou ligeiram ente anim ada e percebi que eu estava fazendo exatam ente aquilo que m e excom ungaria da lista das pessoas VIP de qualquer área. Beij ei o cara e contei antes m esm o de ter beij ado. Então, tentei voltar atrás, explicando que o Ry an e eu éram os apenas am igos, m as Ricardo j á estava todo em polgado, ligando para a m aquiadora fixa do salão e perguntando se ela poderia vir — m esm o em seu dia de folga — para fazer a m aquiagem da

sua m ais nova BFF [4].

A m aquiadora deve ter dito não, porque Ricardo esbravej ou:

— Adela! É um a situação de extrem a urgência! Ela tem um encontro com Ry an Jam es... Hum ... siiiiiiiim. O Ry an Jam es... E se eles se apaixonarem e se casarem ? Você não quer fazer o casam ento deles? Hein? Ou quer ser deixada de lado só porque não conseguiu se desgrudar da Ellen DeGeneres?

Ricardo desligou o telefone e anunciou:

— Ok. Você m e deve essa. Adela está a cam inho. Ela é um gênio e vai esfum açar os seus olhos com o ninguém ! Shazam !... Agora vam os falar sobre a sua roupa. O que vai vestir? — questionou ele, olhando para os m eus sapatos com desdém .

— Não vou usar estes, não se preocupe — avisei e expliquei que tinha acabado de sair de um a entrevista e que os m eus sapatos de salto alto estavam no carro.

— Meniiiina, era isso que eu ia te falar! Com esses sapatos sim plesm ente não dá. Acho que não rola nem para um a entrevista! A m enos que a entrevista fosse num convento! — ele advertiu, caindo na gargalhada.

A assistente de Ricardo disse o nom e dele bem baixinho, parecendo horrorizada, m as ao m esm o tem po achando graça do com entário contundente dele em relação aos m eus sapatos.

— Shea e eu som os am igas. Ela sabe que eu não posso m entir. Sou com o Abraham Lincoln. Sim , com certeza eu teria derrubado aquela cerej eira.

— Mas quem fez isso foi George Washington. — Dei risada.

— Que sej a. Abraham Lincoln tam bém foi honesto. E eu tam bém sou. E com esses sapatos não rola! — Ricardo deu risada e continuou: — E então, m e conte sobre a entrevista.

— É para trabalhar no Post. Cobrindo esportes.

— Um a j ornalista! Que chique! E aí? Você passou?

— Creio que sim .

— É assim que se fala! Agora aplique essa m entalidade ao Sr. Jam es gostosão e vai conseguir agarrá-lo tam bém . Especialm ente com esses cachos — observou ele, afofando o m eu cabelo. — Ele vai ser todinho seu esta noite, m as querida, você o quer?

— Para falar a verdade, acho que sim — confessei.

Às cinco horas em ponto, horário em que m arcam os de nos encontrar, entrei no saguão do Ritz e fui para o bar, com m eu cabelo todo arrum ado, os olhos esfum açados, sapatos de salto que elevaram a m inha estatura para m ais de 1,80 m etro e m eu vestidinho preto que pareceu m ais curto do que ficara quando o experim entei no provador da butique de Lucy. Ao que tudo indicava, o esforço e o dinheiro gasto valeram a pena, j á que decidi que aquilo era o m elhor que eu poderia fazer para dar um up na m inha aparência, e essa sensação foi enfatizada por alguns olhares que recebi de hom ens vestidos de terno na entrada do bar. Até com eçou a passar pela m inha cabeça que eu tinha exagerado, pegado um pouco pesado, m as aí avistei Ry an, deslum brante num terno preto e com um a gravata slim prata. Ele estava sentado em um dos sofás baixos de couro, próxim o à j anela, batendo papo com um casal elegante que tinha m ais ou m enos a nossa idade. Ry an m e avistou quase que im ediatam ente, e seu rosto se ilum inou quando ele pulou do sofá e veio em m inha direção, com um j eito de andar sexy, m aroto e petulante. Mesm o que não fosse j ogador de futebol am ericano, aquele era o j eito de andar que fazia as garotas irem para a cam a com ele, sem a necessidade de pedir.

— Você está m aravilhosa — disse ele, abaixando-se para beij ar o m eu rosto, com a m ão sobre as m inhas costas. — Uau!

— Obrigada. Você tam bém está ótim o — falei, m e desvencilhando do m esm o nervosism o que eu sentia antes dos j ogos, enquanto ele m e conduziu até o sofá e m e apresentou a seus am igos, Sandy e Barry, explicando que Barry fazia parte do conselho da instituição de caridade que se destinava à causa do autism o e Sandy fora a organizadora do evento no ano passado. Cum prim entei-os enquanto Barry se levantou e m e deu um aperto de m ão e Sandy elogiou o m eu vestido. Eu disse que tinha adorado o vestido dela tam bém , enquanto todos se sentaram e Barry perguntou o que eu queria beber. Olhei para a m esa que havia entre nós, e percebi que os hom ens estavam bebendo uísque escocês e Sandy, vinho branco. Hesitei, da form a com o eu sem pre fazia quando chegava a hora de pedir um a bebida, pensando que, aos 33 anos, j á passava da hora de eu ter preferência por algum tipo, com o Lucy. “Vodca Belvedere batida com refrigerante”, pedia ela de um m odo tão decisivo, estiloso, sem se atrapalhar e sem pular da cervej a para o vinho e do vinho para a tequila.

— A Shea tom a bourbon — anunciou Ry an em tom de orgulho.

— Com o sabe disso? — perguntei, baixinho.

Ele piscou e disse:

— É o tipo de coisa que não se esquece. Mulheres que tom am bourbon. Mulheres que andam arm adas. Mulheres que não usam calcinha. Mulheres que entendem verdadeiram ente o futebol am ericano.

— Deus do céu, Ry an! Que lista, hein?! — lançou Sandy, rindo.

— Sim . Mas acho que há um a diferença entre entender o que é um a formação wishbone e andar carregando um a arm a e ainda sem usar calcinha — brinquei.

— Nada disso. Concordo com o Ry an. Observação im portante — com entou Barry.

— Eu estou usando calcinha — afirm ei.

— Que pena — sussurrou Ry an no m eu ouvido.

Sorri e perguntei a Barry o que ele estava bebendo.

— Macallan, trinta anos — respondeu ele, erguendo o copo com cubos de gelo. Eu diria que ele sabia que aquilo m e im pressionaria, m as não m e senti incom odada. Não chegou nem perto daqueles que ficam enum erando nom es de vinhos.

— Trinta anos? — indaguei, m e perguntando o quanto aquilo o faria recuar e se de algum m odo isso valeria a pena.

— Sim . O gosto é incrível — afirm ou Ry an.

Sandy m e questionou com o eu aguentava algo tão forte:

— É com o beber... acetona.

Dei risada e disse que o gosto do bourbon não tinha absolutam ente nada a ver com acetona, m as que era provável que eu pedisse vinho naquela noite. Ry an m e ignorou e disse à garçonete que eu queria um a dose dupla “daquele dos bons”.

— Com gelo? — perguntou-m e ela, com um ligeiro olhar de avaliação.

— Não. Puro — respondeu Ry an por m im , o que m e intrigou um pouco, j á que ele e Barry estavam tom ando com gelo.

Pensando que ele tinha as suas razões e que eu não tentaria encontrar defeitos, sorri e agradeci, lem brando a m im m esm a que deveria tom ar cuidado. Eu ainda tinha um percurso de um a hora de carro até m inha casa, e acabar no sofá de Ry an estava com pletam ente fora de cogitação. A cam a dele, então, nem pensar, e sobre esse assunto Lucy tinha feito de tudo para m e alertar. Ela j á tinha m e enviado duas m ensagens de texto. Um a delas sim plesm ente dizia: NÃO vá ficar chumbada, e a outra: Os homens gostam de mulheres difíceis. Não banque a periguete. Dei risada depois que li esta últim a, lem brando que fui eu quem lhe ensinou a palavra, com base no que eu via das garotas que, com um a blusinha m egadecotada e botas na altura dos j oelhos, faziam plantão nos arredores do hotel onde os j ogadores se hospedavam , esperando pelo m om ento em que eles saíam para entrar no ônibus da equipe.

— Bom , o Ry an contou que vocês dois estudaram j untos na faculdade — com entou Sandy, e percebi pelo seu sotaque que ela era a versão fem inina de Ry an. Classe alta, em todos os sentidos. Tão alta que ela poderia se dar ao luxo de ignorar as aparências. Gostei dela.

— Sim . Nos conhecem os durante o curso de redação, quando ainda éram os calouros.

— Mas nos conhecem os por causa do futebol am ericano, tam bém . A Shea é a m elhor am iga da filha do treinador Carr — explicou Ry an.

— E você é da Walker? — perguntou Sandy.

Respondi que sim , que sem pre fui, com exceção dos m eus prim eiros dois m eses de vida.

— A Shea trabalha na Walker agora. No departam ento esportivo — acrescentou Ry an.

Balancei a cabeça, confirm ando, depois contei que eu havia feito um a entrevista para trabalhar no Post naquele m esm o dia, m ais cedo.

— E, segura essa — confidenciei, virando-m e para olhar bem nos olhos de Ry an. — É para fazer a cobertura da Longhorn.

Ry an deu um tapa na própria coxa e deixou escapar:

— Traidora! Maldita traidora! — Ele gargalhou, brincando. — O treinador sabe disso?

Com entei que sim , m as não disse que a entrevista tinha sido ideia do treinador, e logo m udei de assunto, perguntando a Barry e Sandy onde os dois haviam estudado.

— Estudei na SMU e o Barry na Rice — respondeu Sandy, acrescentando que os dois tam bém eram fãs do Walker por causa de Ry an.

Tive de m e conter para não deixar escapar a m inha opinião: ou eram fãs do tim e com o um todo ou não eram . Em vez de dizer isso, preferi m e agarrar a um terreno m ais seguro e perguntei onde eles tinham crescido.

— Aqui m esm o, em Dallas. Nós dois estudam os no Highland Park.

Sorri e balancei a cabeça, m e sentindo m uito fam iliarizada com o público da Highland Park, o lado rico de Dallas, onde as m inhas am igas socialites da Walker tinham crescido e para onde voltaram depois da faculdade, e a m aior parte delas conviveu com os seus m aridos a vida inteira. Em condados com o Walker, casar-se com alguém da região era m uitas vezes a m aneira de resolver um problem a, de j ogar a toalha, por que o que m ais se poderia fazer? Mas, em Dallas, casar-se com o nam orado do ensino m édio parecia algo arranj ando, intencional. E, ao que tudo indicava, Sandy e Barry eram um exem plo típico da com binação perfeita entre o dinheiro da fam ília e a genética excelente.

A garçonete voltou com a m inha bebida. Eu a agradeci, depois a Barry, segurando o copo, sem pressa antes de levá-lo às narinas. Abri a boca ligeiram ente, com cuidado para não inalar o arom a abruptam ente, depois de aprender que isso atenua a sensação do paladar. Senti o arom a picante do caram elo, depois fechei os olhos e tom ei um a bela golada.

— Você tinha razão. Esse é dos bons. Caram ba. Tem quase o dobro de anos do m elhor Macallan que eu j á tom ei.

— E é duas vezes m elhor. Vale cada centavo — afirm ou Barry.

Ry an ergueu seu copo e declarou:

— A vida é m uito curta para tom ar uísque barato.

Sorri e com entei:

— Falando com o um Dallas Cowboy s. Não tenho m uita certeza se todo m undo pode se dar ao luxo de seguir à risca essa filosofia.

Abrindo um sorriso, Ry an colocou um braço ao m eu redor, m e puxando para perto. Deixei a cabeça recair sobre o om bro dele num m om ento de “sim , nós estam os j untos”, ciente de que as pessoas ao nosso redor estavam nos observando. Eu m e senti especial, sortuda, m esm o sabendo que tudo aquilo era um a ilusão. Eu realm ente não era aquela garota. Era o cabelo, o vestido, o batom verm elho que faziam aquilo. Ou talvez fosse só o efeito causado por Ry an — a luz resplandecente que ele irradiava sobre qualquer um que estivesse em sua com panhia. Continuei bebericando m eu bourbon, sentindo-m e m ais quente e m ais feliz a cada segundo, desej ando que não tivéssem os de nos levantar daquele sofá. Mas a hora voou, j unto a m ais um a rodada de bebidas, e, às seis em ponto, Sandy avisou que era hora de com eçar a levantar o dinheiro para a instituição. Todos nos levantam os, Ry an segurou a m inha m ão e m e levou do bar.

A cam inho dos elevadores, ele foi parado duas vezes por estranhos, que lhe pediram autógrafos e um a foto em frente a um arranj o enorm e de lírios exposto em um a m esa redonda no m eio do saguão. Enquanto Sandy e Barry foram ao banheiro, fiquei observando a distância por alguns segundos, então peguei o celular da m inha clutch e tirei um a selfie, com Ry an ao fundo. Enviei a foto para Lucy, m e divertindo com a m ensagem que m andei j unto da foto: Não passo de uma periguete. Depois, dei risada da resposta dela, em letras m aiúsculas: RSRSRS —, m as ciente de que aquilo não tinha sido bem um a brincadeira, considerando m inha opinião repentina e induzida pelo uísque de que passar a noite com Ry an poderia não ser exatam ente o fim do m undo. O resto da noite foi um saco. Conversei com vários casais, de vez em quando com Barry e Sandy tam bém . Posei para fotos profissionais com Ry an. Ofereci, em silêncio, com igo m esm a, lances de com pra para diferentes itens, não porque eu quisesse adquiri-los, m as porque pareciam um “bom negócio”: um depilador a laser, um anel com pedra de m alaquita, um passeio de balão. Dancei na pista escorregadia ao som de um a banda de doo-wop. Perdi os m eus sapatos, depois os encontrei, depois os perdi de novo. E beberiquei um a taça de pinot noir que nunca term inava.

Depois, só m e lem bro de ter visto Ry an desligando o alarm e de segurança da sua casa, entrando naquela m ansão contem porânea e luxuosa, e eu passando com ele pela sua cozinha de m árm ore cintilante, subindo até o quarto. E m ais nada... até que acordei na cam a dele, vestindo apenas a m inha calcinha e um a cam iseta enorm e do Cowboy s. Me levantei, e o quarto inteiro estava girando enquanto eu procurava, desesperada, pelas m inhas roupas e m eu celular.

Sem levantar a cabeça do travesseiro, a voz de Ry an soou, abafada:

— Bom dia, querida.

— Que horas são? — perguntei, com a cabeça latej ando.

— Seis e m eia — respondeu ele.

— Onde está m eu telefone?

— No banheiro. Você colocou a bateria para carregar lá.

— Coloquei?

— Sim .

— E o que m ais eu fiz?

Ry an revirou os olhos, depois olhou para m im , com um sorriso afetado.

— Você não lem bra?

Essas eram , sem dúvida, as três piores palavras que se pode ouvir depois do prim eiro encontro com alguém , especialm ente quando se está no quarto do cara, vestindo a roupa dele e com um a ressaca daquelas.

— Mais ou m enos — m enti, tropeçando em um dos seus m ocassins do tam anho de um barco, procurando pelo banheiro.

— É do outro lado — ele m e orientou, apontando para o lado onde ele estava.

— Certo — falei, seguindo a luz do banheiro, que era m aior que o m eu quarto. Não consegui m e lem brar de ter visto aquele banheiro antes, m uito m enos de ter deixado o celular carregando. Retirei o carregador da tom ada. Quatro ligações perdidas de Lucy e inúm eras m ensagens dela, perguntando o que estava acontecendo. Respirei fundo e verifiquei m eu registro de cham adas, com um pressentim ento terrível do que eu encontraria. E lá estava: duas ligações realizadas para o treinador Carr.

Merda, falei em voz alta, m e recordando, vagam ente, de ter feito as ligações.

Ry an m e ouviu e perguntou:

— Você está bem ?

Voltei para a cam a, com o telefone na m ão, e indaguei:

— Eu liguei para alguém ontem à noite?

Ry an sorriu e confirm ou:

— Sim . Você ligou para o treinador. Foi hilário.

— Hilário?! Com o assim ? — perguntei, com o coração saltando pela boca ao ver que um a das ligações tinha durado quase onze m inutos. Cruzei os dedos, esperando que Ry an dissesse que a conversa tinha sido engraçada, e não ridícula e estúpida, enquanto eu voltava para a cam a e m e cobria com o lençol. — O que foi que eu disse?

— Sobre qual dos assuntos? — perguntou Ry an, sentando-se, deixando à m ostra um abdôm en que parecia surreal. — Quando você tirou sarro dos Longhorns? Ou o seu discurso inflam ado sobre a presença de m ulheres no vestiário? Ou a sua declaração de am or eterno a ele?

— O quê?! — exclam ei com a voz rouca. — Eu disse o quê?

— Você falou que ele era a pessoa de quem você m ais gostava no m undo todo. Algum a coisa assim .

— Eu não gosto dele desse j eito — retruquei.

— Ah, claro que não. Ele é um velho.

— Não, ele tem só 55.

— Bom , que sej a. Eu sei o que você quis dizer.

— Mas eu falei m esm o isso para ele? — insisti.

— Sim — respondeu Ry an, aparentem ente curtindo o m eu desespero enquanto im itava a m inha voz em bolada, im possível de com preender. — Voxê... é... a pessssoaqueeuuuum aisssssgosssstonom uuuundo.

— Ah, m eu Deus! Por que você deixou eu ligar para ele? — questionei, enterrando a cara bem fundo nos travesseiros, sentindo cada partezinha do m eu corpo arder diante de tam anha hum ilhação.

— Não tinha com o te interrom per. Você encheu a caveira.

— Enchi a caveira? O que m ais eu disse?

— Com eçou a falar sobre cada troféu Heism an desde que o Jay Berwanger ganhou a m aldita coisa em 1935 e perguntou ao treinador quem ele achava que merecia ter ganhado. Nessa parte, você colocou o telefone no viva-voz.

— E ele....

— Entrou na brincadeira? Ah, sim . Ele entrou na sua. Vam os ver... Vocês concordaram que Hershel Walker deveria ter ganhado em 1982, em vez do George Rogers.

— Em 1980. Porque em 1982 ele conquistou o troféu — corrigi.

— Certo. Que sej a. Mas, de acordo com o que você disse, ele não deveria ter ganhado naquele ano. Eric Dickerson é quem deveria ter ganhado em 1982... E você disse que Chuck Long deveria ter ganhado, em vez de Bo Jackson, m as o treinador discordou desse... E você tam bém disse que Ki-Jana Carter ou McNair deveria ter ganhado, em vez de Salaam , e você e treinador concordaram que Pey ton Manning deveria ter ganhado o troféu em 1997.

— E conversam os sobre você? — perguntei.

— Não. Fiquei com pletam ente de fora. Até que você desligou — contou ele, tirando o lençol de cim a de m im e beij ando o m eu rosto. Senti o calor da respiração dele no m eu ouvido, e m e senti excitada, não pude evitar, em bora o m eu foco tenha perm anecido o m esm o.

— E o que m ais? O que m ais eu falei para o treinador? — perguntei.

— Falou sobre o trabalho. No Post. O treinador disse que você foi louca de não aceitar e você contou que ainda não recusou. Aí ele disse que você deveria aceitar. Depois você disse que não queria deixar a Walker e que só Deus sabia por quê. Ele disse que você poderia se deslocar entre Walker, Dallas e Austin. Blá, blá, blá. Aí eu disse pra você desligar.

— E eu desliguei?

— Não. Você divagou um pouco m ais.

— Sobre?

— Sobre o quê? — perguntou ele.

— Sobre o que m ais eu falei? Futebol am ericano?

Ry an m e beij ou de novo, dessa vez na boca, depois m e virou de costas.

— Você só pensa nisso — afirm ou ele, cobrindo m eu corpo com o dele. — Acho que você am a m ais o j ogo do que eu.

Retribuí o beij o, o m eu corpo lutando contra o m eu pensam ento.

— E eu acho que você gosta m ais de futebol am ericano do que de sexo — sussurrou ele.

— Então a gente não... — perguntei, esperançosa.

— Infelizm ente não. Você não estava num estado de m uita consciência. Além disso, sou um cavalheiro... Mas ainda tem os bastante tem po.

Ry an m e beij ou com m ais desej o ainda, segurando o m eu seio com a sua m ão grande. Eu o beij ei, m as m entalm ente cerrei o punho e esm urrei o ar, com em orando, aliviada. Realm ente aquilo era contraditório, da m aneira que sem pre acontecia em se tratando de uísque. Você nunca sabe se deve culpá-lo pelo que acontece ou se deve agradecê-lo; eu ficaria com esta últim a opção só depois de ter desligado o telefone depois daquela ligação para o treinador.

— Quer agora? — perguntou Ry an.

— Falar sobre futebol am ericano ou fazer sexo? — indaguei.

— Os dois — disse ele, com o ritm o da respiração intenso e a voz baixa. — Posso fazer essa sua brincadeira do troféu Heism an enquanto eu estiver dentro de você...

— Ah, é? Quem ganhou o troféu em 1968?

— Isso é um teste? — questionou ele, enquanto o senti contra a m inha perna, ficando excitado.

— Sim — respondi, pressionando-o, m as confiante de que ele erraria.

— Steve Spurrier — respondeu.

— Não. Tente de novo.

— Archie Griffin.

— Perdeu — falei, m e retorcendo debaixo dele. — O Juice. O.J. Sim pson. Boa sorte da próxim a vez. — Sorri e m e sentei.

— Ei, espera aí. Prim eiro o cara m ata duas pessoas... e agora vem bancar o “em pata-foda” aqui?

Fiz um a careta.

— Nunca m ais use essa expressão de novo. Mas, sim , é isso.

Ry an deu risada e perguntou:

— Mas, e aí, é verdade, não é?

— É verdade o quê?

— Que você gosta m ais de futebol am ericano do que de sexo?

— Hum ... é questão de vínculo — expliquei.

A expressão de Ry an se ilum inou.

— É um a bela resposta. Tenho um bom pressentim ento em relação a você, Shea Rigsby — declarou ele.

Retribuí com um sorriso.

— Ah, é?

— Sim .

— Ah, que bom . Porque eu tam bém tenho um ótim o pressentim ento em relação a você, Ry an Jam es.