Primeiro e Único
Vinte e nove
Os Cowboy s acabaram perdendo por 28 pontos, a pior derrota de todas no Dia de Ação de Graças. Os únicos que perm aneceram em nosso cam arote até o final constrangedor foram as pessoas que vieram com igo. O Sr. e a Sra. Jam es e a m inha m ãe foram em bora faltando alguns m inutos para term inar a partida. É óbvio que em tão pouco tem po o Dallas não se recuperaria, m as ainda assim a atitude pareceu desleal.
— Está pronta? — perguntou m eu pai enquanto os dois tim es saíram de cam po e desapareceram no túnel, a cam inho do vestiário.
Dei de om bros, bebericando o terceiro drinque do dia, desej ando estar bêbada de verdade ou qualquer coisa do tipo que aliviasse a preocupação com a lesão de Ry an — e com o que ele diria quando nós finalm ente conversássem os.
— Não precisam os ter pressa. Ou ficam os parados aqui ou no trânsito — apontei.
— Tudo bem . Bom ... Qual é o plano exatam ente? — perguntou m eu pai. Neste m om ento m e ocorreu que, pelo m enos um a vez, era eu quem estava no controle das coisas.
— Vam os nos encontrar no Café da Rua Green às cinco e m eia — anunciei. Eu tinha deixado os planos m eio vagos até agora, de propósito.
Sem conhecer Dallas, Astrid m e lançou um olhar intrigante enquanto falei:
— Um j antar íntim o no Four Seasons. Relaxa.
Ela sorriu e:
— Perf.
Não consegui evitar e revirei os olhos para Astrid quando Bronwy n disse:
— Minha m ãe não entende que só os adolescentes abreviam os substantivos e adj etivos... “Belê”, “firm ê”, “sussa” e o m eu favorito: “total”.
— Total? De “totalm ente”? — interveio Wiley enquanto Astrid riu, aparentem ente orgulhosa por ser com parada com um a adolescente.
— Sim — falei.
Meu telefone tocou e eu dei um pulo, pensando que poderia ser Ry an, m as era só Gordon dando um “alô”.
— Você está no vestiário? — perguntei.
— Estou indo para lá agora... Sinto m uito pelo j ogo — ele declarou, e eu que gostei m uito, considerando que ele era fã do Eagles. — Dia difícil para os seus caras.
— Sim ... Um dia da caça — com ecei, citando um dos ditados que o treinador usava —, outro do caçador.
— É. Verdade. Bem , parece que daqui a pouquinho vou falar com o seu nam orado — com entou.
— Ouviu algum a coisa sobre o j oelho dele? — perguntei.
— Nada oficial. Só vam os saber com certeza m ais tarde... Mas o boato é que não foi nada grave. Você conversou com ele?
— Ainda não. Provavelm ente você vai falar com ele antes de m im . Então, m e conte...
— Vou contar.
Desliguei, percebendo que todos estavam olhando para m im .
— Quem era? — perguntou Astrid, esbaforida.
— Meu colega que faz a cobertura dos Cowboy s.
Meu pai m eneou a cabeça, intrigado, depois m e fez algum as perguntas sobre o histórico de Gordon. Fiz um resum o da sua traj etória j ornalística adm irável — graduação na Universidade de Nova York, depois pós-graduação na Newhouse School, em Sy racuse, e várias experiências em periódicos de pequeno porte até chegar a esse grande j ornal. Meu pai pareceu com preender aonde eu queria chegar, pois perguntou:
— Esse trabalho é um a grande conquista para você, não é?
— Sim . Eu tive sorte.
— A questão não é sorte. É que você é boa — ele declarou.
— E eu conheço o treinador Carr... isso é tão bom quanto um diplom a de pós-graduação — acrescentei.
— Estou te dizendo. Aquele hom em é m uito sexy — com entou Astrid, olhando bem nos m eus olhos.
Um a hora m ais tarde, depois que param os no Ritz para Astrid “se refrescar”, e depois de m inha m ãe ter dito que não ficaria para j antar conosco, eu ainda precisava falar com Ry an, e j á tinha enviado duas m ensagens de texto. Eu não im aginava que ele pudesse m e ignorar com pletam ente, em bora estivesse entrando em pânico ao pensar que aquela poderia ser um a possibilidade real. Mas, quando chegam os ao Four Seasons, fiquei aliviada ao ver o Porsche dele parado próxim o ao balcão do m anobrista, sendo adm irado por alguns caras de uniform e. Por m ais que entendesse os hom ens e os esportes, eu j am ais com preenderia a paixão m asculina pelos carros.
— O Ry an está aqui. É o carro dele — falei.
— Uau. Maravilhoso — exclam ou m eu pai, com um assovio, ao ver o carro.
— É um Turbo S? — questionou Wiley.
— Sim . Com certeza — respondeu m eu pai.
— Quanto custa um carro desse? — Astrid indagou.
— Com certeza m ais de um m ilhão — m eu pai respondeu, enquanto saíam os do carro.
Olhei para o celular pela últim a vez, m as só havia um a m ensagem de Lucy dizendo que o j antar foi um sucesso e que ela não sabia com o sua m ãe conseguia fazer as coisas parecerem tão fáceis. Senti um a onda intensa de culpa ao m e dar conta de que eu não havia dito um a palavra sequer para Lucy sobre a m ãe dela durante o dia inteiro. Foi puro egoísm o da m inha parte, então eu quase m e coloquei na m esm a categoria que Astrid. Fiz um a anotação m ental para ligar para Lucy assim que o j antar acabasse.
Alguns m inutos m ais tarde, depois de serm os recepcionados pela hostess do restaurante, fom os conduzidos até o bar privativo, onde Ry an e seus pais j á estavam sentados. Ry an e o Sr. Jam es se levantaram im ediatam ente enquanto entrávam os, m as nenhum deles sorriu. Os dois pareciam péssim os, e eu tive a sensação de que tinham acabado de discutir. Pai e filho estavam com o rosto corado.
Prendi a respiração, m e preparando para um a saudação fria e para o constrangim ento que isso m e traria, m as não aconteceu. Em vez disso, Ry an veio até m im , colocou o braço ao redor da m inha cintura e m e beij ou, m as de um j eito tím ido.
— Oi, querida — disse ele, com o se eu fosse a única pessoa ali.
— Oi — respondi com o m áxim o de delicadeza que consegui, sem sussurrar. — Sinto m uito, m uito m esm o...
Ry an assentiu, com o que aceitando m inhas desculpas, depois ele m esm o se apresentou, com calm a, cum prim entando m eu pai com um aperto de m ão e com a voz m ais firm e.
— Olá Sr. Rigsby ! Sou Ry an Jam es.
— Pode m e cham ar de Walt — pediu m eu pai, com firm eza.
— Certo, então. Walt. Prazer em conhecê-lo! — ele afirm ou, se virando para os dem ais. — E vocês devem ser Bronwy n, Wiley e Astrid. — Ele apontou para cada um deles, e os cum prim entou com um aperto de m ão tam bém . Astrid abriu um sorriso de orelha a orelha e, por m ais inacreditável que pudesse parecer, perguntou se poderia tirar um a foto com ele antes de nos sentarm os.
Acho que eu bufei, e Bronwy n pareceu horrorizada quando viu a m ãe m e entregar o iPhone. Mas Ry an levou tudo num a boa, sorriu, fez pose e até deixou Astrid verificar a foto que tirei para saber se ficara do seu agrado. Enquanto isso, m eu pai, Bronwy n e Wiley ficaram batendo papo com o Sr. e a Sra. Jam es.
— Eu pisquei? — Ry an m e perguntou quando devolvi o celular a Astrid. — Eu sem pre pisco.
— Não, ficou “perf” — respondeu Astrid.
— Ótim o! — ele afirm ou de um m odo tão j ocoso que não sei bem se fiquei im pressionada ou incom odada ao ver que o nível de fingim ento dele poderia chegar a esse ponto.
Quando nos sentam os, m eu pai colocou o dedo na ferida:
— Lam entam os m uito pelo j ogo, Ry an. Com o está o seu j oelho?
— Está tudo bem . Foi só um a torção.
— E com o conseguiu fazer isso? — indagou o Sr. Jam es.
— O que quer dizer? —Ry an questionou, e o clim a ficou visivelm ente tenso. — Com o é que as pessoas torcem o j oelho?
O Sr. Jam es m urm urou algum a coisa que não consegui entender enquanto o garçom se aproxim ou e, com um a fala ensaiada, explicou sobre os pratos e tom ou nota dos pedidos de bebida. Por alguns m inutos o clim a ficou m ais leve enquanto todos, exceto o Sr. Jam es, conversavam entre si educadam ente.
Porém , quando o vinho e o uísque chegaram , ele voltou a despej ar seus insultos velados. Ry an os ignorou até o m om ento em que pareceu não suportar aquilo nem m ais um segundo.
— Pai, você pode, por favor, m udar de assunto? — ele sugeriu, olhando bem para o Sr. Jam es.
— Claro. Sobre o que você gostaria de falar, filho? — perguntou o Sr. Jam es, sarcástico. — Hoj e é o seu dia.
Meu pai ergueu um a sobrancelha e olhou para m im .
— Qualquer coisa. Menos futebol am ericano —Ry an respondeu, com as narinas j á dilatadas.
O Sr. Jam es insistiu:
— Por exem plo?
— Nada, por exem plo — rebateu Ry an, erguendo a voz ligeiram ente.
— Tudo bem . Que tal falarm os sobre essa investigação da Walker? Shea, li a sua m atéria... Poderia falar sobre isso?
Abri a boca para responder, m as Ry an bateu a m ão sobre a m esa:
— Isso é futebol am ericano, pai.
— Mas pelo m enos não é sobre o j ogo horrível que você fez hoj e.
— Querido, não... — sussurrou a Sra. Jam es enquanto Ry an virava seu copo de uísque.
— Com o vai a investigação? — pressionou o Sr. Jam es, sem querer m e deixar de fora da confusão.
— Está... em andam ento — falei enquanto Ry an tocou m inha perna por baixo da m esa, o que m e deu força para continuar. — Pelo m enos acho que sim . Para ser sincera, não sei. A NCAA não com enta o caso. A Walker tam bém não. As m inhas fontes não serão reveladas... o que, na verdade, é um alívio para m im e significa que não preciso escrever e registrar a identidade delas.
— E? Você acha que estão nos investigando?
Tive vontade de responder que ele não era nenhum a parte de nós. Tive vontade de m andá-lo calar a boca. Em vez disso, tive um insight:
— Bem , eu não sei, senhor. Ouvi boatos de que o senhor com prou um carro para Cedric Washington. É verdade?
Olhei para Ry an, que assentiu ligeiram ente para m im , em bora eu não tenha conseguido decifrar se ele estava confirm ando o boato ou m e dando apoio m oral.
De qualquer form a, o Sr. Jam es perm aneceu calm o:
— E qual é a cláusula que proíbe isso?
— Não sei — respondi, depois o pressionei: — Então o senhor deu m esm o? Com prou um carro para ele?
— Devo ter com prado — respondeu.
— Querido — repetiu a Sra. Jam es.
— O que foi? Ela m e fez um a pergunta — ele retrucou para a esposa.
Meu pai com eçou a assoviar, um a m ania que ele tinha quando ficava nervoso, e até Astrid tinha se tocado que a situação estava ficando péssim a, e com eçou a m urm urar consigo m esm a que am ava vinho, depois se virou para perguntar a Wiley o que ele tinha pedido. Wiley a inform ou sobre o vinho que ele havia escolhido e sua respectiva ficha técnica. Com certeza ele tinha visitado a vinícola com Bronwy n, o tipo de coisa que m e irritava, m as posso dizer que todos estavam se esforçando para lançar um a tábua de salvação para Ry an e eu. Foi um a cena quase com ovente.
— Onde foi que você ouviu isso, Shea? Ou essas perguntas são suas m esm o? — ele questionou, com um sorriso largo e falso.
Sorri:
— Não posso revelar as m inhas fontes.
— Ah, sem essa. Você conversou com Ced?
— É só um boato. Da m esm a m aneira que toda essa investigação está sendo realizada com base em boatos, conj ecturas. É um castelo de cartas. Com o tudo o que a NCAA está fazendo estes dias.
Foi a coisa certa a dizer, porque houve um a m udança perceptível depois disso. Ou talvez o uísque estivesse com eçando a fazer efeito.
— Concordo plenam ente — declarou o Sr. Jam es, erguendo o copo.
Eu não gostava nem um pouco da ideia de estar do m esm o lado que ele em um a discussão, m as estava m ais interessada em fazer a refeição em paz, então m antive o discurso anti NCAA, sustentado principalm ente pelo treinador. Enquanto isso, Ry an se m anteve em silêncio absoluto e só falava quando alguém conversava com ele. Mas não pude culpá-lo, e tive certeza de que ninguém tinha o direito de fazer isso. Na verdade, enquanto nos atrapalhávam os com o j antar, m e senti cada vez m ais protetora em relação a ele, quase com o se ele ainda fosse um garotinho acuado diante da presença do pai.
Ao final do j antar, quando m eu pai sugeriu que voltássem os ao Ritz para tom ar um drinque, recusei im ediatam ente.
— Ry an precisa ir para casa descansar — observei.
— É... preciso colocar gelo neste j oelho — ele concordou quando a conversa atingiu outro nível de calm aria, um a raridade considerando tantas pessoas à m esa.
Quando a conta chegou, todos os hom ens discutiram , disputando quem pagaria. Por fim , o Sr. Jam es venceu e os outros três cederam rápido, m uito provavelm ente aceitando aquilo com o um gesto de arrependim ento pelo seu terrível com portam ento. Então, nos levantam os e voltam os para o balcão do estacionam ento. O m anobrista trouxe prim eiro o Porsche de Ry an, em bora ele tenha perdido a com anda. Ele discretam ente deu um a gorj eta de vinte dólares para o rapaz. Só depois disso se virou para m im e perguntou:
— O que você vai fazer agora?
— O que você quer que eu faça? — sussurrei.
— É você quem escolhe — respondeu.
— Você quer ficar sozinho?
— Não. Quero que fique com igo.
— Tudo bem , então. Vou pegar o m eu carro no Ritz e j á volto.
Ry an concordou com a cabeça. Em seguida, eu o observei enquanto ele m e olhava e lançava um últim o gesto de charm e.
— Foi ótim o conhecê-lo, senhor, e, da próxim a vez, asseguro que vão assistir a um a vitória — disse ele para o m eu pai, com um aperto de m ãos.
— Da próxim a vez, dê a eles um j ogo bom . Não essa vergonha que você fez hoj e.
Ry an ignorou o pai, m as deu um beij o na m ãe, depois em Astrid em Bronwy n, e foi cum prim entar Wiley. Por fim , ele se virou para m im e perguntou:
— Te vej o daqui a pouco?
— Sim — respondi, m e inclinando para beij á-lo por protocolo e porque eu queria, m as, m ais do que tudo, porque eu realm ente lam entava m uito pelo grande Ry an Jam es.