Primeiro e Único

Emily Giffin · Capítulo 34 de 46

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Primeiro e Único

Trinta e quatro

 

— Você está bem ? — o treinador perguntou depois de colocar a m esa no lugar, quando nós dois fom os para o sofá. Ele ainda estava ofegante e com o cabelo desgrenhado, a cam isa para fora da calça, am assada e com algum as m anchas de sangue.

— Sim , estou bem — respondi, olhando para a frente e com as m ãos debaixo das coxas. A única luz do am biente vinha do corredor, e o reflexo am arelado de um dos postes da rua atravessava as persianas de plástico que cobriam m inha j anela. — E você?

— Estou, sim . É a m inha prim eira briga depois de 35 anos. Se é que podem os cham ar isso de...

— Sim , com certeza podem os cham ar isso de briga, sim — falei. Obriguei-m e a olhar para ele, e sua expressão era de choque. Foi com o se ainda estivesse processando tudo.

— Ele não revidou nenhum soco... — com entou o treinador, aparentem ente falando consigo m esm o. Eu com entei:

— Talvez ele estivesse com m edo de você.

Ele riu:

— Não, acho que não. Um j ogador da NFL em pleno auge? E um treinador velho?

— Você não é velho — ponderei.

— Me sinto velho agora — ele falou baixinho, olhando para as j untas e para o corte no dedo do m eio. Depois de m uitos segundos de silêncio, ele voltou a falar: — Bem . Ele m ereceu.

Ao que tudo indicava, aquela tinha sido um a afirm ação, um a declaração de opinião. No seu tom de voz não havia nada que sugerisse que era um a pergunta, m as eu sabia que ele estava m e perguntando algo. Tenho certeza de que o treinador estava esperando a confirm ação de que não tinha exagerado. Que tinha feito a coisa certa.

— Sim , ele m ereceu — concordei, esperando que isso fosse o suficiente.

— O que aconteceu exatam ente? E... em relação ao que eu vi? Você vai m e contar?

— Sim , vou. Mas vou fazer um chá para nós antes. Quer?

— Não, obrigado.

Percebi que ele ficou m e olhando enquanto levantei, fui até a cozinha e enchi a chaleira de água, girei o botão do fogão, depois peguei um a caneca, um saquinho de chá e um a colher de sopa, porque as m enores estavam todas na m áquina de lavar louça que eu tinha esquecido de ligar. Para falar a verdade, eu nem queria tom ar chá. Só estava protelando. A últim a coisa que eu desej ava naquela hora era reviver o que tinha acontecido no bar, m uito m enos o que tinha acontecido no m eu quarto, m as eu sabia que contar a verdade faria o treinador se sentir m elhor. Ele merecia saber a verdade. Então, desliguei o fogão e voltei para o sofá, sentando-m e um pouco m ais perto dele agora, m as, ainda assim , a um a alm ofada de distância.

— Mudei de ideia — falei, olhando-o de perfil.

— Sobre o quê?

— O chá.

Em seguida, contei tudo a ele, sem om itir nada desde a ligação de Blakeslee. Quando term inei, ele esticou o braço para segurar m inha m ão. Estiquei o braço tam bém , roçando m eu dedo m indinho no dele.

— Obrigada — falei, percebendo que eu não tinha agradecido ainda.

— Não m e agradeça. Eu só fiz... o que qualquer hom em faria. Neil, Miller, qualquer um .

— Talvez. Mas você não é Neil, nem Miller. É o treinador dele — eu disse, com eçando a digerir o que tinha acontecido. Seria m uito m ais fácil eu aceitar o que Ry an era do que adm itir o que tinha acabado de acontecer entre as duas m aiores lendas do program a do Walker.

O treinador cobriu o dorso da m inha m ão e eu a virei. Ficam os de m ãos dadas.

— Sou o ex-treinador dele. E j á faz bastante tem po.

— Mesm o assim . Me sinto m al por colocá-lo nessa posição — acrescentei, enquanto m inha m ente processava que estávam os segurando um a m ão do outro. Foi com o se o traum a da noite tivesse com prom etido o m eu timing de reação, causado um atraso.

— Você não fez nada de errado... E o que quer dizer com “posição”? A posição de defender você? Droga. — O treinador balançou a cabeça. — Você não sabe o quanto agradeço por ter chegado na hora certa.

— Tenho certeza de que nada tão terrível teria acontecido — afirm ei. Eu não queria que ele se arrependesse de ter batido em Ry an (para o próprio bem do treinador), m as tam bém não queria exagerar em relação ao que tinha acontecido. Ry an era um valentão com um péssim o tem peram ento, m as não era um crim inoso de alta periculosidade. Com certeza não teria m e m achucado para valer. Ou teria? Por que, m esm o diante da prova de violência, eu ainda queria acreditar que ele não era tão ruim assim ?

— Não suporto a ideia de imaginar que algo poderia ter acontecido com você — ele disse, apertando a m inha m ão.

Eu apertei a m ão dele e pensei que, em bora tudo o que tinha acontecido com Ry an tivesse nos levado ao m om ento em que nos encontrávam os, de m ãos dadas em um a sala escura, eu tam bém tinha a sensação inquietante de que algum a coisa havia se rom pido. O rom antism o, tão claro na últim a conversa que tivem os antes de ele entrar no m eu apartam ento, desapareceu. Foi com o se os socos que ele tinha dado em Ry an tivessem nos levado de volta para a dinâm ica de longa data que eu esperava tanto que pudéssem os transcender.

Soltei a sua m ão e m e virei para olhá-lo, sentada de lado, um j oelho flexionado e a outra perna encolhida, m as sem encostar no chão.

— Treinador, gostei m uito do que fez por m im hoj e. Muito m esm o. Mas não quero ser m ais um a pessoa de quem você precise cuidar, proteger.

Ele se virou para m im , tocou m eu rosto e disse:

— Mas por quê?

Esforcei-m e para explicar, m e arrependendo de ter desistido da ideia do chá, pois com ele eu teria algo para m anter as m ãos ocupadas.

— Porque eu não quero ser com o... a sua filha.

— Você não é com o a Lucy.

— Você entendeu o que eu quis dizer. Não quero que m e vej a com o um a filha — esclareci, escolhendo as palavras. — Nem que você sej a um a espécie de m entor para m im . Não quero ser a j ornalista que faz a cobertura do seu tim e. Nem um a velha am iga da fam ília. Não quero ser sua am iga...

— Não quer ser m inha am iga? — ele questionou, com um sorriso discreto e suplicante. Não sei dizer ao certo se estava confuso ou se fazendo de bobo, ou sim plesm ente m e pedindo para ir direto ao ponto.

— Bem , quero ser sua am iga, sim . Claro que quero. Mas eu acho que... — Olhei em seus olhos, dizendo a m im m esm a para não perder a coragem , ouvindo a voz dele durante a reunião com os j ogadores, pedindo para terem coragem e seguirem em frente. — Acho que eu quero mais do que isso.

— Acha?

Senti o coração sair pela boca e a garganta queim ar.

— Não acho, tenho certeza. Não tenho a m enor dúvida. E estou dizendo isso agora neste m om ento... não só porque você entrou por aquela porta e m e defendeu.

Ele m e encarou com m uita atenção, assentindo ligeiram ente enquanto eu falava, com o se estivesse concordando com cada palavra. Isso m e encoraj ou a continuar, m esm o antes de ele dizer:

— Por favor, continue.

— Estou te dizendo isso aqui, agora, porque... porque eu tinha que fazer isso. Não suportaria nem m ais um segundo. Não im porta o que você pensa sobre isso... e eu realm ente não sei m uito bem o que você pensa a respeito do assunto. Eu preciso que você saiba dos m eus sentim entos por você. — Respirei tão profundam ente que pareceu m ais um soluço, e o treinador assentiu m ais um a vez, de um j eito calm o, m e dando incentivo para continuar: — E talvez isso estej a errado. Por causa da Sra. Carr... ou porque você é velho dem ais.

— Ei, espere aí — ele interveio, esboçando um sorriso discreto.

— Velho dem ais para mim. Não que você sej a um velho — esclareci. — Se bem que, pensando m elhor, o que são duas décadas se considerarm os um a vida inteira? Não é m uita coisa... Mas, deixando a diferença de idade de lado, talvez eu não devesse m e sentir assim porque você é pai da m inha m elhor am iga. Porque Lucy surtaria se ouvisse esta conversa.

O treinador m urm urou algo, concordando.

— Mas nunca tive tanta certeza dos m eus sentim entos. Mais do que de qualquer outra coisa na vida. E eu tinha que te falar.

Foi a afirm ação m ais coraj osa que eu j á havia feito para alguém , e talvez a m ais tola tam bém , especialm ente considerando o que tínham os acabado de passar, m as senti um alívio enorm e por colocar tudo para fora. Um peso que tirei das costas.

— Bom , é isso. Era isso o que eu tinha para dizer.

O treinador pareceu confuso, m as não infeliz.

— Treinador? Diga algum a coisa.

Ele balançou a cabeça, com o se estivesse com pletam ente perdido, m as se aproxim ou de m im , preenchendo o resto do espaço que havia entre nós no sofá, depois colocou a m ão sobre m eu om bro.

— Talvez sej a m elhor com eçar a m e cham ar de Clive — sussurrou.

Em seguida, ele m e puxou para perto e colocou os braços ao m eu redor. Sentir a respiração dele em m eu ouvido m e fez estrem ecer, e ele m e puxou para m ais perto ainda.

— Tudo bem , Clive — concordei, sentindo o cheiro dele.

— Isto é loucura — ele com entou.

— Tão louco quanto vir aqui e atacar o seu único vencedor do troféu Heism an?

— Talvez não tanto. Mesm o assim , continua sendo loucura.

— Não ligo — falei.

— Nem eu.

— Quero que m e beij e.

— Eu quero beij ar você. E vou. Mas não agora.

— Por quê?

— Porque j á aconteceu m uita coisa hoj e.

Afastei-m e um pouco. Se ele não ia m e beij ar, então eu queria olhar em seus olhos.

— Você quis acabar com o Texas ou com o Ry an?

Ele sorriu, depois segurou m eu rosto com as m ãos.

— Com os dois — sussurrou, e pude sentir algo fluindo entre nós, algo m ais intenso do que qualquer beij o. — Mas o que eu sei é que... que os nossos sentim entos são recíprocos.

— São? — eu perguntei. Ele confirm ou com a cabeça. — Com o você soube? Quando com eçou a sentir algo diferente por m im ?

— Lá vem você com as suas perguntas de repórter.

Eu sorri.

— Responda.

— Ah, sei lá. Senti algum a coisa durante aquela partida de Trivial Pursuit no lago. Depois, na prim eira pergunta que você m e fez naquela coletiva de im prensa. Naquele j ogo em que o Reggie errou. Você estava tão... graciosa e... nervosa.

— Você odiou aquela pergunta.

— Fingi ter odiado... E depois, naquela noite em que saím os para correr... — Concordei com a cabeça e esperei. — Senti algo ali tam bém . E na noite em que você trouxe tacos para m im . — Ele assoviou e balançou a cabeça. — Sem a m enor dúvida, m e senti atraído por você em todas essas vezes. Senti algo... Mas, certeza, certeza m esm o? Só hoj e.

— Hoj e? Em que m om ento exatam ente? — questionei, pensando que isso fazia diferença. — Quando veio m e salvar do Ry an? Ou só agora, depois que as coisas se acalm aram ?

— Depois do j ogo. Depois da coletiva de im prensa. Depois de toda a agitação e o barulho. Quando cheguei em casa e fiquei sozinho. Quando sentei na m inha poltrona, peguei o telefone e vi todas as m ensagens de texto e cham adas não atendidas. Dúzias e m ais dúzias... Foi aí que eu percebi que só havia um a pessoa para quem eu queria ligar. Só um a com quem eu gostaria de estar.

Sorri, com certa tim idez e insegurança, m e perguntando se aquilo estava realm ente acontecendo. Era surreal — e tão agradável quanto sair invicto de um a centena de tem poradas regulares.

O treinador retribuiu m eu sorriso e disse:

— Meu Deus, com o você é linda, Shea.

Lem brei-m e que tinha de respirar, e falei para m im m esm a que sim , que aquilo estava finalm ente acontecendo. De verdade.