Primeiro e Único
Vinte e três
Quando as coisas parecem estar boas dem ais para ser verdade, elas estão m esm o. Essa era outra das frases favoritas do treinador Carr — um sentim ento que parecia m uito verdadeiro agora enquanto, nesse nosso fim de sem ana de descanso, nos preparávam os para o Florida State, o Stanford e o Texas, os nossos últim os três, e de longe os m ais difíceis, adversários da tem porada regular.
Então, eu não deveria ter m e surpreendido quando, certa noite, Ry an, do nada, no m om ento em que eu estava prestes a pegar no sono, disse:
— Só quero que você saiba que pode ouvir algum as coisas sobre m im que não são verdade.
— Que coisas? — questionei, agora bem acordada, em bora m eus olhos continuassem fechados.
— Blakeslee sabe que estou com você. — O rosto dele estava tão próxim o ao m eu que pude sentir sua respiração. — E eu estou preocupado que ela possa partir para o ataque.
— Partir para o ataque? Me atacar? — perguntei, agora com os olhos arregalados. Pisquei, aj ustando a visão à escuridão, esperando, pensando naquela fotografia que eu tinha visto na revista e sobre a qual nunca perguntei para ele.
— Não você. Eu — explicou. — Acho que ela está com raiva. E, quando está assim , é capaz de fazer um m onte de besteira.
— E por que ela está enfurecida? — questionei, im aginando que a ex não tinha o direito de se sentir assim , j á que os dois estavam divorciados. É claro que eu sabia que havia o lado em ocional, e que em um divórcio nem sem pre as coisas funcionam assim e que, às vezes, ele não é sinônim o de que as coisas chegaram ao fim .
— Ela ficou sabendo dos seus brincos.
— Com o? — questionei, cada vez m ais inquieta. — Quem poderia ter contado a ela sobre os m eus brincos?
— Bom ... eu.
Tentei processar a inform ação, tentando j untar as peças de com o essa conversa poderia ter acontecido, enquanto ele m e deu um a explicação espontânea e evasiva:
— De vez em quando nós ainda conversam os.
— Ah — falei, sentindo um nó crescente no peito. — Sim , eu vi aquela foto de vocês dois. Nesse verão. — De repente m e senti um a idiota por nunca ter perguntado sobre a foto.
— Aquilo não foi nada — respondeu ele quase depressa dem ais. — Ela estava na Califórnia a trabalho. E nós alm oçam os j untos. Foi só isso.
— Ah, ok. E com que frequência você conversa com ela?
— Não m uita. Juro.
— Eu acredito em você — afirm ei, em bora não tivesse m uita certeza se acreditava m esm o.
— Mas falei com ela alguns dias atrás. E ela m e perguntou se eu estava com alguém . Contei sobre você, e ela ficou arrasada depois disso.
Eu ainda não tinha conseguido entender com o os brincos tinham entrado na conversa, m as só balancei a cabeça e escutei.
— Está brava? — perguntou Ry an.
— Não — neguei, em bora eu estivesse irritada pela postura dele. Por que ele podia m anter contato com Blakeslee e eu não podia nem ver Miller?
Mais ou m enos trinta segundos depois, ele perguntou de novo:
— Tem certeza de que não está brava?
Rolei pela cam a e tateei o criado-m udo à procura do brilho labial. Quando o encontrei, tirei a tam pa e passei um pouco nos lábios enquanto m urm urei que não estava brava. Mas não foi nem um pouco convincente. Eu nem sequer tentei soar convincente.
Olhei para Ry an, tentando enxergar seu rosto no escuro. Ele parecia um pouco decepcionado, o que confirm ou a teoria que sem pre tive — quanto m ais cium enta um a pessoa é, m ais ela quer fazer você sentir o m esm o. Na verdade, talvez tenha sido esse o m otivo pelo qual ele contou a Blakeslee sobre os brincos. Talvez ela estivesse saindo com alguém , o que incom odou Ry an o suficiente para provocar ciúm es nela.
Falei que estava exausta e que nós dois precisávam os dorm ir um pouco. Ry an concordou, m as depois de alguns m inutos m e cham ou de novo.
— Sim ? — respondi, esperando e encarando o teto.
— Eu só quero ficar com você.
— Que bom . Eu tam bém quero ficar com você — afirm ei.
Antes de cair no sono com pletam ente, m e passou pela cabeça que aquele não era o tipo de afirm ação cem por cento verdadeira, e que talvez nós dois estivéssem os tentando convencer um ao outro e a nós m esm os.
Na m anhã seguinte, Ry an m e surpreendeu com café na cam a. Ovos m exidos, pão integral e frutas verm elhas em um a bandej a preta envernizada. Havia até um ram inho de salsa no m eu prato.
— Obrigada — agradeci, em bora eu sem pre tenha considerado que café na cam a era m uito m elhor na teoria do que na prática, especialm ente quando se tem que enfiar a refeição goela abaixo segundos depois de acordar. Enquanto eu m e sentava, Ry an posicionou a bandej a no m eu colo, depois se aj eitou ao m eu lado. Eu estava sem o m enor apetite, provavelm ente porque ainda estava pensando em Blakeslee, m as com i um pouco de ovos m exidos e disse a ele que estavam deliciosos.
— Você j á com eu? — perguntei.
— Só um shake com proteína e aveia.
Percebi que ele ficou m e olhando e tive a sensação de que Ry an tam bém estava pensando em Blakeslee. O clim a estava definitivam ente frio, se não m uito estranho.
Dei um a m ordida de leve no pão, tentando não espalhar as m igalhas em cim a da cam a dele, pensando que eu precisava m uito ir ao banheiro, m as não queria ter que passar pelo desconforto de retirar a bandej a e tudo o m ais.
— O que você vai fazer hoj e? — ele m e perguntou.
— Lem bra que te contei daquele m enininho com tum or no cérebro? Aquela que é obcecada pelo tim e de futebol am ericano da Walker?
Ry an balançou a cabeça, afirm ando:
— Sim . Não é Max o nom e dele?
— É — respondi, notando m ais um a vez que ele era um bom ouvinte. Era com o se ele nunca deixasse de prestar atenção, algo extrem am ente incom um para um hom em . — O treinador o convidou para ficar na lateral com o tim e no j ogo contra o Stanford. Sm iley quer que eu escreva um a m atéria sobre ele com o tem a bem -estar.
— Sm iley quer um a m atéria sobre bem -estar? — questionou Ry an, gargalhando um pouco dem ais, visivelm ente tentando quebrar o gelo.
— Tá bom , eu sei, ok? — falei, passando a m ão sobre um a taça de cristal cheia de suco de laranj a natural e m e recusando a rir.
— No que está pensando, querida? — questionou ele.
Então, falei exatam ente o que eu estava pensando.
— Estou aqui pensando se isto aqui foi um presente de casam ento — confessei, tam borilando o cristal.
Ry an hesitou, depois balançou a cabeça, confirm ando, tendo que adm itir sem querer.
Peguei o garfo de prata todo ornam entado.
— E isto?
Ele assentiu de novo, depois se sentou.
— Por que continua com eles? — questionei, m ais curiosa do que nunca. — Não é a m ulher que fica com essas coisas, geralm ente?
Ele encolheu os om bros e disse que Blakeslee não quis ficar com eles.
— Por que não?
— Não sei, ela sim plesm ente não quis. — Ele franziu um pouco a testa. — O gosto dela m udou, eu acho.
— Em um ano? O gosto dela m udou em um ano?
— Ela m udou de ideia em relação ao casam ento. Do contrário, por que não iria querer ficar com os cristais e a prataria?
A declaração fazia sentido, m as eu ainda estava confusa, agitada. Não disse nada, o que era um bom truque de reportagem . Deixe que o silêncio o faça falar.
E funcionou, j á que Ry an m e passou m ais inform ações:
— De qualquer m odo, fiquei com a m aior parte das coisas.
— Foi você que deu entrada no divórcio?
— Bem , nós fom os j untos. Mas ela m e deixou escolher a m aior parte das coisas.
— Hum ... — soltei, pensando: Que estranho.
— Além disso, as coisas term inaram m uito m al. Ela disse que os presentes estavam contam inados.
— Achei que você tinha dito que vocês continuavam am igos.
— E som os. Agora. Mais ou m enos.
— Mesm o depois de as coisas terem acabado m eio m al? — Tentei dem onstrar tranquilidade, m as falei rápido dem ais, dando à pergunta um ar de interrogatório.
Ele m e olhou com certa cautela:
— Eu sabia. Você ficou chateada.
— Não. Não fiquei não — respondi com um encolher de om bros proposital.
— Parece que ficou sim .
— Parece que você queria que eu tivesse ficado.
Um im passe se seguiu, e ficam os encarando um ao outro, em silêncio, até que Ry an falou:
— Não vam os m ais falar sobre ela, tudo bem ?
— Tudo bem — respondi, pensando que seria m uito bom nunca m ais ouvir o nom e da ex dele de novo.
Mas eu não tive essa sorte. Depois daquela m anhã, bem quando eu tinha finalm ente conseguido tirar Blakeslee da cabeça, m eu telefone do trabalho tocou e um núm ero desconhecido de Houston apareceu no visor.
— Shea Rigsby, Dallas Post — atendi, pensando que eu não tinha esquecido o assunto e que toda vez que eu falava o m eu nom e e o nom e do j ornal, m e sentia um pouco eufórica.
— Oi, Shea — saudou a voz de um a m ulher do outro lado da linha. Tentei identificar quem era, m as a voz não m e pareceu fam iliar. — Aqui é Blakeslee Meadows. Está lem brada de m im ?
— Sim — respondi com o coração acelerado. — Com o vai?
— Bem , e você?
— Bem — afirm ei, e m e passou pela cabeça que nós nunca tínham os conversado de fato, só nos cum prim entávam os quando nos encontrávam os na faculdade. Blakeslee sem pre deixou m uito claro que eu estava abaixo dela, e agora eu m e peguei pensando se ela estava sentindo o m esm o.
— Faz tem po, não é?
Murm urei que sim , tentando prever o que viria a partir dali, quando ela disse:
— Tenho certeza de que você está se perguntando por que estou te ligando. — Sua voz estava delicada e hesitante, o que não com binava com as m inhas lem branças nem com as suas fotos, que hipervalorizavam a aparência externa, nem com a persona pública confiante que ela dem onstrava ser. — É sobre o Ry an — continuou.
— Sim . Im aginei — confessei, dim inuindo a voz e olhando para as baias ao m eu redor. Graças à lei de m urphy, o andar tinha se aquietado no exato m om ento em que eu precisava de privacidade.
— Ele m e disse que está com você.
— Sim , ele m e contou que... contou a você — gaguej ei quando Gordon olhou em m inha direção. Desde quando lhe contei sobre Ry an, tive a sensação de que ele estava m ais interessado nas m inhas conversas.
— Certo. Bem ... Fiquei em dúvida se deveria te ligar ou não, sei que o seu relacionam ento não é da m inha conta.
Não falei nada, considerando que o com entário adicional dela fora um a form a de abrandar as coisas.
— Mas eu só tinha de... — Sua voz falhou, fazendo-a soar tanto triste quanto desesperada, e eu fui surpreendida por certo sentim ento de piedade. Em um instante, ela não era m ais um a rival, m as apenas um a m ulher que tinha perdido o m arido, talvez o único hom em que am ou. Talvez ainda o am asse. Talvez o m otivo da ligação fosse esse. Um a tentativa de tê-lo de volta. E ela poderia m uito bem estar m e m anipulando.
— Você está bem ? — questionei, m eio desorientada.
— Sim . Obrigada, Shea, estou bem ... — Escutei Blakeslee respirar fundo algum as vezes, e, quando voltou a falar, tive a im pressão de que ela estava lendo algum script. — Com o você sabe, o Ry an e eu nos divorciam os há um ano. Foi m uito com plicado e m uito, m uito triste. Eu o am ava m uito... e nós dois queríam os que as coisas tivessem se aj eitado. Mas não se aj eitaram . Não deu.
— Sinto m uito — falei, aguardando que ela prosseguisse.
— Obrigada. Bom , então... Sei que ele com eçou a sair com você no verão. E, m ais um a vez, sei que o seu relacionam ento não é da m inha conta... m as... Deus... é m uito difícil dizer isso... Eu realm ente m e sinto péssim a em ter de te contar isso.
— Pode m e contar — pedi, tendo a certeza de que ela estava prestes a m e confessar que ele havia m e traído com ela.
Em vez disso, ela contou:
— O que eu quero dizer é que o Ry an tem um tem peram ento m uito difícil. Muito, m uito difícil.
— Certo — respondi, com o m áxim o de calm a que encontrei, tentando encaixar as peças m entalm ente.
— Nosso divórcio é assunto confidencial, por privacidade. E não quero espalhar boatos a respeito dele, ainda m ais porque sei que você trabalha num j ornal agora. Eu detestaria que isso vazasse e prej udicasse a carreira e a reputação dele. Ou até m esm o o que ele faria com você. Mas é que eu preciso te contar.
Balancei a cabeça, agora no m odo cem por cento repórter.
— Espere. Vam os voltar um pouco — sugeri, falando devagar. — Quando você fala em tem peram ento, o que quer dizer exatam ente?
— Na m aior parte do tem po ele é um cara excelente. Muito m eigo e... m aravilhoso — visivelm ente se esquivando da questão. — Mas... ele tem um tem peram ento...
Esperei.
Então, ela continuou:
— Ele herdou do pai. Não que isso sej a desculpa, m as você j á conheceu o pai dele?
— Não, ainda não — respondi, pensando nos planos do Dia de Ação de Graças.
— Quando o conhecer, observe a m aneira com o o Sr. Jam es conversa com a m ãe do Ry an. Na verdade, com todas as m ulheres. Ele é um m isógino clássico e um pai horrível. Ele faz um a pressão terrível em cim a do Ry an quando o assunto é futebol am ericano. Se o Ry an fizesse um m au j ogo, ele o repreendia com todas as forças. Jogava as chuteiras dele na caçam ba atrás da escola. Fazia o Ry an ir a pé para casa, debaixo de um calor de 38 graus. E isso era o de m enos. Já perguntou sobre a cicatriz que ele tem na testa?
Eu sabia exatam ente a qual cicatriz Blakeslee se referia.
— A que ele ganhou num a noite depois do cam peonato estadual do ensino m édio. No últim o ano do colégio. — com entei, m ostrando a ela o quanto eu sabia sobre ele e o quanto estávam os próxim os.
— Ah, sim , ele ganhou essa cicatriz naquela noite. Porque eles perderam o j ogo e o pai pensou que a culpa tinha sido do quarterback — explicou.
— Droga — m urm urei bem baixinho, certa de que ela estava dizendo a verdade pelo m enos sobre parte dessa história.
— Então... não é só culpa dele o fato de ser assim , do j eito que é... — concluiu.
— Assim com o? De que j eito? — questionei, desej ando que ela fosse m ais clara.
Blakeslee ficou tão quieta que pensei que ela tivesse desligado. Mas, quando a cham ei, ela explicou:
— Quando ele fica irritado, pode agir de um j eito m uito rude. Violento. E assustador.
Rude, violento e assustador. As palavras pairaram sobre m inha cabeça enquanto eu lem brava a m im m esm a que Ry an era inocente até que se provasse o contrário. Agarrei-m e à esperança de que ela não estava dizendo o que eu estava pensando, m as não havia m uitas opções de interpretação para aquela sequência de adj etivos.
Depois de um a pausa longa, ela perguntou:
— Ele j á te em purrou algum a vez? Te agarrou com força?
— Não. Nunca — respondi de im ediato.
— Bom , talvez ele tenha m udado. Se você acha que pessoas assim possam m udar. Mas acho que não consigo acreditar nesse tipo de m udança... — disse ela calm am ente.
Esperei, e em seguida ela lançou outra pergunta capciosa:
— Algum a vez ele j á te pediu para trocar de roupa? Ou ficou nervoso por você usar um a calça j usta ou um vestido m uito curto, blusa decotada?
— Não — respondi, sentindo certo conforto pela pergunta, alertando a m im m esm a de que Blakeslee estava só criando dram a. Tentando j ogar lenha na fogueira. Estávam os m esm o discutindo sobre roupas e decotes?
Mas, bem enquanto eu concluía que ela era louca, Blakeslee fez m ais um a pergunta:
— Bom , algum a vez ele j á ficou perturbado, louco de ciúm es por algum m otivo?
Pensei em Miller, m as não respondi.
— Ficou, não ficou? — insistiu ela, com a voz bem calm a.
— Não exatam ente. Assim , ele j á dem onstrou ciúm es. Mas não um ciúm e doentio. Nada desse tipo.
— Bem , tom e cuidado, Shea. Porque foi assim que com eçou. Sabe, por m uito tem po eu pensei que o problem a fosse eu, porque eu tam bém não era perfeita. Eu sentia m uito ciúm es de todas as garotas que ficavam atrás dele. No com eço, às vezes, eu tentava fazer com que ele sentisse ciúm es tam bém . Dizia a m im m esm a que a culpa de ter com eçado tudo isso era m inha. E que, se eu tentasse ser m ais segura... ou m ais tolerante... ou sim plesm ente a esposa perfeita, poderia evitar que ele ficasse irritado. Mas as coisas não funcionaram assim . E agora eu sei que não foi m inha culpa. E que tam bém não foi culpa do pai dele. Não foi culpa de ninguém , a não ser do próprio Ry an. E eu não consigo acreditar que fui a única com quem ele fez isso...
Fez o quê? Foi o que eu senti vontade de perguntar. Mas não o fiz porque a pergunta soaria pessoal dem ais, e a resposta seria m uito óbvia. Então, falei:
— Bom , obrigada por ligar e m e contar.
— Por nada.
Silêncio.
Dessa vez ela foi m ais esperta que eu, e, enquanto eu m urm urava: — Eu... Acho que não sei o que dizer... — ela interveio:
— Não precisa dizer nada. E, por favor, acredite em m im , não estou tentando estragar o seu nam oro. Só estou querendo aj udar você e ele.
— Tudo bem — falei, desesperada para desligar o telefone.
— Posso te pedir um favor? — perguntou ela.
— Tudo bem — afirm ei de novo.
— Por favor, não conte a ele que te liguei.
— Não vou contar — prom eti, m esm o que eu não lhe devesse lealdade, ainda m ais com Ry an no m eio. Ainda assim , tive a sensação de que eu guardaria segredo e não tive um bom pressentim ento sobre o que aquilo significava.
— Eu só quero levar a m inha vida adiante. Mas eu tinha que te contar. Eu queria que a ex-nam orada dele tivesse m e contado sobre isso. Entende?
Respondi que sim , visualizando Tish Term ini, a prim eira nam orada séria de Ry an na faculdade, um a italiana de estatura baixa que era tão bonita quanto Blakeslee, porém um pouco m ais vulgar. Lem brei-m e bem dela, exibindo seu corpo escultural e bronzeado pelo campus, usando sutiã colorido debaixo de suas regatinhas brancas, shortinhos bem curtos e botas de caubói. Todos sabiam que os dois tinham um a relação turbulenta de idas e vindas, m as nunca ouvi um a palavra sequer sobre ele ter batido nela. Coloquei isso na coluna das evidências, sugerindo que Blakeslee deveria estar m entindo ou exagerando e percebendo que, não im portava qual fosse a escolha, eu m e sentiria culpada; fosse por denegrir a im agem de Ry an sem lhe dar a chance de se defender ou por pensar que um a m ulher poderia m entir sobre algo tão sério.
— Bom , m ais um a vez, obrigada por ter ligado, Blakeslee.
— De nada — falou ela. E depois: — Sinto m uito.
Falei “tchau” e desliguei, pensando em suas últim as palavras: Sinto muito. Havia algo nela que era com ovente e ao m esm o tem po revelador. Ela realmente sentia m uito, em bora eu não tivesse certeza se era por m im , por ela ou por Ry an.
* * *
Naquela tarde, fui até a butique de Lucy atualizá-la sobre os fatos. Não editei nada e relatei apenas os fatos da conversa. O que Ry an disse. O que Blakeslee disse. O que eu disse.
A prim eira pergunta que ela fez foi direto ao ponto:
— E você acredita nela?
— Não sei. Acho que não. Mas fiquei intrigada. Ele dem onstrou m uito ciúm es do Miller.
— Muitas pessoas são cium entas. Especialm ente no com eço da relação, quando se sentem m ais inseguras. Neil era muito cium ento. Hoj e olham os para trás e dam os risada disso. Era ridículo...
— Eu sei. Mas aquilo foi diferente — expliquei, m e lem brando do olhar de Ry an quando ele m e fez prom eter não sair com ninguém m ais além dele.
— Tem certeza que não está falando isso agora só porque ouviu todas essas coisas da Blakeslee? — questionou Lucy.
— Talvez.
— Você precisa lem brar que provavelm ente ele j á se m agoou antes. As m ulheres vivem usando o Ry an. Gostam dele por outros m otivos. O fato de ele ser fam oso e lindo não significa que nunca tenha se m achucado.
— Verdade.
— Então, se é verdade, será que está certo j ulgá-lo por ser possessivo? Ou um pouco inseguro? Talvez você devesse encarar isso com o um elogio, um a dem onstração de que ele se im porta com você.
Meneei a cabeça, com preendendo definitivam ente o ponto de vista dela.
— Além disso, pode ter sido um a bela tentativa de Blakeslee estragar as coisas — pontuou Lucy. — Será que você não tem de conceder a ele o benefício da dúvida?
— E supor que ela está m entindo? Supor que a m ulher foi capaz de inventar um a m entira sobre violência dom éstica? É um terreno bem perigoso, Lucy — destaquei.
— Ora, não é nisso que as leis se baseiam ? Inocente até que se prove o contrário? Não é isso? — questionou ela, enfatizando todas as observações do m eu m onólogo interno.
Dei de om bros e fiquei encarando a j anela que dava para a rua Main, um quarteirão que eu conhecia de cor, loj a por loj a, tij olo por tij olo.
— E, que tal você fazer o seguinte... — sugeriu ela, falando devagar, com aquele tom de “eu m e encarrego de resolver isso”. — Que tal dar um a chance para ele? E, ao m enor sinal, um em purrãozinho sequer ou o m ínim o indício de m au hum or você term ina com ele.
— Ok — respondi, pensando em com o definir o mínimo indício.
— Posso conversar com o Neil a respeito disso? — perguntou ela. Era um a pergunta que ela sem pre m e fazia e que eu apreciava, m as, àquela altura, j á não era m ais necessário. Eu sem pre respondia que sim , j á que via Neil com o um a extensão de Lucy em quase todos os sentidos.
— Claro.
— E talvez você deva conversar com o m eu pai. Pode ser que ele tenha algum a im pressão sobre o Ry an — aconselhou Lucy.
— É... Acho que não — respondi. — Eu estava louca para encontrar um a desculpa para conversar com o treinador, m as não seria Ry an. E com certeza não a respeito disso. Eu não sabia ao certo por quê; se tinha m ais a ver com a form a inj usta de lançar possíveis calúnias contra um dos seus ex-j ogadores ou se eu sim plesm ente não queria que o treinador soubesse detalhes do nosso relacionam ento. — Não quero ficar espalhando isso por aí... E se não for verdade?
— Sim ... E estou certa de que há um a grande chance de isso não ser verdade.
— Eu tam bém — falei, pensando que a form a de enxergarm os o m undo é pura questão de interpretação. É m uito m ais querer, desej ar e esperar do que acreditar bem lá no fundo.