Primeiro e Único

Emily Giffin · Capítulo 30 de 46

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Primeiro e Único

Trinta

 

Cinco m inutos depois de chegarm os a sua casa, Ry an se transform ou em um a pessoa com pletam ente diferente daquela que se despediu de m im com um beij o no Four Seasons. Foi com o se ele tivesse apertado algum botão e, de desolado e form al, passou a furioso. Estava inj uriado consigo m esm o, com os colegas do tim e, com seus treinadores e com o pai. Não estava anim ado nem bravo, m as agressivo e frio enquanto disparava um com entário após o outro feito um personagem de Aaron Sorkin em algum program a de televisão. E ele fez tudo isso reclinado no sofá branco, sem cam isa, com um a bolsa de gelo sobre o j oelho esquerdo, enquanto perm aneci sentada na poltrona de frente para ele.

Ry an m e deixou para o final.

— E onde diabos você estava ontem à noite? Você conseguiu fugir do assunto o dia inteiro.

— Não, eu não fiz isso — retruquei, fitando as linhas de seus m úsculos oblíquos que m ergulhavam em seu short azul de m alha. — Essa é a prim eira vez que você pergunta.

— Bom , então estou te perguntando agora — ele rebateu, enquanto eu tentava definir quantas linhas tinha o seu abdôm en de tanquinho, se seis ou oito. Em silêncio, contei oito e ao m esm o tem po decidi que m entir não seria a m elhor opção.

— Fui para o Third Rail — respondi, sem deixar de olhar em seus olhos.

— Então você foi para um bar m esm o depois de m e dizer que ficaria em casa?

— Mudei de ideia. Queria reencontrar uns am igos.

— Reencontrar am igos?

— Sim , dos tem pos da escola. Reencontrei um a garota cham ada Michelle. Ela m ora na Califórnia. Veio passar o Dia de Ação de Graças.

— E quem m ais estava lá? — questionou ele.

— Bem , tinha m uita gente de fora. Você sabe com o a cidade fica na véspera dos feriados...

— Não, para falar a verdade eu não estou fam iliarizado com esse tipo de fenôm eno... j á que norm alm ente estou trancado em um quarto de hotel.

— Certo — falei, pensando que ficar hospedado em um hotel com o Ry an ficava não era um a sentença de prisão, com o ele queria que as pessoas pensassem .

— E quem m ais?

— Quer que eu diga os nom es?

— O Miller estava lá?

Balancei a cabeça, m udando, de um segundo para o outro, m inha decisão de contar a verdade. Enquanto tentava m anter os olhos nos dele, m e passou pela cabeça que havia um m otivo real para que os detectores de m entira funcionassem tão bem . Nada no m eu corpo estava funcionando do m esm o j eito que segundos atrás.

— Ele não estava lá?

— Não.

— Então você não o viu? — ele pressionou, m e encarando, m e fazendo pensar que talvez, de algum a form a, soubesse a verdade. De um j eito ou de outro, eu tinha de m anter a m inha história.

— Não, ele não estava lá. Eu não o vi — respondi. Eu deveria sim plesm ente ter parado aí, m as continuei falando, do j eito que quem m ente faz. — Mas e se ele estivesse lá? Grande coisa. Ry an, por que essa obsessão com o Miller? Não sinto isso em relação Blakeslee, e você foi casado com ela.

— Sim . Mas depois m e divorciei. E ponto-final.

— Para o m eu pai, o divórcio não foi um ponto-final — argum entei, e foi a única vez em que m e senti grata por Astrid.

— Bem , m as é o ponto-final para a m aioria. E foi para m im .

— Assim com o tenho certeza de que nunca vou voltar com o Miller.

— Ele continua com aquela professora?

— Não... Acho que não... Não tenho certeza.

— Não tem certeza? O que isso significa? Ou você sabe que eles term inaram ou não sabe.

— Você é um quarterback ou um advogado? — questionei.

— Acho que m e sairia m elhor com o advogado.

— Você teve uma partida ruim . Mesm o assim , conseguiu fazer j ogadas incríveis — com entei, na esperança de m udar de assunto.

Mas Ry an persistiu.

— Voltando ao Miller.

— Deus do céu — retruquei, baixinho.

— Quando foi a últim a vez que conversou com ele?

— Ah, fala sério, Ry an — resm unguei, tentando evitar m ais um a m entira deslavada. — Isso é ridículo. Miller é... coisa do passado.

— Bem , pode ser ridículo para você. Mas não consegui dorm ir ontem porque não parei de pensar em vocês dois j untos.

— Por que fez isso?

— Porque você não m e ligou.

— Ah, por favor.

— Não consegui dorm ir, Shea. E sei que não preciso te dizer o quanto o sono é im portante para o desem penho de um atleta.

E lá estava o assunto, às claras. Ry an estava m e culpando pela partida ruim . Apenas para confirm ar a acusação, lancei:

— Você está dizendo que... o que aconteceu hoj e... foi m inha culpa? Que aquelas interceptions aconteceram porque eu não te liguei? — As perguntas foram um pouco m aldosas, m as a insinuação dele tam bém foi.

— Não. Fiz um j ogo de m erda hoj e. Mas o fato de você não ter m e ligado certam ente não aj udou m uito — ele respondeu.

— Uau!

— Você só precisava ter m e ligado, desej ado boa-noite, feito o que disse que faria. Depois, você poderia ter saído e se divertido no bar. Eu nunca saberia.

— Ah, fala sério. Isso não é j usto — retruquei, erguendo um pouco a voz.

— Assim com o tam bém não foi j usto você não ter cum prido a sua palavra na véspera de um grande j ogo.

Soltei um suspiro profundo, depois acrescentei:

— Eu só... perdi a noção do tem po.

— A noite inteira?

— Quando vi as suas m ensagens, j á era m uito tarde para retornar.

— Será que você não quis dizer que era cedo dem ais para ligar? A que horas chegou em casa?

— Ry an, por favor. Me desculpe, m esm o. Bebi dem ais — falei, pelo que m e parecia a centésim a vez.

— E quais são os outros erros que você com ete quando bebe dem ais?

— Bem , vej am os... Esqueci m eu cartão de crédito no bar...

— Não fechou a com anda?

— Não. Isso é um problem a? Não é m elhor ter aberto a m inha própria com anda do que deixar os outros pagarem bebida para m im ?

— De que outros você está falando?

Cruzei os braços, balancei a cabeça e o encarei, m e recusando a responder m ais um a pergunta. Enquanto isso, Ry an tirou a bolsa de gelo e verificou o j oelho. A pele estava verm elha e fria. Em seguida, ele j ogou a bolsa no chão, sentou-se e falou:

— Olhe. Se você está com igo, preciso que sej a a m inha nam orada, e isso inclui m e apoiar na noite da véspera de um j ogo. Eu precisava de você ontem . Precisava ouvir a sua voz, e... você... não deu a m ínim a.

— Não diga isso. Você sabe que eu m e im porto. E m uito.

— Não é o que parece. Se você realm ente se im portasse, teria ligado. Ponto-final.

Esse foi o estágio m ais razoável e próxim o à calm a que ele chegou — m uito longe das dem onstrações enfurecidas de ciúm es que Blakeslee m e descrevera. Mas eu ainda estava insegura. Havia algo estranho em todo aquele interrogatório, e eu não pude deixar de pensar no quanto teria sido pior se ele soubesse que Miller estava m esm o lá no bar.

— Ou você está dentro, ou fora. Não dá para ficar em cim a do m uro — afirm ou Ry an, repetindo um a das falas do treinador.

Balancei a cabeça, concordando.

— E aí?

— E aí, o quê? Já ouvi!

— Está dentro? Ou fora? — Hesitei, tem po o bastante para Ry an balançar a cabeça, decepcionado. — Foi o que pensei.

— Eu não falei nada! — gritei, m inha frustação aum entando. — Por que está fazendo isso? Sei que teve um j ogo ruim , m as isso acontece, às vezes. Você continua sendo um dos m elhores quarterbacks da liga! Não m e diga que deixou o seu pai fazer a sua cabeça.

— Deixei você fazer a m inha cabeça. Deixei o fato de que você não conseguiu alguns m inutos para m e ligar m e influenciar.

Eu o encarei de novo, sem conseguir acreditar que com eçaríam os tudo mais uma vez.

— Tudo bem , Ry an. De novo, peço desculpas. Te dou a m inha palavra de que isso não vai se repetir. Você tem o direito de estar irritado. Zangado. Sinto m uito por tê-lo feito se sentir assim . Não vai voltar a acontecer.

Ele ficou m e encarando por um longo tem po, depois disse:

— Shea, eu te amo.

Eu o encarei de volta, chocada, com o coração acelerado. Jam ais esperaria que ele dissesse isso. Não m esm o.

— Tem certeza disso? — perguntei, protelando, m as tam bém pensando que am ar alguém significa, m uitas vezes, ter confiança nessa pessoa.

— Sim . Você me am a? — ele perguntou com a voz suave, carente e insegura. Aquilo era inconcebível, um a com pleta inversão do que qualquer pessoa no m undo im aginaria que deveria acontecer naquele m om ento.

Em vez de responder, m e levantei e fui até o sofá, onde m e sentei e fiquei olhando para ele, coloquei a m ão sobre o seu om bro, com o se o contato físico bastasse com o resposta.

Mas não bastou.

— Você... m e am a? — ele repetiu. — É um a pergunta m uito fácil de responder.

— Sim , Ry an. Eu te am o — respondi, m e sentindo encurralada, pensando que aquela resposta seria a declaração de am or m enos rom ântica de todos os tem pos. E a pior parte era que eu tinha plena certeza de que havia dito m ais um a m entira. Um a m entira m uito m aior do que fingir que eu não tinha encontrado Miller na noite anterior. Em um gesto de nervosism o, desviei o olhar para o j oelho dele e disse: — Bom , agora que resolvem os isso, você precisa de m ais gelo?

Ele negou com a cabeça, depois suspirou:

— Mas eu preciso de você, m eu doce. Venha aqui.

Ele m e puxou para perto, de m odo que fiquei com a cabeça apoiada em seu peito, m eu corpo contra o dele. Enquanto ouvia a batia do seu coração, m e peguei pensando no que exatam ente ele precisava de m im , porque, assim , eu poderia m e lem brar de ligar nas noites de véspera dos j ogos. E poderia tam bém evitar ir ao Third Rail e o contato com Miller. E poderia até m esm o aprender a am á-lo. Mas havia um a coisa que eu não poderia m udar e que j am ais m udaria. Nem agora, nem nunca. Percebi que com ecei a entrar em pânico a cada respiração dele.

Ry an, por fim , quebrou o silêncio e com entou:

— Meu pai é um im becil, não acha?

Virei a cabeça para olhá-lo no rosto, pelo m enos de perfil.

— Sim . Com certeza ele é — respondi, com o se não houvesse nenhum a outra m aneira de ser agradável nesse caso.

— A propósito. Você estava certa. Ele deu m esm o aquele carro para o Cedric.

— Im aginei — falei, aliviada por ele não ter m e perguntado quem m e passou essa inform ação. Pela prim eira vez m e senti preocupada com as im plicações éticas de não dar continuidade à história, não im porta quão antiga ela fosse.

— E ele não com prou sim plesm ente porque queria aj udar o Cedric.

— Certo.

— Ele controla as pessoas com o dinheiro dele. É um a coisa doentia.

— Mas ele não pode controlar você. Não m ais — com entei, voltando a m e sentir leal a Ry an. Talvez eu o amasse. Pelo m enos um pouquinho.

— Sim . Tenho m ais dinheiro do que ele. Acho que isso o enfurece — adm itiu Ry an, com um sorriso discreto.

Virei o rosto para poder olhar m elhor para ele, m e apoiei sobre m eu cotovelo e fiquei olhando para sua cicatriz. Ele percebeu e m e perguntou:

— O que foi?

— Por que você tem essa cicatriz? — questionei.

Ele engoliu em seco e respondeu:

— Eu j á te contei. Foi num cam peonato estadual. Do ensino m édio.

— Certo. Mas como?

Ele olhou para m im , e eu diria que estava pensando se m e contava a verdade ou não. Parte de m im queria que ele não o fizesse, porque assim eu m e sentiria m elhor por não ter lhe contado a verdade. Mas eu tam bém queria que ele se sentisse m elhor, e tinha certeza de que a verdade sem pre nos aproxim a do estado de paz.

Mais alguns segundos se passaram , até que ele contou:

— Meu pai j ogou um a chuteira em m im . Depois de um j ogo.

— Ah, Ryan — lam entei.

— Eu não queria te contar, m as... foi o que aconteceu.

— Sinto m uito, querido — falei, im aginando-o naquela noite, na sala de em ergência, levando pontos, m entindo para o m édico sobre o que tinha acontecido e, provavelm ente, com o pai ao lado, supervisionando tudo. — Que terrível.

— Sim . Tudo bem ... Acho que tive sorte de ele não ter j ogado nada m ais pesado em cim a de m im naquele dia — ele desabafou, com um sorriso discreto.

Estendi a m ão para passar o dedo sobre a sobrancelha dele, depois m urm urei:

— Eu j á tinha percebido essa sua cicatriz na época da faculdade... e sem pre am ei.

Ry an pareceu em ocionado.

— Por quê?

O verdadeiro m otivo, pelo m enos naquela época, era que cicatrizes m arcantes sem pre m e cham avam a atenção nos hom ens, especialm ente nos que têm o corpo atlético, porque se supõe que a cicatriz tenha sido causada por algum a batalha em cam po. Mas, naquela noite, apreciei a cicatriz por outros m otivos.

— Porque é parte de você. Parte de quem você é — respondi.

— É... Acho que sim — ele disse.

Ry an colocou a m ão sobre o m eu pescoço, aproxim ou o rosto do m eu e m e beij ou devagar. Recuei e fiquei olhando para ele.

— Obrigado — ele agradeceu. Era com o se ele tivesse chegado ao ponto m ais profundo que eu queria: ele estava ligado ao pai, por m ais que não quisesse, exatam ente com o eu estava ligada ao m eu, a Astrid e a m inha m ãe. Nem ele nem eu podíam os evitar nossas histórias, m as podíam os, sim , escolher o que fazer com elas. — Obrigado por aceitar os m eus defeitos...

— Não precisa m e agradecer por isso. Sabe, na verdade, acho que eu poderia te am ar m ais quando você faz um a interception do que quando m arca um touchdown.

Ele sorriu:

— Não diga isso.

— Mas acho que é verdade.

— Bem , é nisso que som os diferentes — ele com entou, com o sorriso ainda m ais largo. — Porque eu te am o m ais quando você não deixa a bola cair. Por assim dizer.

— Entendi. Nada m ais de turnovers.

Meu pai e sua trupe partiriam na tarde do dia seguinte, m as não planej ei encontrá-los de novo, por isso m e despedi form alm ente na noite anterior. Contudo, na m anhã seguinte, enquanto Ry an estava de saída para fazer um exam e de ressonância m agnética, m eu pai ligou e perguntou se eu poderia encontrá-lo para tom ar café. Quando abri a boca para dizer que não podia por conta do trabalho (de novo), ele acrescentou: “Só nós dois”. Surpresa, respondi que seria ótim o.

Meia hora depois, cheguei ao Buzzbrews Kitchen, sugestão dele, e um dos m eus lugares favoritos, e o encontrei j á sentado em um a m esa de canto, bebericando um café. Ele tirou os olhos do cardápio e sorriu enquanto eu m e aproxim ava.

— Oi, pai.

— Oi, querida — ele respondeu, tirando os óculos de leitura e os guardando no bolso com m onogram a de sua cam isa engom ada, azul e branca. — Está com fom e?

— Estou sem pre com fom e. Sou a sua filha que sente fom e de verdade. É assim que você pode nos diferenciar — brinquei, esperando que o com entário soasse m ais autodepreciativo do que sarcástico, ainda m ais porque eu tinha m esm o gostado de Bronwy n no dia anterior.

Meu pai deu risada, e eu notei o quanto ele parecia diferente hoj e. Mais relaxado e natural.

— Há outras diferenças entre as m inhas duas filhas — ele com entou, tom ando m ais um gole de café.

— Sim . Acho que sim — concordei, listando algum as delas na m inha cabeça, influenciada pelo m eu sentim ento de inferioridade de sem pre. Em bora não houvesse de fato nenhum a evidência concreta de que o m eu pai fizesse com parações entre nós duas, eu não tinha a m enor dúvida disso. Nam orar um quarterback da NFL e escrever para um j ornal renom ado aj udou a com pensar m inhas deficiências, m as, ainda assim , Bronwy n m e vencia com um a m argem confortável.

Alguns segundos depois, um a garçonete se aproxim ou para nos atender. Eu j á conhecia o cardápio de cor, então pedi o Blazing Huevos de sem pre, panqueca de banana com nozes e café. Meu pai fingiu se sentir atraído pela m inha escolha e m urm urou que parecia ótim a, m as preferiu dois ovos m exidos e um a fatia de bacon, sem torrada nem bolinho crocante de batata.

Quando a garçonete se foi, perguntei:

— Voltou a fazer a dieta Atkins?

— Sem pre. Com o eu j á disse várias vezes, a única m aneira de perm anecer em form a é com endo bacon.

Dei risada.

— Você continua um pouco texano, não é?

— Sem dúvida — ele respondeu, batucando na m esa em sincronia com um a m úsica de Vince Gill que tocava ao fundo, com o se quisesse m e dizer que gostava de m úsica country. Ele tinha vivido no Texas tem po suficiente para que o estado penetrasse em seu sangue, m as não o bastante para nunca m ais querer deixá-lo.

— E então? Se divertiu ontem ? — perguntei.

— Sim , m e diverti m uito. Em bora teria sido m uito m elhor se nós tivéssem os ganhado.

Sorri e provoquei:

— Nós, hein? Pensei que fosse fã do Giants.

— Sim . Mas o Dallas é um tim e americano, certo? — com entou m eu pai.

— Certo — falei, em bora aquela fosse um a expressão que sem pre m e aborrecia. — Viu o que o Sr. Jam es fez? A m aneira horrível com o ele reagiu à derrota?

Meu pai soltou um assovio, depois balançou a cabeça.

— Santo Deus! Eu realm ente não consigo... sinto m uito pelo Ry an.

Assenti, pensando: Sim, é difícil encarar o fato de que o seu pai não te ama.

Me adverti para parar de ter pena de m im enquanto m eu pai perguntou sobre o j oelho de Ry an.

— Ele se m achucou feio, m as acho que não foi nada m uito grave. Está fazendo ressonância m agnética neste exato m om ento.

— E com o ele ficou? — m eu pai questionou enquanto a garçonete voltou com o café e encheu a xícara do m eu pai de novo. Ele adicionou um pacotinho de adoçante Splenda e um pouco de leite, em seguida m exeu o café com o sem pre fazia, rápida e ruidosam ente. Aquilo sem pre parecia algo inesperado, considerando que m eu pai, na m aior parte do tem po, fazia tudo de m aneira com edida e m etódica.

— Ele ficou m uito bravo — respondi, ainda tentando entender tudo o que havia sido dito e prom etido na noite anterior.

Meu pai pareceu contem plativo.

— E você?

— O que tem eu?

— É difícil... nam orar alguém tão fam oso?

Dei de om bros, sem entender ao certo o que ele estava perguntando.

— Na verdade não. Parece que a m ídia não percebeu ou não se im porta — respondi. Depois, antes que ele pensasse que isso m e desapontava, acrescentei: — O que é m uito bom .

Meu pai assentiu:

— É questão de tem po...

— Minha m ãe está cruzando os dedos para isso acontecer — com entei, rindo.

Eu m e senti ligeiram ente desleal ao fazer o com entário m aldoso, m as m eu pai entendeu a brincadeira e levou na esportiva:

— Astrid tam bém . Ela está torcendo para que alguém escreva um a m atéria sobre a m adrasta da nam orada do Ry an.

Sorri:

— Pai, por favor, não a cham e assim . Ela é sua esposa, não m inha m adrasta.

Muitas vezes, ao longo de todos esses anos, não agi de m aneira m uito legal, especialm ente quando era obrigada a ir para Nova York, na infância, m as essa tinha sido a form a m ais próxim a que encontrei de dizer ao m eu pai com o eu m e sentia sobre a situação. A expressão dele m udou tanto que quase m e arrependi do com entário. Queria m ostrar m eu ponto de vista, m as não m agoá-lo.

— Eu só quis dizer que... ela não m e criou — expliquei. Usar esse term o era, na verdade, um tipo de insulto a todas as m adrastas do m undo que tiveram um papel im portante na educação de um a criança, ao contrário de Astrid, cuj as contribuições para m inha infância se resum iram a ingressos de cinem a nas férias, um a ou outra bolsa de grife e cortes de cabelo m aravilhosos na Quinta Avenida.

— Eu entendi, querida. Sei que ela pode ser... arrogante, m as suas intenções são boas. Ela realm ente se preocupa com você.

— Eu tam bém m e preocupo com ela, m as, às vezes... — Parei, perdendo a coragem .

— Continue. Às vezes o quê?

— Bem ... digam os que estou feliz por você ter m e convidado para tom ar café só com você. Para variar — ironizei.

— Eu sei — ele disse, com a linguagem corporal e a postura sérias. — É difícil encontrar um a brecha para falar quando se está perto dela.

Apenas concordei com a cabeça.

— E aí, o que m ais está acontecendo com você? — ele questionou.

Eu o encarei, m e perguntando aonde ele queria chegar.

— Nada. O que você quer dizer? — perguntei.

— Bem , você tem um em prego m aravilhoso... e esse nam orado incrível, fam oso... m as... está feliz?

Pareceu um a dem onstração tão estranha e repentina de perspicácia por parte do m eu pai que eu pensei que só poderia ser coincidência. É óbvio que ele não sabia da m inha discussão com Ry an na noite anterior.

— Sim , estou feliz. Por quê?

— Ah, sei lá. Só tenho a sensação de que... — Ele fez um a pausa, depois pigarreou e tentou de novo. — Eu deveria estar preocupado com você?

Eu fiquei confusa, depois com ovida, e em seguida fiquei tão aborrecida com igo m esm a por ter m e com ovido assim facilm ente que cheguei a considerar a possibilidade de contestá-lo: Droga! Sim, mas é claro que você deveria estar preocupado comigo. É assim que os pais deveriam se sentir. Por toda a vida e a todo momento. Sempre preocupados com as suas crias.

Em vez disso, respondi:

— Não, pai. Não deveria.

Sentindo-m e desconfortável, olhei ao redor do restaurante e m eu olhar se concentrou em um j ovem casal com um a criança que deveria ter uns dois anos, sentada num banquinho de plástico, com endo crepe e com a cara toda suj a de chocolate. Com cabelo loiro e olhos azuis e grandes, a m enina era um a gracinha, e deve ter dito algum a coisa m uito fofa tam bém , porque seus pais a olharam de um j eito m eigo, sorriram e depois deram as m ãos por cim a da m esa. Esse era o tipo de cena que raram ente m e deixava pensativa. Não cheguei a m e sentir assim agora, em bora tenha sentido um a onda de em oção que não saberia descrever.

Meu pai acom panhou o m eu olhar, depois se voltou para m im com o se estivesse tentando ler a m inha m ente.

— Você sabe o que quer? — questionou. A pergunta foi tão vaga quanto de costum e, m as seu sem blante m ostrava que havia algum propósito nela.

— Sim . Gostaria de vencer o Texas e ganhar o cam peonato nacional.

— Mas o que você quer para a sua vida? Sua vida pessoal. Quer se casar? Ter filhos? Acha que Ry an é o cara certo?

Foi um a pergunta tão inesperada vinda do m eu pai, que, ao que sem pre pareceu, nunca foi m uito sensível nem caloroso. Na verdade, ao longo dos anos, eu sem pre consegui aceitá-lo com base na crença pessoal de que ele sim plesm ente não conseguia fazer nada m ais que aquilo. Então, de m aneira m uito estranha, sua com paixão por m im , naquele m om ento, m e fez sentir pior.

— Foi a Astrid que pediu para você fazer isso? — questionei, pensando que hom ens que j á haviam casado três vezes nunca tinham o hábito de pensar por si sós.

— Desculpe, o que foi que você disse? — ele retrucou, parecendo um pouco ofendido. — Me dê pelo m enos um pouquinho de crédito.

Sorri para abrandar um pouco a situação:

— Tudo bem . O que eu quero para a minha vida?

— Sim .

— Eu não sei... Acho que quero o que todo m undo quer... Ser feliz.

Pensei que tivesse sido astuta o bastante para escapar da pergunta, m as m eu pai m e encurralou.

— E o Ry an faz você feliz?

— O suficiente — respondi antes de conseguir pensar em algo m elhor.

Meu pai ergueu a xícara, fazendo um a pausa no m eio, entre a m esa e a boca:

— O suficiente? Mas que afirm ação arriscada, Shea.

Olhei para seus olhos cinzentos, sentindo um a onda de ressentim ento invadir m eu peito. Eu queria dizer: Quem você pensa que está enganando? Vamos continuar com a nossa conversa fiada, pai. Agora já é tarde, muito tarde. Em vez disso, m udei para um a direção com pletam ente diferente, pensando: Quer que eu seja sincera? Vamos falar de coração para coração? Então, tá legal. Vou te contar quem eu realmente amo.

Minha cabeça m e disse que era m á ideia e que m eu pai não m erecia, nem sequer da m aneira m ais rem ota, o papel de confidente. Mas algo dentro de m im sim plesm ente não se im portava. Talvez fosse o desej o flam ej ante de libertar m eu segredo. Talvez, de algum m odo, eu quisesse chocar m eu pai. Ou talvez eu quisesse que ele se sentisse verdadeiram ente preocupado com igo. Sim , preocupado porque, devido à sua ausência e ao vazio paternal em m inha vida, eu estava fazendo m ás escolhas, buscando, sem nenhum pudor, um hom em m ais velho e, ainda por cim a, errado. Eu não acreditava nisso, é claro, m as parte de m im desej ava fazer com que m eu pai se questionasse.

— A verdade, pai, é que eu gosto m uito do Ry an... Mas acho que gosto de outra pessoa tam bém — confessei, sem conseguir m e conter.

Independentem ente do quanto eu sentisse que aquilo estava por vir, ainda era estranho e surpreendente afirm ar assim , em voz alta.

Meu pai repousou a xícara sobre a m esa, ainda segurando a alça, e perguntou:

— O seu ex? Com o é m esm o o nom e dele?

— Miller. E não. Nunca am ei o Miller — respondi.

Meu pai não perguntou quem, provavelm ente porque achou que, de qualquer m odo, não conhecia a pessoa, m as eu abri a boca e senti as palavras saltarem , quase que incontrolavelm ente.

— Acho que estou apaixonada pelo treinador Carr — anunciei, m inha voz baixa, m as firm e.

Meu pai olhou para m im , visivelm ente em choque, enquanto eu tentava superar m eu próprio sentim ento de vertigem . Era com o se eu estivesse de pé na beira de um precipício sem nenhum a proteção. Ou talvez, para ser m ais precisa, era com o se eu j á estivesse no ar, em queda livre. Assim , com o não seria possível interrom per a queda, eu sabia que tam bém seria im possível desfazer a confissão, em bora tenha passado pela m inha cabeça tentar, sob o pretexto de que tinha sido um a piada.

— O treinador Carr ? O quê? — retrucou m eu pai, nervoso, perplexo.

Confirm ei com a cabeça.

— Está... falando sério? — ele questionou, de queixo caído.

— Muito sério — confirm ei, sentindo agora um enorm e alívio.

— Mas e o... Ry an? — questionou, aparentem ente frustrado.

— O que tem ele? Ah, fala sério, pai. Você, m ais do que ninguém , sabe que isso é com plicado. Caso contrário, por que você teria casado com a m esm a pessoa duas vezes?

— É verdade — ele concordou, parecendo constrangido.

A garçonete chegou com a nossa com ida, o que nos deu tem po para processar tudo.

Quando ela se foi, ele perguntou:

— E o Clive...? Ela sente o m esm o?

— Acho que sente, sim , m as ainda é tudo m uito novo... E é claro que tudo isso aconteceu depois que Connie m orreu, caso você estej a se perguntando.

Em outras palavras, não houve nada do jogo sujo com o qual você está acostumado.

Meu pai pareceu ligeiram ente aliviado, e em seguida perguntou:

— Tem certeza de que não é só por causa do... futebol am ericano?

— Se fosse por isso, não acha que eu estaria feliz com o Ry an?

Ele fez que sim com a cabeça:

— Tem razão.

— Ninguém é com o o treinador Carr. Nenhum hom em chega à m etade do que ele é — declarei.

Falei o que sentia, m as tam bém foi com o um a farpa.

Acho que m eu pai entendeu, porque ele olhou para baixo, se lem brando, de repente, do seu café. Tom ou um a bela golada, com o se estivesse j untando os próprios pensam entos, depois disse:

— Eu só acho... você sem pre o adm irou m uito. Com o se fosse um pai. Eu sei, eu não estava por perto enquanto você crescia...

— Então, o que você está dizendo é que... Bronwy n j am ais se apaixonaria pelo treinador Carr porque ela teve um pai presente? — Eu olhei bem fundo dos seus olhos e vi um lam pej o de arrependim ento, em bora tenha m e ocorrido, que, um a vez que ele se j untou com m inha m ãe, e consequentem ente com igo, estava ferrado de qualquer m aneira. De todo j eito, ele abandonaria um a m ulher e a própria filha.

— Não. Não foi isso que eu disse... Eu só quis dizer... — Ele fez um a pausa, depois prosseguiu: — Tá legal. Talvez a m inha intenção tenha sido essa...

Escolhi as palavras com o m aior cuidado possível:

— Pai, eu não posso sim plesm ente... sentir algo verdadeiro por ele? Independentem ente do que aconteceu com igo quando eu era criança?

— Sim . É possível, sim — ele adm itiu, em bora ainda parecesse desnorteado.

Nós dois fingim os nos concentrar na com ida por alguns segundos, até que ele repousou o garfo:

— Quem m ais sabe? Lucy ? Sua m ãe?

Balancei a cabeça.

— Ninguém além de você.

Ele abriu um sorriso discreto e falou:

— Bem , que honra.

— Deve ser.

— Obrigado por confiar em m im .

— Sim . Por favor, não conte nada para a Astrid — pedi.

— Eu j am ais contaria.

— Acredito em você — falei.

— E o Ry an?

— Ry an vai ficar bem . Não im porta o que aconteça. Ele vai ficar bem .

— Posso te dar um conselho? — ele m e perguntou.

— Claro.

— Se acha que não deve continuar com ele, term ine o quanto antes. — Olhei para ele, m e questionando se m eu pai estava falando aquilo por experiência. Em caso afirm ativo, será que ele se referia a Astrid ou a m inha m ãe? Cheguei a pensar em perguntar, m as decidi que realm ente não queria saber, enquanto ele continuou: — Descubra o que você quer... sej a lá o que for... e faça a sua escolha.

— Vou fazer. Mas, por enquanto... — Meu pai ergueu a sobrancelha, aguardando. — Por enquanto, só quero acabar com aqueles m alditos Longhorns.

Meu pai sorriu:

— Sim . Acho que no final das contas, você vai acabar ficando com o treinador.