Primeiro e Único
Trinta e três
Dei um pulo e deixei escapar um grito, exatam ente com o faço quando encontro um a barata no m eu apartam ento.
— Sua porta estava destrancada — disse Ry an, erguendo a m ão com o se quisesse m e acalm ar. — Então, eu entrei.
— Eu percebi — falei, m e virando de costas para pegar um a calça de m oletom e um a cam iseta nas gavetas da côm oda. Joguei a toalha no chão, m e vesti o m ais rápido que pude e voltei a olhar para ele.
— Desculpe, Shea — ele pediu, de um j eito dócil e triste. A total reviravolta em seu com portam ento m e pegou desprevenida e atenuou m inha raiva.
— Tudo bem . Vam os esquecer o que aconteceu — falei, em bora soubesse que não estava tudo bem .
Eu sabia que nem ele nem eu conseguiríam os fazer isso. Que Ry an não esqueceria m inha m entira sobre Miller e que eu tam bém não esqueceria o que ele tinha feito com igo, m as eu só queria m e livrar dele. Mesm o que o treinador não estivesse a cam inho, por aquela noite j á bastava. Eu não suportava m ais Ry an. Procurei a com binação certa das palavras enquanto ele se levantou e cam inhou com calm a em m inha direção. Sem pensar, prendi a respiração e dei um passo para trás, depois outro.
A expressão dele m urchou.
— Shea, querida. Por favor, diga que não está com m edo de m im . Eu j am ais te m achucaria, por favor. Você m e conhece. Sabe disso.
Ry an pareceu tão doce, tão persuasivo, que eu quase acreditei nele.
— Não estou com m edo de você. Mas você m e machucou, de verdade.
Eu não queria enfurecê-lo com pletam ente, m as tam bém não queria m e colocar na posição de vítim a.
— Eu não pretendia m achucar você — insistiu.
Considerei o que ele disse, decidindo que a afirm ação tinha lá seu lado verdadeiro e que talvez ele não soubesse a força que tinha. Mas, em seguida, balancei a cabeça, m udando de ideia de novo.
— Mas machucou — retruquei.
Ele deu m ais um passo adiante, depois estendeu a m ão e tocou m eu braço esquerdo exatam ente onde tinha m e agarrado.
— Está... doendo? Mesm o?
— Sim , está. E am anhã vai ter um hem atom a aí. Tenho certeza. Você acha que isso está certo? — indaguei, a voz ficando cada vez m ais alta à m edida que eu falava. — Machucar um a m ulher desse j eito? Com o se estivesse em um m aldito j ogo de futebol am ericano? Não, não está certo, Ry an. Você tem uns quarenta quilos a m ais que eu. Não está certo.
Ele balançou a cabeça.
— Você está certa. Me desculpe, m eu doce.
— Não m e cham e de meu doce — resm unguei, sentindo um a nova onda de raiva. — Não sou seu doce.
— Shea, te peço desculpas... Assim com o você m e pediu em relação ao Miller.
Levei as m ãos ao ar, depois coloquei um a delas sobre o quadril.
— Não coloque as duas coisas na m esm a categoria. O que eu fiz e o que você fez. Não te pedi desculpas em relação ao Miller. Não fiz nada com ele. Pedi desculpas por ter m entido para você sobre ele. Mas m enti porque estava cansada de ficar falando sobre ele. Miller está fora de questão.
Bati o dorso da m ão sobre a palm a da outra para enfatizar.
— Eu acredito em você — ele afirm ou.
— Acredita m esm o?
— Sim . Acredito.
— Bom . Obrigada — falei, sabendo que os segundos para a chegada do treinador voavam . Ry an esticou o braço, envolveu m inha cintura, m e puxou para perto e se inclinou para tentar m e beij ar.
Reclam ei, cham ando o nom e dele, m as ele insistiu.
— Ah, vem aqui, m eu doce. Me dê um beij o. Vam os fazer as pazes, vam os? Por favor?
Virei a cabeça, sentindo um a repulsa repentina pelo seu cheiro — que, até então, antes daquela noite, era norm al para m im .
— Podem os conversar sobre isso am anhã? Estou m uito cansada.
A expressão de Ry an se anuviou e ele sem icerrou os olhos.
— Por quê? Está esperando alguém ? O Miller está vindo para cá para te consolar?
Senti um estalo por dentro quando gritei:
— Que droga, Ry an! Saia daqui! Saia agora!
Ele ficou m e encarando com calm a, balançando a cabeça.
— Então é assim ?
— Assim o quê?
— Você está tentando distorcer as coisas. Prim eiro, m ente para m im . Agora o problem a é eu ter segurado o seu braço com um pouco m ais de força? — Ele sorriu com desdém , depois soltou um a gargalhada, com o que para m e provocar e... de repente, passei a odiá-lo.
— Cala a boca, Ry an. E saia da m inha casa agora. Acabou.
— Ah, acabou? Você está term inando o nosso relacionam ento? Por quê? Porque tem um a opção m elhor agora? — ele provocou, rindo de novo.
— Sim , para falar a verdade, tenho sim — respondi, querendo provocá-lo agora com palavras, que eram a m inha m elhor arm a.
— Tudo bem , então. Vá lá e faça o que você quer. Durm a com o Miller.
— Vá se foder! — esbravej ei, apontando, pondo o dedo sobre o peito dele, exatam ente com o ele tinha feito com igo no banheiro do Third Rail. Com o ele não esboçou nenhum a reação, apontei com m ais força ainda. Ele m e segurou e eu m e desvencilhei. Foi com o se eu desej asse que ele m e acertasse, para com provar que o que Blakeslee havia dito era verdade, para j ustificar m inha decisão de term inar com o grandioso Ry an Jam es.
Porém , quando consegui o que queria, ele segurou m eus pulsos num reflexo rápido e m e j ogou sobre a cam a com a m aior facilidade, m e arrependi.
— Me solta! — gritei, ofegante, m e debatendo enquanto ele m e segurava com m ais força do que o necessário. E, então, de repente, fiquei com m edo. Muito m edo. — Me solta! — gritei de novo, m ovendo a cabeça de um lado para o outro, chorando. — Me solta, Ry an! Me solta agora!
Ele dim inuiu um pouco a força das m ãos, m as apenas o suficiente para eu com eçar a m e debater de novo, e eu devo ter gritado algum a coisa tam bém . Não consigo m e lem brar ao certo o que aconteceu depois disso, e não tenho a m enor ideia se m uitos segundos se passaram ou até m esm o m inutos. Tudo de que m e lem bro é de ter olhado para cim a e visto o vulto do treinador Carr na porta do quarto.
Não sei o que ele viu ou ouviu, m as deve ter ficado claro que, sej a lá o que estivesse acontecendo ali, era contra a m inha vontade, porque ele gritou:
— O que está acontecendo aqui?! Solte ela, Ry an!
Ry an ficou de pé e foi para a porta, m as o treinador o interceptou com o se estivesse fazendo um a defesa, com a m ão sobre o om bro de Ry an.
— Você não vai a lugar nenhum .
Ry an disse, sem m eias-palavras, que lam entava ter que contrariá-lo, afastou o treinador e foi para a sala. Eu m e sentei, e o treinador ficou m e olhando por um instante, com o que para ter certeza de que eu estava bem . Depois, ele se virou e seguiu Ry an. Fiquei sobre a cam a, paralisada, ouvindo o treinador gritar:
— O que você estava fazendo? É m elhor você m e contar porque ela vai m e contar! — Ry an respondeu algum a coisa que não consegui entender, a não ser pela palavra mentirosa. O treinador continuou: — Shea Rigsby não é m entirosa. Você é. Se eu pudesse, voltaria atrás naquele Cotton Bowl e te deixaria de fora.
Ry an disse algum a coisa parecida com :
— Ah, com certeza você faria isso, treinador.
Em seguida, ouvi uns barulhos, com o se os dois estivessem se esm urrando, seguido de um estrondo dos m óveis batendo na parede. Foi aí que levantei da cam a, saí correndo pelo corredor e vi o treinador em cim a de Ry an, batendo nele em m eio a um a m esa virada e um m onte de revistas espalhadas. O treinador o acertou três ou quatro vezes, até que Ry an disse:
— Então você tam bém está dorm indo com ela?
O treinador o acertou um a últim a vez, para arrem atar.
Ry an não revidou com um soco sequer. Apenas deu risada, do m esm o j eito que riu de m im no quarto. O sangue escorria do seu rosto.
— Sabe de um a coisa, treinador? Sem pre pensei isso de você — ele falou, sentando-se, recuperando o fôlego. — Você é um hipócrita. Vê o que quer e quando quer ver. Isso é m uito conveniente para você, não?
— Você é um desgraçado — afirm ou o treinador, se apoiando nos j oelhos para recuperar o fôlego. — Um a verdadeira desgraça.
— Bem , talvez eu sej a — revidou Ry an, agora de pé e quase na porta. — Talvez eu sej a. E quem é você para dizer isso. Hein, treinador?
Ele olhou para m im por cim a do om bro, balançou a cabeça e foi em bora.