Primeiro e Único

Emily Giffin · Capítulo 8 de 46

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Primeiro e Único

Oito

 

Após alguns dias, depois que m e obriguei a ligar para Frank Sm iley, seguindo o conselho do treinador, finalm ente recebi um a resposta por m eio da assistente dele, que m e convidou a encontrá-lo para alm oçar no Bob’s Chop and Steak House no m esm o dia do evento de Ry an. Ao telefone, a m ulher não m e ofereceu nenhum a alternativa de horário, e pareceu irritada até pelo fato de ter de transm itir o recado, então, rapidam ente concordei, depois desliguei e liguei para o treinador, para contar a novidade.

— Vou m e encontrar com o Sm iley no Bob’s Steak House. Presum o que isso sej a um a entrevista — questionei.

— Mas é claro que é! Você vai alm oçar com o m elhor editor de esportes do Texas. E no restaurante favorito dele. O cara pode m uito bem ter até um a m áquina de escrever num a daquelas cabines... Sim , eu diria que é um a entrevista sim .

— Ele ainda usa m áquina de escrever? — questionei, intrigada. Eu sabia que Sm iley ainda com prava aqueles blocos de anotações am arelos e lapiseiras para usar na sala de im prensa, ao contrário de todos os outros, que usavam laptops. Mas um a m áquina de escrever era ainda m ais m aneiro.

— Eu não m e surpreenderia... e olha que as pessoas j á m e cham am de old school. Sou j ovem com parado ao Sm iley.

— Ele não parece o tipo de cara que quer um a m ulher em sua equipe — opinei, depois de j á ter feito a m inha diligência prévia e confirm ado que não havia nenhum a m ulher trabalhando na equipe do Post.

O treinador não refutou o que eu disse, m as argum entou:

— Você não é qualquer m ulher.

Sorri ao telefone. Ele acrescentou:

— Bom , enfim ... peça filé de costela ou bisteca. Nada de salada. A m enos que sej a na entrada e que estej a m uito bem cortada.

Não soube ao certo se ele estava m e passando suas recom endações pessoais ou se isso era algum tipo de dica que ele dava para os garotos que iam para um a entrevista com algum clube, m as, sej a com o for, respondi:

— Entendi.

— E estej a preparada para conversar sobre beisebol. Frank é um daqueles fãs arrogantes e de prim eira qualidade. Você conhece o tipo.

Dei risada e concordei, m e lem brando de um a conversa que tive com o treinador um a vez sobre fanáticos por beisebol. Chegam os à conclusão de que eles eram um a m istura de esnobe e nerd, com o um cruzam ento entre um aficionado de ópera e um geek. Eles de fato pareciam acreditar que eram pessoas m ais evoluídas, com QI m ais alto do que um fã m ediano de futebol am ericano. Pode ser que m am ãe estivesse certa em relação à m inha reserva de estatísticas inúteis, m as isso não era nada com parado ao banco de dados que é o cérebro de um inflam ado fã de beisebol.

Falei para o treinador que, se Sm iley m e quisesse para trabalhar com assuntos de beisebol, eu não aceitaria, m as, depois que desliguei, passei a hora seguinte fuçando, com nervosism o, todos os sites que eu norm alm ente j á acessava — ESPN, SI, Fox Sports, Rivals, Scout, Deadspin e Yardbarker. Vasculhei tudo à procura das fofocas m ais recentes sobre beisebol, bem com o de acontecim entos recentes no basquete, no tênis, no golfe, no futebol e no hóquei. Eu poderia beber um dedinho de uísque e falar claram ente sobre futebol am ericano, tanto sobre o universitário quanto sobre a NFL, m as, por outro lado, eu era um a garota de destaque no SportsCenter e não queria ter vergonha de m im m esm a. E, o m ais im portante, não queria envergonhar o treinador. Se ele tinha depositado sua confiança em m im , eu tinha de causar boa im pressão. Dois dias depois, fui de carro até a churrascaria fam osa que ficava na Rua Lem m on, vestindo um a saia azul-m arinho com com prim ento até os j oelhos, cam isa branca de m anga longa e sapato de salto baixo. Fui quase sem nenhum a m aquiagem , exceto por um brilho labial, e am arrei o cabelo com um coque sim ples. Meu obj etivo era parecer um a repórter séria, sem a m enor pinta de sex appeal.

Cheguei ao Bob’s com vinte m inutos de antecedência, fiz o procedim ento de recepção com o m aître e esperei por Sm iley no bar, bebericando um refrigerante e observando o espaço ao m eu redor. A m aioria dos clientes era de hom ens, e pareciam pessoas conservadoras, ricas e im portantes — ou pelo m enos que se autoconsideravam im portantes —, o que, com base nas m inhas experiências dos j antares em Nova York com m eu pai, parecia ser o padrão das churrascarias. A cena de ostentação hoj e m e pareceu exagerada, elevada ao cubo, com o tudo frequentem ente era na m inha cidade natal. O grande ficava ainda m aior. O alto, escandaloso. O rico, m ilionário. E o m enos nunca foi m ais. Por outro lado, talvez eu só estivesse nervosa, fora da m inha zona de conforto universitária, onde, se quisesse, eu poderia usar m oletom para trabalhar. Depois de dez anos no trabalho, m ais dois com o estagiária do departam ento de esportes, enquanto eu era aluna ainda, J.J. j am ais m e reprim iu, um a única vez. Na m aior parte do tem po, ele m al agia com o m eu chefe, e m e dava m ais sugestões do que atribuições ou prazos. Minha vida era m am ão com açúcar, e, apesar das dúvidas recentes que m e surgiam a respeito de qual direção seguir, eu não conseguia entender por que tantas pessoas ao que parecia acreditam na filosofia de que o fácil é j ustam ente o oposto de digno. Será m esm o tão ruim assim que as coisas aconteçam sem que você precise se m atar, se sacrificar — desde que você estej a feliz e fazendo um trabalho lim po e honesto? Será que não devem os dizer que trabalham os para viver em vez de viverm os para trabalhar?

Enquanto eu pensava nessa questão, Frank Sm iley entrou no restaurante com um casaco de veludo m arrom com cotoveleiras, um a gravata borboleta e o chapéu de sem pre — m as esse era um chapéu m ais trilby do que fedora. Ele estava com a cara m ais rude que a habitual, e eu quase consegui ler as palavras que pairavam sobre a cabeça dele com o se estivesse num balão: Isto é perda de tempo. Respirei fundo algum as vezes enquanto o m aître apontou para m im , rápido dem ais para que eu tivesse tem po hábil para desviar o olhar. Acenei discretam ente para Sm iley, que apontou o chapéu em m inha direção, e depois cam inhou até m im . Foi quando vi o texto dentro do balãozinho m udar para: Vamos acabar logo com essa merda.

— Shea Rigsby — gritou ele ao chegar no bar, e a hostess estava de pé, discretam ente atrás dele, segurando dois cardápios gigantescos. Ele retirou o chapéu com a m ão esquerda e estendeu a direita. Nenhum de nós dois sorriu.

— Sim , senhor — respondi, sentindo a m inha m ão ser praticam ente esm agada. Apertei a m ão dele com o m áxim o de força que pude. Nosso aperto de m ão fez um m ovim ento para cim a e para baixo, três vezes.

— Prazer — disse ele, com o se aquilo não fosse nada.

— Muito prazer em conhecê-lo, Sr. Sm iley — afirm ei, em bora tivéssem os nos encontrado antes, ou pelos m enos trom bado um com o outro, nas coletivas de im pressa após os j ogos.

Ele não citou seu prim eiro nom e, o que m e deixou ainda m ais irritada. Levantei, apoiando o salto do sapato no apoio para pés do banco e tropeçando um pouco. Deixei um gole de refrigerante espirrar sobre o balcão. O barm an enxugou quase que instantaneam ente, m as Sm iley fixou o olhar bem no ponto onde derram ei a bebida.

— Ops! — falei, m e corrigindo. Alisei a saia enquanto a hostess nos conduziu até um a m esa de m ogno que ficava bem no canto, evidentem ente reservada para ele, j á que as m esas m ais inferiores ao nosso redor estavam todas ocupadas.

Sm iley sentou-se de costas para a parede e logo disparou sua prim eira pergunta:

— Bem , o treinador Carr disse que você escreve.

— Bom , quem sou eu para contradizer o treinador Carr... — lancei. Na m inha cabeça, foi um a resposta astuta, um a m aneira de com binar m odéstia, senso de hum or e confiança.

— E você gosta disso? Escrever?

Hesitei, em seguida, arrisquei dizer a verdade.

— É um a relação de am or e ódio. Am o a sensação que tenho depois que term ino de escrever algum a coisa. Mas o ato de escrever em si? Às vezes não gosto m uito.

Sm iley assentiu, não em tom de desaprovação, e em seguida disse:

— Sim . Eu sem pre digo que a sensação de term inar de escrever um a coluna é m uito parecida com a de sair da cadeira do dentista.

— Ou da academ ia — acrescentei.

— Ah, quanto a isso eu não saberia dizer — declarou, enquanto um garçom j ovem com postura e cabelo perfeitos se aproxim ou para nos oferecer bebida.

Sm iley m al olhou para ele, parecendo aborrecido pela interrupção:

— Já vam os fazer o pedido agora. Não vam os?

— Sim — respondi e depois, sem olhar para o cardápio, pedi ao garçom que trouxesse um filé de costela m édio.

— E qual é o seu pedido, Sr. Sm iley ?

— O m esm o de sem pre — respondeu.

— Algum acom panham ento para hoj e?

— O de sem pre — repetiu Sm iley, m eneando a m ão, praticam ente enxotando o rapaz da m esa.

Quando o garçom saiu, Sm iley tirou o casaco e dobrou as m angas da cam isa.

— Bom . Já sei de todos os vínculos que você tem com a Walker.

— Sim , senhor. Tenho... m uitos vínculos com a Walker — gaguej ei, lem brando a m im m esm a que eu deveria responder tudo da m aneira m ais sim ples possível. Assim , a probabilidade de estragar as coisas seria bem m enor.

— Você conseguiria cobrir futebol am ericano universitário? Com clareza e im parcialidade?

— Sim , senhor.

Ele ergueu as sobrancelhas, que de tão peludas se uniam um a à outra, form ando um a só, enquanto eu fiquei em silêncio.

— Sim . Acho que eu conseguiria escrever de m aneira m uito im parcial sobre com o os tim es são m assacrados pelo Walker.

O tiro saiu pela culatra. Sm iley não achou graça. Ele m e encarou, esperando por um a resposta de verdade. Olhei bem dentro dos seus olhos e tentei de novo, dizendo que eu m e sentia confiante de que conseguiria.

Sm iley assentiu.

— Ok, Srta. Rigsby, m e diga um a coisa. Na sua opinião, qual é o papel de um j ornalista esportivo?

Nenhum a resposta m e ocorreu, e, em pacada, respondi à sua pergunta com outra pergunta:

— De um periódico tradicional?

— Sim . De um jornal. Não esses tuítes ou tweets ou sei lá com o diabos cham am isso, nem esses blogs fraquíssim os e lam uriosos.

Tom ei um belo gole de água, em pacada de novo, depois gaguej ei m ais um a resposta estranha.

— Bem , acho que... basicam ente o trabalho de um repórter é m anter os fãs em contato com seus esportes e tim es favoritos.

Sm iley m e encarou, com os olhos vidrados. Minha resposta o deixou aborrecido, causou até dor, e talvez tenha até m esm o o enfurecido.

Em estado de pânico, eu sabia que precisava arranj ar algo m elhor — e rápido. Lim pei a garganta e acrescentei com um sorriso discreto:

— Mas, quando as pessoas leem o j ornal hoj e em dia, norm alm ente j á sabem o que aconteceu na noite anterior. Pela televisão ou por artigos da internet. Pelo rádio. Twitter. E pelos blogs fraquíssim os. — Sm iley assentiu de novo, de algum m odo engaj ado na conversa m ais um a vez, m as com a m esm a postura cética, aparentem ente. — Então, a cobertura de um a reportagem é m enos atual e im ediata, e deve se concentrar m ais no nível da análise e do discernim ento. Expor todas as em oções subj acentes. O elem ento hum ano.

Ele dem onstrou um ligeiro entusiasm o. Continuei:

— O ponto principal é só um j ogo, certo? Mas é o nosso trabalho m ostrar que não é só um j ogo. É um a m etáfora da vida. Se o esporte não tiver im portância, então a vida tam bém não terá.

— Sim — concordou ele, enfaticam ente. — É exatamente isso.

Continuei, agora com m ais confiança.

— É com o aqueles film es curtos que são exibidos durante os Jogos Olím picos. Eles fazem você se preocupar com um praticante de luge com o se ele fosse o seu irm ão... Sabe por quê? Porque ele poderia ser o seu irm ão. Ele é o seu irm ão.

— Sim , sim . — Sm iley sorriu. — E quem você acha que faz isso bem ? Que tipo de repórter?

Lutei contra a vontade de responder: “Você, por exem plo”, pensando que o estilo “serviçal” seria a direção errada a tom ar em se tratando de Sm iley. Portanto, listei um punhado dos m elhores repórteres esportivos, um a m istura de profissionais contem porâneos e antigos: George Plim pton, Roger Angell, Red Sm ith, John Feinstein, Robert Cream er, Frank Deford, Dan Jenkins, Buster Olney, Peter King e Rick Reilly.

— Você não m encionou ninguém do sexo fem inino — apontou ele.

— Ok. Mike Lupica — lancei, orgulhosa da rapidez na m inha réplica. Ele sorriu quando acrescentei: — Sally Jenkins. Ela é ótim a. E Robin Herm an.

— Você não é j ovem dem ais para conhecer Angell? E m etade desses outros caras? — inquiriu ele.

— Passei a infância lendo sobre essas coisas. Matérias antigas. E eu colecionava a Sports Illustrated. Quando eu tinha uns 10 ou 11 anos, o treinador m e deu centenas de edições porque a esposa dele tinha feito um a lim peza no sótão. São um a excelente fonte de leitura, especialm ente nos dias chuvosos. É com o reviver a “rum ble in the j ungle” ou o World Series de 1986 entre o Mets e o Sox, ou a rivalidade épica entre McEnroe e Borg.

Pela prim eira vez desde que nos sentam os, Sm iley pareceu im pressionado. Não só satisfeito ou sim plesm ente curioso, m as im pressionado de fato. Sei bem com o um a pessoa fica quando está im pressionada. Era desse j eito que os caras nos bares com eçavam a m e levar a sério pra valer, depois que eu fazia a m inha análise do j ogo do dia e eles im ediatam ente perguntavam , brincando: “Quer casar com igo?”

— Que m atérias você considera destaques? — perguntou Sm iley, m as essa pergunta soou diferente das dem ais. Era o tipo de questão que ele faria para os com panheiros repórteres enquanto tom avam um a cervej a, não para um a garota que ele estava entrevistando contra a própria vontade, apenas para fazer um favor a um treinador legendário.

— Hum ... Deixe-m e ver. Bem , a m atéria do John Updike sobre o Ted William s é um a. Aquilo foi fenom enal — respondi. Sm iley se anim ou quando continuei: — A m atéria do Roger Angell sobre o Steve Blass.

Ele assentiu:

— Continue.

— Aquela do Gay Talese, cuj o título foi “A tem porada silenciosa de um herói”... Em bora sej a m eio difícil não ser um gênio quando se está escrevendo sobre Joe DiMaggio... A reportagem de Norm an Mailer sobre Muham m ad Ali. “Ego”... não escolheram um título perfeito? E aquela do Frank Deford, “Criados por m ulheres para conquistar hom ens”.

Sm iley franziu a testa.

— Qual foi essa?

— Sobre o Jim m y Connors, e, vej am os, m eus livros favoritos sobre futebol am ericano: That first season, do John Eisenberg; Boys will be boys, de Jeff Pearlm an — falei, referindo-m e ao livro sobre o Dallas Cowboy s, publicado nos anos 1990. — E Giants among men, do Jack Cavanaugh. Esse livro m e faz sentir vontade de ter vivido nos anos 1950, e de ter sido fã dos Giants. Bom , e provavelm ente o m eu favorito, Paper lion. George Plim pton é um m egagênio.

— Você tem bom gosto — declarou ele.

— Obrigada — respondi quando a nossa com ida chegou, e percebi que finalm ente eu estava com fom e. Independentem ente do que acontecesse em relação àquele trabalho, provei a Frank Sm iley que eu era um a pessoa autêntica.

— Ah, m ais um a coisa — disse Sm iley, com a voz habitual, m as pude ver pelos seus olhos que ele estava prestes a m e testar. — Com o você se sente em relação à presença de m ulheres no vestiário? Acha que é certo?

Fiquei com a pulsação acelerada, e o suor com eçou a escorrer pelas laterais do m eu rosto quando fiz o cálculo em silêncio. Disse a m im m esm a que eu poderia usar aquelas roupas “sem noção” e renunciar à m aquiagem . E que poderia fazer o pedido de um bifão antes do m eio-dia. E que eu poderia fingir im parcialidade naquela verdade no m undo altam ente partidário e com petitivo do futebol am ericano universitário. Mas eu sim plesm ente não poderia — e não iria — responder a Sm iley do j eito que eu sabia que ele esperava.

Então, sem ao m enos piscar, respondi que sim . Absolutam ente.

Sm iley ergueu a sobrancelha peluda.

— Ah?

— Nada de dois pesos e duas m edidas — acrescentei, de m aneira firm e. — Sej a na NFL ou na WNBA. O vestiário tem de ficar aberto para todo m undo ou fechado para todo m undo. E fechá-lo não é a resposta. Precisam os estar lá dentro para registrar as reações im ediatas e as em oções verdadeiras. E, por questões práticas, para registrar as nossas m atérias no m om ento certo. — Percebi que eu tinha usado o pronom e nossas e fiquei m e perguntando se aquilo refletiu o m eu verdadeiro desej o.

— E a privacidade do j ogador? — inquiriu Sm iley.

— A privacidade? — retruquei.

— Os j ogadores não têm esse direito?

Resisti à vontade de revirar os olhos e disse a ele que os j ogadores, de am bos os sexos, tinham tem po suficiente para tom ar banho, trocar de roupa ou pelo m enos se cobrir durante o tem po de descanso.

— E se eles não quiserem se cobrir?

Dei de om bros.

— Aí é problem a deles.

— Isso não faria você se sentir... desconfortável? Se um j ogador do sexo m asculino prefere ficar sem roupa no vestiário?

— Já estive em vestiários, Sr. Sm iley. Já entrei no vestiário do tim e que ganha e do tim e que perde. E todos são iguais. Todos fedem . E são cheios de roupas suj as, toalhas suj as de suor e ataduras ensanguentadas.

— E de hom ens pelados — rebateu ele.

— Às vezes, sim . Às vezes há hom ens com m ais de cem quilos, pelados, com o cabelo desgrenhado, as costas peludas e as coxas cheias de m anchas roxas. — Ele pareceu não entender m uito bem o que eu queria dizer, ou pelo m enos fingiu que não, então prossegui: — O vestiário não é um lugar para flerte, Sr. Sm iley. Não de acordo com a m inha experiência. Ninguém está pensando em sexo depois de um a partida. E, se as m ulheres podem ser correspondentes de guerra, elas tam bém devem ter perm issão para entrar nos vestiários depois de um j ogo de futebol am ericano.

Concluí a resposta m e sentindo eufórica, com o se eu tivesse m arcado um ponto no placar para todas as j ornalistas do sexo fem inino nos quatro cantos do m undo.

Sm iley olhou para m im e balançou a cabeça, concordando, com o se estivesse adm itindo, em silêncio, que eu havia ganho aquela questão. Depois disso, não falam os m ais sobre gêneros m asculino e fem inino, enquanto, sem dizer nada, nos servíam os de porções grandes de batata hash brown e de cenouras ao m el e cortávam os nossos filés de costela, m udando o rum o da conversa para um bate-papo sobre esportes em geral.

Cerca de um a hora depois, tínham os term inado a refeição e cam inham os até o estacionam ento. Chegam os prim eiro ao m eu carro. Sm iley bateu o olho no m eu adesivo discreto do Walker e disse:

— Tem certeza de que consegue ser im parcial?

— É daqueles que dá para tirar, sabe? — falei, pegando um a borda j á encrespada do adesivo.

— Então, isso é um sim ?

— Sim — afirm ei.

— E se eu lhe disser que a oportunidade é para cobrir m atérias no Texas? — perguntou ele.

— É? — Engoli em seco, im aginando que ele estivesse tentando m e desm ascarar e que o trabalho fosse para cobrir qualquer tim e, em qualquer lugar, m enos no Texas.

— Sim . Para a grande universidade estadual que tem as cores do que você certa vez cham ou de “laranj a da cor da bile”.

Retraí o corpo, m e lem brando da m atéria que escrevi certa vez, na faculdade, enquanto ele continuou a m e citar:

— “A cor de cervej a regurgitada e de burritos”. Está lem brada?

— Bem ... É um a cor m uito feia.

— Essa é a sua resposta final?

— Não, senhor. Escrevi aquilo quando ainda estava na faculdade, trabalhando no j ornal da Walker. Era um trabalho diferente. Posso ser im parcial. Sei que posso.

— Que bom . Porque, se um repórter deixa escapar um grito de torcida na sala de im prensa, está perdido. Ele ou ela faz parte do negócio.

Balancei a cabeça, concordando e m ostrando que entendi, surpresa com igo m esm a ao ver o quanto eu queria aquele em prego, m esm o que a função envolvesse m uito trabalho sobre a “laranj a da cor da bile”.