Primeiro e Único
Trinta e sete
Mais tarde, naquela m esm a noite, fui visitar o treinador em seu escritório, aliviada por encontrar o estacionam ento do com plexo esportivo praticam ente vazio. Quando entrei na ala de futebol am ericano, olhei para trás com nervosism o, m e perguntando por quanto tem po m ais conseguiríam os nos esconder e m anter a m entira. Ainda era necessário, m as a ideia não m e agradava e eu m e peguei com eçando a im aginar um a realidade diferente.
— Aí está ela — disse o treinador ao abrir a porta, com um sorriso estonteante. Ele pegou m inha m ão e m e puxou para perto, batendo a porta atrás de m im .
Sorri para ele, e nós dois ficam os parados, congelados por vários segundos antes de ele m e envolver com os braços e m e abraçar. Retribuí, de um j eito m odesto, depois com m ais intensidade, decidindo que, se ele não tom asse logo um a atitude, eu tom aria. Tinha que beij á-lo.
Ele se afastou apenas o suficiente para olhar para m im de m odo intenso. Era exatam ente dessa m aneira que ele assistia a um lance do j ogo que o agradasse, algum a j ogada que acontecia exatam ente com o fora planej ada. Às vezes, quando fazia essa cara, ele dizia: yesss seguido de algum as palm as fortes ou de um soco no ar para com em orar. Naquela noite, em bora não tenha feito isso, posso dizer que ele estava se sentindo dessa form a, porque o conhecia m uito bem ; todos os seus tiques e expressões.
Ele segurou m eu rosto e ficam os a um a distância bastante íntim a. Sentindo-m e tonta, olhei para a barba em seu queixo, suas pálpebras sem icerradas e o form ato carnudo do seu lábio superior. Ele deslizou as m ãos por detrás das m inhas orelhas, entrelaçou os dedos atrás da m inha cabeça, puxando com cuidado um pouco do m eu cabelo. Era com o se ele estivesse m e controlando sem intenção, fazendo m eus lábios se entreabrirem , m eus olhos se fecharem e m inha respiração encurtar. Esperei m ais alguns segundos agonizantes, com o desej o ardente de ser beij ada. Com o ele não fez isso, coloquei as m ãos sobre seu pescoço e soltei um pequeno gem ido, entorpecida dem ais para conseguir falar. Então, finalm ente, seus lábios roçaram os m eus, devagar e depois com m ais desej o. Foi com o olhar para um a luz cegante, m as sem sentir incôm odo nos olhos. Tudo pareceu terno, correto e com pleto, até que parei de pensar com pletam ente. Me esqueci de onde estávam os, e de tudo o que havia acontecido que nos levou aquele m om ento, e m e concentrei apenas em beij á-lo. Senti o seu gosto e o toquei, tateando seu cabelo curto e desgrenhado, sua nuca quente e, pelo tecido fino da cam iseta, os m úsculos dos seus om bros e costas se esticando. Inspirei o cheiro de sua pele e da sua loção pós-barba m isturado ao cheiro fam iliar de suor. Ouvi sua respiração e pude sentir sua em polgação, tão intensa quanto a m inha.
Ficam os nos beij ando, e beij ando, até que nos separam os, ele com as m ãos ainda enroscadas no m eu cabelo, e nossos rostos tão próxim os que suas linhas de expressão ficaram em baçadas para m im .
— Que droga — ele disse, recuperando o fôlego.
— É m esm o — reagi, olhando-o nos olhos.
— Loucura. É loucura isso que estam os fazendo.
Dei risada porque era bem típico dele cham ar o prim eiro beij o de “loucura” e porque eu sabia exatam ente o que ele quis dizer. Ele tam bém sorriu, depois m e conduziu pela m ão até o sofá de couro onde por m uitos e m uitos anos, em diferentes ocasiões, eu m e sentei. Mas nunca assim . Nunca com as m inhas pernas enroscadas nas dele, m eu braço ao redor do seu pescoço. Nunca tão relaxada, tão próxim a dele. Olhei ao redor do seu escritório, observando todas as notícias de j ornal e revistas, fotos e placas com em orativas, com o se estivesse olhando para elas pela prim eira vez. Tudo parecia diferente agora. Mais im portante. Meus olhos se concentraram em um a citação em oldurada pendurada na parede atrás de nós:
UM BOM TREINADOR NÃO FAZ OS SEUS JOGADORES
ENXERGAREM O QUE SÃO, MAS O QUE CONSEGUEM SER.
A citação pareceu verdadeira para m im tam bém , enquanto pensei no quanto ele tinha feito que eu m udasse nos últim os m eses, m e encoraj ando a sair do casulo da Walker, a com eçar um a nova carreira, a term inar um a relação e depois outra. Agora cá estávam os, aparentem ente no m esm o lugar, exatam ente onde havíam os com eçado. Ainda assim , não éram os os m esm os. Nada m ais era.
— Estou orgulhoso de você, m enina — ele afirm ou, beij ando m inha testa.
— Por quê? — indaguei, m e perguntando se ele conseguia ler m eu pensam ento.
— Por saber lidar com os seus próprios problem as. Por ser forte — ele com entou, respirando entre m eus cabelos.
Ele estava falando sobre Ry an agora, então acrescentei:
— Eu não teria conseguido ser forte sem você.
— Isso não é verdade. Você nos trouxe até aqui.
Sorri, aceitando parte do crédito, m as pensando que um a série de coisas aconteceu porque tinha de acontecer, algum as delas m uito ruins — com o Ry an m e agarrando e a m orte de Connie. Porém , deixei esses pensam entos de lado e falei:
— Você m e aj udou. Sem pre m e aj udou. Não tem ideia do quanto...
Ele tocou m eu rosto e sorriu de volta para m im .
— Eu faria qualquer coisa por você, m enina. Você sabe disso.
Assenti, porque sabia, e encostei a cabeça no om bro dele, tentando entender por que o nosso prim eiro beij o foi diferente de todos os m eus outros prim eiros beij os. A resposta pareceu óbvia: eu estava apaixonada. Talvez pela prim eira vez; talvez um pouco m ais do que nas outras vezes. Mas havia algum a outra coisa tam bém . Algo a m ais que tornou nosso m om ento diferente, especial. O beij o teve um significado m aior porque nos sentíam os com o um tim e. Não sim plesm ente com o parceiros e torcedores do Walker, m as de outro j eito: “Estou aqui para o que der e vier”. Não houve nada daquele acordo em ocional que m uitas vezes acontece entre duas pessoas que se beij am pela prim eira vez. Não houve perguntas sobre o que aquilo significava, ou o que aconteceria em seguida, ou quem estava no controle da situação. Ao contrário. Nosso beij o foi o resultado de um acordo sagrado sobre onde estivem os e para onde iríam os. Nós dois quisem os. Am bos nos com prom etem os a fazer com que isso acontecesse, e tínham os certeza de que nenhum de nós entraria em um a situação tão cheia de controvérsias, tam pouco correríam os o risco de m agoar pessoas a m enos que tivéssem os a certeza de que era isso que queríam os. Ainda assim , tínham os um grande obstáculo pela frente.
— Tem os que contar para Lucy. — Deixei escapar, quebrando o encanto da tranquilidade. — Tem os que contar antes que ela descubra. Ela m erece saber. Não é j usto esconder dela.
— Eu sei. E quando vam os fazer isso? Vou cair na estrada logo, logo.
Eu sabia que ele estava se referindo ao processo de escalação do tim e, e que restavam apenas duas sem anas para o prazo final, quando os treinadores não poderiam m ais se com unicar com os selecionados.
— Para onde você vai? — perguntei, deixando um pouco de lado o assunto delicado.
— Chicago e Pittsburgh. Naperville e New Kensington, para ser m ais exato. Duas passadas rápidas para visitar dois quarterbacks. Bate-e-volta... E alguns dias viaj ando pelo Texas.
— Quando você viaj a? — perguntei.
— Para Chicago, na sexta. Para Pittsburgh, na sem ana que vem . Viagem rápida... Por quê? Quer ir com igo?
Sorri e respondi:
— Eu bem que gostaria. — Em seguida, m e lem brei do convite da Lucy para participar da decoração da árvore de Natal dela e perguntei se ele tinha planos de com parecer.
— Sim , por quê? Não está pensando que poderíam os contar para ela lá, está?
— Não. Seria um a carga em ocional pesada dem ais — respondi, sabendo o quanto Lucy odiaria as tradições natalinas sem a presença da m ãe. — Talvez sej a m elhor esperar até depois das festas.
— E do cam peonato?
— Sim — respondi, sentindo um a onda de alívio. — Talvez sim . Só precisam os tom ar m uito cuidado nesse m eio-tem po.
— Concordo. É bom que ela saiba por nós.
— Por nós dois — enfatizei, pensando que não era j usto deixá-lo sozinho com essa tarefa, e não tinha certeza de que eu poderia lidar com isso sozinha.
— Sim , quando chegar a hora certa, farem os isso — ele concordou, com sua voz intensa e im ponente de treinador. — Criar coragem e fazer o que tem que ser feito.