Primeiro e Único
Dezenove
Em um j ogo que foi pior do que o treinador havia previsto, vencem os por pouco, em Waco, ganhando do Bay lor de 21 a 20. Com exceção do placar final, praticam ente todo o resto deu errado. Perdem os posses de bola, field goals e provocam os um a série de pênaltis. Por experiência, eu sabia que o treinador seria curto e grosso na coletiva de im prensa, e que estaria m ais decepcionado com a equipe pela falta de controle em ocional e de disciplina do que feliz por ter saído com a vitória.
E foi o que aconteceu. Ele saiu m al-hum orado, resm ungando para os repórteres, e m al m e reconheceu quando levantei a m ão. Em vez de m e cham ar pelo nom e, ele sim plesm ente apontou na m inha direção e disse:
— Sim . Você, pode fazer a pergunta.
— Treinador Carr — com ecei, nervosa —, o que você viu na j ogada em que Rhodes sofreu um fumble? No final do prim eiro tem po?
— O que eu vi? — Ele sem icerrou os olhos, com o se estivesse confuso, e depois respondeu:
— Vi o j uiz m arcar um fumble. Foi isso o que vi. — Ele estava com a voz rouca de tanto gritar em m eio a m ais de cinquenta m il fãs (e provavelm ente por ter gritado com o tim e depois).
Senti as bochechas corarem , m as continuei:
— Você viu o replay ? Não ficou m uito claro se ele caiu ou não.
— Sim , eu vi o replay.
— E você acha que a m arcação foi correta? — indaguei, desconcertada e sem conseguir articular o que eu realm ente queria saber: com o ele se sentia ao ver o tim e desanim ar depois de um a m arcação tão im portante.
— Foi a decisão do j uiz. E, com o você bem sabe, eu j á tinha contestado um a decisão na arbitragem num a j ogada anterior. Então... Marcaram um turnover e foi isso. O que eu penso não faz a m enor diferença.
Olhei para ele, pensando que o que o treinador achava sobre o lance, a partida e tudo o m ais fazia toda a diferença. Ele ficou m e olhando, esperando. Foi quando m e forcei a fazer um a últim a pergunta.
— Você acha que isso acabou virando o j ogo contra... — Em cim a da hora, consegui interrom per a m inha fala e evitei que saísse “nós”. Assim , term inei a pergunta com — “vocês”?
O treinador cruzou os braços e soltou um suspiro profundo.
— Houve vários lances nessa partida... Muitas coisas que deveríam os ter feito m elhor. Resum indo: tivem os sorte por ganhar. Um a sorte maldita. Ok. Fim da entrevista.
Ele se levantou de repente e, sem m ais palavras, saiu da bancada e atravessou a porta lateral, voltando para o vestiário.
Naquela noite, fiquei tão m al-hum orada quanto o treinador Carr, e ignorei as ligações de Lucy, depois as de Ry an, que estava no Four Seasons em St. Louis, se preparando para o j ogo do dia seguinte contra os Ram s. A única pessoa com quem eu queria falar era o treinador, m as não m e atrevi a ligar, sabendo que a últim a coisa que ele queria era conversar com um a repórter que lhe fez um m onte de perguntas chatas. Mas, passado um tem po, quando term inei de escrever a m atéria, não resisti e decidi que enviar um a pequena m ensagem de texto não faria m al. Depois de digitar e apagar pelo m enos um a dúzia de versões, escrevi: Sinto muito pelo jogo e também pelas minhas perguntas ridículas.
Não esperei receber nenhum a resposta, m uito m enos im ediata, m as ele respondeu quase que instantaneam ente: Tudo bem. Desculpe pela grosseria com você.
Então, antes que eu pudesse responder, o telefone tocou. Era ele. Surpresa, vacilei e fiquei m eio sem saber o que fazer, tal com o Rhodes em cam po quando perdeu o passe de bola, m as tom ei coragem e atendi antes de a ligação cair na caixa postal.
— Ei! Com o você está? — disse o treinador.
— Provavelm ente com o você — respondi, em bora m inha decepção com o j ogo tenha sido de repente substituída pelo alívio em saber que ele não estava com raiva de mim.
— Aquilo foi o que eu cham o de vitória inútil.
— Mas foi um a vitória — eu disse.
O treinador em itiu um som de repulsa, depois declarou:
— Prefiro j ogar bem e perder.
Eu não estava m uito certa de que poderia acreditar no que ele disse, e sabia que eu aceitaria essa ideia, especialm ente durante um ano com o este, m as, ainda assim , concordei, m urm urando:
— Mas aquela m arcação do j uiz foi horrível.
— E ficou pior ainda no replay. Aquele árbitro é um a piada. E, sim , respondendo à sua pergunta, acho que isso m udou o ritm o do j ogo. Sem a m enor dúvida, m udou a postura dos nossos garotos. Ficou na cabeça deles. Se fizerm os isso contra um tim e m elhor, estarem os perdidos.
— Sim — falei, deixando-o desabafar.
— Além do fato óbvio e lam entável de não conseguirm os m anter a corrida, sim plesm ente perdem os várias oportunidades. E o que estávam os fazendo na red zone?
— Três a zero.
— Não dá para ganhar um j ogo de futebol am ericano quando se tem um placar de três a zero na red zone.
Concordei, m urm urando, surpresa com o fato de o treinador estar discutindo o j ogo com igo, j á que ele norm alm ente nem sequer conversava com a própria equipe logo depois de um desem penho tão ruim .
— E aí, o que você está fazendo? — ele perguntou do nada.
— Agora?
— Sim , agora.
— Nada. Por quê? O que você está fazendo? — rebati, sem entender m uito bem por que eu estava tão nervosa.
— De saída para fazer um a corrida — respondeu.
— Às oito e m eia da noite?
— Se são oito e m eia agora... Sim . Quer ir com igo?
Desconcertada pelo convite, aceitei, m as m eu coração com eçou a ficar acelerado.
— Ótim o. Te encontro na pista da faculdade em quinze m inutos?
— Certo — concordei m ais um a vez, espantada por m e sentir tão bem , tão feliz em tão pouco tem po depois de um a partida ruim .
Quinze m inutos depois, parei o carro no estacionam ento bem próxim o à pista de corrida, ao lado das quadras de tênis e da nossa casa de cam po original. Eu estava com um conj unto de m oletom cinza, um traj e típico da sala de uniform es e equipam entos, um boné de beisebol antigo do Walker e com o m eu cabelo preso num rabo de cavalo. Um a claridade fraca ilum inava a pista, um a m istura da luz da lua e do halogênio, m as havia certa névoa e, a princípio, não vi o vulto de um a pessoa se alongando perto de um a pilha enorm e de colchões próxim a aos equipam entos de salto com vara. Era o treinador, e eu senti m eu coração parar de bater por um segundo enquanto o observei. Quando por fim desci os degraus em direção à entrada, ele m e olhou e acenou discretam ente. Respirei fundo algum as vezes, tentando m e acalm ar ao digitar o código de segurança que destravava o portão estridente de m etal. Então, devagar, cruzei a pista verm elha áspera e cam inhei pelo gram ado. Parei a poucos m etros de distância do treinador, tom ada por um a onda de pura euforia. Estávam os os dois com pletam ente sozinhos, num a noite linda, e eu sim plesm ente não conseguiria im aginar nada m ais excitante.
— Oi, m enina — ele m e cum prim entou com um sorriso tím ido.
— Oi, treinador — respondi, desej ando poder ler a m ente dele. Eu não fazia a m enor ideia do que ele estava pensando; seu sem blante era inexpressivo.
— Está friozinho — com entou, puxando o cordão da blusa de m oletom cinza, igual à m inha, m as com capuz.
— Sim . Eu gosto assim — confessei, m e agachando com certo nervosism o para aj eitar o cadarço do tênis.
— Eu tam bém — ele declarou, se alongando e executando os passos de corrida, parado, para se aquecer.
— Você sem pre corre depois dos j ogos? — indaguei, pensando que era m ais fácil falar quando ele não estava olhando para m im .
— Quando j ogam os m uito m al, sim — ele respondeu, sentando-se para alongar um pouco m ais.
Assenti, observando-o.
— E então, j á escreveu a sua m atéria? — questionou, olhando para m im .
— Sim .
— E?
Sem saber ao certo o que ele queria com aquela pergunta, falei:
— E... está pronta.
— Está feliz com ela?
— Tanto quanto fico quando escrevo sobre um a partida com o aquela.
O treinador m eneou a cabeça, sorrindo para m im através do olhar.
— Você não precisa se alongar?
Dei de om bros e, com certa relutância, m e sentei próxim a a ele, esparram ando as m inhas pernas em form a de V, im itando-o. Flexionei o corpo, levando a m ão ao dedão do pé rapidam ente. Fiz isso algum as vezes, sem pausa — do j eito que sem pre nos aconselham a não fazer nos alongam entos —, depois m e levantei e m urm urei que estava pronta para com eçar.
— Ah, a j uventude — exclam ou ele. — Se eu m e alongasse desse j eito, j á teria rom pido algum a coisa aqui dentro.
— Nós só tem os uns... vinte anos de diferença — pontuei, m e sentindo tensa.
— Só vinte? Esse não é um bom núm ero para esta noite.
Olhei para ele, confusa, e então m e lem brei de quantos pontos a nossa defesa havia perdido.
— Ops — falei. Esperei que ele sorrisse, e, quando o fez, sorri tam bém , enquanto cam inham os um pouco pela pista e depois com eçam os um a corrida lenta, em sentido anti-horário. O treinador saiu na m inha frente, em vantagem , m as depois eu o ultrapassei e ele ficou duas posições atrás de m im , à m inha direita. O aj uste m e pareceu um gesto de cavalheirism o da parte dele, quase que rom ântico, m as exigi de m im m esm a que parasse com aqueles pensam entos m alucos, sem pé nem cabeça. Provavelm ente era apenas um a questão de preferência da parte dele pela pista exterior.
Depois de um a reta e duas curvas na pista de corrida, o que não chegou nem a quatrocentos m etros de aquecim ento, fiquei para trás de novo e senti as pernas queim arem . Era evidente que o treinador estava em m elhor form a do que eu, e j urei a m im m esm a que com eçaria a frequentar a academ ia com regularidade. Você pode achar que o fato de nam orar um j ogador do futebol m e m otivaria, m as a verdade é que havia algum a coisa ridícula no porte físico de Ry an que fazia com que eu m e esquivasse com pletam ente do assunto. Correr com o treinador era um a sensação m uito diferente.
Depois de m ais algum as voltas em silêncio, o treinador perguntou:
— Aqueceu? Pronta para correr?
— Sim , claro — respondi quando ele com eçou a cam inhar em passos m ais largos. Esforçando-m e para acom panhá-lo, retruquei: — Droga. Você é rápido. Em que velocidade cam inha?
— Quando estou cansado? Sim , porque a pergunta deve ser essa. Não qual é o seu m elhor desem penho, m as quão rápido consegue continuar quando está cansado. Exausto.
— Está cansado agora? — ofeguei.
O treinador balançou a cabeça.
— Não. Mas estou exausto — respondeu. Notei que ele estava sorrindo de novo, e m e dei conta de que eu o estava fazendo se sentir m elhor, pelo m enos um pouco. Perceber isso m e anim ou, o suficiente para aum entar a m inha velocidade e alcançá-lo.
Ficam os em silêncio depois disso, e eu perdi a conta de quantas voltas j á tínham os dado. Mas em algum m om ento, próxim o aos cinco quilôm etros, ele se virou para m im e, respirando com dificuldade, perguntou:
— E o Ry an?
Ry an era a últim a coisa na qual eu queria pensar agora, e, com o eu estava praticam ente sem fôlego para dar um a resposta m uito longa, apenas disse:
— Ele está bem . Joga contra o Ram s am anhã.
— Fiquei sabendo dos brincos — ele declarou, olhando para m inhas orelhas, em bora eu não estivesse usando os brincos agora.
— É... — soltei, esfregando o lado esquerdo do corpo, onde um a câim bra com eçava a se form ar. — Tentei devolvê-los, m as...
— Tenho certeza de que não adiantou — com entou o treinador, dim inuindo um pouco o passo.
— Não. Ele agiu com o se os brincos tivessem saído de um a m aquininha de chicletes daquelas em que a gente põe um a m oeda.
O treinador deu risada, depois parou de correr de um a vez, inclinando-se e apoiando as m ãos sobre o j oelho.
— É... Aquele m enino é tão rico que com pra um barco novo assim que o outro fica m olhado.
Dei risada, o que fez m inha câim bra ficar ainda pior. Eu m e senti um pouco culpada por falar de Ry an pelas costas, m as disse a m im m esm a que aquilo não era um a traição, j á que o treinador se preocupava com ele tanto quanto eu.
— Por favor, m e avise quando term inarm os — falei, com cara de dor.
— Ok. Term inam os.
Depois de darm os m ais m eia volta em silêncio, fom os para o portão e subim os a escada em direção ao estacionam ento.
Só quando chegam os nos carros ele finalm ente disse algum a coisa.
— Bem , obrigado, Shea. Me sinto m elhor agora.
— Eu que agradeço, treinador — afirm ei, zonza, antes m esm o de cruzar m eu olhar com o dele. — Foi m uito... legal.
— Sim . Foi — ele concordou, ainda m e olhando nos olhos. Ele sorriu devagar, e posso dizer que se referiu tanto à m inha com panhia quanto à corrida em si.
Hesitei, vencendo outra pequena onda de culpa por Ry an, dizendo a m im m esm a que m inha atração pelo treinador j am ais seria recíproca. Era m elhor m e sentir assim em relação a algo que j am ais aconteceria. Frustrada e um pouco triste, m as tam bém segura. Olhei para a pista atrás de nós:
— Espero que possam os vir de novo.
— Não te falei que só venho aqui correr quando j ogam os m uito m al?
— Ah, é verdade. Bem , então espero que nunca m ais voltem os.
— Eu tam bém . E você vai gostar de saber que...
— O quê?
— Que eu com o bolo de chocolate depois de um a partida em que j ogam os bem . — Ele m e deu um a piscadinha.
— Que ótim o. Porque eu não sou m uito boa de corrida, m as sou excelente em se tratando de com er bolo.