Primeiro e Único

Emily Giffin · Capítulo 11 de 46

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Primeiro e Único

Onze

 

No prim eiro fim de sem ana de agosto, logo depois que com eçaram os treinos para a tem porada, Lucy convidou m inha m ãe e eu para acom panhá-la até o lago LBJ, com Neil, Caroline, Lawton e o treinador. Os Carr tinham um a bela m ansão lá, no alto de um a falésia arborizada, com um a vista m aravilhosa para um lago azul-esverdeado. Durante a nossa infância e adolescência, Lucy e eu estivem os ali m uitas vezes, e passam os os dias de verão tom ando banho de sol no píer privativo ou passeando de lancha pela região, ou ainda lendo na rede pendurada na varanda nos fundos da casa. Mas, desde que a Sra. Carr ficou doente, eu não tinha ido m ais lá, e fiquei um pouco surpresa ao ser convidada este ano, pois im aginei que a fam ília gostaria de ficar sozinha naquele m om ento.

Lucy insistiu, dizendo que nós éram os da fam ília, depois m encionou o futebol am ericano e desabafou que sim plesm ente não conseguia falar a m esm a língua que o pai. Desde o seu aniversário, Lucy havia m e pedido a lista com os nom es dos j ogadores do nosso tim e, especialm ente dos novatos, os quais, aparentem ente, ela não conseguia diferenciar. Eu m e ofereci para fazer uns cartões com a foto de cada um deles, e ela disse que não seria m á ideia, surpresa pelo fato de com o a m ãe conseguia decorar o nom e de cada j ogador. Eu queria dizer a ela que o futebol am ericano não era um a obrigação e que realm ente não era tão difícil assim , m as era provável que ela sentisse o m esm o em relação à m inha dificuldade de seguir o seu m odo de se vestir ou seu linguaj ar gastronôm ico.

De qualquer form a, m inha m ãe e eu fom os para lá, de carro, no sábado de m anhã, deixando os Carr sozinhos por um a noite. Quando chegam os, o treinador e Lawton estavam saindo do píer com suas varas de pescar. Vestindo short cáqui, cam iseta do Walker e usando chinelo, os dois pareciam m ais pai e filho do que de costum e. Lawton se parecia m ais com Connie; encorpado, rosto fino e cabelo loiro.

— Ei, m enina! Oi, Marie! — O treinador nos cum prim entou. — Que bom que vocês vieram para ficar com a gente. — Ele parecia relaxado e feliz, com o sem pre ficava quando estava ali. Com frequência o treinador dizia que aquele era o seu lugar preferido, até m esm o em com paração com o nosso estádio, e lem bro que certa vez Connie com entou que ali era o único lugar do m undo onde ele conseguia passar algum as horas sem pensar em futebol, até onde ela sabia. Eu tinha as m inhas dúvidas em relação a isso, em bora estivesse claro, pelo m enos ao que parecia pela voz anim ada e suave, que ele não estava preocupado com a investigação da NCAA.

Minha m ãe e eu cum prim entam os os dois e dem os um abraço apertado em Lawton, que não víam os desde os j ogos de prim avera. Depois, todos nós entram os. Neil estava nos toques finais da preparação do alm oço — sua tradicional torta de tom ate, com salada de alface e rabanete; de sobrem esa, torta de m orango.

Quando nos sentam os para com er, o treinador fez um a oração breve, e Lucy m e contaria em outro m om ento que aquela era a prim eira vez, depois de m uito tem po, que ele fazia oração antes da refeição.

— Senhor Deus — com eçou ele. — Nós o agradecem os por tantas bênçãos e por este lugar, que Connie tanto am ava. Sentim os a presença dela aqui conosco hoj e e som os extrem am ente gratos por todas as lem branças m aravilhosas dela que partilham os. Senhor, pedim os que estej a conosco e que nos guarde sob a sua proteção. Am ém . Vai, Broncos!

Quando abri os olhos, o treinador parecia calm o e vigoroso. Ele olhou ao redor da m esa e falou:

— É verdade. Sei que ela está sorrindo lá de cim a e que está m uito feliz por estarm os aqui j untos. E ainda m ais feliz porque... — Segurei a m inha respiração, sentindo-m e reverente. — Porque ela sabe que vou ganhar de todos vocês no Trivial Pursuit hoj e à noite. Quem vem pro m eu tim e?

— Eu! — Deixei escapar. Nós sem pre j ogávam os à beira do lago: gam ão, xadrez, euchre, Uno, Pictionary. Mas o Trivial Pursuit era o nosso favorito há duas décadas, e o treinador Carr estava certo; quase sem pre ele ganhava, independentem ente de quem j ogasse com ele. Mas eu era a segunda m elhor j ogadora, e quase nunca perdia quando o assunto era literatura e esporte.

— Sem chance. Vocês dois não podem j ogar j untos. Não é j usto. Os dois são m uito bons — reclam ou Lucy.

— Bay lor deve estar dizendo exatam ente isso agora sobre o Everclear e o Rhodes — com entei, olhando para o treinador.

— Acertou em cheio! Bate aqui! — exclam ou ele, erguendo a m ão espalm ada para m im .

Mais tarde, naquela m esm a noite, depois que Lucy colocou Caroline para dorm ir, e o vinho, a cervej a e o Trivial Pursuit com eçaram , escrevem os os núm eros em papeizinhos e os colocam os dentro do boné de beisebol do treinador para sortear as equipes. Cruzei os dedos m entalm ente, enquanto Lucy e m inha m ãe tiraram o núm ero 3, Neil e Lawton, o 2 e o treinador e eu ficam os com o núm ero 1.

— Com o não podia deixar de ser — anunciou o treinador, piscando e depois sussurrando alto o suficiente para que todos ouvissem : — Núm ero um.

Lucy revirou os olhos enquanto o treinador e eu, em uníssono, entoam os o grito de guerra do Walker.

— Meu pai do céu, vocês dois são a m esm a pessoa! Minha m elhor am iga e o m eu pai são a mesma pessoa — retrucou Lucy, balançando a cabeça.

O treinador tom ou um gole de sua cervej a:

— A Shea é m ais bonita que eu. Só um pouquinho.

Eu sabia que ele estava brincando, m esm o assim senti as m inhas bochechas enrubescerem , e fiquei ainda m ais perturbada quando ele trocou de lugar com Lawton para se sentar perto de m im . Olhei para baixo, m e ocupando com as fichas do j ogo, dividindo-as em três pilhas e colocando-as sobre a caixa. Dei um a para Lawton, outra para Lucy e fiquei com a terceira. Depois, entreguei o dado para Lucy e disse:

— Você com eça. Vai precisar de todas as vantagens.

— Hã! — exclam ou ela ao j ogar o dado. Depois de um a rodada de perguntas ridiculam ente fáceis sobre entretenim ento, m inha m ãe e Lucy hesitaram diante da pergunta: “Quantas cores tem o arco-íris?” (Resposta: m ais do que os olhos podem ver).

Em seguida, Neil e Lawton em pacaram em um a pergunta da Segunda Guerra Mundial sobre a Áustria.

Então, chegou a nossa vez e, logo de cara, com eçam os a ganhar deles, acertando as respostas e avançando três casas. Mas não houve a m enor dem onstração de arrogância, e perm anecem os extrem am ente concentrados, do j eito com o o treinador fazia durante os j ogos, sem ao m enos abrir um sorriso quando organizava um a Hail Mary e conseguia dar um a resposta ao líder m undial de exportação de bananas (Equador).

— Vocês são m uito convencidos — lançou Lawton, nosso silêncio quase os deixando ainda m ais irritados.

— Não odeie o j ogador — retruquei, brincando. — Nem o técnico.

O treinador Carr ergueu o punho e o bateu contra o m eu.

— Mas que irritante — retrucou Lucy, balançando a cabeça. — E boa sorte para vocês se pegarem um a casa rosa. Os dois são m uito ruins com entretenim ento.

— É o que vam os ver — rebateu o treinador, j ogando o dado e pegando j ustam ente a casa rosa. — Se estiver em dúvida, vá de Cindy Lauper — aconselhou-m e.

Sorri enquanto Lawton lia a pergunta:

— De quem é a frase: “Nunca com a m ais do que possa levantar”?

Eu sabia a resposta, só porque eu j á tinha tirado essa pergunta alguns anos atrás, e, na ocasião, ergui a sobrancelha ligeiram ente para o treinador Carr e o encarei de um j eito que dizia: Bingo, baby.

— Vocês nunca vão acertar essa! — lançou Lawton, passando a ficha para Lucy, depois para Neil e m inha m ãe. Todos eles se em polgaram diante da resposta, nos provocando enquanto eu e o treinador fingíam os que estávam os em dúvida.

— Deve ter sido um a daquelas estrelas do cinem a — falei em voz alta. — Talvez a Audrey Hepburn... Ou a princesa Diana... Farrah Fawcett?

O treinador entrou na brincadeira e com eçou a m urm urar:

— Por outro lado, talvez tenha sido um a celebridade m ais gordinha... Com o a Nell Carter ou a Roseane Barr?

— Ou talvez... talvez tenha sido um a... personagem fofinha. Ou até m esm o um Muppet! Com o a Miss Piggy... — Pisquei para ele.

— Miss Piggy ? — brincou o treinador enquanto eu assenti. — Sim . Nossa resposta é Miss Piggy.

— Vocês dois... Seus pilantras! — retrucou Lawton, j ogando a ficha.

O treinador e eu tilintam os as nossas garrafas de Shiner Bock, depois erguem os o braço e batem os as m ãos de novo. Depois, j ogam os o dado m ais um a vez m ais e pegam os o assunto Ciência. A pergunta seguinte foi: “O porco-espinho se m asturba?”.

O treinador e eu trocam os um olhar.

— Bom vej am os... Aposto que o m acho sim — opinou o treinador.

Dei risada.

— Bom , eu aposto que as fêm eas tam bém .

— Acho que você está certa — concordou o treinador, virando-se para a m inha m ãe. — Ok. A nossa resposta é sim .

— Essa é a sua resposta final? — questionou ela, um a tática de principiante que não consideram os um a resposta.

Minha m ãe balançou a cabeça e nos entregou a ficha verde.

— Ridículo.

— Ridículo o quê? Os porcos-espinhos se m asturbarem ? Ou o fato de que estam os prestes a ganhar esta coisa aqui? — provocou ele, olhando para o seu relógio de pulso e concluindo: — Em um a hora?

Joguei o dado de novo, e dessa vez tiram os História.

— “O que foi que o prim eiro cachorro a usar lentes de contato não enxergou no dia seguinte àquele em que com eçou a usar as lentes?”

— O carro que o atropelou — respondeu o treinador. — Bam!

— Ah, que pena — lam entei.

— Pena por quê, m enina? — perguntou o treinador.

— Porque ainda precisam os tirar a casa laranj a para ganhar — expliquei, referindo-m e à categoria de esportes.

— Ah, é — concordou o treinador, balançando a cabeça. — Essa vai ser m uito, m uito, m uito difícil mesmo para a gente.

Sorri e j oguei o dado, j á que ainda faltavam duas respostas para com pletarm os o suporte com seis fichas e pegarm os a casa laranj a. O treinador olhou para Lawton:

— Manda!

Lawton leu a pergunta para si m esm o, depois balançou a cabeça e desabafou:

— Inacreditável.

— Leia. E depois você chora — provocou o treinador.

— “Quem ganhou o troféu Heism an em 1964?”

O treinador lançou para m im aquele olhar fam iliar que m e fazia derreter, e disse para Lawton:

— Espere. A pergunta é: “Quem ganhou o troféu” ou “Quem deveria ter ganhado”?

Ele cutucou a m inha perna debaixo da m esa, e eu tive a sensação de um arrepio interior.

— Quem ganhou o troféu — esclareceu Lawton, obviam ente sem entender a nossa piada.

O treinador pegou a peça laranj a.

— Shea? Me deu um branco aqui. Você sabe responder essa?

— Hum ... Foi o Butkus? Ou talvez Rhom e? Ou Brian Piccolo? Ele se form ou em 1964, não foi? — perguntei, com o se estivesse pensando alto.

O treinador deu de om bros e j urou pela própria vida que não conseguia se lem brar do que tinha acontecido naquele ano.

Lawton pareceu esperançoso, até que deixei escapar:

— Na verdade... Acho que vam os de John Huarte.

— Tem certeza? — questionou Lawton, com a expressão j á desanim ada.

Assenti.

— Sim . Huarte.

— Essa é a sua resposta final? — interveio m inha m ãe.

— Sim , Marie. Você ouviu a m inha m enina aqui. Huarte. Nossa resposta é Huarte — disse o treinador.

— Droga! Está certo — lam entou Neil, pegando a ficha da m ão de Lawton e j ogando-a.

— Claro que está — afirm ou Lucy, levantando para repor sua taça de vinho.

— Nada com o um a bela goleada para encerrar a tem porada — declarou o treinador, com um a piscadela.

— E m uitas com o essa estão por vir — afirm ei, piscando para ele.

Na m anhã em que íam os em bora, acordei cedo, logo depois do nascer do sol, e desci. Encontrei o treinador sozinho na varanda da frente, bebendo café e olhando para o lago. Ele parecia tão calm o e concentrado em seus próprios pensam entos que eu recuei, sorrateiram ente. Mas, antes m esm o de se virar em direção às escadas, ele se levantou de repente, olhou para m im através da porta aberta e disse:

— Bom dia, m enina.

— Bom dia, treinador.

— Acordou cedo hoj e.

— Você tam bém — com entei, arrastando os pés em direção a ele.

— Para m im , este horário j á é tarde — disse. — Tem café fresco na cozinha.

— Estou bem por enquanto.

Ele assentiu e gesticulou para que eu m e j untasse a ele, então saí para a varanda e m e sentei no velho balanço de m adeira onde Lucy e eu j á tínham os passado horas conversando quando éram os m eninas, enquanto a Sra. Carr incessantem ente nos reprim ia, pedindo que não balançássem os tão alto e rápido. Com ecei a balançar para a frente e para trás, devagar, observando o lago, que ainda parecia um pedaço enorm e de vidro, um espelho que refletia o céu e as árvores. O treinador e eu ficam os conversando por alguns m inutos sobre com o aquele lugar era bom , especialm ente àquela hora do dia, antes de voltarm os ao único assunto que perm eava tanto o pensam ento dele quanto o m eu. Eu sabia que ele estava m uito cansado das m esm as perguntas de sem pre; o treinador não conseguia ir a um único lugar sem ser bom bardeado por elas. Mesm o assim , lancei um a pergunta, na esperança de que ela soasse um pouco diferente, j á que partiria de m im .

— Está preparado para os treinos? — indaguei, observando o perfil dele.

— Sim — inform ou, esticando um dos braços para se alongar. — É hora de com eçar o show, sabe?

Balancei a cabeça, concordando, e em seguida fiz a próxim a pergunta cuj a resposta era previsível.

— E com o acha que vai ser? Tão bom quanto andam dizendo por aí?

— Nem tão bom assim — respondeu.

Sorri, pensando que ele sem pre m inim izava o quanto éram os bons e “enaltecia” o oponente. Todos os treinadores faziam isso, e preferiam se colocar em posição inferior. Desse m odo, a pressão fica m enor.

— Tem os talento, m as nunca se sabe qual será a quím ica — ponderou. — O lado bom é que os outros caras m ais velhos gostam de Reggie pra valer. Para um m enino tão talentoso, ele é m uito discreto. Nem um pouco exibido.

— Isso é bom — opinei.

— Vam os ver. Nunca se sabe. Pode ser que encontrem os algum as pedras à frente, no cam inho.

— Com o assim ? — questionei, esperando que ele estivesse se referindo às disputas m ais difíceis da nossa escala: Florida State, Stanford e Texas. Mas tive a sensação de que tinha m ais a ver com a m ulher do penteado com laquê que eu vira passeando pelos corredores.

Parecendo agitado, o treinador se rem exeu na cadeira, com o se tivesse levado um a descarga de adrenalina.

— Odeio a NCAA. São uns sem -vergonha, hipócritas que só pensam no próprio um bigo... São uns demônios.

— Demônios? — questionei, erguendo as sobrancelhas. — Isso não é um pouco forte dem ais? Digo, as organizações da Ku Klux Klan são dem ônios... O Taliban é um dem ônio...

— Pelo m enos a KKK e o Taliban não se fingem de bonzinhos — desabafou o treinador. Ele term inou o seu café e colocou a caneca no chão, perto do seu pé.

Olhei para ele e fiz a pergunta:

— Treinador? Estam os m esm o sendo investigados?

Ele hesitou, depois respondeu:

— Sim . É o que parece m esm o.

— Mas por quê?

— Por ganhar. Pura e sim plesm ente. Todo program a vitorioso está sendo investigado, de um a form a ou de outra. Era só questão de tem po para que chegasse a nossa vez.

— Então você acredita que não vão encontrar nada?

— Ah, tenho certeza de que vão sim ; se cutucarem o bastante, vão encontrar.

— E estão dizendo algum a coisa sobre você ? — arrisquei, m e preparando.

O treinador balançou a cabeça.

— Não. Pelo m enos ainda não. Por enquanto, só estão analisando um punhado de coisinhas que não se pode controlar. Tutores que escrevem artigos. Investidores e em presários que levam os novatos para j antares sofisticados e noites de bebedeiras. Professores que dão notas m elhores para certo aluno do que ele m erece.... A NCAA cria todo esse estardalhaço para coisas pequenas e insignificantes a fim de ridicularizar o estatuto, e usa isso para j ustificar o que eles estão fazendo.

— E o que estão fazendo exatam ente? —questionei.

— Viaj ando em aviões particulares. Levando proj etos inúteis para tudo o que é lugar. De m aneira geral, usando esses garotos para encher o bolso deles. Lucrando com a glória do esporte am ador. — O treinador com eçou a falar m ais rápido, e sua voz, aos poucos, foi ficando m ais ríspida. — Toda essa ideia de am adorism o é um a piada. Um a cortina de fum aça. Um a farsa inventada pela NCAA com a assinatura das universidades para que possam explorar os j ovens visando o seu próprio lucro. O garoto não pode escrever um a passagem da Bíblia, nem o nom e da nam orada dele, nem qualquer outra m ensagem pessoal naquela tinta preta que eles usam no rosto... m as eles o fazem vestir cam iseta, capacete, m unhequeira, calça e sapato com o logotipo de em presas... Todo m undo fica rico aqui. Você sabia que a SEC (Southeastern Conference) faturou m ais de um bilhão de dólares com esportes no ano passado? Um bilhão de dólares! E os Big Ten estão logo atrás deles. É brincadeira?

Olhei fixam ente para o treinador. Claro que eu j á tinha ouvido esses argum entos antes, m as não de m aneira tão eloquente. E nunca saindo da boca dele. Ele continuou:

— Você sabe quanto a CBS Sports e a Turner Broadcasting pagaram à NCAA pelos direitos de transm issão do March Madness este ano? Mais ou m enos 800 m ilhões. Três quartos de bilhão pelo trabalho não rem unerado dos atletas universitários. Esses garotos geram bilhões para a NCAA e para as universidades e em presas e até para nós, treinadores... m as não ficam com um centavo disso tudo. E não m e venha com esse papo de bolsa de estudos...

— Era o que eu ia dizer — m urm urei em m eio a um sorriso, m as não acho que ele tenha m e ouvido.

— Noventa bolsas de estudo é um a ninharia com parada à receita gerada. Isso é j usto? É certo? É um a exploração... É... É com o um sistem a de colonialism o... todas essas coisas são feitas “para o bem do atleta universitário!” — Balancei a cabeça, concordando, m uito entusiasm ada com a paixão dele pelo assunto. — E que tal isso? A NCAA vende DVDs de j ogos e os direitos dos j ogos que revivem m om entos clássicos do esporte universitário, m as os caras que aparecem j ogando não lucram com isso, m esm o depois de terem se form ado e de não serem m ais am adores. Você não acha que a im agem de um j ogador deveria pertencer a ele? E que, se um video game está usando a im agem desse j ogador, ele deveria receber parte do lucro?

— Bem , sim . Claro — concordei.

O treinador balançou a cabeça.

— Mas não. Nem um centavo. Você se lem bra do A.J. Green, aquele garoto da Geórgia que vendeu sua cam iseta da Independence Bowl para poder fazer um a viagem com os am igos durante as férias de prim avera?

Confirm ei com a cabeça.

— Ele ficou suspenso por quatro j ogos enquanto a Universidade de Geórgia continuou vendendo réplicas da cam iseta dele por quarenta dólares cada... E vej a o caso da Ohio State. Com o é que m andam em bora um treinador e penalizam um program a inteiro por causa de alguns garotos que trocaram as peças do uniform e por tatuagens e porque um hom em decente tentou defendê-los? São só garotos! É natural que com entam erros.

— Sim . Aquela penalidade foi um pouco rigorosa dem ais.

O treinador zom bou.

— Eles desm ascaram os verdadeiros traidores e pegam alguns bandidos, m as, na m aior parte do tem po, estão num a m aldita perseguição política. — Ele inclinou o corpo para a frente, ainda sentado na cadeira, m e fitando, agora bem nos olhos. — A fiscalização é aleatória e ao m esm o tem po seletiva, e eles violam qualquer noção de devido processo legal. Todos são culpados até prova em contrário, e há poucos ou nenhum recurso de apelação. São déspotas com poder absoluto, e todos nós sabem os o que acontece com o poder absoluto.

Olhei para o treinador, pensando que ele tinha poder absoluto no Walker e que nunca tinha abusado disso. Ele nunca tinha usado esse poder para benefício próprio ou para qualquer outra coisa que não fosse o bem dos j ogadores do program a. Mesm o assim , enquanto ele se levantou para encher sua caneca de café, tive um ligeiro sentim ento de dúvida que m e dizia que as coisas não eram tão sim ples com o eu desej ava que fossem .