Primeiro e Único

Emily Giffin · Capítulo 4 de 46

Páginas do PDF

Primeiro e Único

Quatro

 

Durante a sem ana seguinte ou m ais ou m enos isso, pude sentir que a insatisfação com a m inha vida só aum entava, e então tive ainda m ais certeza das m udanças que eu precisava fazer. No entanto, eu continuava estagnada, sentindo-m e travada. Não liguei para obter m ais inform ações sobre o trabalho no Post e continuei com Miller. O tem po todo, eu fazia de tudo para evitar o treinador e ter de confrontar-m e com a m inha falta de progresso.

Não sei exatam ente do que eu sentia m edo — fracasso, rej eição ou solidão —, m as algum a coisa estava m e segurando. Mantendo-m e no lim bo.

Então, na sexta-feira seguinte, Miller e eu fom os assistir a um film e de ação e dividim os pipoca, Twizzlers e um copo de Coca-Cola grande, que seria o nosso j antar, o típico program a que fazíam os quando saíam os à noite. Depois ele m e levou de volta para casa, com o assento do carro reclinado, um a m ão no volante e o rádio tocando m úsica de algum a banda de m aconheiros. Eu odiava as m úsicas de Miller e, em silêncio, com igo m esm a, eu as colocava na lista “Motivos pelos quais nós dois não com binam os” que não saía da m inha cabeça desde a conversa no escritório do treinador. Quando abaixei o volum e do rádio, perguntei a Miller, despretensiosam ente, se ele estava feliz por entrar na Walker. Não sei ao certo o que m e m otivou a fazer aquela pergunta, a não ser o desej o de levá-lo à resposta errada. Se ele dissesse algum a coisa desleal sobre a nossa faculdade, eu teria algo a m ais para colocar na lista. Se m e desse um a resposta curta dem ais ou desinteressante, eu tam bém poderia colocá-la na lista, na categoria sem conteúdo.

— Claro. Por que não estaria? — disse ele, balançando a cabeça para cim a e para baixo em sintonia com a m úsica.

— Ah, não sei. Às vezes acho a faculdade um pouco pequena — respondi, induzindo a resposta dele.

— Talvez — disse ele, evasivo.

— Teve algum a coisa de que você não gostou?

— A exigência de um a língua estrangeira. Aquilo foi um a verdadeira mierda — confessou.

— Mierda? Eu escolhi o alem ão.

— Merda. — Ele traduziu, arregaçando a m anga de sua cam isa flanelada xadrez, peça bem típica do seu guarda-roupa, além de cam iseta e calça j eans. Ao olhar para Miller, você j am ais im aginaria que ele j á havia j ogado num tim e de futebol am ericano universitário ou que atualm ente era treinador. Com seu cabelo desgrenhado e suas roupas estilo grunge, ele se parecia m ais com um m úsico do que com um atleta.

— Bem ... Com o você se sentiu j ogando no tim e do treinador Carr? — questionei.

— Espere. Você está escrevendo algum artigo sobre ex-j ogadores do tim e?

[2]

Delusions of grandeur , pensei, enquanto balancei a cabeça e dizia:

— Não, Miller. Era só... curiosidade.

— Ah. Bem , eu não gostei de perder o lugar para o Ry an Jam es... Mas, prefiro

[3]

ser o reserva do QB para o treinador a com eçar a j ogar para algum im becil.

Dei risada, percebendo que m inha estratégia havia falhado. Miller realm ente conseguia m e fazer m orrer de rir, m esm o quando não tentava. Ele era um a com panhia m uito agradável. Ao longo desses três anos, não tivem os um a briga sequer, em bora eu soubesse que isso se devia m uito m ais à m inha personalidade do que à dele. Eu fazia tudo o que fosse preciso para evitar qualquer tipo de briga.

— E ganhei isto — disse ele, apontando para o anel gigantesco que ele recebera com o troféu no cam peonato de Cotton Bowl. Com um a piscadela, acrescentou: — Ele faz m aravilhas com as m ulheres.

Revirei os olhos, e, em bora eu nunca tenha ligado m uito para as j oias de nenhum tipo de hom em , eu am ava as m ãos grandes de Miller e a m aneira com o ele conseguia arrem essar um a bola fazendo-a alcançar a distância de cinquenta j ardas.

— E você? Está feliz por ter entrado na Walker? — indagou ele.

— Sim . Foi a m elhor decisão que j á tom ei — respondi, pensando que essa deve ter sido a única grande decisão que j á tom ei. Todas as outras coisas da m inha vida sim plesm ente aconteceram para m im .

— Melhor do que ter saído com igo? — perguntou, sorrindo.

Retribuí o sorriso, m as, por dentro, eu sentia com o se houvesse um nó em m im enquanto entrávam os no estacionam ento do m eu condom ínio, estacionando ao lado do m eu antigo Honda Accord (que estava com a lateral do lado do m otorista bastante am assada de quando, alguns m eses antes, esbarrei num pilar de concreto num estacionam ento). Miller com eçou a abrir a porta do lado dele, m as, com o eu não m e m exi, ele olhou para m im e disse:

— Espere aí. Você quer sair para com er algum a coisa?

Girei o corpo em direção a ele:

— Miller. Precisam os conversar.

— O que foi?

Respirei fundo, buscando coragem — ou pelo m enos um pouco de iniciativa.

— Acho que a gente deve term inar.

A expressão dele m urchou.

— Está falando sério?

Balancei a cabeça, fazendo que sim . Senti um a dor no peito, m as ainda assim as palavras pareciam certas, e, de repente, não restou a m enor dúvida na m inha cabeça de que eu estava fazendo a coisa certa.

— Por quê? — perguntou ele, o tipo de pergunta que nunca é m uito produtiva quando alguém está tentando term inar um relacionam ento com você.

— Eu só acho que... não está certo.

— É por causa da Lucy ?

— Não. Juro — respondi, sabendo que Miller se sentiria péssim o se soubesse de quem realm ente aquilo havia partido. — É que... acho que não está certo continuarm os j untos. Acho que tanto eu quanto você só estam os enrolando... passando o tem po porque não há nada m elhor para a gente fazer.

— Mas você é a m elhor de todas — afirm ou Miller, com doçura. Posso dizer que ele estava sendo sincero, e eu m e questionei se o fato de um de nós sentir que a relação fazia sentido não fosse, talvez, o suficiente. Mas eu sabia a resposta, então continuei.

— Que bom saber disso, Miller.

— Você está saindo com outra pessoa? — perguntou ele.

Respondi que não da m aneira m ais veem ente que pude, esperando que isso tornasse as coisas m ais fáceis. Por outro lado, o que eu realm ente estava dizendo era que ficar sozinha era m elhor do que ficar com ele.

— Tudo bem . Podem os term inar... se é isso m esm o que você quer... Mas podem os continuar fazendo aquilo? Você sabe... um a am izade com alguns benefícios?

— Não, não podem os continuar fazendo aquilo — respondi, pensando que aquela pergunta, aliada à sinceridade dele, confirm ou a m inha decisão.

— Ah, fala sério. Só m ais um a vez — insistiu ele, colocando a m ão sobre a m inha coxa.

Senti o corpo enfraquecer, da m aneira com o acontecia quando um garçom m e perguntava se eu tinha guardado espaço para a sobrem esa. Mas não, eu tinha de acabar logo com aquilo. Vá lá e faça, com o dizem na linguagem esportiva.

— Eu quero — falei.

— Então vem , vam os — disse ele, j á com a expressão m ais alegre, feito um a criança que acaba de convencer a m ãe a deixá-la assistir TV por m ais m eia hora.

— Não posso... Miller. Desculpe — lam entei, tirando a m ão dele de cim a do m eu j oelho. Então m e aproxim ei dele, deixei-lhe um beij inho sim ples, m as decisivo, no rosto com a barba por fazer e falei: — Vej o você por aí?

— Sim . A gente se vê — retrucou ele, enquanto eu o im aginava nos bares, cercado de m ulheres loiras com seus vinte e poucos anos e com os peitos cheios de silicone. Senti um a pontada de ciúm es, m as não o suficiente para voltar atrás na m inha decisão. Saí do carro e fechei a porta, sem saber ao certo se m e sentia m ais aliviada agora por ter sido tão fácil ou se m e sentia m agoada ao ver que ele desistiu, tão rápido. Conversei com igo m esm a para não levar aquilo para o lado pessoal. Esse era sim plesm ente o j eito dele. Despreocupado, tranquilo, levando tudo num a boa. Fiquei observando-o enquanto ele fez um sinal de paz e am or com a m ão pela j anela do carro, depois saiu do condom ínio, com o volum e do rádio m ais alto agora, sem dúvida j á tram ando quem seria sua próxim a peguete.

Alguns m inutos depois, entrei no m eu apartam ento, em purrando a trouxa de roupa lim pa que estava em cim a do sofá e que eu ainda precisava dobrar, arranj ando um lugar para m e sentar. Peguei o controle rem oto e liguei a TV nova de tela plana, que foi a m inha prioridade em vez de consertar o carro. O Friday Night Fight da ESPN estava acabando. Ty son Fury estava chutando o traseiro de alguém , algum lutador não m uito fam oso do Brasil. Fiquei assistindo por alguns segundos, depois com ecei a vasculhar os canais. Tudo o que eu queria fazer era ligar para o treinador Carr para contar que eu tinha seguido o seu conselho. Mas é claro que não havia a m enor chance de eu fazer um a coisa dessas. Eu tinha o núm ero do seu celular, m as nunca liguei, sem pre deixei recado com a Sra. Heflin. Não havia nada de tão urgente que j ustificasse incom odá-lo, e term inar o relacionam ento com Miller dificilm ente seria considerado algo “urgente” para ninguém m ais além de m im . E, aparentem ente, para Miller.

Em vez de ligar para o treinador, liguei para Lucy, m esm o sabendo que o sentim ento “antiMiller” seria inevitável e que eu realm ente não estava com vontade de ouvi-lo sendo escrachado. Eu precisava falar com a m inha m elhor am iga — m inha “am iga do peito”, com o ela nos cham ava desde quando lem os Anne de Green Gables no ensino fundam ental; certa vez ela até chegou a escrever à m ão um trecho do livro e m e deu de presente de Natal: “Um a verdadeira alm a gêm ea a quem posso confiar a m inha alm a m ais profunda”.

Em bora não houvesse absolutam ente nada que eu pudesse contar a ela, a citação era verdadeira, sem pre foi. Não im portava que, teoricam ente, não fôssem os m uito parecidas. Que eu pensasse o m elhor sobre as pessoas, e ela, m uitas vezes, supusesse o pior. Que eu fosse introvertida e ela tivesse um a habilidade de com unicação que eu nunca, j am ais vira em outra pessoa, a não ser a Sra. Carr. Que eu fosse um a pessoa bem -hum orada, e ela, tem peram ental e dram ática. Que eu não tivesse a m enor frescura, e ela, todas. Que eu am asse futebol am ericano, e ela sim plesm ente o tolerasse. A lista de diferenças era interm inável, m as, no final, nenhum a delas tinha im portância. O que realm ente im portava era que nós duas aceitávam os com pletam ente um a à outra. Que eu poderia contar com ela, e ela com igo. Que tínham os um a história em com um , desde a época em que nossas m ães se tornaram am igas na faculdade. Lucy sem pre foi para m im um a irm ã, m ais do que um a am iga, principalm ente nos m om entos difíceis, e eu precisava dela agora.

— Acabo de term inar com o Miller — falei assim que ela atendeu.

— Que bom para você — ela respondeu sim plesm ente, com o se eu tivesse acabado de inform ar a previsão do tem po. — Dem orou dem ais.

— Ah, fala sério, Lucy. Estou triste. Vou sentir saudades dele... Não há m uitas outras opções por aqui...

— Você está certa. Me desculpe. Mas, Shea, sem a m enor dúvida, você fez a coisa certa.

— Ainda está doendo — acrescentei, pensando que, de certo m odo, aquilo doía m ais do que sim plesm ente levar um pé na bunda, porque nem haveria a raiva para m e distrair.

— Eu sei. Desculpe — disse ela enquanto eu pensei nas inúm eras vezes em que Lucy m e consolou depois do térm ino de um relacionam ento ao longo desses anos.

— Quer vir aqui? Vam os abrir um a garrafa de vinho?

Cheguei a considerar a ideia, m as decidi que dorm ir era o que eu m ais precisava naquele m om ento.

— Obrigada, acho que vou descansar um pouco.

— Tudo bem . Estou indo para casa. Pode m e ligar se precisar.

— Onde você está?

— Na casa do m eu pai. Nossa. Isso soa tão estranho.

— Talvez a gente deva continuar cham ando de casa dos seus pais. Digo, a sua m ãe fez dessa casa um lar. E... — Eu m e esforcei para encontrar as palavras certas para confortar a m inha m elhor am iga. — A casa tam bém sem pre será dela.

— Obrigada, Shea. Espero que você estej a certa — disse Lucy.

— Estou certa sim . Todo m undo sabe que a sua m ãe é insubstituível — afirm ei.