Programa de Aceleração do Crescimento (PAC): Neodesenvolvimentismo?

1.7 Grupo dirigente nos governos entre 2003 e 2012: capitais dos agentes relevantes

 

Para diversos autores – Dimaggio (1994) e Douglas (1998), por exemplo –, a cultura provê as categorias e entendimentos que nos habilitam a engajar numa ação econômica. É nessa perspectiva que este estudo se enquadra, assim como nas ideias de Bourdieu sobre as limitações da teoria racional (o homem constantemente maximiza seus interesses), considerando o pressuposto:

 

Para romper com o paradigma dominante, impõe-se, partindo de uma perspectiva racionalista alargada da historicidade constitutiva dos agentes e do seu âmbito de ação, tentar construir uma definição realista da razão econômica como ponto de encontro entre as disposições socialmente constituídas (em relação a um determinado domínio) e as estruturas, elas próprias socialmente constituídas, desse domínio. (Bourdieu, 2001)

 

Para Bourdieu (1997b), só se pode construir uma verdadeira teoria econômica submetendo-se à crítica histórica de suas categorias e seus conceitos, os quais são protegidos sob o amparo da formalização. As decisões econômicas tomadas pelos agentes não são puramente racionais. A história de vida de cada agente ajuda a identificar sua visão de mundo, inclusive suas decisões aparentemente racionais.

 

O estudo da trajetória nos ajuda a entender a concepção de controle dos grupos dirigentes, assim como sua nova estratégia, isto é, fazer inclusão social via mercado (Jardim, 2007a), utilizando os próprios recursos oriundos das finanças. Para Jardim (2007a; 2009a), o governo Lula fez uso das finanças como tentativa de domesticação e moralização do capitalismo. Nossa análise dos conteúdos morais da política monetária e de infraestrutura se aproxima dessa ideia, buscando também compreender a influência das correntes homogêneas da história e as reações da sociedade ao modelo proposto por esse governo.

Para definir a lista de indivíduos eficientes do governo Lula, recorremos aos critérios institucionais, como posições reconhecidas no poder. Isso ajuda a compreender a correspondência entre o espaço das posições e o espaço das tomadas de posição dos grupos dirigentes dos governos estudados. Nesse processo, os indicadores do capital cultural (escolar) são: graduação, especialização, mestrado, doutorado, MBA etc., e as variantes por curso e instituição de ensino. O capital simbólico é entendido em razão das posições ocupadas em autarquias, empresas, órgãos e assessorias (Pedroso Neto, 2005); o capital organizacional é entendido considerando-se a posição que ocupa na instituição relacionada.

 

Aqui, nos inspiramos nas ideias de Simmel (1998), autor que considera que, diferentemente do materialismo histórico que coloca o processo cultural como dependente das condições econômicas, a formação da vida econômica influencia a situação psíquica e cultural de uma época e recebe por outro lado as grandes correntes homogêneas da vida histórica. Da mesma forma, as ideias de “domesticação e moralização do capitalismo” presentes em Jardim (2007a).

 

Dito isso, apresentamos a seguir uma lista com alguns agentes do governo Lula e Dilma e seu capital cultural e simbólico. A análise prosopográfica nos ajuda a compreender o que esses agentes entendem por modelo de desenvolvimento.

 

Quadro 1.2 Capital escolar e profissional do grupo dirigente no governo

Lula-Dilma

 

Nome Universidade / Profissão Profissão

Pós- do Pai própria

Graduação antes e depois

Dilma Roussef Começou Advogado e Funcionária da (presidenta) economia comerciante Assembleia

(UFMG), foi (búlgaro) Legislativa do

expulsa e Rio Grande do

terminou na Sul (RS)

UFRGS Funcionária de

Mestrado na carreira no setor

Unicamp – elétrico do Rio

incompleto Grande do Sul

 

Ministérios do braço direito do Estado

 

Guido Mantega Economia Industrial – Professor da (Fazenda, 2006- (USP) móveis PUC e da FGV 2015) Doutorado em

sociologia

(USP)

Paulo Bernardo Geologia (UnB, Não há Funcionário de (Planejamento, incompleto por dados carreira do Orçamento e causa de Banco do Brasil Gestão, 2005- expulsão) 2010;

Comunicações,

2011-2015)

Miriam Belchior Engenharia de Não há CA Eletrobrás (Planejamento, alimentos dados Coordenadora Orçamento e (Unicamp) do PAC Gestão, 2010- Mestrado em 2015) administração

pública e

governo (FGV)

Edison Lobão Direito (CEUB) Não há Jornalista do (Minas e Energia, dados Correio 2008-2010 e Brasiliense e da

2011-2014) revista Maquis

Diretor da Rede

Globo no

Distrito Federal

Funcionário

público – cargos

de confiança

desde 1962

 

Órgãos do braço direito do Estado vinculados a ministérios:

BNDES e Banco Central

 

Carlos Lessa Economia Não há Professor Cepal

(BNDES, 2003- (UFRJ) dados (INTAL BID – 2004) Mestrado em ILPES ONU)

análise Professor de

econômica economia

(CNE) (UFRJ)

Doutorado em

ciências

humanas

(Unicamp)

Luciano Coutinho Economia Não há Secretário (BNDES, desde (USP) dados executivo do 2004) Mestrado em MCT/1994

economia (1985-1988);

(USP) estudo de

Doutor em competitividade

economia da economia

(Universidade brasileira, com

Cornell) muitas

Professor publicações

visitante sobre a área

(Université industrial

Paris 13,

Universidade

do Texas e do

Instituto

Universitário

Ortega y

Gasset)

Henrique Engenharia Não há Político Meirelles, (USP) dados interventor e (ex-presidente do Mestrado advogado em Banco Central, (COPPE/UFRJ) Goiás 2003- 2010) Harvard lato Presidente do

sensu Bank Boston

Corporation/

filiado do PMDB

– Presidente do

Conselho

Público

Olímpico

(gestão Dilma

Rousseff)

Antonio Tombini Economia Não há Funcionário de (presidente do (UnB) dados organização Banco Central, Doutorado internacional desde 2011) (Universidade Funcionário de

de Illinois) carreira do

Banco Central

 

Ministérios do braço esquerdo do Estado

 

Tereza Campello Economia Não há Fez parte do (Desenvolvimento (UFU) dados grupo que Social e Combate Professora de concebeu o

à Fome, desde economia bolsa família 2011) (Unisinos) Subchefe de

articulação e

monitoramento

da Casa Civil no

governo Lula

Patrus Ananias Direito (UFMG) Não há Advogado: (Desenvolvimento Especialista dados direito do Social e Combate em poder trabalho e à Fome, 2004- legislativo direito 2010) Mestre em previdenciário –

direito defende

processual categorias

(PUC-MG) profissionais,

Doutorando em associações

filosofia, comunitárias e

tecnologia e movimentos

sociedade sociais

(Universidad Funcionário

Complutense público de

de Madrid) carreira, filiado

Professor ao PT, disputou

(PUC-MG) a prefeitura de

Belo Horizonte

(MG) em 2012

Luiz Marinho Direito Não há Trabalhou na (Trabalho e (Uniban) dados Volkswagen Emprego, 2005- Carreira no

2007) sindicato dos

metalúrgicos do

ABC

Presidente da

CUT em 2003

Prefeito de São

Bernardo pelo

PT

Izabella Mônica Biologia (Unb) Não há Servidora de Vieira Teixeira Mestre e dados carreira do (Meio Ambiente, doutora em Ibama desde 2010) Planejamento

Energético

(UFRJ)

Especialista

em

Instrumentos

de Gestão

Ambiental –

avaliação

ambiental

estratégica e

avaliação do

impacto

ambiental e

licenciamento

ambiental

Marina Silva História (UFAC) Aposentado Família de (Meio Ambiente, Seringueiros

2003-2008) Participou das

CEB

Fundadora da

CUT-Acre

Criadora do

Partido Rede

Sustentabilidade

 

Fonte: Adaptado de Silva (2013).

 

Como mostram esses dados prosopográficos, e inspirados em Grün (2013), argumentamos que os agentes do grupo dirigente do governo federal, de 2003 a 2012, tinham origens familiares menos tradicionais do ponto de vista do capital econômico, cultural e simbólico, com menos internacionalização do que aqueles presentes no governo Cardoso. De acordo com Grün (2013), em completa oposição aos membros do governo Cardoso, os membros dos governos petistas têm formação pré-universitária em escolas públicas. Além disso, aparentemente não são filhos da elite tradicional, embora, segundo o autor, tenha sido difícil encontrar dados na internet sobre o assunto. Pesquisas em andamento de Jardim (2014) sobre a biografia de vida de ministros dos governos Cardoso, Lula e Dilma, indicam a mesma tendência.

 

Dessa forma, os capitais dos agentes presentes, tanto no braço direito e esquerdo do Estado entre 2003 e 2012, indicam menor capital escolar e origens sociais mais humildes – em geral, funcionários de carreira do setor público e sindicalistas. Devemos considerar essas referências prosopográficas como um dos indicadores da convergência entre diversos agentes e elites com o discurso de política monetária, tendo em vista fomentar a criação de campeões nacionais em escala global, ao mesmo tempo que se busca gerar emprego e renda via inclusão econômica e financeira. Diríamos que apesar da submissão à política ortodoxa, esse grupo dirigente não abandonou ideias de inclusão social, popular etc.