Programa de Aceleração do Crescimento (PAC): Neodesenvolvimentismo?
1.3 A influência histórica dos modelos de produção: uma contribuição para a compreensão dos quadros de referência dos agentes
Portanto, a deslegitimação da Light e dos acordos no âmbito da CMBE permitiu que os nacionalistas emplacassem um processo que culminou na criação da Eletrobrás e de seus fundos de financiamento, concomitantemente à de outras empresas estatais, como a Petrobrás, a Companhia Vale do Rio Doce (minérios), a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), cada uma em contextos de barganha diferentes com países do exterior.
A criação do BNDE – e sua articulação com a Cepal – ajudou a delinear o financiamento de longo prazo e de maior risco, tipicamente presentes em projetos de infraestrutura. Porém, observaremos que o BNDES foi ator fundamental nas mudanças no modelo de desenvolvimento do Estado brasileiro ao longo do tempo: de desenvolvimentista na Era Vargas para coordenador de privatizações no governo Cardoso e articulador das parcerias público-privadas no governo Lula e Dilma.
Nesse contexto, retornar à gênese do surgimento do BNDES e da Eletrobrás teve como objetivo atualizar assuntos recorrentes no cenário brasileiro contemporâneo: a participação pública e privada na economia e a força da intervenção do Estado.
1.3 A influência histórica dos modelos de produção:
uma contribuição para a compreensão dos quadros
de referência dos agentes
Segundo Fligstein (2001), os modelos de desenvolvimento são contextualizados em relação às correntes históricas e econômicas que se desdobraram num processo psíquico e cultural.
Um de seus conceitos, a concepção de controle, refere-se a entendimentos que estruturam a percepção dos envolvidos de como funciona o mercado, permitindo interpretar as ações dos outros. As estratégias, dessa maneira, não seriam concepções de controle, mas o conjunto de ações que os atores, com determinada concepção de controle, selecionam para certo contexto organizacional.
Assim, o autor indica duas importantes concepções de controle ao longo da história do capitalismo: o controle de produção, com destaque ao taylorismo, com valores – como redução de custos, eficiência, planejamento, entre outros – que se espraiaram para além do muro das empresas, para a sociedade e para a vida das pessoas; a segunda, mais atual, é a concepção financeira de controle, que enfatiza taxas de retorno no curto prazo, táticas para aumentar preços de ações e uso de controles financeiros e valorização do pequeno acionista, para o qual o capitalismo busca criar valor (Fligstein, 1990).
Portanto, paralelamente à construção do mercado financeiro brasileiro e à criação do BNDES e de instituições do setor elétrico a partir dos anos 1940, é importante compreender as correntes históricas que influenciaram a sociedade como um todo e as transformações na forma de gestão das organizações, segundo o mesmo autor.
Essas correntes aconteceram principalmente no século XX, a partir dos modelos de produção inglês, norte-americano e, posteriormente, japonês. Nesse sentido, o taylorismo, entendido como modelo de organização, criou um habitus de engenheiro que se espalhou para além da empresa e se instalou na sociedade, influenciando a vida das pessoas e o papel do Estado, o qual, inspirado nessa corrente, deveria administrar os recursos da melhor forma e com o menor custo.
Nesse modelo clássico de produção, a esfera da produção é separada da esfera do mercado. As hierarquias rígidas e a separação entre trabalho intelectual e trabalho manual dão seu tom. Porém, esse modelo foi absorvido e adaptado por japoneses, que deram maiores responsabilidades aos funcionários (downsizing e flexibilização) e tornaram as incertezas do mercado em parte da lógica de produção. Isso mais uma vez trouxe mudanças para o modo de vida psíquica e social das pessoas, transformando esses modelos em corrente cultural, com outras fontes. Nosso argumento é que grande parte das alterações na vida das pessoas e suas influências culturais vinha de dentro das organizações, ou seja, das concepções de controle que vigoravam nessas organizações.
Na década de 1980, ocorreu, sobretudo nos Estados Unidos e na Inglaterra, um grande processo de fusões e compras de empresas por instituições financeiras que também estavam em processo de concentração, ocasionando a presença de executivos em vários comitês administrativos ao mesmo tempo, o que causou grande interlocking e potencializou a circulação das ferramentas financeiras, trazendo à tona a legitimidade da concepção financeira de controle como corrente hegemônica. Dessa forma, os membros do establishment liberal se transformaram em porta-vozes do pensamento liberal (Grün, 1999); os investidores institucionais, especialmente os fundos de pensão, tornaram-se os grandes acionistas de empresas nacionais, inclusive das públicas (Jardim, 2007b).
Houve maior diversificação das atividades, com foco no retorno a acionistas (valor acionista) e nos investimentos de curto prazo. Isso fez as empresas se preocuparem com a formulação de políticas governamentais, e, nesse processo, o papel dos bancos multilaterais foi fundamental para pressionar por mudanças nos países emergentes. Além das pressões por reformas estruturais para abertura de mercados, muitos agentes políticos de países emergentes, como o Brasil, tiveram formações em centros acadêmicos de países centrais. Ao voltarem a seus países, tinham legitimidade e prestígio para empreender as mudanças que desejassem (Dezalay; Garth, 2000). O contexto não foi diferente no Brasil, com as elites dirigentes se internacionalizando, o que significa concretamente a busca de diplomas e expertises no exterior (Cárdenas, 2015).
No contexto de predomínio de uma concepção de controle voltada para o pequeno acionista, e cuja gênese remete à elite dirigente norte-americana, Lebaron (2011) afirma que os Estados Unidos, apesar de apresentarem sucessivas fragilidades em seu modelo financeiro e econômico, permanecem como credor no plano simbólico, já que exportam seu modelo nacional, características institucionais, culturais e econômicas para o mundo. Isso ocorreria tanto por meio de acordos, legislação, como no plano cultural, por meio do poder representado pelos prêmios Nobel, as instituições universitárias a que estão ligados e que pautam as teorias e bibliografias a serem lidas nas escolas de administração e economia nos países emergentes; bem como outras fontes culturais mais próximas do senso comum, como filmes, livros de autoajuda e outros meios que também realizam a performatividade. Faz-se necessário ter esse quadro de referência para entender o posicionamento dos grupos dirigentes do Brasil e do mundo, ou seja, uma importação massiva não somente dos modelos racionais de desenvolvimento, mas ainda (e principalmente) dos modelos culturais, que os acompanham.