Programa de Aceleração do Crescimento (PAC): Neodesenvolvimentismo?
5.8 Compradores de apartamentos e casas em São Carlos
Durante a pesquisa de campo com corretores e compradores, percebemos três tipos principais de compradores: jovens entre 20 e 25 anos compondo renda com futuro cônjuge; jovens compondo renda com os pais e compradores para especulação imobiliária, o que representa uma subversão do programa. Foram entrevistados cinco compradores das faixas 2 e 3 do Programa Minha Casa Minha Vida na cidade de São Carlos.
O programa permite a composição de renda com no máximo três pessoas que podem ser: cônjuge ou companheiro(a); filho; pai ou mãe; padrasto ou madrasta; neto; avó ou avô; irmão ou irmã; enteado; tio; sobrinho; primo; sogro; genro ou nora; cunhado. Podemos perceber, com essa norma, que o mercado busca contornar a incapacidade financeira das pessoas com a solidariedade entre familiares e entre gerações, conclusão que estaria em diálogo com as “leis gerais” da sociologia econômica, que, por sua vez, pregam a existência de relações morais, simbólicas, culturais, políticas e sociais na construção social dos mercados, ou seja, para além da ortodoxia das leis puramente econômicas.
Quanto aos compradores de São Carlos, percebemos dois momentos de compra: os compradores que compraram no início do programa e colheram vantagens por terem entrado antes da especulação; outros compradores que relataram só ter feito a compra por conta dos subsídios oferecidos pelo programa – baixos juros e valor acessível –, já que posteriormente esses mesmos empreendimentos valorizaram vertiginosamente.
Para termos ideia da influência da especulação imobiliária, citamos o caso da Rodobens, que é focada na construção de casas e construiu condomínios em São Carlos. Entrevistamos um comprador de uma casa do Condomínio Moradas 1, que é também corretor de imóveis. Quando perguntado sobre a estrutura no entorno, ele diz:
Não temos hospital próximo, apenas no bairro vizinho, o Santa Felícia. O ônibus aqui passa de hora em hora e, no sábado, a partir das 14 horas até o final do domingo passa de 2 em 2 horas. Há uma escola de ensino fundamental próxima. No condomínio que está sendo construído ao lado, já está partindo do valor de 115 mil reais, é a mesma planta, sendo que o meu custou menos de 80 mil (Mutuário do Moradas 1, 2013).
Temos aqui uma materialização de uma segregação do espaço social que se sustenta na especulação imobiliária. Os empreendimentos da MRV se localizam perto da universidade ou perto de grandes empresas, ao passo que o empreendimento do Prohab varia entre as melhores e piores localizações dependendo da faixa de renda. Informamos que o construtor independente entrevistado vendia casas em um bairro popular, também afastado – o que tem a ver diretamente com sua posição no campo dos construtores.