Programa de Aceleração do Crescimento (PAC): Neodesenvolvimentismo?

3 - A crise financeira de 2008: os discursos e as estratégias do governo e fundos de pensão

3 – A crise financeira de 2008: os discursos

 

e as estratégias do governo e fundos de

 

pensão

 

3.1 Introdução

 

O capítulo se debruça sobre a crise iniciada em 2008. Inspirando-se nos trabalhos de Lebaron (2010, 2011) e Grün (2010), procuramos apreender a “dimensão cognitiva” da crise, por meio dos discursos produzidos (e reproduzidos) por membros do governo engajados no controle da crise e pelo setor de fundos de pensão, assim como suas estratégias efetivas. Temos como método a análise da documentação produzida pelo setor de fundos de pensão e pelo governo Lula no ano de 2008, assim como o desdobramento dos discursos e das estratégias efetivadas. Os resultados alcançados indicam a construção de um discurso que enfatiza a importância da regulação do Estado (em contraposição ao discurso de autorregulação do mercado) e a participação central dos fundos de pensão durante o processo, já que abandonaram parcialmente os títulos públicos e migraram para o investimento produtivo, em aliança com o setor de private equity, principalmente no financiamento das obras do PAC.

 

3.2 A crise de 2008

 

Desde os anos 1990, a aquisição de imóveis tornou-se mais fácil para as famílias norte-americanas. A taxa de aquisição de imóveis passou de 63%, em 1965, para 69%, em 2004. O crescimento de proprietários foi resultado do crédito de subprime, chegando, em 2007, a 14% dos hipotecários totais. Para Adrian Blundell-Wignall (2007), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o empréstimo subprime é uma novidade em inovação.

 

O grande benefício é que pessoas que anteriormente não podiam nem pensar em obter a casa própria compartilharam do benefício da inovação financeira. Grün (2010) afirma que as hipotecas subprime foram a solução encontrada para financiar a casa própria de parcelas da população que anteriormente estavam distantes desse tipo de aquisição. O autor acrescenta que, desde o programa do primeiro governo de Thatcher, a aquisição da casa própria aparecia como um dos pilares da estratégia neoliberal anglo-americana para tornar aqueles países “nações de proprietários” e, assim, induzir os cidadãos/eleitores de classes sociais mais modestas a mudarem, definitivamente, a sua identidade de trabalhadores para a de proprietários.

 

Portanto, foi no contexto de crise imobiliária nos Estados Unidos que a crise de 2008 eclodiu, tendo como ápice a falência do tradicional banco de investimento dos Estados Unidos, o Lehman Brothers, fundado em 1850. Em efeito dominó, grandes instituições financeiras ao redor do mundo faliram, no processo que ficou conhecido como “crise dos subprimes”.

 

Entretanto, a crise dos subprimes não aconteceu de forma isolada. Paralelamente ao choque imobiliário gerado pelos subprimes, os EUA passavam por dificuldades no plano externo, como a guerra do Iraque, além de questões internas, como o desemprego e os problemas na educação e na saúde, para citar os mais evidentes na política local. No mesmo contexto, houve falências de grandes empresas automobilísticas (Sauviat, 2008), além de falências em outros setores, tais como o setor aéreo e, finalmente, o setor imobiliário.

 

No momento da crise imobiliária, as empresas pediram concordata e os fundos entraram em falência nos Estados Unidos. Por outro lado, pregando o livre mercado, os governos não interferiram na crise imobiliária; ao contrário, estimularam-na, com pacotes fiscais que favoreciam a especulação. A imprensa francesa passou a qualificá-la como a maior crise após a crise de 1929 (Lebaron, 2011). O mesmo argumento foi defendido por Pochmann (2010).

 

Assim, a ainda atual crise econômica e financeira, iniciada em 2008, representa um fenômeno que revela dados sociológicos de bastante singularidade, impossíveis de serem notados em situações de “normalidade” dos mercados. A busca de regulação, a substituição do discurso de livre mercado pelo discurso de retorno do Estado e a busca de culpados e de justificativas compõem esse contexto. Portanto, a crise de subprimes iniciou novos tempos na história econômica mundial.

 

O sistema financeiro, que já estava hipertrofiado, não pôde evitar uma recessão na economia mundial. A crise de subprimes colocou em xeque alguns dos fundamentos cognitivos sobre os quais repousavam a dinâmica histórica em longo prazo, como exemplo, a autorregulação dos mercados. À medida que a crise avançou, refutou-se a ideia de que era apenas uma banal flutuação cíclica. O choque conjuntural revelou uma série de crises estruturais, trazendo à tona John Maynard Keynes e Karl Marx, assim como questionamentos à doutrina neoliberal e ao Consenso de Washington.

Para Lebaron (2010), o questionamento da doutrina liberal revelou a fragilidade do paradigma das ciências econômicas dominantes. Da mesma forma, Jorion (2009) afirma que a crise financeira marca a crise da ciência econômica mainstream, sobretudo em relação aos bancos centrais, que esqueceram as lições da crise de 1929.

 

Seguindo as ideias defendidas por Keynes, o novo consenso cognitivo pressupõe que o Estado volte a ter um papel de agente catalisador de políticas econômicas, sendo integrador, modernizador e legitimador do capitalismo, e passando a intervir diretamente no exercício da atividade produtiva, a fim de atribuir-lhe alguma racionalidade.

 

Em seu livro, A grande transformação, Karl Polanyi (1980) mostra que, diante da crise de 1929/1930, a reação mais comum era a de sair do liberalismo ao dirigismo (stalinismo, socialismo ou fascismo, social-democracia). No auge da crise de 2008, a ideia de mercado eficiente foi colocada em xeque.

 

Com inspiração teórica em pesquisas que enfatizam a dimensão cognitiva da crise, como Lebaron (2010, 2011) e Grün (2010), este capítulo procura apreender a “dimensão cognitiva” da crise, especialmente no caso brasileiro, por meio dos discursos produzidos (e reproduzidos) pelo setor de fundos de pensão e pelo governo, assim como as estratégias introduzidas.

 

Nossa hipótese provisória é de que a crise econômica de 2008 criou, em algum nível, uma reorientação cognitiva dos agentes inseridos no espaço das finanças, o que se expressaria em mudanças discursivas (por exemplo, o Estado como regulador dos mercados; aumento do investimento produtivo em detrimento de investimento especulativo) nos seus feixes de alianças (por exemplo, o setor de fundos de pensão com o setor de private equity; aumento da cumplicidade já existente entre o setor de fundos de pensão e o governo Lula).

 

A opção pela abordagem cognitiva da crise justifica-se por entendermos que esse tem sido um elemento frequentemente ignorado nas análises existentes sobre a crise, porém essencial para a compreensão de um processo que não é reduzido a mecanismos automáticos. Afinal, o campo financeiro, antes de qualquer coisa e prioritariamente, produz representações sociais e sentido (Grün, 2010). Nessa perspectiva, como afirma o autor citado, o campo financeiro produz uma espécie de feitiçaria, o que, em nossa interpretação, significa a capacidade do campo financeiro em produzir crenças que são incorporadas não somente pelas instituições, mas também (e sobretudo) pelos indivíduos em suas rotinas.