Programa de Aceleração do Crescimento (PAC): Neodesenvolvimentismo?
4.4 O Governo e as empreiteiras: busca por melhores condições de trabalho
A discussão apresentada neste livro nos inspira a sugerir que o PAC é um interessante fenômeno sociológico para apreender os novos desenhos do Estado, do mercado e do trabalho. Analisando as interações entre Estado, mercado e trabalho, é possível perceber a presença do primeiro na construção não somente de políticas públicas, mas ainda e, principalmente, na produção e reprodução de formas de pensamento. Por exemplo, a compreensão do primeiro sobre justo/injusto, emprego/ desemprego, moral/imoral, público/privado são evidentes nos arranjos do PAC.
Em outras palavras, queremos dizer que o Estado “convence” a iniciativa privada a investir em seus projetos, por argumentos que definem o PAC como justo, gerador de empregos, algo moralmente aceitável e formado por relações híbridas entre público e privado.
Assim, para efetivar sua política de inclusão social de trabalhadores desempregados e para oferecer infraestrutura para o país, o Estado passa a dialogar constantemente e permanentemente com empreiteiras, empresas privadas, agentes do mercado financeiro, ressignificando o conceito de social, que passa a ser introduzido via mercado.
Da mesma forma que transforma o conceito de social e de mercado, (res) significa, ainda, a histórica contradição entre capital e trabalho, já que este, ao dialogar com o mercado e com o Estado, passa a buscar soluções conjuntas para os conflitos trabalhistas nas obras do PAC.
Como já mostramos nos capítulos anteriores, o PAC é resultado de alianças entre o Estado, fundos de pensão, sindicatos e empreiteiras. No próximo item abordaremos as empreiteiras e suas contradições.
4.4 O Governo e as empreiteiras: busca por melhores
condições de trabalho
No contexto de diálogo entre mercado, Estado e trabalho, uma das ambiguidades que se apresentam são as condições de trabalho dos trabalhadores das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Por exemplo, em 2011, as obras para a construção das Usinas Jirau e Santo Antônio, no Rio Madeira, em Rondônia – entre as principais obras do PAC – foram paralisadas por causa de conflitos entre trabalhadores e representantes dos consórcios responsáveis pelos empreendimentos, pois, segundo os sindicalistas e trabalhadores, as grandes empreiteiras – como a Camargo Corrêa – que possuem prazos para entrega das obras, intensificam o tempo de trabalho, sem o pagamento de horas extras aos trabalhadores. Portanto, as greves são uma constante nas obras do PAC.
Os motivos são ligados às condições de trabalho: má alimentação fornecida pelas empreiteiras, atraso no pagamento dos salários, exploração no trabalho, intensificação do número de horas trabalhadas e as péssimas condições de vida nos alojamentos dos trabalhadores. As intermediárias, constituídas pelas empreiteiras, são acusadas de desrespeito aos direitos trabalhistas e mesmo de trabalho escravo.
As centrais sindicais se posicionam a favor do PAC, apesar das críticas pontuais. Para a central sindical CUT (Central Única dos Trabalhadores), assim como para o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, o PAC precisa passar por uma revisão nas medidas ligadas aos trabalhadores. Entretanto, a posição da CUT é que o PAC representa a retomada do papel do Estado como condutor e promotor do crescimento econômico e do desenvolvimento do país, através de investimentos estratégicos. Sendo assim, o PAC é um plano com aspectos positivos, porque procura combater a ciranda financeira que comanda a destinação da renda apropriada pelo Estado.
Após o lançamento do PAC, em 2007, a CUT propôs a fixação de metas de emprego e formalização, bem como a redução dos juros. A Central argumenta que a existência de contrapartidas sociais é decisiva para que o PAC consiga exercer seu papel dinamizador na economia. Além do compromisso com a geração de empregos de qualidade, a CUT exige a participação no Comitê Gestor do PAC. O objetivo é acompanhar e avaliar os projetos de investimento. Para o secretário-geral da CUT, Quintino Severo, “a questão fundamental que se coloca com o PAC é a capacidade de o Estado voltar a investir, passando a ser um Estado forte, indutor do desenvolvimento econômico [...] e isso é tudo o que os neoliberais não querem, pois lucram com a fragilidade do setor público” (Jardim, 2015).
Outro sindicalista da executiva nacional da CUT defende que
há uma mudança de qualidade em que começamos a debater o papel fundamental do Estado, estimulando o crescimento com distribuição de renda. Precisamos ter contrapartidas sociais explicitadas, assim como a democratização dos conselhos das estatais, medidas que vêm para aprofundar as transformações em curso (Jardim, 2015).
Nesse contexto, através da Lei n. 12.353, de 28 de dezembro de 2010, o sindicato ganhou o direito a participar do Conselho de Administração das empresas estatais e demais empresas em que a União detenha a maioria do capital social com direito a voto; porém, a lei vedava a participação desses representantes dos empregados em discussões e votações de questões sindicais, de remuneração e reuniões sobre matérias de previdência complementar e assistenciais, para evitar conflito de interesses. Foi criada ainda a Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público, que aprovou o projeto de Lei n. 6.051, da deputada Fátima Bezerra (PT-RN), que permite a participação dos representantes nessas matérias. Segundo o relator da Comissão, deputado Roberto Santiago (PSD-SP), o representante dos empregados estará “com o necessário e indispensável contágio dos pontos de vista daqueles que o indicaram para o posto” (UGT, 2014).
Da mesma forma, a Força Sindical reivindica o mínimo de regras nas relações trabalhistas, já que “muitos serviços foram terceirizados, alguns até quarteirizados” (Paulo Pereira da Silva apud Jardim, 2015). Entretanto, apesar das críticas, as centrais sindicais apoiam o PAC e entendem que esse programa representa um novo desenho do Estado brasileiro, que se coloca como ator central na política de geração de emprego, na efetivação da infraestrutura do país, assim como na redistribuição de renda, via empregos para trabalhadores que estão abaixo ou na linha da pobreza, especialmente os beneficiários do programa Bolsa Família (Jardim; Porcionato, 2013).
Nesse contexto de conflitos e contestações trabalhistas, criou-se, em conjunto com sindicalistas, empresários e trabalhadores, em 2011, uma mesa de diálogo e negociação tripartite, que formalizou regras para o setor da construção. Um dos consensos foi quanto às formas de contratação dos trabalhadores do PAC, sendo que essas devem ser reguladas pelo governo federal e fiscalizadas pelos estados e municípios, em diálogo com as centrais sindicais e os sindicatos. O objetivo é evitar aliciadores (os chamados “gatos”) e empreiteiras, para reduzir a precarização nas condições de trabalho e mesmo a existência do trabalho escravo nas obras do PAC.
Sobre o trabalho escravo sabemos que, em 2009, fiscais do governo federal e do Ministério Público do Trabalho encontraram e resgataram 98 trabalhadores em regime análogo à escravidão – vivendo sem salários e instalados em alojamentos precários, sem cama e banheiro – em uma obra que integra o PAC, no sul de Goiás, da construção da Usina Salto do Rio Verdinho (Folha Online, 2009).
Esse caso de escravidão não é o único encontrado durante o período. O Quadro
4.1 representa bem as tensões e conflitos nos canteiros de obras do PAC e nos permite inferir sobre a concentração de conflitos nas regiões Norte e Nordeste.
É possível que a fiscalização e a regulação do Estado não consigam ultrapassar as barreiras historicamente clientelísticas de determinadas regiões do Brasil. Entretanto, apesar dos diversos conflitos, não negamos a busca de soluções. Assim, na tentativa de regulação dos excessos do mercado, os representantes dos trabalhadores, dos empresários e do governo produziram, em 2011, um documento intitulado Mesa de diálogo e negociação tripartite, que exprime o tom das reivindicações e dos conflitos envolvendo trabalhadores do PAC e empreiteiras.
O documento aborda diretrizes sobre recrutamento, pré-seleção e seleção com o objetivo de coibir a prática de intermediação ilícita e a contratação precária.
Naquele momento, foi decidido reforçar e ampliar o papel do SINE (Sistema Nacional de Emprego) para o recrutamento, atendimento móvel e/ou provisório.
Entre as medidas, definiu-se que o governo deverá oferecer condições para as empresas efetuarem a seleção de trabalhadores nos locais de origem, na fiscalização das obras, nas campanhas para estimular os mecanismos legais de contratação e na elaboração de normas que regulamentam o transporte de trabalhadores; além disso, os empresários devem liberar a entrada nas obras apenas de trabalhadores com carteiras assinadas, exceto para a seleção e a contratação. As empresas terceirizadas também devem cumprir as exigências presentes no documento.
Quadro 4.1 Conflitos trabalhistas nas obras do PAC
Obra Local/região Motivo do Empresa Ano Obs.
conflito responsável
Usina Salto Goiás Trabalho Votorantim 2009 Conflito resolvido com o
do Rio escravo resgate dos
Verdinho trabalhadores pelo
Ministério Público
Usina de Rio Madeira Trabalho Camargo Conflito (2011-2012)
Jirau/Santo (Rondônia) precário Corrêa 2011:
Antônio Odebrecht 5% de antecipação
salarial, aumento de R$
132 reais na cesta
básica
Licença (baixada) de 5
dias a cada 3 meses
com direito à passagem
de avião e ônibus
Alteração da empresa
de vale-alimentação
Opção de mais de um
plano de saúde com
cobertura nacional
Abono de 50 horas
para trabalhadores
alojados
2012:
Secretaria da
Presidência da
República/CUT Siticon
e construtoras
Aumento salarial (de 7
a 13%)
Aumento da cesta
básica
Aumento das horas
extras
Auxílio-creche e sem
desconto para os dias
parados na greve
Refinaria Suapé Aumento Petrobrás 2012 Conflito resolvido com
Abreu e (Pernambuco) salarial um acordo entre o
Lima e sindicato dos Petroquímica trabalhadores(Sintepav-
Suapé PE) e o sindicatodos
empregadores (Sinicon)
Usina São Gonçalo Melhores Maire 2011 Conflito resolvido com
Termelétrica do Amarante condições Engineering/ aumento salarial e
do Pecém (Ceará) de trabalho Tecnimont ajuda de custa de R$
Aumento (MABE) 250,00
salarial Efacec
Usina São Mato Grosso Melhores Galvão 2013 Aumento de 30% no Domingos do Sul condições Engenharia piso salarial
de trabalho Engevix e
Aumento Galvão
salarial
Arena das Natal (Rio Reajuste Consórcio 2012 Reajuste Salarial
Dunas Grande do salarial e OAS
Norte) aumento do
vale-
refeição
Complexo Rio de Reajuste Petrobrás 2013 Conflito resolvido com
Petroquímico Janeiro Salarial reajuste salarial
do Rio de
Janeiro
Hidrelétrica Altamira Acordo Consórcio 2012 Conflito resolvido com o
de Belo (Pará) coletivo Construtor aumento de R$ 110,00
Monte Belo Monte no vale-alimentação,
(CCBM) ampliando a liberação
dos trabalhadores para
19 dias a cada seis
meses
Hidrelétrica Altamira Trabalho Consórcio 2013 2012 – Reivindicações:
de Belo (Pará) precário Construtor Aumento salarial, já
Monte Belo Monte que a inflação chegou a
(CCBM) 30% em Altamira
Direito de baixada a
todos os funcionários
Pagamento da
passagem aérea a
quem mora a menos de
1.500 km de casa
Sindicato expulso (por
fechar acordo sem
assembleia)
Soldados da força
nacional obrigam
trabalhadores a ficar no
canteiro de obras
Acordo (dezembro de
2013):
Aumento salarial de
11% (execução, técnica
e encarregados)
Gerentes (6,5%)
Reajuste de 12% na
Participação nos Lucros
e Resultados (PLR), de
25 horas/mês para 28
horas/mês
Redução de 180 para
90 dias de baixada
(visita à família)
Aumento no vale-
alimentação, de R$ 200
para R$ 260 reais
(ganho de 30%).
Primeiro sábado de
folga para os
trabalhadores, logo
após o pagamento
(para fazer
transferências
bancárias e outros
compromissos)
Hidrelétrica Altamira Trabalho Consórcio 2013 Recesso de 15 dias, a
de Belo (Pará) precário Construtor partir de 22 de
Monte Belo Monte dezembro: quem tem
(CCBM) direito à baixada fica
em casa 10 dias, além
de outros 5 dias
abonados; quem não
tem direito à baixada
fica os 10 dias de férias
coletivas, além de 5
dias abonados; nos
dois casos ainda terão
passagens de ida e
volta pagas por conta
do CCBM
Os dias de greve não
serão descontados dos
trabalhadores (Adms,
2013).
Estádio Belo Aumento Construcap 2011 Conflito resolvido com o
Mineirão Horizonte salarial S.A. aumento de 4% no piso
(Minas Egesa salarial Gerais) Engenharia
S.A.
Hap
Engenharia
Ltda.
Estádio Rio de Trabalho Odebrecht 2011 Conflito resolvido com o
Maracanã Janeiro precário Infraestrutura aumento no valor da
Delta cesta básica
Construções Plano de saúde
Andrade extensivo às famílias
Gutierrez Promessa de mais
segurança no local de
trabalho
Minha Casa Itaberaba Má Construtora 2013 Conflito resolvido com a Minha Vida: (Bahia) condições L. substituição da
Conjunto de Marquezzo empresa fornecedora
Dulce alimentação das refeições
Porto do Açu São João da Atraso Grupo EBX 2013 Conflito resolvido com o
Barra (Rio de salarial pagamento dos salários
Janeiro) Não atrasados
pagamento
de horas
extras
Fonte: Dados da pesquisa
Portanto, para eliminar a figura do intermediário – responsável pelas condições de trabalho desumanas e pelos conflitos trabalhistas – na contratação de mão de obra para a construção civil, trabalhadores e empresários se reuniram em julho de 2011 em Brasília, sob a coordenação da Secretaria-Geral da Presidência da República, e decidiram usar o Sistema Nacional de Emprego (SINE) para preencher as vagas abertas no setor. Assim as empresas poderão selecionar trabalhadores dos locais onde realizam as obras e, mantendo diálogo com as prefeituras, terão prioridades os beneficiários do programa Bolsa Família. Portanto, concentrando-se nos trabalhadores considerados miseráveis, o PAC 2 tem selecionado mão de obra por meio do Cadastro Único para Programa Sociais do governo federal (CadÚnico), banco de dados sobre os beneficiários do programa de inclusão social intitulado Bolsa Família.