Um novo capítulo para o amor

Jenny Colgan · Capítulo 9 de 50

Páginas do PDF

Um novo capítulo para o amor

Capítulo sete

 

O dia estava insuportavelmente quente quando Surinder pegou o trem para Londres. Não era um daqueles deliciosos dias “vamos para a praia”. O trem estava quente, úmido, terrivelmente abarrotado e desagradável. Crianças encaloradas gemiam e choramingavam, e um fedor pesado de suor pairava no vagão. Fora do trem não estava muito melhor. A estação estava lotada e quente, as pessoas, irascíveis; trens foram cancelados por causa das linhas superaquecidas e das pessoas superaquecidas. Londres inteira parecia estranhamente ameaçadora.

Jaz tinha implorado que ela não fosse, mas ela ameaçara contar a seus pais, então não havia muito que ele pudesse fazer.

Zoe estava extremamente animada e nervosa ao mesmo tempo. Será que aquele era o começo? Será que Jaz finalmente a incluiria em sua vida, construiria algo para eles dois?

Ela ficou muito decepcionada ao ver Surinder saindo do trem sozinha.

Zoe tinha vestido Hari com suas melhores roupas, e logo depois notou que já estavam pequenas demais para ele. Aí ela suspirou e voltou a colocá-lo no macacão jeans que pegara no bazar de caridade. Ele fez uma careta e pareceu irritado, especialmente quando ela decidiu deixar o carrinho em casa e tentou fazê-lo caminhar o longo trajeto até o ponto de ônibus. O menino simplesmente não aceitou e ela acabou tendo que carregá-lo no colo, contorcendo-se e debatendo-se um bocado boa parte do caminho. Agora estava suada, nervosa e sentindo-se caótica, e aquela garota linda e de aparência confiante que estava descendo do trem só podia ser a irmã de Jaz, Zoe percebeu na hora.

É claro que ele não estava junto.

Zoe acenou com a mão, desanimada.

Surinder olhou para a cunhada – bem, não era sua cunhada, mas enfim. Minha nossa. Ela não era nada do que Surinder esperava. Magra – na verdade, “quase esquelética” era uma descrição melhor, visto que ela não exibia o tipo de magreza que alguém iria querer ter –, baixinha, cabelos pretos bagunçados e presos frouxamente, com olheiras profundas. Contudo, ela mal olhou para Zoe antes de seu olhar ser atraído para o garotinho que se escondia atrás das pernas dela. Seu rosto se iluminou em um sorriso.

– Oi! – cumprimentou ela. – Oi!

Ela se abaixou prontamente. O garotinho a fitou por entre as pernas da mãe.

– Você é o Hari?

O menino não respondeu.

– O Jaz… – Zoe sabia que sua voz soava nervosa. – O Jaz explicou?

Surinder se levantou. Ela era muito bonita e exalava confiança. Zoe quis ser amiga dela imediatamente. Ela jamais engravidaria sem querer, pensou. Era sensata demais.

– Explicou o quê? Aliás, oi. Sou a Surinder. Sinto muito por meu irmão ser um babaca.

– Hã… Tudo bem – disse Zoe. – Ele explicou sobre o Hari?

– O que tem ele?

– Ele não… ele não fala.

– Ah. – Surinder franziu a testa. – Não parece um membro da família Mehta.

Elas permaneceram paradas no meio do saguão lotado.

– Tem algum lugar agradável pra gente tomar um chá? – perguntou Surinder. – E não estou falando de “agradável” no sentido de “bonito”, mas um local onde não esteja fazendo um calor de mil graus.

Não havia muita coisa em Euston, mas elas finalmente encontraram um parque pequeno com alguns balanços. Hari avistou os balanços, mas não ousou se aproximar deles. Surinder pegou chá para elas em uma tenda próxima.

– Então... – disse ela por fim.

Hari acomodou-se no colo de Zoe. Surinder ficou tentando interagir com ele, mas o garoto escondeu o rosto.

– Ele é tímido – explicou Zoe.

– Estou vendo – disse Surinder, e ambas imaginaram, brevemente e com certa preocupação, se Jaz não teria se interessado mais por Hari se ele fosse uma criança mais extrovertida, um menino encantador e falante.

Surinder pensou que, apesar dos pesares, o garoto era uma graça: cílios longos e escuros, pele perfeita.

Zoe suspirou.

– O que foi? – perguntou Surinder. – Tem sido difícil?

Zoe sentiu as lágrimas se acumularem.

– Ah, sim, bem, ser mãe solo… Você sabe – respondeu ela. – Quer dizer, você não sabe. Mas é complicado.

– O Jaz não te ajuda?

– Ele ajudava! – respondeu Zoe, defendendo-o. – Quando trabalhava. Mas ele enfiou na cabeça que quer ser DJ e não quer ficar preso a um emprego até, pelo menos, ter tentado…

– Você é um amor por defendê-lo – disse Surinder. – Olha, nós queremos ajudar. Bem, eu quero…

– E seus pais?

Surinder deu de ombros.

– Jaz está realmente inflexível – explicou ela. – Sinto muito.

– Tudo bem – disse Zoe. – É porque não sou indiana?

Surinder bufou.

– Claro que não, eles adoram a Angela.

Então ela percebeu que tinha sido insensível.

– A esposa do meu outro… Olha, deixa pra lá. Me mostra onde vocês moram.

Assim que viu o lugar, com o papel de parede descascando e a pequena lareira elétrica, Surinder se decidiu quase imediatamente. Ela conhecia outra pessoa que não se encaixava na cidade grande, que precisava de um pouco de espaço para respirar.

– Escuta. Você entende bastante de livros?

– Eu leio muito – respondeu Zoe. Então ela ergueu os olhos. – E estou pronta para… Quer dizer, nós precisamos de um lugar para morar. Mas se você souber de um bom emprego… Eu prometo, prometo que vou trabalhar duro. Vou mesmo.

Surinder olhou em volta. A pequena quitinete era pavorosa, mas estava perfeitamente limpa e organizada, assim como Hari.

– Não posso prometer nada – disse ela –, mas verei o que posso fazer.

Ela se abaixou. Hari correu imediatamente para trás das pernas de Zoe.

– E na próxima vez que a gente se encontrar, rapazinho – disse ela –, espero que você seja mais legal com a sua titia.