Um novo capítulo para o amor
Capítulo dezessete
Em um primeiro momento, ao abrir os olhos como geralmente costumava fazer – às 5h30 da manhã, com um garotinho em cima dela pedindo que o levasse ao banheiro –, enquanto tentava despertar, ela não compreendeu bem onde estava ou o que tinha acontecido.
Então ela se lembrou.
Rapidamente, sem pensar, saiu do quarto com Hari, sem saber ao certo onde ficava o banheiro – havia oito portas no corredor, as quais podiam levar a qualquer lugar, mas a maioria, como ela descobriu, estava trancada. Argh. Aquele lugar era sinistro, especialmente quando se estava morrendo de frio e desesperada para ir ao banheiro.
O banheiro ficava, irritantemente, bem no final, enquanto eles corriam pelo piso de linóleo. Era um banheiro antigo, com louça Thomas Crapper, uma corrente longa e maçaneta esmaltada, e uma antiquíssima banheira vitoriana, mas nenhum chuveiro. Zoe estreitou os olhos. Depois da longa jornada do dia anterior, ela queria uma chuveirada escaldante, mas não parecia haver nada parecido com um chuveiro por ali.
Enquanto Hari usava a privada, ela tentou abrir a torneira da banheira.
Cusparadas de água amarela saíram da torneira – obviamente, a banheira não era usada há muito tempo – e Zoe apalpou em volta em busca da tampa do ralo e pegou o pequeno sabonete de hotel na pia. Ela percebeu que não tinha se tocado de levar xampu. Supôs, quando estava tentando reduzir as malas ao menor tamanho possível, que compraria essas coisas ali, depois de ter se instalado, que conseguiria pegar emprestadas algumas coisas quando chegasse ou daria um pulo em uma loja.
Não conseguia se lembrar de ter visto qualquer coisa no caminho de Inverness para lá, na noite anterior, que parecesse uma loja.
A água quente continuou correndo até encher uns cinco centímetros da enorme banheira e então ficou gelada de repente. O que era aquilo? As pessoas realmente viviam assim?
Por outro lado, ela precisava se lavar, isso estava claro. No primeiro dia em um novo trabalho, isso era meio recomendável.
Relutante e tremendo nos azulejos frios do banheiro não aquecido, tirou as próprias roupas e o pijama de Hari, embora ele tivesse se debatido e protestado. Eles ficaram em pé e ela os ensaboou do melhor jeito possível – que não era lá muito bom – com a minúscula barra de sabonete. Não se arriscou a lavar os cabelos. Eles teriam de aguentar daquele jeito mesmo.
Hari estava apontando para a boca.
– Eu sei – disse ela. – Sei que você está com fome, meu amor. Vamos desfazer as malas e aí vamos tomar café da manhã, está bem?
Hari não ficou nem um pouco satisfeito e começou a dar sinais de que iria arrumar confusão, enquanto ela pegava uma toalha velha, que fora lavada e secada muitas e muitas vezes, de uma pequena pilha no canto do banheiro e enrolava o corpinho trêmulo dele, abraçando-o.
– Não se preocupe – sussurrou ela em seu ouvido, embora estivesse falando tanto consigo mesma quanto com ele. – Sei que é tudo novo. E estranho. E diferente. E tudo bem. Às vezes a vida é assim mesmo. Vai ficar tudo bem. Eu prometo.
Ela se deu conta de que aquela casa era esquisita: os corredores estranhos e uma quantidade bizarra de escadarias, e ainda as crianças misteriosas e o pai misterioso… Ela se tocou de repente, com certo pavor, de que talvez a casa não tivesse televisão. De que talvez o poder acalentador de Oi, Duggee e seus filhotes sortidos não pudesse exercer seu acalento; de que talvez os Octonautas não os distraíssem completamente quando ele precisasse se acalmar e se reconfortar. Ela pegou o tablet antiquíssimo quando eles voltaram para o quarto. Apenas até que Hari se sentisse melhor. Eles podiam plugá-lo na tomada lá embaixo.
A casa estava quieta enquanto eles desciam as escadas. À luz do dia, Zoe podia ver como estava abandonada, com poeira e teias de aranha por todo lado, à exceção do corredor polido, que permanecia totalmente escuro, com a enorme porta fechada. Parecia que levava a uma sala de visitas, mas as janelas estavam fechadas. Além disso, o piso térreo da parte social frontal da casa era o segundo andar dos fundos, pois o terreno entrava em declive na parte de trás da casa.
A cozinha fria era mais convidativa pela manhã, com janelas grandes e sujas permitindo que a fraca luz do sol entrasse. Também havia uma porta que dava em um pequeno terraço de laje, tomado pelo mato, e então direto para o gramado, que se estendia até o muro de uma horta, com uma estreita trilha de cascalho que levava diretamente até ela.
Não havia sinal algum de uma chaleira elétrica, mas tinha uma grande chaleira preta convencional em cima do velho forno elétrico, e Zoe concluiu que serviria naquele momento. Ela a encheu de água – pesava uma tonelada – e colocou para esquentar.
Depois de alertar Hari sobre não se aproximar do fogão – ele estava segurando o tablet como se fosse um talismã sagrado; eles tinham encontrado uma tomada e ele evidentemente não queria ficar com a mãe –, ela fechou o casaco ainda mais e se percebeu saindo da casa, na manhã fresca.
A grama estava molhada de orvalho, mas a névoa pesada que rodeava a casa na noite anterior, embora não tivesse desaparecido por completo, estava subindo; era possível vê-la redemoinhando como se fosse um ser vivo. Zoe nunca tinha visto nada como aquilo; era como estar em uma nuvem.
Pouco acima, contudo, ela conseguia ver os primeiros raios de sol se esforçando ao máximo para atravessar aquele grosso cobertor cinza; aqui e ali, um raio conseguia transpô-lo, transformando as gotas de umidade na grama em diamantes cintilantes.
Zoe inspirou fundo e sentiu o ar fresco em seus pulmões.
Era inebriante. Tão puro, com uma pitada de frescor e um pouquinho de luz do sol; com um aroma musguento de grama e folhas e notas marcantes de velhos pinheiros, além de fantasmas de milhões de jacintos, galantos e narcisos, alternando-se, ano após ano.
Zoe inspirou fundo mais uma vez. Sentia que aquele ar poderia embriagar uma pessoa, de tão rico e pungente. Abriu os olhos, buscando logo a cozinha para se certificar de que Hari estava bem. Conseguiu vê-lo pela porta aberta, debruçado e completamente imerso no que quer que estivesse assistindo, em seu mundinho próprio.
– Venha, Hari! – chamou com delicadeza, mas ele mal olhou em sua direção antes de menear a cabeça.
O gramado longo e bonito estava levemente tomado por margaridas e flores silvestres. Uma parede de tijolos encobertos por hera levava a um jardim murado com árvores frutíferas que eclodiam por cima dele. A casa estava atrás dela; as torres, aqui e ali, capturavam o sol com seus pináculos e cata-ventos. E à sua esquerda a grama descia por um terreno musguento que levava – para choque e surpresa de Zoe, visto que ela não havia reparado em nada daquilo na noite anterior – a uma pequena enseada, bem diante da casa, onde havia um barquinho a remo, que precisava muito ser lixado e pintado, e, além de tudo, uma vasta extensão reluzente de água verde, com manchas de sol cintilando aqui e ali. O famoso lago Ness bem ali. Zoe sabia que ficava próximo, só não tinha ideia de quão próximo.
– Hari! Hari! Venha ver! – chamou Zoe, entrando de volta na cozinha.
A chaleira estava emitindo um assobio alto e ela colocou a água numa xícara com um saquinho de chá amassado que encontrara em um armário quase vazio.
– Bom, acho que você devia dar “oi” ou talvez “bom dia” – disse uma voz.
Zoe se virou, quase derramando a água fervente. A voz – definitivamente infantil – surgira do nada. Por um instante ela pensou que pudesse ser… Não. Aquilo era ridículo.
Parado à porta da cozinha estava um garotinho com cabelos castanhos espetados, usando um pijama de flanela bem surrado, pequeno demais para ele. Apesar de sua aparência estranha, sua expressão era confiante.
Zoe piscou. Então compreendeu e abriu um largo sorriso.
– Olá! Você é o…? – Ela não conseguia lembrar qual criança era qual. – Você é o Shackleton?
– Não – respondeu Patrick. – Eca. Isso seria totalmente nojento. Sou o Patrick.
– Ah, sim! Olá, Patrick. Sou a Zoe.
O garotinho franziu a testa.
– Bom – disse ele. – Eu absolutamente não quero me lembrar disso. Você é… – Ele fez uma conta com os dedos. – Nossa babá número sete. Vou te chamar de Babá Sete.
– Me chame de Zoe, por favor.
Patrick entrou na cozinha e subiu com cuidado em um dos bancos, bastante altos para ele.
– Acho que não. Uma torrada, Babá Sete!
Zoe ficou olhando para ele. Para seu espanto, Hari largou o tablet, levantou-se e caminhou até o recém-chegado. Aquilo não era nada típico dele.
– Quem é você? – perguntou Patrick.
– Esse é o Hari – respondeu Zoe. – Ele também vai morar aqui.
Patrick analisou o garoto com certa desconfiança. Hari olhou nervoso para Zoe, mas ela sorriu para ele como quem diz que tudo ficaria bem.
– Hum – disse Patrick por fim. – Você não fala muito. Isso é bom. Eu gosto MUITO de falar. Você gosta de dinossauros?
Hari confirmou com a cabeça.
– Certo – prosseguiu Patrick, despreocupado. – Duas torradas, Babá Sete.
– Bem, espere um segundo – Zoe começou a dizer, então avistou outra figura caminhando na direção da porta da cozinha. – Bom dia! – exclamou ela.
Ela gostaria que a Sra. MacGlone estivesse ali. Era esquisito demais ter que fazer aquilo sozinha. Um pensamento assustador lhe ocorreu – que a Sra. MacGlone tivesse ido embora de vez e que ela nunca mais a veria e precisaria se virar sozinha –, mas afastou-o de sua mente.
A garota parecia ter por volta de 10 anos, sem exibir qualquer sinal de puberdade, mas já alta e esguia, como um bambu. Tinha cabelos escuros compridos que precisavam ser lavados com urgência e um rosto incrivelmente pálido, com um queixo comprido e pontudo. Não era um rosto exatamente bonito na primeira vez que você via, mas ela parecia interessante, inquisitiva e diferente. Estava usando uma camisola branca que se arrastava atrás dela; a imagem ficava bastante sinistra junto com os cabelos escuros.
– Sou a Zoe.
A garota fungou, fitou-a de um jeito rude e não respondeu.
– Essa é a Mary – apresentou Patrick. – Ela é péssima.
– Cala a boca, peste – ralhou a menina, com um sotaque local forte.
– Tá vendo? – disse Patrick.
Ela foi até um armário que Zoe não tinha visto antes e pegou uma caixa de cereal. Depois saiu pela porta e voltou com uma caixa de leite UHT de péssima qualidade.
– Então, eu serei a nova au pair de vocês.
– Tenho 9 anos – disse Mary secamente. – Não preciso de uma au pair.
– Precisa, sim – retrucou Patrick. – Você é in-COR-rigível.
– Você nem sabe o que isso significa, peste, então cala a boca.
– Pra falar a verdade, eu sei. Significa horrível, má e ruim com os irmãos.
– Ah, bom, nesse caso, é uma coisa boa – retorquiu Mary, derramando metade do leite no cereal e fazendo transbordar a tigela na mesa, sem se importar nem um pouco em limpar.
– Gostei da casa de vocês – disse Zoe vagamente.
Mary lhe lançou um olhar que deixou Zoe chocada com o fato de ela ter apenas 9 anos, e não 14, com os hormônios à flor da pele.
– Você pode pagar pra fazer uma visita quatro vezes por ano – sibilou ela. – Por que não faz isso?
Hari levantou-se com um cobertor velho e surrado que ele gostava de carregar por aí em caso de emergência e levou até o rosto, colocando o polegar na boca.
– E este é o meu filho, Hari, que também vai morar aqui.
Mary também ignorou Hari completamente – o que deixou Zoe muito brava –, pegou o celular e começou a digitar de um jeito bem ostensivo. Era algo inesperadamente moderno para a garota fazer em uma casa tão velha.
Depois de um instante, Patrick fez a mesma coisa e os dois ficaram completamente absortos em seus celulares enquanto Zoe se movimentava, pegando um pouco de cereal para Hari – Mary lançou outro olhar para ela, como se ela estivesse roubando – e tirando xícaras e pratos sujos da frente. Para seu pavor, parecia não haver um lava-louça. Como é que uma família poderia sobreviver sem um lava-louça? Zoe suspirou. O sol ainda estava entrando pelas janelas. Ela pegou a mão de Hari e colocou o tablet de lado.
– Deixa a mamãe te mostrar uma coisa – sussurrou.