Um novo capítulo para o amor
Capítulo vinte e oito
Zoe logo descobriu que, se acordasse bem cedo, ao menos poderia finalmente usufruir da água quente. Sem a menor vontade de ser contida, ela encheu a banheira o máximo possível e acomodou-se dentro dela por dez minutos, sozinha, inspirando o vapor escaldante e luxuoso até esfriar o suficiente para que Hari pudesse entrar.
Depois do banho, ela se sentia um pouquinho melhor. Aí sentiu-se mal por ter usado tanta água quente. Talvez o Patrick pudesse usar a banheira depois dela (ela sugeriu isso a ele, que era da opinião de que, na verdade, não tomar banho algum era a atitude mais gentil a se tomar com relação ao Patrick).
A Sra. MacGlone tinha voltado, graças a Deus, e pareceu surpresa ao descobrir que ninguém havia botado fogo na casa durante a noite.
– Você não devia ter usado aquele fogão – repreendeu ela. – Não é seguro.
– Mas como é que eu vou cozinhar para as crianças?
– Ah, elas não se importam. Ficam perfeitamente contentes em comer banana. – Ela tirou o casaco. – Certo. Melhor me apressar. É dia de limpar os candelabros e preciso varrer a lareira do salão de baile.
Zoe a observou se afastar. Ela supunha – e estava certa, aliás – que a Sra. MacGlone já estava lá há muito tempo (ela apenas subestimou, contudo, o período de tempo: a Sra. MacGlone vivia lá desde que tinha 14 anos) e que seria como tentar mudar o clima. O dinheiro para as compras ficava guardado em uma caixa de biscoitos – Zoe devia pegá-lo por conta para fazer compras e então receberia um cheque ao final de cada mês como remuneração. Zoe não via um cheque há anos. Ela sugerira uma transferência bancária e a Sra. MacGlone a encarou como se ela tivesse sugerido receber em bitcoins, então ela concordara em ser paga em cheque, embora a casa parecesse estar bem longe do banco mais próximo.
As crianças ainda estavam na cozinha, ainda usando roupas esfarrapadas, ainda vidradas em seus aparelhos eletrônicos, e Zoe se perguntou se elas sequer teriam ido para a cama.
Ela estava pegando a chaleira pesada quando quase foi derrubada por algo gigante e peludo que parecia ter surgido do nada. Ela devia ter se assustado mais do que imaginava e talvez tivesse soltado um grito, porque Mary riu desdenhosamente quando ela se sobressaltou.
– Porteous! – gritou Patrick, saltando da cadeira e correndo até o bicho, que mais parecia ter saído das páginas do clássico infantil Hairy Maclary, um cachorro que tinha tanto pelo na cabeça que era difícil saber em qual lado era a cara, e tinha uns dreadlocks bastante impressionantes. Zoe piscou. Não era possível, mas ele parecia estar saltitando em uma nuvem preta de poeira, como o Chiqueirinho, da Turma do Snoopy. A Sra. MacGlone se mantinha impassível.
– Obrigado por voltar, Porteous – disse Patrick alegremente, fazendo com que sua camiseta bastante branca não ficasse mais tão branca assim.
Hari deu um pulo e se agarrou aos joelhos de Zoe desajeitadamente.
– Esse cachorro é seu? – perguntou Zoe. – Eu não sabia que vocês tinham um cachorro.
Ela não estava muito acostumada com cachorros e deu um passo para trás. Seus vizinhos tinham um staffbull grandalhão com cara de bravo e ela tinha um medinho permanente de que o cachorro fosse subir as escadas correndo e arrancar cada membro do corpinho de Hari, embora os donos insistissem que Sabre era amigável e só se agitava um pouquinho de alegria toda vez que via o bebê.
Zoe tentava acreditar nisso e tinha certeza de que era verdade; além do quê, ela tinha ouvido muito sobre como staffbulls eram cachorros maravilhosos, e geralmente gostava de cachorros, mas não podia negar que, no fundo, observava as mandíbulas incrivelmente poderosas dele e a forma como rosnava toda vez que eles passavam pelo corredor, e não conseguia evitar, mesmo que subliminarmente, demonstrar seu medo para o filho. Hari, portanto, tinha pavor de cachorros, por mais que Zoe tentasse encorajá-lo a acariciar os filhotes claramente inofensivos no parque; os dóceis galgos do final da rua; o cockapoo de sua amiga Mindy. Nada o convencia. Hari começava a tremer só de ver um rabo. Zoe frequentemente pensava que era outra esfera em que ela estava falhando com seu filho.
– É claro! – respondeu Patrick. – Ele é o meu cachorro.
E abraçou o pescoço do cachorro, que ficou sentado ali, ofegando alegremente. Zoe reparou que ele tinha migalhas de torrada por toda a cara. Aquilo era ridículo. A família inteira era viciada em glúten.
– Ele não é seu cachorro.
Mary estava com uma aparência dramática aquela manhã, com os longos cabelos escuros esvoaçando atrás dela e uma camisola branca. Zoe achava que garotinhas que viviam em casarões não deveriam usar camisolas brancas. Era simplesmente assustador, especialmente com as olheiras debaixo dos olhos e a expressão cansada.
– Bom dia, Mary! – disse Zoe, tentando recomeçar do zero. – Você dormiu bem essa noite?
Mary a ignorou completamente e entrou na cozinha com pés descalços silenciosos, o que não amenizava em nada sua aparência de fantasma. Ela ficou parada à porta dos fundos, então saiu por ela em meio à manhã enevoada, com os pés deixando marcas molhadas na grama demasiado orvalhada, na direção do prado. Zoe a observou se afastar com tristeza.
– Certo – disse Zoe. – Hum. Ela vai se encontrar com amigos?
– Nós não temos amigos – informou Patrick em voz alta, sem parecer nem um pouco incomodado. Ele se abaixou. – Só o Porteous, que me ama.
– Tire já esse bicho daqui – ralhou a Sra. MacGlone. – Ele está imundo.
– Então, ele não é o seu cachorro?
– Ele é do Wilby, o jardineiro. O Patrick não entendeu direito e agora…
– EU TE AMO TANTO, MEU CACHORRINHO.
Hari se inclinou para a frente.
– Quer conhecer o meu cachorrinho?
Patrick esticou o braço na direção da mesa e pegou outra torrada, que já estava fazendo Porteous salivar. Hari deu mais um passo adiante. Zoe observou, fascinada e levemente surpresa. Hari ainda estava segurando sua calça jeans com uma mão, mas a outra estava esticada.
– Ele é o MELHOR cachorro – afirmou Patrick.
Hari piscou quando Patrick lhe ofereceu um pedaço de torrada para dar ao bicho. Todos na cozinha ficaram em silêncio enquanto Hari, bem lentamente e com a mão trêmula, estendia os dedinhos que seguravam a torrada.
Zoe prendeu a respiração enquanto Porteous virava sua grande cabeça peluda e, com uma única bocada, engolia a torrada, lambendo a boca e estalando a língua, e Hari pulava de surpresa e então – um som muito raro – emitia um ruído que apenas Zoe reconheceu como uma risada. Ela arfou e o pegou e deu um beijo em sua testa, enquanto ele se debatia para se desvencilhar dela.