Um novo capítulo para o amor

Jenny Colgan · Capítulo 47 de 50

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Um novo capítulo para o amor

Capítulo quarenta e quatro

 

 

Zoe foi em frente. Encomendou todos os livros sobre o lago Ness que conseguiu encontrar no catálogo e começou a levá-los ao centro de visitantes. Ela nem sempre levava a van de volta para a fazenda de Lennox, porque ficava mais longe, mas também porque não queria que ele desconfiasse e perguntasse por que o para-brisa era novo. E por causa da galinha.

Além disso, perto do hotel havia um parquinho pequeno e um pouco destruído, e, enquanto o tempo permanecesse ensolarado e bonito, ela podia levar Hari junto e fingir que não tinha problema que ele não fosse à creche, e logo ela percebeu que fazia todo o sentido que Patrick fosse junto, e os dois ficavam chutando folhas e escalando os brinquedos e simplesmente adoravam que as opções de almoço se limitassem a sanduíche de presunto, de queijo ou de presunto e queijo.

Murdo volta e meia aparecia com seu barco e Agnieszka também chegava para bater papo, e era tão bom ter a companhia de adultos para variar um pouco – especialmente de adultos que não viviam irritados ou guardando segredos – que Zoe conseguia sentar em um dos bancos com vista para o lago entre um cliente e outro e ouvir as crianças pisando nas folhas secas, observar o sol brilhando na água e tomar uma xícara de chá – ela tinha convencido Agnieszka de que talvez fosse uma boa ideia comprar copos descartáveis e começar a servir chá, e, de fato, foi um sucesso imediato –, e ela suspirava, olhava para o caixa da van e sentia-se, só por um instante, bastante satisfeita consigo mesma.

 

No domingo seguinte, Zoe levou Hari com ela para uma visita ao hospital. Nina parecia cansada, mas, fora isso, bastante bem, com o barrigão enorme e protuberante sob o pijama solto.

– Como tem passado? – perguntou Zoe.

– Obrigada pelos livros – agradeceu Nina, apontando para a fileira com umas quatrocentas obras de Agatha Christie que Zoe tinha deixado para ela na semana anterior.

– Vou levar tudo embora – disse Zoe. – Caso contrário, você vai começar a acusar pessoas aleatórias de assassinato.

– É sempre quem a gente menos espera – observou Nina. – Aliás, você por acaso descobriu o que aconteceu com a esposa do Ramsay? Segundo a Agatha Christie, ela com certeza está morta e o assassino é alguém inesperado.

Zoe deu de ombros.

– Certo – disse ela. – Foi o jardineiro.

– Ah, não. É sempre o jardineiro – ponderou Nina.

Zoe desempacotou outra pilha de livros.

– Certo. Comece pela série do inspetor Rebus. Os assassinatos são bem mais sombrios.

– Não sei se isso é melhor ou pior. – Nina suspirou e se mexeu, um tanto desconfortável. – Certo, vamos dar uma olhada nos números.

Ela não tinha muitas esperanças nesse sentido – na verdade, estava morrendo de medo de ver o saldo – e dizia a si mesma que, se rendesse o suficiente para pagar a gasolina, as compras de livros e o salário de Zoe, estaria de ótimo tamanho.

Assim, ela ficou positivamente surpresa – positivamente surpresa e sentindo, não dava para negar, uma pontada de inveja.

Nina se orgulhava de sua habilidade de encontrar o livro certo para a pessoa certa; de saber instintivamente o que combinava com as pessoas – onde elas encontrariam conforto, consolo, riso ou sustos. O humor para a leitura mudava como o tempo. Às vezes as pessoas queriam algo profundo em que se perder, um mundo completamente diferente. Outras vezes, queriam algo divertido. Por vezes, queriam simplesmente ler sobre algo terrível que acontecera com alguém que não elas. Fazia parte de ser leitor o fato de os livros acompanharem seu humor, e o maior dom de Nina era combinar um com o outro, como um sommelier que harmoniza a carta de vinhos com o cardápio.

– É impressionante que você tenha conseguido indicar os livros certos para tantas pessoas.

– Hum. Sim. Pura sorte, acho – retorquiu Zoe.

Ela se sentia secretamente culpada pelo fato de que boa parte das vendas era de livros de colorir e histórias bobas sobre a existência real do monstro do lago Ness. “Suvenir barato”, ela sabia que Nina iria dizer, e suspeitava que teria certa razão.

Por outro lado, pensou Zoe, como que se rebelando, ela estava dando lucro. Não sabia ao certo se Nina tinha sido pobre algum dia na vida. Pobre de verdade. Se havia uma possibilidade de lucro, era um absurdo deixar passar. Era isso que ela justificava para si mesma. Além do quê, ela precisava pagar pelo conserto do para-brisa.

– Eu te mandei os papéis dos pedidos – lembrou Zoe rapidamente.

Nina não os tinha lido com muita atenção porque estava particularmente absorta no novo livro de Robert Galbraith.

– Certo – disse ela.

– E eu tenho ido ao centro de visitantes…

– No lago?

– Sim… Não o principal, o outro.

Nina franziu o cenho.

– Você... tem vendido lá? – perguntou, instantaneamente desconfiada. – Você transformou a van em uma loja de bugigangas bregas e baratas pros bandos de turistas?

– Quantos Bs – observou Zoe. – E não! Só estou… vendendo coisas que as pessoas parecem gostar!

– As pessoas gostam de açúcar refinado e heroína – ponderou Nina. – Você também está vendendo isso?

Zoe mordeu o lábio, desconfortável. Ela realmente pensava que tinha tido uma ideia boa e lucrativa. O pessoal dos ônibus adorava a linda van azul, comprava suvenires para levar para casa e todo mundo ficava feliz. Ela também tinha considerado vender docinhos de leite, que eram, por definição, quadradinhos de açúcar refinado.

– Então, se você tem ficado o tempo todo em pontos turísticos, o que está acontecendo com meus clientes regulares? – perguntou Nina. – Passei dois anos juntando uma clientela por toda a região. Eles confiam em mim. Se a van desaparecer, eles vão voltar a comprar livros de outra forma... ou parar de ler completamente!

– Eu sei bem disso – respondeu Zoe. – Porque eles vinham à van e diziam: “Quero aquele livro vermelho novo… A Nina sabe de qual estou falando.” Você não anotou nada disso?

– Anotei, sim – ralhou Nina. – É claro que anotei tudo que eu esperava que fosse acontecer quando minha vida virasse de cabeça pra baixo e eu fosse obrigada a ficar três meses deitada numa cama a mais de vinte quilômetros da minha casa.

Nina não conseguiu evitar sentir-se um pouco aborrecida com aquilo e Zoe foi sentar-se ao lado dela. Ela sabia como era se sentir sozinha durante uma gravidez.

– Desculpe – disse, abrindo a bolsa. – Aqui, eu trouxe pra você…

Ela tirou um exemplar de O diário de uma babá e outro de O bebê de Rosemary. Nina olhou para ela.

– O que foi? – perguntou Zoe. – Sempre ajuda saber que não importa quão mal você esteja, sempre tem alguém pior. Também trouxe Precisamos falar sobre o Kevin.

– Ah, esse eu já li.

– Sim. Bom. Leia de novo. Acredite em mim, você vai ter outra impressão sobre ele agora.

Nina pegou os livros com um sorriso.

– Obrigada. Mas… estou um pouco preocupada com o que você está fazendo.

– O quê? Cuidando do seu trabalho e ganhando dinheiro? – perguntou Zoe secamente.

– Eu só… Eu só preferiria que continuasse da maneira que era.

Zoe piscou.

– Certo. Pode deixar.

Mas ao sair do hospital ela não pôde deixar de se sentir um pouco rebelde. Ela estava fazendo algo bom. Por que Nina não conseguia enxergar isso?