Um novo capítulo para o amor
Capítulo onze
Surinder gostava de pensar em si mesma como uma espécie de fada madrinha por resolver tudo – um anjo organizador incrível.
Não era bem assim que todas as outras pessoas pensavam em si mesmas. Todas as demais achavam que estavam apenas fazendo o melhor que podiam em uma situação bem ruim.
Para começar, Zoe tinha se metido em uma sinuca de bico ao conversar nervosa com Nina, tentando ficar de olho em Hari, que estava brincando com o tablet. Nina lhe perguntou o que ela havia lido recentemente e lhe deu um branco total e completo.
A única coisa que lhe veio à cabeça foi O carteiro chegou, que Hari tinha amado e a fazia pegar toda vez que eles iam à biblioteca. O fato de Nina ser superfã do livro e vender vários exemplares dele significava que essa teria sido uma boa resposta – melhor do que Zoe gaguejando, tentando desesperadamente pensar em alguma coisa e, de alguma forma, acabar mencionando uma trilogia erótica que havia estourado alguns anos antes. Ela quase conseguiu ouvir sua nova chefe em potencial dando um sorriso constrangido do outro lado da linha.
Na segunda entrevista, ela mal teve chance de abrir a boca. A Sra. MacGlone, no fim das contas, era a governanta da casa onde ela iria morar. Ela falou sem parar, mas em um tom prático. Ela estaria lá durante o dia, mas as manhãs e as noites seriam função de Zoe e, em troca, ela ganharia moradia e uma pequena remuneração. Eles também proveriam alimentação, mas a Sra. MacGlone disse, como uma espécie de desafio, que “todos se contentavam com uma comida simples”. A Sra. MacGlone limpava a casa e lavava a roupa, mas não lavaria as roupas de Zoe – o que ela deixou bem claro – e solicitaria sua ajuda quando necessário.
– E me conte sobre a família – pediu Zoe, uma pergunta que julgava totalmente inofensiva.
A longa pausa deu a entender que, talvez, não fosse esse o caso.
– Certo. Ramsay é o pai – explicou a Sra. MacGlone. Seu sotaque escocês era forte. – Ele trabalha o tempo todo. Se você não quer se meter em encrenca, não vai perturbá-lo.
– Certo – respondeu Zoe. – E a mãe?
– A moça não te contou? – exclamou a Sra. MacGlone, resmungando baixinho. – Ah, vocês, ingleses. Não entendem nada.
Zoe piscou, tentando entender que diabos ela quis dizer com aquilo.
– A mãe foi embora. Há dois anos. É por isso que precisamos de você. Mas não há necessidade de tocar nesse assunto, eles só ficam chateados.
– Minha nossa. Por que…?
– Eu disse que não há necessidade de tocar nesse assunto. Nem com o patrão, ele não gosta.
– Está bem. Entendido – mentiu Zoe, que não tinha entendido quase nada. – E as crianças?
– Shackleton tem 12 anos, Mary tem 9 e Patrick, 5.
– Ah, ótimo! – exclamou Zoe, entusiasmada com a ideia de um amiguinho para Hari. – O meu menino tem 4.
– Certo. Bem, o Patrick não é um garoto normal de 5 anos.
– Hari também não é um garoto normal de 4 anos – retrucou Zoe baixinho, para que ele não ouvisse.
A Sra. MacGlone bufou, como que duvidando.
– Está certo, então – disse ela. – Seis semanas são o período de experiência.
Zoe se espantou.
– O pat… O pai deles não quer conversar comigo?
A Sra. MacGlone suspirou profundamente.
– Ele confia em mim.
– É claro – aquiesceu Zoe de imediato. – É claro.
E ficou acertado.
Zoe podia odiar seu locador, que já há algum tempo tecia comentários nefastos sobre o aluguel, mas sua gratidão a fez querer beijá-lo quando ele deu uma olhada na quitinete pavorosa, passando os olhos rapidamente pela mancha de infiltração que não parava de crescer, e então, para seu total espanto, lhe devolveu todo o dinheiro da caução.
Tudo tinha acontecido rápido demais. Surinder simplesmente tinha… Tinha algo de especial. Ela tinha rebatido todas as objeções e preocupações de Zoe com o argumento infalível de que ela certamente não poderia continuar naquela quitinete, não é mesmo, e havia um quarto livre em uma casa, um trabalhinho como babá, um trabalhinho como vendedora de livros – só uma coisinha aqui e ali, ela teria boa parte do tempo livre – e a Escócia contava com creches gratuitas. Como ela poderia contra-argumentar?
E que escolha tinha? Jaz já tinha ido embora; ele estava, segundo seu Instagram, em Ibiza, “arranjando uns trampos” – Zoe não sabia se esses trabalhos eram pagos ou não, mas suspeitava que não – e postando fotos diante do sol poente ou nascente, usando uma seleção variada tanto de chapéus ridículos quanto de mulheres novinhas.
O reembolso da caução foi suficiente para bancar as passagens para o norte – uma maratona de dezessete horas dentro do ônibus para a qual ela não estava nem um pouco animada –, além de um casaco novo para Hari; e, para sua imensa alegria, o corredor de roupas do supermercado estava em liquidação, então ela também conseguiu comprar dois suéteres e uma jaqueta Puffa falsificada baratinha. As pessoas só falavam do frio que fazia na Escócia. Bem, do frio e do monstro do lago Ness, visto que era para lá que eles estavam se mudando. Toda vez que alguém perguntava do monstro, os olhos de Hari se arregalavam e ele se escondia atrás do futon, então ela pediu às pessoas que não perguntassem mais aquilo, mas seu pedido foi em vão. Na verdade, ela também não queria que as pessoas soubessem que estava de mudança, caso acabasse tendo que retornar dali a seis semanas, depois de tudo ter dado errado. Mas ela não podia pensar daquele jeito.
Ela iria conseguir. Iria se sair superbem. Guardaria uma grana até conseguir se restabelecer, se dedicaria de corpo e alma. E as pobres criancinhas sem mãe! Como elas ficariam felizes por tê-la por perto. Obviamente, não poderia substituir a progenitora, mas poderia melhorar a vida delas. Tudo correria às mil maravilhas. Pela primeira vez em muito tempo, Zoe estava otimista e permitiu que sua imaginação corresse solta.
Contudo, ela não conseguiu suportar o alívio na voz de Jaz quando ele descobriu que Surinder tinha dado um jeito em tudo. Ela percebeu que nutria, bem no fundo de sua mente, enterrada tão fundo que ela não conseguia admitir nem para si mesma, uma esperançazinha minúscula de que Jaz dissesse: “Olha, eu andei pensando. Vou largar mão dessa história de ser DJ, arranjar um emprego decente e ser um pai de família. E que tal se a gente arranjasse um lugar legal pra morarmos juntos? Sou um novo homem.”
Mas é claro que ele não faria isso – ele simplesmente não conseguia ser um novo homem. A maternidade a havia transformado por completo, mas não fizera nem um arranhão em Jaz, exceto, de alguma forma, por toda a inconveniência que causara a ele – o fato de que ela e Hari eram intrusos na vida de playboy internacional que ele tinha em mente.
Embora tivesse ido vê-los naquele fim de semana, Jaz nem sequer se oferecera para levá-los até a Escócia no maldito carro dele. Ele resmungara algo sobre passar lá para se despedir, fazendo Zoe ponderar que ela só estava se mudando para a Escócia, de modo que ele continuaria podendo visitá-los nos fins de semana; ele pareceu bastante incerto; ela, bastante irritada.
De toda forma, ele obviamente tinha se sentido mal, porque aparecera na quitinete na última noite, quando tudo já estava encaixotado, exceto pelos edredons e pela chaleira, levando comida indiana – um quitute raro. Jaz sentou Hari em seu colo e permitiu que ele brincasse com seu celular durante toda a noite, e a paciência gentil dele com o garoto e a devoção silenciosa e intensa de Hari pelo pai partiram o coração de Zoe novamente.
Zoe olhou pela última vez por entre as cortinas de filó encardidas que não ficavam brancas, não importava quanto ela as alvejasse, para a rua desinteressante, com suas construções baixas, o lixo se esparramando pela via, adolescentes berrando na esquina, como faziam em todas as noites quentes, luzes escorrendo pelo dreno principal no final da rua, que, naquele momento, era uma confusão de restaurantes de frango frito, brechós e vendedores de cigarros nada confiáveis, mas que, se seu locador estivesse correto, estava prestes a se tornar a maior sensação desde a “descoberta” do distrito londrino de Hackney.
Não era grande coisa, ela sabia. Na verdade, ela odiava tudo: o cômodo xexelento, o carpete gasto, as pilhas de correspondências de outras pessoas que se acumulavam diante da ruidosa porta de entrada, os montes de panfletos de pizzarias, propaganda política e lixo em geral, e a briga eterna pelo pequenino espaço lá embaixo, na frente dos medidores de energia, entre as bicicletas e o carrinho.
Mas era seu lar. Para lá que ela foi quando saiu do hospital, acompanhada por um Jaz aparentemente ansioso, que ficava olhando o celular sem parar, erguendo as mãos com uma expressão nervosa e agitando os braços, mas sem, na verdade, fazer coisa alguma; onde seus amigos, nas primeiras semanas, tinham ido visitá-los e comentado a fofura do bebê, mas que foram parando de aparecer à medida que ela não pôde mais sair para as baladas, despedidas de solteira ou festas sem antes se desdobrar para encontrar uma babá; o lugar que Jaz passara a frequentar cada vez menos até parar de atender o telefone; onde ela ficava sentada, depois de sua mãe passar lá por meia horinha com um pacote de biscoitos simples, quando ainda morava em Londres, olhando depreciativamente para a roupa lavada – como é que um bebê tão pequeno podia sujar tanta roupa? Não havia onde pendurar; as peças ficavam espalhadas por todo lugar, até Zoe sentir que vivia em um antigo bazar –, e então os deixava novamente sozinhos, só eles dois.
Mas até mesmo aquele apartamento, com suas janelas barulhentas de vidro simples, a porta da frente escancarada, até mesmo aquele lugar era um lar. O único lar que Hari conhecia. E o que a aguardava era o desconhecido completo.
Zoe tentou não ficar zonza ao pensar em como seria se aquilo não desse certo enquanto colocava a última caixa no carro de Jaz – ele havia, ao menos, após muitos resmungos, concordado em guardar algumas coisas para ela. Todas as suas amigas achavam que ela estava louca. É claro que todas as suas amigas tinham situações de moradia confortáveis, dividindo apartamentos ou vivendo em casas próprias com seus parceiros.
E parte da culpa também era sua. Ela estampava uma expressão alegre no rosto nas raras ocasiões em que se aventurava a sair; abria um sorriso, dizia que estava tudo bem, guardava dinheiro para poder pagar a sua parte da conta e fingia que não se importava com a grana.
Ela lembrou a ocasião dois dias antes, quando sua mãe ficou, pela primeira vez, com Hari e ela foi ao pub com umas amigas para se despedir. Ela devia ter sido honesta e contado a elas como as coisas estavam difíceis. Depois de algumas garrafas de um prosecco (mais ou menos) barato, Tamali confessou que não sentia mais tesão pelo marido depois de ter tido bebê, Yasmin afirmou que estava achando a maternidade um tédio, Cady revelou que eles estavam bastante endividados e, por algum motivo – possivelmente porque estava indo embora –, Zoe se sentiu totalmente oprimida por aquela avalanche de confissões cara a cara, um mundo inteiro de distância dos bebês e das vidas perfeitas de todos no Facebook e no Instagram. Ela de repente percebeu o que tinha perdido, nos últimos quatro anos, ao simplesmente não contar a ninguém sobre como se sentia sozinha, como sentia falta de apoio, como tudo era muito mais difícil do que ela esperava. Nunca lhe ocorreu que outras mães, independentemente de sua situação, pudessem se sentir exatamente da mesma forma.
A noite tinha terminado com uma rodada embriagada de abraços e declarações de amor umas pelas outras, e Zoe se perguntou por que motivo deixaria aquelas mulheres maravilhosas para trás e prometeu manter contato.
Naquela manhã ela se sentia muito mal, e também apavorada. De repente a feia e cinzenta Londres parecia segura, e partir para o meio do nada parecia… absurdo. Todas as meninas tinham reiterado como ela era corajosa por recomeçar, o que não a fez se sentir nem um pouco corajosa; na verdade, ela se sentiu bastante tola. Mas era aquilo. Lá estava ela. Jaz estava ansioso para partir antes que os “malas do estacionamento” aparecessem – algo que parecia preocupá-lo mais do que o fato de que ela estava se mudando com o filho dele para outro país.
Hari adorava o carro de Jaz e parecia, naquele momento, estar morrendo de medo de não ter permissão para dar uma volta nele. Jaz não conseguia olhar para Zoe. Ele tinha consciência, em algum nível, de que aquela era uma falha deles dois em administrar as coisas mais básicas – ter um filho, ficar juntos, criá-lo em um lugar confortável, quente e seguro. Nenhum dos dois disse muita coisa além de prometer ver como as seis semanas correriam.
O que, exatamente, Zoe faria se aquelas seis semanas fossem um desastre, ela não conseguia suportar pensar, não naquele instante. Precisaria viver um dia de cada vez.
– Então é isso – resmungou Jaz. Ele estava usando um conjunto esportivo de agasalho e calça de camurça marrom que ficava horroroso nele, o que provavelmente significava que tinha custado uma fortuna. – Até mais, meu chapa.
Ele deu um soquinho de leve no braço de Hari e um sorriso lânguido na direção de Zoe. Ela se lembrou da primeira noite em que o vira naquele bar, logo após um encontro terrível com outro cara, com a cabeça jogada para trás durante uma gargalhada, os dentes à mostra. Ele a tinha visto no tal encontro enquanto estava com os amigos – tinha percebido que não correra nada bem (o homem com quem ela se encontrara, cujo nome ela já não lembrava, tinha ficado vermelho de raiva feito um pimentão depois que ela discordou levemente das visões políticas dele, e ela estremeceu quando ele lhe entregou a conta que esperava que eles dividissem enquanto estampava um sorriso fixo no rosto e olhava para o relógio dela). Quando o homem se levantou para ir ao banheiro, Jaz foi até ela.
– Não, né? – disse ele em um tom pretensioso, e Zoe ficara tão perplexa e aliviada que soltou uma gargalhada.
– Eu me arrumei e tudo! – protestou ela.
– Estou vendo – disse ele. – Mas ele parece uma fatia de presunto velho.
– Tem o mesmo cheiro também – complementou Zoe em um tom sinistro.
– Dispensa ele – instruiu Jaz. – E depois vem tomar alguma coisa com a gente.
Jaz estava com um grupo de amigos em um canto. Parecia muito mais divertido do que o encontro que Zoe estava tendo. Assim que o homem voltou, ela se levantou, sorriu como se estivesse em uma entrevista de emprego (o que não deixava de ser) e disse que tinha sido um prazer conhecê-lo e o tocou dali antes que ele tivesse a chance de lhe contar sobre a incrível teoria que tinha bolado no banheiro sobre por que as mulheres deveriam ser distribuídas igualitariamente entre os homens.
Jaz já estava com uma cerveja à sua espera. Cara presunçoso. Ela ficou extasiada.
E agora ali estavam eles. Ela provavelmente teria acabado melhor com o cara de presunto.
– Então, tchau – disse ela. – Nos falamos em breve.
– Hum – murmurou ele, olhando para os dois lados da rua em busca dos guardinhas de trânsito. – É. Tá bem. Beleza.
Então ele foi para o carro. No último instante, bem quando estava abrindo a porta, voltou rapidamente, sem olhar para Zoe, pegou o filho, ergueu-o e enterrou o rosto no pescocinho do garoto.
Mas logo o largou no chão e foi embora em meio a uma nuvem de fumaça. Hari acenou alegremente. Ele estava acostumado a ver o pai ir embora.