Um novo capítulo para o amor

Jenny Colgan · Capítulo 49 de 50

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Um novo capítulo para o amor

Capítulo quarenta e seis

 

 

O mais estranho de tudo era que Zoe tinha a sensação genuína de que as coisas estavam melhorando.

Ela não percebia que, muitas vezes, era justamente quando as pessoas baixavam a guarda, quando sentiam que as coisas estavam ficando um pouquinho melhores, que tudo começava a desandar.

O outono se arrastou, cada dia exacerbava ainda mais sua beleza. O sol tinha perdurado durante boa parte de setembro e, pela primeira vez na vida, Zoe estava observando as estações mudarem dia após dia; era quase possível ver os padrões das folhas ficando dourados e alaranjados. Ela apontou as mudanças para Hari, e era a coisa mais estranha: antes irritada com o quarto minúsculo no sótão, ela agora adorava o fato de eles estarem instalados em meio às copas das árvores, quase como se tivessem seu ninho, ouvindo o assobio das folhas caindo e observando as grandes nuvens de pássaros partirem em suas longas jornadas rumo ao sul. Zoe tinha ouvido falar vagamente da migração dos pássaros em alguma sala de aula, mas nunca tinha visto as grandes concentrações de criaturas grasnindo e subindo pelos ares, uma multidão de indivíduos, cada um com um conhecimento oculto dentro de si, um instinto coletivo que levaria todos eles até o Marrocos. Eles os observaram e ficaram fascinados, em parte com a cena, em parte com a ideia de que ela estava se tornando uma observadora de pássaros. Suas faxinas haviam revelado o paradeiro de vários binóculos, e ela quase não sentiu culpa por surrupiar um deles – afinal de contas, como disse a si mesma, não poderia ser considerado roubo se ela não o tirasse da casa –, e Hari podia ficar sentado por horas, depois que ela lhe ensinou a parar de brincar com a roda de ajuste do foco, observando a águia retornar para caçar minhocas na grama, espreitando como o líder de uma gangue em um pub, como que para afugentar qualquer outro pássaro.

Ela encontrou uns guias lindamente ilustrados sobre como avistar pássaros e fez um estoque. De novo não caíram no gosto dos moradores do vilarejo, porque aquelas pessoas haviam crescido naquela terra e não precisavam de alguém que lhes ensinasse a diferença entre um corvo e um estorninho. Mas, no centro de visitantes, foram sucesso absoluto. Se você ficasse bem quietinho, conseguiria ver as garças sentadas, alertas, gloriosas, como que duvidando completamente de que qualquer outra criatura pudesse se aproximar de sua beleza e graça de bailarina, e então abrindo as asas magníficas, esticando-as e sobrevoando o lago como Rudolf Nureyev.

Com a viagem de quatro horas de carro que muitos turistas faziam para retornar a Glasgow ou a Edimburgo, os guias para observadores foram um sucesso tremendo e, de novo, Zoe fez mais um pedido sem contar a Nina exatamente o que estava aprontando. Ela percebeu, novamente, que estava agindo em oposição completa às instruções que recebera, que estava desobedecendo descaradamente a sua chefe, que estava no hospital, mas ela pensaria nisso só depois, pois tinha noventa milhões de problemas mais urgentes e, naquele momento, o fato de estar ganhando dinheiro e conduzindo o negócio de maneira bem-sucedida era um ponto tão positivo que ela não conseguia suportar pensar no assunto.

Mas, em The Beeches, embora não fosse exatamente um poço de paz e felicidade, as coisas pareciam… tranquilas. Havia ordem, rotina. As crianças precisavam sair da casa, essa era a nova regra, então não ficavam simplesmente sentadas lá dentro, causando transtornos para a Sra. MacGlone. Elas também precisavam limpar os próprios quartos e levar suas roupas para lavar e buscá-las depois.

Houve várias revoltas e alguns xingamentos, mas Zoe estava irredutível. Eles podiam ter tido seis au pair antes dela, mas poucas tiveram que lidar com tanta intransigência quanto ela, com toda a preparação como cuidadora de crianças que ela tivera em Londres, e ela estava resolutamente inabalável, pois também concluía, dia após dia, que a família estaria cada vez menos propensa a querer encontrar outra pessoa, independentemente de quanto a Sra. MacGlone a detestasse.

E independentemente de quanto a Sra. MacGlone a detestasse, não importava muito, visto que os efeitos começaram a aparecer. Liberada da função de ter que ficar tomando conta das crianças na cozinha, ela agora tinha tempo para manter os cômodos de uso comum limpos. Agora que as venezianas ficavam abertas o tempo todo, era mais difícil ignorar o pó, e a quantidade de lixo que foi removida tornava o acesso aos cantinhos mais fácil. Toda a casa parecia melhor, mais cheia de vida, mais alegre.

E o melhor de tudo era que Zoe tinha conseguido seu lava-louça. Ela entregara o recibo da venda do livro, juntamente com a comissão nada desprezível de Ramsay, mostrando a língua para ele quando o encontrou no corredor.

Em um primeiro momento, ele pareceu contente, mas depois ficou cabisbaixo.

– O que foi? – indagou Zoe. – Não sabe o que é um lava-louça? Está com medo de ter que comprar um e acabar levando uma máquina de lavar? Uma máquina de lavar é um eletrodoméstico onde você coloca a roupa suja… – explicou ela.

– Sim, sim, já entendi – afirmou Ramsay. – Não, eu só estava pensando… Eu adorava aquele livro. Espero que tenha sido vendido pra alguém que realmente goste dele.

Zoe não contou que uma garota de um grupo de estudantes americanos de ascendência coreana o tinha comprado para a avó, que vivia em Seul e não falava uma palavra de inglês, mas gostava de “coisas velhas”.

– Claro que sim – mentiu ela descaradamente. – Foi uma pessoa que estudou a árvore genealógica da família e chegou até aquelas casas antigas e queria muito uma recordação.

– Jura? – exclamou Ramsay, parecendo extasiado. – Qual era o sobrenome?

– Mac-alguma-coisa – respondeu Zoe depressa. – Podemos ter nosso lava-louça agora?

Ramsay cumpriu sua palavra e mandou alguém comprar e instalar, e a diferença que o eletrodoméstico fez para a família – Patrick o achou mágico e ficava tentando ligá-lo com apenas uma xícara dentro – foi tamanha que Zoe tinha começado a refletir sobre como conseguiria negociar um micro-ondas, embora, lá no fundo, o que ela quisesse mesmo, mesmo era uma cafeteira. As coisas não pareciam tão ruins. Foi provavelmente por isso que tudo começou a desandar com a Mary.