Um novo capítulo para o amor
Capítulo dezesseis
Zoe continuou arrastando as malas e seguindo a Sra. MacGlone. Havia, no fim das contas, outra escadaria, atrás de uma porta oculta perto daquela de onde elas tinham saído, que subia em espiral por mais três andares, chegando a um corredor comprido no sótão.
A primeira porta estava aberta e, dentro, havia um quarto minúsculo com duas camas de solteiro e uma pequena pia. Não era totalmente diferente de uma cela. Uma janela alta exibia a escuridão total lá fora. Mesmo assim, imensamente aliviada, Zoe colocou Hari em uma das camas, onde ele logo se virou, roncou e adormeceu profundamente. Não havia um edredom, apenas um cobertor áspero, e ela o cobriu com ele. O quarto era frio.
– Onde fica…?
– O banheiro fica no final do corredor – interrompeu a Sra. MacGlone. – Amanhã eu te mostro todo o resto. Estou indo.
– Indo… a algum lugar?
– Tenho trabalhado no turno da noite desde que a outra moça foi embora – explicou a Sra. MacGlone. – Já estou farta. Volto pela manhã. Tchau.
Zoe a observou se afastar, percebendo, para seu horror, que não sabia exatamente onde ficava o final do corredor – os corredores pareciam se estender infinitamente e ela com certeza podia se perder. Ou ser morta por fantasmas, disse seu inconsciente, mas ela ignorou. Quase totalmente.
Além disso, ela estava morrendo de fome. De certa forma, percebeu que esperava encontrar… Certo: com toda a franqueza, Zoe esperava encontrar uma bela e aconchegante casa escocesa, com lareiras acesas e algum prato tradicional – haggis, talvez? Ela nunca tinha comido haggis. Talvez uma boa tigela de sopa, e crianças adoráveis superfelizes por vê-la, e um pai gentil agradecendo aos céus por ela estar ali, e um quarto aconchegante, e…
A torneira da pia gotejava solenemente. Algo nas profundezas rangeu. Zoe ligou o celular – estava sem sinal, mas ela podia colocar uma música, e colocou, baixinho, só para não se sentir totalmente sozinha.
Vasculhou a bolsa e encontrou, triunfante, meio pacote de biscoitos de arroz bem no fundo. Isso e um copo d’água surpreendentemente limpa e refrescante da velha torneira de bronze, ela supôs, teriam que dar para o gasto.
Certo. Olhou ao redor, para as camas sem lençol, o guarda-roupa antiquíssimo e vazio, a pequena janela. Olhe pelo lado positivo: era… diferente. Ela se sentia mais distante de qualquer coisa que já tinha tido em toda a sua vida.
Zoe sentou-se na cama. O colchão era tão fino que ela conseguia sentir as molas. Por quanto tempo precisaria olhar pelo lado positivo? Certo. O dia seguinte seria melhor. Não seria?