Um novo capítulo para o amor
Capítulo vinte e quatro
Elas estacionaram no centro de Kirrinfief, porque ali a van era aguardada na maioria das manhãs de quarta e seria uma oportunidade para Zoe conhecer os clientes e, talvez, dar um pulo na creche. Zoe andava para lá e para cá com o espanador – ela já tinha passado o aspirador na van lá na fazenda e Nina já estava ciente de como tê-la por perto seria útil, especialmente quando Zoe se esticava para alcançar as prateleiras de cima, o que Nina estava achando mais difícil a cada dia. Era como se, toda vez que ela se lembrava de onde ficava seu centro de gravidade, ela o perdesse novamente.
Zoe de repente ficou muito nervosa. Apesar de ter tido filho já havia alguns anos, ela ainda não conseguia usar as mesmas roupas de antes. O estranho era que tinha o mesmo peso. Só que ele parecia estar distribuído por lugares totalmente diferentes. E era complicado, sem ter trabalho nem dinheiro. Ela tinha ido a uma loja de departamentos comprar uma blusa preta simples, uma calça preta e estava tentando complementar com um cachecol esvoaçante de sua mãe, mas concluiu que, definitivamente, não era do tipo que usa cachecóis esvoaçantes, e, quando você não é do tipo que usa cachecóis esvoaçantes, tudo que um cachecol esvoaçante faz é irritar e atrapalhar, às vezes chegando a entrar na sua boca ou grudando no seu gloss. Então ela enfim o tirou e Hari o afanou para usar como o lenço do capitão de seu navio.
– Ah, olha – comentou Zoe. – Ele está fingindo que tem uma cobra de estimação. Ele é obcecado por cobras.
Nina sorriu educadamente.
– Estou bem? – perguntou Zoe.
Nina ergueu os olhos. Ela precisou mudar consideravelmente o guarda-roupa depois que se mudou para a Escócia, e para tudo, agora, precisava de várias camadas finas empilhadas e, ocasionalmente, arrancadas depressa quando o sol saía, finalizadas com uma capa de chuva amarela que ela adorava e Lennox achava hilária – embora ele gostasse dela porque, mesmo quando estava caminhando pelos morros, conseguia avistá-la a quilômetros de distância. Agora eram as camisetas mais elásticas que ela pudesse encontrar, todas já extremamente laceadas. Contudo a capa de chuva estava no limite.
Ela ergueu os olhos.
– Sim, você está bem – respondeu, mal olhando para Zoe. Então, ao reparar em sua expressão, disse: – Vai ficar tudo bem. É sério, o pessoal é bem legal.
Zoe sorriu corajosamente.
– Ótimo – disse ela.
E Nina abriu a porta de trás da van.
Do lado de fora as nuvens corriam pelo céu e Zoe fez uma pausa breve só para observá-las. Em Londres ela nunca reparava no céu. Era repleto de gruas, de torres que surgiam do nada, grandes caixas de vidro vazias, esperando sabe-se lá pelo que viveria lá dentro.
Ali era como se o céu estivesse se limpando perpetuamente; como se mudar a si mesmo por completo fosse tão fácil quanto apagar um desenho no Etch A Sketch. Toda vez que ela olhava para cima, estava completamente diferente. Ela sentiu as pontas dos dedos formigarem. Olhou para trás. Hari estava bem na van, olhando para o livro que ela tinha bastante certeza de que seria descontado de seu primeiro salário. Bem, lá ia ela. Respirou fundo enquanto Nina travava as rodas, abria a porta e mudava a placa de “Fechado” para “Aberto”. Ela olhou para Nina na esperança de conseguir um sorriso encorajador, mas Nina já estava olhando para a rua.
A primeira cliente avançava em ritmo lento e constante. Era uma senhora com óculos pequeninos acoplados a ela por uma longa corrente em torno de seu pescoço e ela exibia uma expressão levemente desaprovadora no rosto.
– Hum, olá – cumprimentou Zoe quando ela subiu os degraus.
A mulher olhou para ela, depois olhou para Nina.
– Quem é esta?
Nina suspirou. É claro que o primeiro cliente seria o mais difícil. É claro que seria a Sra. Wren, a temida matriarca da Laticínios Wren, que comandava a propriedade com punho de ferro e não tinha muita paciência com supermercados, bebedores de leite, intolerantes a lactose, lojas locais, bebedores de suco e, na verdade, praticamente qualquer pessoa no mundo que não fosse uma vaca. Ela fingia só gostar de livros sobre vacas, mas, na verdade, podia ser facilmente direcionada às mais tempestuosas histórias eróticas que Nina tivesse à disposição, e Nina tinha um estoque dessas obras justamente por esse motivo, muito embora, se qualquer outra pessoa desse uma espiada, logo perceberia que seria melhor mantê-las debaixo do balcão.
– Olá, Sra. Wren – disse Nina. – Esta é a Zoe. Ela vai me ajudar enquanto eu estiver de licença-maternidade.
A Sra. Wren bufou alto.
– Os bezerros simplesmente escorregam pra fora – disse ela. – Eles escorregam e as vacas seguem a vida.
Visto que as duas únicas coisas que as vacas tinham que seguir fazendo eram comer capim e dar leite, e as coisas que Nina precisava seguir fazendo somavam algumas centenas, ela não respondeu, apenas deu um sorriso gentil.
– Ah, bem, sabe como é – disse, sem se comprometer.
– Oi – repetiu Zoe. – Prazer em conhecê-la. A senhora está procurando algo em especial?
Um silêncio gelado se seguiu. Zoe piscou. Ela não sabia ao certo o que tinha feito de errado.
– Você tem – disse a Sra. Wren por fim – algum livro novo? Sobre vacas.
Zoe olhou para Nina. Ela não tinha visto nenhum nas prateleiras. A inspiração a iluminou e ela pegou um livro chamado Todos nós estamos completamente loucos.
– Talvez a senhora goste deste aqui – disse Zoe. Ela mesma tinha gostado muito. – Mas não é sobre vacas. É sobre uma macaca. Sobre uma garota que tem uma irmã que é uma macaca.
A Sra. Wren ficou olhando fixamente para ela.
– Uma garota. Com uma irmã. Que é uma macaca – repetiu, como se Zoe tivesse lhe recomendado um livro sobre como matar filhotinhos de cachorro.
– É bem engraçado – murmurou Zoe. – E triste. E é simplesmente… É muito bom.
A Sra. Wren se voltou para Nina.
– Uma garota cuja irmã é uma macaca.
Nina ergueu os braços.
– Ou… – disse ela, esticando-se na direção de um lugar escondido debaixo da prateleira, ofegando de leve enquanto pegava um livro preto ilustrado com uma jovem extremamente avantajada e de expressão chocada, com cabelos longos, usando um corselete e uma enorme saia cor-de-rosa, sendo observada ostensivamente por um homem em uma farda de soldado antiga. – Eu tenho… A paixão impossível do conde bilionário.
Zoe fez uma careta.
– Tem vacas nele? – perguntou a Sra. Wren muito agitada, pegando a carteira.
– Ele é bilionário – respondeu Nina. – Ele tem de tudo.
– São todos assim? – questionou Zoe depois que ela saiu.
– Nãããão – respondeu Nina rápido demais bem quando avistou o coronel Gregor marchando pela rua.
Uma figura vivaz e prestigiada, ele também gostava de comprar livros grossos e caros sobre história militar – ideais para Nina: livros de capa dura eram bem lucrativos – e depois voltar para explicar por que tudo estava errado, às vezes movendo os artigos de papelaria da mesa de Nina para ajudar. Valia a pena mantê-lo como um bom cliente, mas Nina não sabia ao certo como explicar isso a Zoe.
Em vez disso, ela ficou observando enquanto o coronel reencenava a Guerra Peninsular com os clipes de papel no lugar dos soldados Bourbons, enquanto Zoe assistia, constrangida, o que fazia com que Nina também se sentisse constrangida, até os gêmeos Bethan e Ethan Crombie entrarem e começarem uma algazarra, especialmente depois de encontrarem um garotinho no fundo da van.
– PODEMOS LEVAR ELE? – gritou Ethan quando Hari se recusou a responder à primeira pergunta.
– Não acho que eles vendam garotinhos aqui – disse a cansada porém gentil Kirsty Crombie, que dava aulas na escola local. – Olá! Você é nova? Ele é seu filho?
Zoe sorriu.
– É, sim.
– Ah, que ótimo, é sempre bom ver uma cara nova. Oi, rapazinho. Qual é o seu nome?
Hari piscou apreciativamente.
– Ele ainda não fala – explicou Zoe depressa, como sempre.
– Ah, certo… Ele estudará na escola daqui?
– Não sei… É tudo muito novo ainda.
– Certo! Onde vocês estão ficando?
– Na The Beeches.
Um silêncio mortal se instaurou.
Kirsty olhou para Nina, que fingiu estar ocupadíssima procurando o que Kirsty geralmente levava, que costumava ser manuais sobre como parar de lecionar, a vida depois de dar aulas e “quem precisa de professores, afinal de contas?”. Se perguntassem a Kirsty se ela gostava de ser professora, ela diria que adorava, exceto pelas crianças, pela administração da escola, pelo sistema de avaliação, pelos outros professores, pelo governo, pelas longas horas de trabalho e pelo salário.
– Hum… E de quem foi essa ideia?
Zoe olhou para Hari, mas ele não parecia chateado demais por estar sendo inspecionado em sua caixa.
– Ah, foi a Nina que me arrumou o emprego.
– Ah, é? – disse Kirsty, e Nina ficou vermelha feito um pimentão. – E o que você está achando?
– Bem, nós acabamos de chegar…
– A Kirsty é a diretora da escola – explicou Nina, tentando mudar de assunto.
– Ah! – exclamou Zoe. – Por que as crianças não estão na escola? Quando elas podem voltar?
Kirsty suspirou.
– Elas foram suspensas. Até a metade do semestre, infelizmente. A menina se… Bem, não posso discutir o assunto, é claro.
– A MARY URQUART MORDEU E CHUTOU A STEPHANIE GILLIES! – berrou Bethan do fundo da livraria. – E ELA PRECISOU LEVAR PONTOS!
– E O SHACKLETON TAMBÉM!
– ELA é MUITO MÁ – complementou Bethan, parecendo uma velhinha fofocando por cima da cerca do jardim. Ela meneou a cabeça, triste. – Má, má, má.
– É… Todos sabem que a coisa não está fácil para aquelas crianças – disse Kirsty. – Mas eu mandei bastante tarefa de casa. Hum, boa sorte.
– Obrigada – respondeu Zoe um pouco sem graça, enquanto Kirsty comprava um exemplar de Topsy e Tim vão ao hospital.
– A Stephanie Gillies precisou ir pro hospital – observou Bethan em voz alta. – Pra levar pontos.
Eles continuaram discutindo enquanto desciam a rua.
Zoe se virou para Nina.
– Você sabia disso?
– Eu juro que não sabia – garantiu Nina. – Sinto muito… Eu sabia que eles eram problemáticos, mas…
– Hari tem só 4 anos – interrompeu Zoe. – E se ela o morder?
Nina se encolheu.
– A casa é grande – ponderou ela. – Talvez dê para mantê-los separados.
– Ah, ótimo – retorquiu Zoe. – Talvez seja melhor eu trancafiá-lo em uma das alas.