Um novo capítulo para o amor
Capítulo quarenta e dois
As coisas não tinham corrido bem na creche aquele dia. Nem um pouco. Apareceu um hematoma no braço de Hari que Tara insistiu ter sido totalmente acidental.
Por outro lado, Zoe não conseguia suportar pensar no que teria acontecido se ele estivesse com ela durante o acidente com a van. E se um estilhaço de vidro o tivesse atingido? Acertado seu olho? Ela se sentia entre a cruz e a espada.
Mesmo assim, uma coisa era certa: enquanto eles retornavam pela via de cascalho, com Zoe dirigindo o caminho todo a 30 por hora, Hari começou a pular de entusiasmo em sua cadeirinha e, assim que ela parou o carro e o soltou, ele saltou e saiu correndo para encontrar o Patrick.
A ideia de Hari fazer qualquer coisa por conta própria com alegria era completamente nova para Zoe. Ela o observou enquanto ele corria e então, cautelosamente e exausta, ela também saiu. O dia tinha sido longo e ela ainda não se sentia pronta para encarar a cozinha. A Sra. MacGlone saiu de lá como um furacão e desapareceu sem nem mesmo dar um “oi”.
Zoe não se apressou. A tarde agora estava banhada por uma luz dourada; apenas as folhas caídas e os galhos quebrados por todo lado configuravam uma lembrança de que o temporal tinha acontecido.
Ela se demorou no átrio e ficou olhando para os entalhes da porta da frente. Nunca tinha reparado que as letras eram tão ornamentais que ela assumira que seria latim ou algo pomposo que não conseguiria entender.
Mas, naquele momento, conseguia ver que havia pequenos desenhos repetidos – um peixe, um feixe de espigas de milho – e palavras, recortadas em uma fonte angular no arenito cinza ao redor do caixilho da porta: “Speuran Talamh Gainmheach Locha”.
Ela estava olhando para os dizeres quando ouviu passos pesados no cascalho, virou-se e viu Ramsay caminhando em sua direção. A expressão dele era de arrependimento.
– Eu… Eu queria me desculpar.
– Não precisa – garantiu Zoe. – Já tinham me dito pra não meter o nariz onde não sou chamada.
Ele coçou a nuca com a mão enorme.
– Eu entendo que pode não parecer uma família convencional.
Zoe piscou.
– Não mesmo – concordou.
Ele suspirou e chutou o degrau da entrada.
– Eu tenho que… Eu tenho que trabalhar muito duro para manter as luzes acesas por aqui.
Zoe balançou a cabeça de forma compreensiva.
– É… Bem. As coisas podem… Enfim. Desculpe.
– Eu que peço desculpas – disse Zoe. – Falei quando não devia.
– Não, não. Eu sei o que você quer dizer… Eles não estão sendo terríveis demais com você, estão?
Zoe decidiu que não seria prudente mencionar que tinha bastante certeza de que eles andavam mudando as coisas de lugar no quarto dela e que, naquela manhã, Shackleton derrubara um saco inteiro de farinha no chão e apenas a observara limpar, enquanto Mary ria da sua cara.
Em vez disso, ela mudou de assunto:
– Eu não tinha visto antes essas palavras entalhadas na porta. O que significam?
– Eu mesmo nunca olho – confessou Ramsay. – Mas sei. Céu, areia, lago, ou loch, como falamos por aqui, e terra.
– Loch e terra– repetiu Zoe.
– Na verdade, pronuncia-se locchhhhh – corrigiu Ramsay, emitindo um ruído levemente gutural.
– Eu sei – disse Zoe. – Não vou me arriscar. Vou parecer uma idiota. Sou de Bethnal Green.
– Você vai parecer uma idiota correta, que está se esforçando!
– Eu estou me esforçando! Veja!
Ela ergueu a sacola plástica que pingava. Lennox tinha lhe dado uns filés de carne de cervo.
– O que é isso?
– Cervo – respondeu Zoe. – Vou tentar fritar com umas amoras-árticas.
– Onde você conseguiu isso?
Zoe ergueu os olhos.
– Por quê? Alguém roubou de você?
Ramsay passou as mãos pelos cabelos.
– Ah, modo de dizer. De qualquer forma, pelo menos você tem acesso ao fornecedor. Você realmente sabe preparar cervo?
Zoe deu de ombros.
– Bem, alguém no YouTube sabe, então vou copiar.
Depois de uma breve pausa, Ramsay disse:
– Certo, sim, claro.
De um jeito que deixou instantaneamente claro para Zoe que ele não fazia ideia do que ela estava falando.
Ele fez uma careta.
– Eu estou…? Digo, tem dinheiro suficiente na latinha, não tem? Você não tem precisado roubar pra alimentar as crianças, né?
– Ah, não, está tudo bem – garantiu Zoe. – Bem, a não ser que você tenha algum sobrando.
O rosto dele pareceu preocupado e ela voltou a olhar para a frase entalhada.
– Então, céu, areia, lago, terra. É basicamente um lembrete de que você é proprietário de tudo ao redor? De que você é o senhor de tudo que a vista alcança?
O tom dela era levemente zombeteiro.
Ramsay piscou, surpreso. Aquelas palavras estavam gravadas em sua mente, ele sempre as ouvira, repetia como se fossem uma oração, e a tradução em latim fazia parte do brasão da família. Caelum lacus harena terra.
– Não, é o oposto completo – respondeu ele, meio irritado. – É para nos lembrar de tudo que há ao nosso redor, de que somos meros intrusos no que sempre esteve e sempre estará aqui. É um lembrete para valorizar e cuidar de tudo, e de que as coisas mundanas, como casas, louças, joias, todas essas coisas, não duram e não importam.
Ele gostava de falar sobre aquele assunto.
– Além disso – continuou ele –, é ainda melhor. Não é só um crânio, um cálice e uma pilha de frutas apodrecendo. É esperança. Diz que você vai nascer e vai morrer, mas essas coisas que viverão para sempre estão por toda parte; veja como são lindas e maravilhosas. Feixes da colheita no campo, peixes do lago, luz do céu e vidro da areia. Todos os dias.
Zoe olhou para ele. Ramsay ficava bastante diferente quando se empolgava falando. Ela estava tão acostumada a vê-lo distraído e distante, nunca muito presente e zeloso com as crianças, a casa ou ela. Ele a viu observando-o e começou a mexer, constrangido, num botão da camisa.
– Entendi – disse Zoe.
Ela olhou para além dele, para a via de cascalho e para o jardim. O sol estava se pondo e as sombras das sebes aparadas se alongavam sobre a grama.
– Nós costumávamos fazer topiaria – contou ele, que estava olhando na mesma direção que ela. – É quando se poda os arbustos com formas diferentes.
– Eu sei o que é, obrigada – disse Zoe secamente.
– Ah, sim, é claro. Desculpe.
– Não estou fazendo uma daquelas visitas à casa.
Ele ficou quieto depois daquilo, enfiando as mãos grandes nos bolsos.
– Ah, só estou brincando – alegou Zoe, irritada consigo mesma por estar tão fora de forma para conversar com pessoas novas. – Que formatos vocês faziam? Um monstro?
Ele a fitou.
– Não – respondeu ele enfim. – Um monstro, não. Mas fizemos galos certa vez.
– Eu detesto galinhas – disse Zoe automaticamente.
Ramsay olhou confuso para ela.
– Bem, odeio uma galinha em específico – explicou Zoe. – Uma galinha que não vai com a minha cara.
– Não acho que galinhas não vão com a cara das pessoas – ponderou Ramsay.
– Bem, explique então por que ela faz cocô nas minhas galochas.
Ramsay franziu o cenho.
– Talvez você deva colocar suas galochas em outro lugar.
– Eu já fiz isso! – respondeu Zoe. – Mas ela encontrou. Porque é uma galinha do mal.
– Também já fizemos peixes – disse Ramsay, apressando-se em mudar de assunto. – Lindamente podados. Eram maravilhosos.
– Vocês não podem voltar a fazer isso? Ficariam lindos sob essa luz – observou Zoe.
O sol estava dourado e enorme, descendo pelo céu.
– Eu sei – disse Ramsay em tom pesaroso. – Corte de gastos, infelizmente. De novo.
– Você deveria treinar as crianças pra fazerem a poda.
Ramsay a fitou com olhos pungentes.
– Vou acrescentar isso à minha lista de coisas que estou fazendo errado, obrigado.
Houve um silêncio estranho.
– Certo. Melhor eu ir. Talvez eu deixe o Shackleton cuidar do cervo.
– Essa – disse Ramsay – é uma frase que eu nunca achei que fosse ouvir.
E ele a seguiu para dentro da casa, onde um aroma muito agradável de carne assada começou a emanar no ar outonal, seguido pelo cheiro bem menos agradável de queimado, mas que logo foi resolvido, e como havia muita carne, não importou muito que alguns pedaços tivessem sido descartados, até porque Porteous apareceu no momento exato e entrava e saía como um fantasma atrás das sobras, abocanhando cada migalha, e Ramsay, cumprindo o prometido, permaneceu com eles por meia hora, e Patrick puxou uma conversa sobre dinossauros e sobre por que era muito injusto que eles não tivessem como assistir a mais filmes sobre dinossauros, visto que a televisão estava quebrada, e Ramsay franziu a testa e disse que não sabia que eles tinham uma televisão, e Zoe disse que eles viviam nos anos 1920, e Ramsay disse que não havia nada de errado nisso, e ela disse que, bem, ele teria que comprar óculos para o Patrick, pois o menino estava tentando assistir a Parque dos Dinossauros no celular dela, e Ramsay disse que iria tentar resolver isso, e Zoe disse que ele deveria, já que havia televisores praticamente de graça no mercado hoje em dia, e Ramsay disse que estava certo, pois tais aparelhos só serviam para a lata de lixo, e Zoe disse que já estava vivendo naquela casa há seis semanas e podia dizer que não confiava muito nas habilidades dele de saber o que era adequado para o lixo, e as crianças, imagine só, riram – elas riram de verdade –, e ocorreu a Ramsay, como não acontecia há muito tempo, que talvez ele devesse dar um pulo no porão e pegar uma daquelas maravilhosas garrafas de vinho tinto que seus antepassados haviam estocado lá embaixo – por que não, afinal? –, e teve luz e barulho e conversa na cozinha pela primeira vez em muito tempo, e ele sentiu uma leve pontada de culpa, e decidiu que provavelmente também podia engolir essa culpa junto com o vinho, e então ouviu-se uma batida repentina e decisiva na porta dos fundos.