Um novo capítulo para o amor

Jenny Colgan · Capítulo 36 de 50

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Um novo capítulo para o amor

Capítulo trinta e três

 

Mary saltou em cima de Zoe como um animal raivoso. Zoe tinha bastante certeza de que, se ela tivesse jogado a peça no fogo, a garota teria pulado atrás, tamanho o seu desespero. Ela arrancou o cardigã das mãos de Zoe e o abraçou, enfiando-o debaixo do queixo como uma menininha bem mais nova; lágrimas escorriam por seu rosto.

– Foi a mãe dela que fez – explicou a Sra. MacGlone baixinho de seu posto ao lado da pia.

Zoe engoliu em seco. Ó céus. Aquilo era terrível. Terrível demais. Ela se sentia péssima.

Olhou para Mary; toda a raiva havia se esvaído, deixando apenas um poço imenso de pena.

– Por que você deixaria algo tão precioso jogado por aí? – perguntou em tom reconfortante. – Você não iria querer guardar em um lugar seguro?

Não se ouvia som algum na cozinha. A criança traumatizada congelou por um instante, então por fim concordou ávida e raivosamente com a cabeça.

Zoe se moveu na direção dela lentamente e com cautela, como se estivesse se aproximando de um animal selvagem – o que era verdade. Mary recuou.

– Venha comigo – disse Zoe com delicadeza. – Vamos guardar tudo juntas.

Sua voz saiu tão suave e calma quanto ela conseguia, quase como se estivesse cantando. Zoe conseguia ver a luta interior na expressão de Mary, o desejo desesperado da garota de continuar a desafiá-la, a afastá-la; a exaustão pura em seu rosto. Devia ser muito cansativo brigar sem parar com o mundo, ser tão raivosa e frustrada a cada minuto do dia.

Ela não encostou em Mary, apenas pegou a pilha de roupas e entregou metade a ela. Mary não falou, não se rendeu em nenhum sentido.

Mas pegou as roupas.

 

Ainda tratando a garota como se ela pudesse atacar e morder a qualquer momento, Zoe abriu a porta do que ela concluiu ser o quarto de Mary. Estava escuro: as cortinas estavam fechadas e parecia que não eram abertas há algum tempo.

O quarto era grande e definitivamente não havia sido decorado para ser usado por uma criança. As paredes tinham painéis de madeira com pinturas a óleo dependuradas. As cortinas eram de um tartan vinho pesado que se replicava na colcha da cama. O piso de madeira escura era coberto por tapetes persas.

Havia poucos brinquedos, coisas para garotinhas bem pequenas; uma casinha de bonecas – linda – cuja parte da frente fora arrancada e com a mobília, espalhada pelos tapetes velhos. Alguns livros, sem marcas de uso, estavam desorganizadamente esparramados. A cama estava feita, mas nada mais havia sido arrumado, talvez por ordem de Mary. Havia roupas espalhadas por todo lado.

– Eu gostaria – disse Zoe, mantendo o tom de voz leve –, de poder fazer aquela coisa que a Mary Poppins faz, de estalar os dedos e tudo ir para o lugar sozinho. Se eu tivesse um superpoder, esse seria o melhor de todos, não acha?

Mary olhou em volta e franziu a testa. Contudo, ela falou:

– Esse é o superpoder mais idiota que já ouvi.

– Bem, qual seria o seu?

– Desmaterialização, é claro.

Zoe piscou. Bem, de certa forma, aquele era um progresso.

– Certo – disse ela. – Bem, tem um lugar pra guardar cada coisa ou precisamos criar um espaço?

Mary deu de ombros.

– Que tal… colocar as calças e meias-calças aqui?

Ela abriu um velho e pesado baú de madeira. As outras roupas que estavam ali – ela ficou perplexa – eram todas peças minúsculas, de uma criança pequena. Vestidos lindos, bordados à mão, com estampas de florezinhas. Parecia o guarda-roupa de uma garotinha de mil anos atrás. E tudo parecia pequeno demais.

Zoe olhou de novo para a menina em sua camisola suja.

– Mary – disse ela suavemente –, você está precisando de roupas novas?

A menina meneou a cabeça.

– Gosto das minhas roupas.

Zoe voltou a olhar para o cardigã. As raposinhas bordadas na lã eram maravilhosas.

– São lindas – concordou ela. – É tudo lindo. Mas você não prefere roupas que caibam melhor?

Mary balançou a cabeça com veemência.

Zoe foi até as cortinas e as abriu. A luz do fim de tarde inundou o quarto subitamente, exuberante e dourada. Ela destacou a poeira que se acumulava por todos os cantos. Zoe também abriu a janela. O quarto não cheirava mal, apenas a coisa velha. A coisas tristes. O ar fresco do outono, mais frio do que parecia com o sol, entrou.

– Assim está melhor – disse Zoe. – Eu sempre me sinto melhor quando consigo respirar. – Ela olhou em volta. – Certo. Vamos arrumar as suas roupas, ver o que temos aqui, que tal? Vamos deixar tudo tão organizado e ajeitado quanto possível.

Mary procurou por algo naquela frase de que pudesse discordar, mas pareceu não encontrar, então deu de ombros.

– Vou fazer as salsichas mais tarde – afirmou Zoe ao ouvir a porta bater lá embaixo e percebendo que a Sra. MacGlone devia ter ido embora. – Eu realmente preciso ensinar o Shackleton a cozinhar alguma coisa.

Mary deu um meio sorriso.

– O Shackleton nunca vai conseguir cozinhar coisa alguma! Ele é superburro.

– Não é preciso ser inteligente pra cozinhar – respondeu Zoe, sem querer contradizê-la. – Até mesmo um cachorro conseguiria fazer uma madalena.

– Não conseguiria, não!

– Claro que sim! Mas ele precisaria cortar os pedaços de cenoura com os dentes. Au, au!

E foi assim que Ramsay as encontrou enquanto atravessava o corredor em busca de uma xícara de chá e esperando não encontrar muito caos pelo caminho: a garotinha e a nova contratada, duas cabeças morenas debruçadas sobre uma pilha de roupas, dobrando-as e pendurando-as. Ele ficou parado à porta por um tempo até Mary se virar e vê-lo, e ficou surpreso por ela não estar nem gritando com alguém nem se agarrando às pernas dele.

– Oi, filha – disse ele suavemente. – Posso entrar?

Mary fez que sim com a cabeça. Zoe se afastou quando ele entrou e abaixou o corpo comprido e desajeitado até o chão. Era como abrir uma espreguiçadeira. Ramsey esticou as pernas pelo tapete.

Ele viu o cardigã que Mary ainda prendia com força debaixo do braço.

– Ah – disse ele baixinho. – O cardigã de raposa.

Mary ficou vermelha como um pimentão.

– É lindo – comentou ele. – Ainda serve?

Mary se recusou a responder.

– Talvez possamos dar pro Patrick.

Zoe se encolheu. Aquilo era, definitivamente, a coisa errada a dizer – como logo ficou comprovado, visto que Mary fez uma careta.

– Céus, de jeito nenhum! Ele iria estragar! Ele não pode tocar nele! Ele estraga tudo!

– Ah, certo, tudo bem – aquiesceu Ramsay atropeladamente, mexendo-se. Ele parecia grande demais para o quarto, embora o cômodo fosse amplo. – Hum.

– Aqui – intrometeu-se Zoe, pegando a primeira coisa que viu. – Olha o que encontrei enfiado atrás do armário. Aposto que ainda te serve.

Era uma camiseta de listras largas com um grande rosto de leão no meio.

– Pra quando você quiser rugir – acrescentou Zoe com um sorriso.

O rosto de Mary se iluminou.

– Minha camiseta de leão! – exclamou. – Achei que tivesse perdido. Achei que o Patrick tivesse roubado.

Ela franziu a testa, com certeza se lembrando de algum castigo terrível que havia aplicado no irmão.

– Eu acho – disse Zoe com cautela – que posso baixar a barra um pouquinho, e aí com certeza ainda vai servir.

Mary colocou a camiseta toda empoeirada sobre a camisola e, de fato, caiu como uma luva. Ela quase sorriu.

– Arrasou – disse Ramsay para Zoe, que olhou para ele.

– Não diga isso ainda – alertou ela, olhando para o relógio.

Já tinha passado, e muito, do horário de Hari ir para a cama e ela ainda não sabia como usar o fogão e conseguia sentir o cheiro – que costumava ser delicioso, mas agora era agourento – de torrada subindo pelas escadas.

– Ainda não fiz a janta – explicou ela.

– Não quero jantar – afirmou Mary instantaneamente.

– Tudo bem – disse Zoe em um tom cansado, levantando-se. – Tudo bem.

 

Zoe não sabia que horas eram. Hari não estava se mexendo, mas toda a casa estava inerte. Exceto… Exceto…

Ela prestou atenção. Parecia que o som vinha diretamente do outro lado da porta do quarto. Um soluço alto. Confusa, com o coração acelerado, ela examinou Hari mais uma vez. Então se sobressaltou.

– Olá? – arriscou. O choro continuou. – Mary?

Não houve resposta. Com cuidado, ela caminhou na ponta dos pés pelo linóleo até a porta. O vento estava gemendo em meio às árvores lá fora. Ela percebeu que estava completamente apavorada e tentou dizer a si mesma para não ser ridícula.

– Patrick? – sondou. – Está tudo bem. Está tudo bem, Patrick, estou indo.

Endireitando-se, ela abriu a porta…

O choro cessou imediatamente. Não havia nada nem ninguém ali. Ela olhou para os dois lados do corredor vazio, mas não havia nada.

– Olá? Olá?

Mas a casa não respondeu.