Um novo capítulo para o amor

Jenny Colgan · Capítulo 35 de 50

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Um novo capítulo para o amor

Capítulo trinta e dois

 

Zoe estava preocupada com Nina, claro – uma amiga sua também tinha tido pré-eclâmpsia e ela sabia como era terrível, além de bastante solitária e entediante, a experiência de ficar enfurnada no hospital sem poder curtir os prazeres do final da gravidez (que era, contudo, pelo que ela lembrava, o período em que as pessoas basicamente passavam a mão na sua barriga sem pedir licença e ficavam perguntando se você estaria grávida de gêmeos e como sequer conseguia ficar em pé sem cair, além de outras teorias inúteis). Na verdade, a conjuntura acabava se resumindo a ficar sentada numa banheira sentindo-se como uma ilha deserta, e ela raras vezes tinha estado mais sozinha do que quando não havia ninguém para ajudá-la a colocar as próprias meias.

De toda forma, ela estava preocupada, mas contente por Nina estar em segurança no hospital. Enquanto sacolejava no carrinho verde gaguejante – passando pelos grandes ônibus soltadores de fumaça que estavam indo embora do lago Ness, à sombra cada vez maior das montanhas da costa, avistando o lampejo do rabo branco de um cervo desaparecendo na floresta – e fazia a curva da longa via de onde conseguia ver o casarão à sua frente, Zoe sentiu algo dentro dela. Em um primeiro momento, não teve certeza do que era. Mas havia uma minúscula possibilidade de que fosse algo… um pouquinho parecido com otimismo. Um pouquinho de esperança. Como algo – uma semente ínfima, depois de tanto tempo no escuro – começando a brotar da terra.

Alguma coisa poderia ter se tornado um desastre naquele dia. Mas não se tornou. E ela teve o bônus de um Hari desconsolado correndo em sua direção quando chegou à creche. Ela o observou furtivamente dentro do carro, olhando pela janela na direção da casa, parecendo extasiado por ter chegado. Ela perguntara a Tara como tinha sido o primeiro dia, e Tara parecera constrangida, desviando o olhar, mas agora ele estava com ela, e isso bastava.

 

O bom humor de Zoe durou o tempo que ela levou para atravessar a porta dos fundos. Conseguia ouvir os berros a quilômetros de distância. Era uma gritaria real, agoniada.

O som era apavorante. Parecia que alguém estava sendo assassinado. O sol se escondeu atrás de uma nuvem, submergindo a enorme casa em sombra de repente, e Zoe largou o carro, disse a Hari que ficasse na cadeirinha, exatamente onde ele estava, e olhou em volta em busca de algo para atingir o assassino. Por sorte, havia um exemplar de capa dura de O hobbit na parte de trás do carro e ela o pegou devagarinho, com o coração palpitando, e avançou, erguendo-o quando chegou à porta, o coração na boca…

Zoe espiou pela porta. Os gritos estavam ficando mais altos.

– Olá? – disse ela, tentando manter a voz grave e ameaçadora em vez de alta e lamuriante como acabou saindo. – Quem está aí?

Os gritos cessaram abruptamente e Zoe sentiu os braços formigarem.

– QUEM ESTÁ AÍ? – berrou ela, entrando de supetão na cozinha com os braços erguidos.

Todas as três crianças que estavam no chão explodiram na mesma hora em uivos de uma gargalhada zombeteira ao vê-la, branca feito papel, tremendo e segurando O hobbit acima da cabeça. Até mesmo a Sra. MacGlone, que estava perto da pia, virou-se e Zoe viu seus lábios se contraírem.

Espatifada no chão e com os cabelos esparramados ao seu redor, Mary sentou-se, saindo da posição em que estava tentando vigorosamente chutar o queixo de Shackleton.

– O que você vai fazer, usar seus poderes élficos pra nos matar? – perguntou ela em tom agudo.

– Vai nos matar de tédio, isso, sim – emendou Shackleton. – Você não podia ter usado, pelo menos, o Watchmen? Está no banheiro do andar de baixo.

Patrick a fitou com severidade.

– Na verdade, a gente só estava brincando – explicou.

O medo de Zoe se transformou em fúria, como costuma acontecer com frequência.

– Isso não é brincar! – esbravejou ela. – Olhem só pra vocês!

Shackleton estava com um hematoma enorme no queixo, onde Mary o tinha chutado; Patrick tinha arranhões no rosto.

– Eles têm permissão pra fazer isso? – perguntou ela à Sra. MacGlone, cujo rosto havia se petrificado.

– Sou apenas a governanta – respondeu ela, impassível. – Não tenho nada a ver com isso.

Depois olhou descaradamente para o relógio.

– A culpa é do Shackleton! – gritou Mary com fervor. – Ele que começou!

– Cala a boca, pirralha! Não fui eu. Não tô nem aí pro que você faz.

– Você é um chato mentiroso! Cala a boca você! – berrou Mary, desvairada.

– Vocês são as duas pessoas mais idiotas DO MUNDO TODO – gritou Patrick, dando conta de não ficar de fora.

Os três começaram a gritar ofensas e insultos uns para os outros.

Ainda enraivecida, Zoe subiu na cadeira mais próxima e largou o pesado livro no piso de laje.

O barulho foi extraordinariamente alto. Os três pausaram só por um instante.

– CERTO – disse Zoe, em um tom que não permitia contra-argumentos. – Definitivamente, já chega.

– Mas… – começou Mary.

– Quieta – ordenou Zoe. – Nem um pio.

– Ou o quê? – zombou Mary. – Você vai embora? Tudo bem, por nós.

– Infelizmente, não – respondeu Zoe. – Na verdade, hoje eu descobri que vou ficar aqui por um bom tempo, gostem vocês ou não.

Eles não gostavam e deixaram claro.

– Certo – repetiu ela. – No meu carro tem um bolo e umas salsichas. – Tinha mesmo. A mulher que a atendeu na lojinha da cidade ficara olhando para ela em um silêncio tão rude e boquiaberto que Zoe ficou se perguntando se ela teria alguma deficiência. Zoe continuou: – Eu trouxe pra janta. Vou preparar a comida com essas coisas. Mas tem outras coisas que vão acontecer primeiro.

– Você vai subornar a gente com salsichas? – perguntou Mary em tom de total desdém.

– Salsichas! – exclamou Patrick alegremente.

– Não estou subornando vocês – garantiu Zoe. – Vou alimentar vocês. Assim que se levantarem daí.

Shackleton se ergueu, relutante, do chão. Mary acertou um belo chute no joelho dele enquanto ele se levantava.

– Ei! – ralhou Zoe.

Ela fez os três se levantarem e então desceu da cadeira para pegar Hari, que entrou timidamente na cozinha.

– Você vai ajudar a Sra. MacGlone a guardar as xícaras. – Ela apontou para Patrick. – Você… – Dessa vez, ela se voltou para Shackleton. – Varra a cozinha; está precisando. Você… – Ela dirigiu-se a Mary. – Coloque as pilhas de roupa limpa nos quartos de cada um.

– Não – respondeu Mary. – Isso não é trabalho nosso.

– Na verdade – disse Zoe –, de hoje em diante vai ser. Daqui pra frente, os afazeres serão de todos. Porque quando vocês ficam à toa, sem fazer nada, acabam se metendo em encrencas. Então minha missão será manter vocês ocupados.

Patrick foi até a pia e, obediente, pegou uma xícara de cada vez.

– Puxa-saco – disse Mary.

– Você não precisa comer salsicha ou bolo – aquiesceu Zoe delicadamente.

– Ótimo. Salsicha fede.

– Mas ainda assim precisa guardar a roupa.

– Não, não preciso.

Zoe pegou a pilha de roupas limpas de Mary, que estavam secando perto da lareira. Eles realmente precisavam organizar aquela cozinha; era uma bagunça, desconfortável e contraproducente.

– Se não levar, vai pro lixo.

– Você não está falando sério. – Mary olhou para a Sra. MacGlone. – Sra. MacGlone, ela é completamente maluca.

A Sra. MacGlone não podia negar. Ela amava aquelas crianças órfãs à sua maneira e fazia o melhor que podia, mas elas estavam fora de controle e não era ela quem iria controlá-las. Se aquela pessoa peculiar – a sétima tentativa – conseguisse, seria ótimo. Ramsay tinha medo dos próprios filhos e ela não era muito melhor; receosa demais da língua afiada de Mary; cautelosa demais com relação à empregada que sempre fora e com a casa que sempre conhecera.

A Sra. MacGlone parecia assustadora, mas não era. Zoe parecia mole feito manteiga, mas não era.

Zoe jogou uma meia de Mary na lareira. Mary assistiu, indignada, horrorizada e, secretamente, um pouquinho impressionada.

– Eu odeio essas meias mesmo – alegou ela. – Não preciso delas.

– Guarde as suas roupas!

– Não!

A cozinha inteira estava em silêncio, todos assistiam com uma atenção ferrenha para ver qual seria o resultado. A própria Zoe gostaria de saber.

Bem, ela já estava na chuva. Tinha que se molhar. Se recuasse naquele momento, podia já ir fazendo as malas. Ela realmente não podia se dar a esse luxo.

Ser consistente era a mensagem, não era? Além de ser firme? Será que aquilo era firmeza suficiente? Queimar meias? Não era a situação mais dignificante que Zoe já tinha vivido.

Mary a estava encarando com os braços cruzados e uma expressão presunçosa no rosto, como que a desafiando a seguir em frente.

– Tem um trem noturno que volta pro sul que você pode pegar agora à noite – disse ela, atrevida. – A gente não vai sentir a sua falta.

De repente a névoa baixou. Zoe não podia recuar. Não podia continuar daquele jeito, não com tudo que precisava ser feito. Ela remexeu a pilha de roupas e pegou um cardigã pequeno – devia ser pequeno demais para Mary; ela já devia estar grande demais para usá-lo, de toda forma. Zoe o pegou e avançou na direção do fogo.

O grito que Mary deu fez os berros anteriores parecerem risadas.