Um novo capítulo para o amor

Jenny Colgan · Capítulo 7 de 50

Páginas do PDF

Um novo capítulo para o amor

Capítulo cinco

 

 

Surinder sabia que havia algo errado pela maneira como Jaz girou a chave na fechadura depois de ter mandado uma mensagem avisando que estava indo até Birmingham, o que, por si só, já era bastante incomum.

Mas ela era sua irmã. Ela o amava. Sabia que não era fácil para ele: seus dois irmãos mais velhos eram oftalmologistas; ela administrava uma empresa de importação e exportação, ao passo que Jaz nunca encontrara seu caminho. O pai deles estava bem de vida quando ele nasceu e Surinder achava, particularmente, que ele tinha sido mimado – carros, roupas de marca. Seus pais tinham trabalhado muito duro durante toda a vida; ela sabia que eles gostavam de fazer as vontades de seu bebezinho lindo. Mas, de várias maneiras, tanto paparico fizera com que ele nunca deixasse de ser um bebezão.

E agora, para seu espanto, Jaz estava sentado em sua cozinha, contando que ele tinha um bebê.

Não era nem um bebê: um garoto de 4 anos. Com uma mulher branca de Londres.

Ele estava debruçado, cabisbaixo, sobre a mesa. Toda a cozinha era, agora, elegante e moderna, com uma ilha central e uma batedeira cara de tom pastel que Surinder nunca tinha usado. Às vezes ela sentia saudade das grandes pilhas de livros que costumavam ocupar todas as superfícies quando Nina ainda morava ali.

– Mas – disse ela, e então meneou a cabeça novamente – como foi… Como foi que você conseguiu ter um filho?

Jaz revirou os olhos.

– Tá, beleza, bom, você junta um homem e uma mulher, e eles…

– Pare com isso – disse Surinder. – Quando você vai contar pra mãe e pro pai?

Ele se remexeu na cadeira, desconfortável.

– Bem – respondeu ele –, meio que… meio que simplesmente aconteceu, sabe?

– Não, eu não sei – retorquiu Surinder. – As pessoas não costumam encontrar bebês acidentalmente por aí. Meu Deus, sou tia de novo! Me mostre fotos! Não, não mostre… Estou furiosa com você. Não, mostre. Não, não mostre.

Houve uma pausa.

– Dá logo aqui.

Ele pegou o celular que costumava guardar a sete chaves.

– Eu achava que você era todo esquisito com o celular porque tinha uma namorada… Ah, você também tem, não tem?

Jaz ficou vermelho até a ponta das orelhas.

– Então por que está me contando agora?

Jaz deu de ombros.

– Bem, o trabalho como DJ não decolou e…

Surinder lançou-lhe um olhar cortante, que ele se esforçou ao máximo para ignorar.

– Você veio pedir dinheiro?

– O mercado é muito complicado – continuou ele. – As pessoas simplesmente não entendem a minha vibe.

– Eu entendo a sua vibe – afirmou Surinder em tom ameaçador.

Ela abriu a lata de biscoitos e pegou um sem oferecer para ele.

– Você vai contar pra mãe e pro pai?

– Eles vão me matar! – exclamou Jaz.

– Eles não vão matar você – garantiu Surinder. – Eles ficarão decepcionados.

– Pior ainda!

– Ah, pelo amor de Deus.

– Eu só… Ela precisa de ajuda…

– Bem, você veio ao lugar errado. E saberia disso se tivesse lido o jornal e ouvido falar em “Brexit” ou em “mercado cambial” e trabalhasse numa empresa de importação.

Jaz coçou a nuca.

– Qual é o plano?

– Eu ia tocar no circuito de festivais, pra dar uma boa alavancada na carreira, sabe? Ganhar dinheiro suficiente pra resolver as coisas.

– Então – disse Surinder sombriamente – você está pensando em comprar uns feijões mágicos.

– Você vai se arrepender quando eu for famoso.

– Onde está a família dela?

– Na Espanha – respondeu Jaz. – Ela só tem a mãe, na real.

Na cabeça de Surinder, era uma encostada, que não tirava a bunda da cadeira e esperava que Jaz pagasse tudo.

– Você é muito idiota – disse ela. – Como ela é, afinal? Tem foto?

Para pavor de Surinder, Jaz não tinha.

– Ah, ela é normal – declarou ele. – Lê o tempo todo. Parece aquela sua antiga colega de apartamento. É obcecada. Livros, livros, livros. Um tédio.

Houve uma pausa.

– O quê? – indagou Jaz.

– Nada – respondeu Surinder. – É só… Ah, tenho certeza de que não é nada.