Um novo capítulo para o amor
Capítulo quarenta e três
Todos viraram a cabeça, Shackleton ficou de boca aberta. Zoe sibilou para que ele a fechasse, então sorriu.
– Olááááá! – gritou uma voz alta e confiante, clara como um sino.
Zoe piscou. Ninguém visitava a casa. Era assim que funcionava, pelo que ela entendia. Eram apenas eles, a Sra. MacGlone, Wilby, o jardineiro, e de vez em quando algum turista perdido fingindo precisar de ajuda para tentar dar uma espiada. Zoe ficava bastante impressionada com a ousadia desses turistas. Só que eles sempre apareciam na porta da frente. Mas a dona daquela voz, quem quer que fosse, já tinha estado ali.
Uma loura alta e magra apareceu na cozinha. Ela usava maquiagem pesada, de modo que era difícil chutar sua idade – podia ter desde 28 até uns 40 bem conservados –, e usava um casaco caro que não teria durado dois minutos no quintal de Lennox, além de emanar um aroma forte de um perfume sofisticado. Ela lembrou a Zoe imediatamente as mulheres que deixavam seus filhos na creche em que trabalhara, aquelas que a ignoravam completamente.
Seu primeiro pensamento foi de que poderia ser a mãe das crianças; seu rosto magro não era muito diferente da aparência comprida de Mary. Ela piscou. Não podia ser, podia? E, se fosse mesmo, as crianças certamente estariam reagindo em vez de continuarem sentadas ali, olhando pro prato de comida, taciturnas.
– RAMZER! – gritou a mulher.
Em um primeiro momento, a testa de Ramsay se franziu, mas então seu rosto relaxou de leve.
– Rissie – disse ele por fim.
Ela correu até eles.
– Querido – falou, abraçando-o e ignorando todos os demais. – Estou de volta. Eu sei. Faz uma eternidade. Você sabe como é.
– Eu sei.
– Ah, caramba – murmurou Mary baixinho.
Zoe olhou para ela, mas Mary não a olhou de volta; ela não queria um aliado. Em vez disso, a menina se levantou.
– Olá, queridos – disse a mulher, olhando em volta. – Ah, olhe só pra vocês, lindos e maravilhosos como sempre! Vocês estão incríveis!
Todas as três crianças estavam olhando para ela petrificadas.
– Aqui, eu trouxe presentes!
Ela tirou três caixas de manjar turco da bolsa, sorrindo com um leve nervosismo.
– Estive em Istambul e pensei…
As crianças pegaram as caixas soturnamente, sem agradecer, abriram e logo começaram a comer, esquecendo-se da comida que já estava em seus pratos. Zoe ficou horrorizada com a rudeza deles.
– OBRIGADA – disse ela bem alto. – Acho que é isso que estamos querendo dizer.
Mary a encarou.
– Hum, de nada – disse a mulher e sorriu, esperançosa, para Ramsay. – São mesmo umas gracinhas.
Zoe não conseguia pensar em uma palavra menos adequada para Shackleton, que estava praticamente grunhindo enquanto devorava os doces, com açúcar ao redor da boca e um pouco de baba no queixo. Ela olhou para Ramsay com as sobrancelhas erguidas e ele disse:
– Crianças, agradeçam à Larissa.
– Obrigada, Larissa – disse Mary no tom mais sarcástico possível.
– Ora, de nada! – respondeu a mulher. – Você é a nova babá?
– Olá – cumprimentou Zoe, estendendo a mão.
Larissa pareceu surpresa, como se o fato de ela ter percebido a presença de Zoe fosse o máximo que poderia acontecer, mas apertou sua mão, sorrindo graciosamente.
– São crianças maravilhosas, não são?
Mary bufou alto. Hari estava escondido atrás dos joelhos de Zoe, que afagou a cabeça do menino encorajadoramente.
– Vou subir – anunciou Mary, deixando o prato de comida para trás, arrastando a cadeira ruidosamente e saindo da cozinha.
Normalmente, Zoe a teria chamado de volta, mas ela não estava no clima para um festival de berros aquela noite, diante daquela pessoa glamourosa, então deixou para lá.
– Quer sair pra tomar alguma coisa, meu bem? – perguntou Larissa a Ramsay. – Você parece estar precisando se divertir um pouco.
Zoe ficou levemente irritada por Larissa ter acertado com relação àquilo enquanto eles saíam, com a mulher dizendo novamente como era ótimo ver aquelas crianças maravilhosas, que a estavam olhando com olhos vítreos.
– Bom – disse Zoe. – Isso não foi muito educado.
– Ela não é mesmo educada – concordou Patrick.
– Não ela! Ela foi supereducada! Estou falando de vocês!
Shackleton continuou a comer seu manjar turco metodicamente, mastigando sem muito entusiasmo. Ele deu de ombros.
– Ela é a AMIGA ESPECIAL do papai – explicou Patrick. – Ela nos disse isso.
– Não é – corrigiu Shackleton com desdém. – Ela bem que queria.
– Ela é! – insistiu Patrick. – Ela me disse que é muito, muito ESPECIAL.
– Muito, muito IRRITANTE – afirmou Shackleton. – Ela é toda doce, doce, doce.
– Qual o problema nisso? – perguntou Zoe. – O que há de errado em ser gentil?
– E ENTÃO! – disse Patrick com um floreio.
– E então o quê? – indagou Zoe.
– E ENTÃO! CONFEITOS!
– Do que você está falando?
– Não “confeitos”, seu burro – disse Shackleton. – Panfletos. Ela trouxe uns panfletos. Não era pra termos visto.
– Que tipo de panfletos?
– Da prisão – respondeu Patrick.
– Prisão?
– Internato – esclareceu Shackleton. – Ela acha que deveríamos estar num internato.
– Ahhhh – soltou Zoe. – É sério? E vocês definitivamente não querem ir pro internato?
Shackleton a encarou.
– Ela quer se livrar da gente pra poder se casar com o papai e…
– Eca – disse Patrick.
– Ela parece legal – comentou Zoe delicadamente.
– Ela finge – garantiu Patrick. – Não é de verdade.
– Às vezes as pessoas fingem ser legais até as coisas estarem legais – ponderou Zoe. – E funciona.
Patrick não parecia convencido.
– Não – afirmou Shackleton. – As pessoas fingem ser legais até mandarem outras pessoas pro internato e nunca mais precisarem vê-las novamente.
– Prisão – concluiu Patrick, e seu rostinho pareceu tão triste que Zoe sentiu seu coração apertar.
Normalmente, à noite, ela ia para a cama antes das crianças, exausta. Naquela noite, contudo, percebeu como elas estavam agitadas.
– Olha só, vocês não podem ser grosseiros daquele jeito com as pessoas na casa de vocês. Foi muito feio. – Os meninos olharam para ela. – Mas se me ajudarem a limpar tudo… Querem ouvir uma história?
Ela ficou extasiada com a mudança no comportamento de Patrick.
– EU QUERO! – berrou ele. – EU COM CERTEZA QUERO UMA HISTÓRIA! Por favor, por favor, por favor! Eu nunca ouço histórias!
– Seu pai nunca lê pra vocês?
– Ele está sempre trabalhando. Ou na… BIBLIOTECA.
Ele disse aquela palavra como se estivesse falando de um calabouço.
– E as outras babás?
– “Nós não lemos inglês, Patrick” – recitou Patrick. – “A Mary foi muito levada, Patrick, e ninguém está merecendo uma história.” “Vá embora, Patrick, estou muito ocupada chorando agora.”
– Certo – disse Zoe, os lábios se contraindo inevitavelmente. – Vá colocar o pijama que eu já subo pra escovar os seus dentes e vamos ver o que podemos fazer.
– Precisa escovar os dentes todo dia, Babá Sete?
– Sim – respondeu Zoe, suspirando e limpando o restante dos pratos. – Infelizmente, sim.
Até mesmo ela ficou surpresa quando subiu e encontrou, lado a lado diante da pia do quarto, em um cômodo muito parecido com o de Mary, mas com duas camas, os dois garotinhos usando pijamas de flanela idênticos, com rasgos bem remendados.
– Ah, olhe só pra vocês dois – disse ela. – Vocês se trocaram sozinhos?
Hari confirmou solenemente.
– Talvez eu tenha ajudado – informou Patrick.
– Muito bem, então – disse Zoe, pegando seu velho Kindle, que continha Entre os telhados.
Era seu livro favorito na infância.
– O que vai acontecer? – quis saber Patrick, parecendo nervoso, e o coração de Zoe ficou apertado mais uma vez por aquele garotinho que nunca tinha ouvido uma história.
– Bom, primeiro nós nos acomodamos – explicou ela.
Hari já estava sentado e aguardando pacientemente. Ele era novo demais, ela sabia, mas era o tom acalentador de sua voz que importava, mais do que qualquer outra coisa, quando ela posicionou os dois garotos, um de cada lado dela, na cama de Patrick.
– O Hari pode dormir aqui? – perguntou ele.
Assim como o quarto de Mary, aquele cômodo era superamplo e bastante assustador, com os galhos das árvores mexendo com o vento lá fora e as janelas enormes. Ela não ouviria barulho nenhum. Não que Hari fosse fazer qualquer barulho.
– Você gostaria de dormir aqui, Hari? – perguntou Zoe.
Ela estava um pouco preocupada. Eles nunca tinham dormido separados na vida, nem uma única vez. Ela sequer tinha uma babá eletrônica. Nunca tivera espaço suficiente para precisar de uma.
E ainda havia... o fantasma.
Hari, no entanto, assentiu, animado.
– Tem certeza?
Não era uma situação em que eles estariam exatamente na mesma casa. Ela estaria longe daquele quarto enorme, depois do corredor, da escada dos fundos e da ala oeste, onde ficavam os aposentos da criadagem. Se ele gritasse, ela não ouviria. Se Mary arrancasse a perna dele com os dentes, ela só ficaria sabendo no dia seguinte.
– Eu cuido dele! – prometeu Patrick, o que não a apaziguou completamente.
– Você sabe como chegar no meu quarto? – perguntou ela.
Patrick fez uma careta.
– Acho que sim…
Como é que, pensou Zoe, enfurecendo-se por dentro, aquilo funcionava? Quem é que colocava crianças tão longe da cuidadora, de modo que ninguém ouviria se elas chorassem à noite? Que diabos eles estavam pensando? Elas simplesmente choravam até cansar?
– Bem, talvez outra noite – disse Zoe.
– Eu posso chamar o papai – insistiu Patrick. – O papai dorme aqui perto. Ele gosta quando a gente entra no quarto dele.
– Ah – disse Zoe. – Certo.
Ela não tinha pensado naquilo. Que Ramsay iria querer os filhos por perto. Por outro lado, ele passava tanto tempo longe…
Ela começou a ler, tentando decidir o que fazer.
Então eles partiram na jornada riscosa (que significa “perigosa”) pelas coberturas, ficando
desesperados e apavorados quando avistaram, ao longe, seu destino (que significa para onde você
está indo, Hari) – Galleon’s Reach. O vento estava ficando forte novamente e Wallace viu os
cata-ventos dos telhados ao redor girarem a todo vapor.
– Está piorando – murmurou ele para Francis. – Vamos precisar encontrar abrigo até o
temporal passar.
– Peixes! – exclamou Francis, e Wallace revirou os olhos.
– Esqueça os peixes – disse ele. – O pombo tocou no assunto, só isso. Pombos comem peixe.
Eu acho.
– CONSIGO VER PEIXES! – gritou Francis, pulando sem parar de um jeito que Wallace não
gostava. Um escorregão bastaria…
Ele seguiu o dedo trêmulo e sujo de Francis, que apontava para o sudeste, na direção do rio. E
então viu…
– Não – disse ele, empalidecendo. – Não…
Ela percebeu Patrick apertando seu braço.
– O que vai acontecer?! – quis saber ele. – Por que o menino está apontando pros peixes?
– Bem, nós vamos descobrir – explicou Zoe. – Histórias são assim. Elas começam do começo, aí acontecem coisas…
– Coisas ruins?
– Sim, geralmente, coisas ruins. Coisas boas não costumam render histórias interessantes.
Patrick pensou naquilo por um instante.
– É por isso – disse ele, concluindo – que eu só gosto de coisas sobre dinossauros.
Zoe julgou prudente, àquela altura, não contar a ele o que tinha acontecido com todos os dinossauros.
– Você não gosta de nenhuma história?
Ele deu de ombros.
Zoe arriscou colocar o braço em torno dos ombros dele. Ele imediatamente se sacudiu para se desvencilhar.
– Bem – disse ela –, coisas ruins acontecem.
– Essa é uma coisa bem ruim acontecendo – disse Patrick, apontando para a ilustração no Kindle dela. – Olha! No Portão de Belin. Quem é Belin?
– Um antigo rei guerreiro – explicou Zoe. – Ele está lá para proteger os peixes.
– Mas são só crianças! – lamentou Patrick. – Elas não podem lutar contra ele.
– Sim – disse Zoe com paciência. – Mas não se preocupe. Ainda falta acontecer muita coisa no livro. Provavelmente vai ficar tudo bem… Vai ficar tudo bem.
Patrick olhou para ela, não convencido.
– Vai ficar tudo bem? – perguntou ele em uma voz baixinha, e Zoe se viu subitamente sem palavras e com um nó inesperado na garganta.
Ela olhou para Hari, que dormia profundamente.
Como se podia garantir a uma criança sem mãe que tudo acabaria bem? Quando se era uma criança sem mãe, as coisas acabavam bem? Será que mentir ajudaria?
Zoe queria tomá-lo nos braços e abraçá-lo, mas não podia.
– Ainda falta muito pro fim da história – disse ela.
Ela pegou Hari no colo.
– Ele não pode ficar? – perguntou Patrick, parecendo pequenino na cama grandona.
– Um dia, quem sabe – respondeu Zoe, levantando-se.
Eles olharam um para o outro.
– Quer um beijo de boa-noite, então? – perguntou Zoe naturalmente, como se não se importasse com a resposta.
Depois de uma pausa, uma vozinha ínfima disse:
– Eu quero.
Zoe se abaixou, sustentando Hari com a cabeça repousada em seu ombro, e deu um beijo suave na testa de Patrick, que não se afastou.