Um novo capítulo para o amor

Jenny Colgan · Capítulo 39 de 50

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Um novo capítulo para o amor

Capítulo trinta e seis

 

O tempo estava fechando. Todos os dias Zoe tinha bastante certeza de que a coisa iria ficar feia. Tudo que ela sabia sobre a Escócia era que fazia um frio danado e tinha um monte de viciados em drogas que só comiam barras de chocolate Mars fritas. Ela estava explicando isso a Lennox, que, muito solícito, colocava na van as caixas grandes de livros que ela não conseguia carregar. Ela as estava selecionando com rapidez, fazendo Lennox piscar, surpreso. Ele sinceramente achava que Nina fosse a única pessoa no mundo capaz de fazer aquilo com livros, da mesma forma que sua ex conseguia fazer com sapatos.

– Como você faz? – quis saber ele.

– É fácil – respondeu Zoe. Ela pegava e descartava livros com rapidez. – Veja! Obviamente um lixo. Tentando fingir ser outra pessoa com a fonte. Tem uma menininha assustadora na frente.

– Qual o problema de um livro que tem uma menininha assustadora na frente?

– São todos péssimos – afirmou Zoe com firmeza. – Exceto por Flores no sótão, e não é mais permitido ter estoque dessa obra.

Lennox piscou.

– Por que não?

– Nem queira saber – disse Zoe, estremecendo. – Não é de todo mal que você nunca tenha lido quando era criança.

Ela distribuiu rapidamente o restante e juntou o que queria.

– Apenas os melhores – explicou, checando onde os livros abriam.

– O que você está fazendo? – quis saber Lennox.

– Vendo se tem sujeira – respondeu ela.

– Ah. – Lennox contorceu o rosto. – Você vai querer esses ou não?

– É preciso ler o cliente. – Zoe suspirou. – É claro que é nesse ponto que eu tenho dificuldade. Eu não conheço ninguém aqui.

Ela entregou um livro a Lennox.

– Anne de Green Gables? – perguntou ele, parecendo confuso.

– Pra Nina – esclareceu ela.

Zoe acrescentou uma Agatha Christie, O Hotel New Hampshire, os contos de Saki, um tesouro da Turma do Snoopy e uma coleção de ensaios de David Sedaris.

– Leitura pra aquecer o coração. Mande um beijo pra ela.

Lennox assentiu e pegou os livros.

– Ah, e pergunte se ela não pode fazer uma lista completa com as características e peculiaridades de todas as pessoas do vilarejo – gritou Zoe, mas ele já tinha ido embora, acenando solenemente com a cabeça para Hari, de quem gostava muito.

Na van, no entanto, a curiosidade disfarçada de preocupação ainda predominava, mas poucos livros eram comprados. Quando Zoe tocava timidamente no assunto e tentava direcionar as pessoas para coisas novas, elas tinham uma leve tendência a olhar para ela e dizer “Bem, a questão é que a Nina sabe exatamente do que eu gosto”, como se Nina tivesse poderes mágicos que ela, Zoe, jamais poderia ter. Além disso, não havia muito sentido em perguntar às pessoas, sem rodeios, de que elas gostavam, porque, por vezes, elas mentiam ou simplesmente não sabiam.

Resumindo, ela não estava vendendo muitos livros. Não mesmo. As pessoas lhe perguntavam se ela iria retomar a sessão de leitura de histórias para crianças e ela supunha que poderia tentar, mas quando? Ela mal conseguia dar conta de tudo, mal tinha um segundo livre para planejar qualquer coisa. Acrescentar algo novo naquele momento parecia ser forçação de barra. Ela não percebeu – e Nina tinha coisas demais em sua cabeça, então não dava para culpá-la por não ter mencionado – que a hora da leitura de histórias nas manhãs de terça era de importância vital: todas as mães do grupo compravam os livros depois da leitura e passavam um tempo conversando sobre as obras com as crianças. Era um verdadeiro empurrão nos lucros da loja pelo preço de meia hora de quietude nas almofadas, algumas canecas baratas de café e uma caixa de biscoitos sortidos.

Em vez disso, ela tirava o pó, organizava e colocava os novos livros de capa dura em destaque, mas em vão. Nada adiantou. Não passar um tempo na creche provavelmente também não ajudava; ela via as mães paradas à porta, conversando, mas não podia se juntar a elas, pois estava sempre com pressa. E ela precisava criar coragem. Quando ia lá ou à loja local, todos se calavam e ela se sentia mais forasteira do que nunca. Era esquisito: quando começou a trabalhar, achava que se sentiria menos solitária, por sair da casa, conhecer pessoas em uma comunidade pequena. Mas, fora Lennox, que a tratava com a mesma cordialidade com que tratava todos, era bem difícil conhecer pessoas.

– Como se conhece outras pessoas por aqui? – perguntou ela por fim a Lennox, meio constrangida. Pessoas que requeriam uma vida social eram um mistério para Lennox.

Ela havia perguntado até mesmo à Sra. MacGlone – de todas as pessoas possíveis –, que bufara e dissera que todos por ali eram pessoas horríveis e que ela deveria manter distância e não falar sobre o casarão, isso era tudo que todo mundo queria saber, metendo o nariz na vida dos outros, e Zoe respondera que ainda bem, então, que ela não conhecia nenhum “outro”, e a Sra. MacGlone bufara novamente e dissera que, bem, com certeza não era isso que ela vivia dizendo?, e que ela precisava costurar uns saquinhos de naftalina. E Zoe quase perguntara se ela havia ouvido alguma coisa estranha na casa – ela continuava sentindo que não estava totalmente sozinha em seu quarto, sem fazer ideia do porquê –, mas não perguntou. Era simplesmente estranho demais.

– Então – disse Zoe com toda a naturalidade que conseguiu. – Sabe, aqui tem milhares de quartos enormes e o meu é minúsculo, né?

A Sra. MacGlone lhe lançou um olhar pungente.

– O seu quarto – disse ela – é de empregada. Você não é uma hóspede.

E se afastou devastadoramente. Zoe não conseguiu encontrar palavras para dizer que sabia que não era uma hóspede – ela só tinha um leve receio de que houvesse um outro hóspede indesejado na casa.