Um novo capítulo para o amor

Jenny Colgan · Capítulo 16 de 50

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Um novo capítulo para o amor

Capítulo treze

 

Rapidamente Nina resgatou a mala surrada de Zoe do meio da rua, um gesto pelo qual o motorista do ônibus atrasado que ia para Aberdonian ficou bastante grato, e colocou-a de volta na calçada, enquanto Zoe se ajoelhava e recolhia Hari, que agora estava todo sujo, coberto de diesel e sabe-se lá do quê mais, com os cabelos grudados na cabeça e a boca escancarada, enfiando um dedo emporcalhado nela, o que certamente significava “Sim, eu refleti sobre o assunto e um sorvete seria bastante aceitável”. A velocidade com que ele colocava e tirava o dedo da boca parecia estar aumentando, e ele botou a outra mão emporcalhada enfaticamente no rosto de Zoe, para virar a cabeça dela em sua direção.

A mulher ficou parada ali. Zoe piscou, ansiosa.

– Hã… Você é…? – começou ela.

Era inútil. Muito tempo dormindo; uma viagem muito longa; um leve pânico. Ela havia esquecido total e completamente o nome da mulher que ia encontrar. Estava no seu celular, que estava em sua bolsa, que estava a seus pés, o que significava que poderia estar na Lua e daria na mesma.

A mulher não se apressou em preencher o silêncio; em vez disso, ficou olhando para Zoe com uma expressão que parecia de pavor. Para falar a verdade, Nina teve a forte impressão, ao observar Zoe, de que tinha sido tomada pelo seu entusiasmo por ter um bebê, por todo o romance daquela ideia, mas ali estava a prova nua e crua de como realmente seria. Ela ficou sem fôlego e de repente muito apavorada, incapaz de sequer conseguir pensar na pobre Zoe.

– Hã… – murmurou Zoe.

– Desculpe. Talvez eu esteja enganada – disse Nina, só para o caso de ela estar realmente enganada e ter, de alguma forma, cruzado com alguma indigente por acidente. – Quem você está procurando?

Hari tinha conseguido emaranhar a mão nos cabelos de Zoe e estava puxando com força. A bolsa caiu de novo. Zoe olhou para o ônibus de Aberdeen e considerou entrar nele.

 

– Livros… A mulher dos livros – Zoe conseguiu finalmente dizer, e Nina se esforçou ao máximo para sorrir.

– Olá! – disse ela. – Oi. Eu sou a Nina. Você deve estar exausta.

A mulher que olhava para Nina parecia ter mais que seus 28 anos. Havia um emaranhado de cabelos escuros no ponto da cabeça que ela encostara para dormir, ela exibia olheiras profundas sob os olhos e suas roupas estavam manchadas. A criança a estava puxando, agitada.

“Esta serei eu”, pensou Nina, horrorizada. “Esta serei eu.”

 

“Ó céus”, pensava Zoe, horrorizada. Aquilo era exatamente… Ela queria chorar. Pensou na primeira impressão maravilhosa que queria ter passado: seu filho lindo se comportando impecavelmente; uma aparência profissional e preparada. Infelizmente, ela estivera sem dinheiro para ir a um salão de beleza e tentara cortar o próprio cabelo com uma tesoura de cozinha (nunca tentem isso), além de não ter tido tempo de se arrumar no banheiro do ônibus depois de acordar. Sem contar que o banheiro do ônibus era insuportavelmente nojento e não havia onde deixar o Hari para ajeitar o cabelo. Ela havia higienizado ambos com um lencinho, mas, no fim das contas, só tinha meio que espalhado a sujeira e Hari parecia sebento.

E aquela mulher, com seu suéter roxo e a saia de tweed curta por cima do barrigão, combinando lindamente com seus cabelos ruivos… Ela simplesmente parecia perfeita ali, parte do cenário, mesmo enquanto tentava ocultar seu horror.

Zoe fechou os olhos. Bem, era tarde demais para voltar atrás.

Nina pegou as malas com determinação.

– É melhor você me seguir – disse ela, indo pela calçada entre as vagas dos ônibus. Zoe sentiu-se mal por deixar que ela carregasse as malas, mas não viu outra maneira.

Hari percebeu logo que aquilo significava zero sorvete e enterrou o rosto na camiseta de Zoe, enfiando a mão pela frente – um resquício dos tempos de amamentação –, e uivou silenciosamente, encharcando a roupa dela com suas lágrimas. Nina olhou brevemente para eles, então virou-se e continuou andando, eficiente, arrastando as malas de Zoe enquanto Zoe ofegava, tentando acompanhar seu ritmo com sua bolsa e um garotinho de 4 anos inconsolável e surpreendentemente pesado e seu carrinho.

– Suba no carrinho, Hari – sussurrou ela, e a criança meneou a cabeça com veemência.

Para ser sincera, Zoe não podia culpá-lo. A neblina era espessa e pesada, fazendo com que fosse muito difícil ter noção de para onde estavam se encaminhando. Enquanto Nina os guiava na direção de uma van azul extraordinária, ela avistou, em meio à escuridão, um prédio de arenito enorme, com colunas, descaradamente autoproclamado BIBLIOTECA PÚBLICA.

– Bem, cá estamos – anunciou ela alegremente, parecendo preocupada logo em seguida. – Ó céus – disse ela. – Eu pensei… – Ela olhou novamente para Zoe. – Eu sinto muito. Pensei que você fosse trazer uma cadeirinha.

– Eu tentei – Zoe começou a explicar. – Mas não consegui carregar.

– É claro! É claro que não conseguiu. Me desculpe! Ele pode ir no seu colo?

– Claro.

Nina pausou por um instante.

– Ou… Espere aí.

Ela desapareceu atrás da van com a bagagem de Nina e ressurgiu com três livros pesados.

– Podemos dar uma ajudinha pra ele.

Zoe olhou para os livros.

– Ah, não se preocupe – disse Nina. – São livros sobre como esconder legumes na comida das crianças. Não gosto deles. Desde que ele não faça xixi em cima, podemos usá-los sem problema.

E ela deu um sorriso nervoso, que Zoe retribuiu com outro sorriso nervoso.

– Muito bem, rapazinho – disse ela. – Pode subir.

– Ele é quietinho – observou Nina.

Surinder não tinha falado do mutismo de Hari, considerando que se tratasse apenas de timidez.

– Ele não fala – contou Zoe. – Ainda, digo. Provavelmente vai falar quando estiver pronto.

Nina encarou o garotinho pela primeira vez. Se você ignorasse as migalhas de comida e o catarro no nariz, era uma criança bonita. Ela conseguia ver um pouquinho da Surinder nele.

– Ele chora? – perguntou, curiosa.

– Só baixinho – respondeu Zoe, fazendo o que costumava fazer, ou seja, fingindo estar alegre para acobertar suas preocupações. – Você é simplesmente perfeito, não é, Harizinho?

Hari fungou e limpou o nariz na manga da camiseta. Parecia que ia começar a chorar de novo e, francamente, estava longe de ser o retrato da perfeição, mas elas decidiram não falar mais sobre aquilo enquanto Nina, cuja barriga tocava no volante, engatava a ré e com cuidado manobrava para fora da rodoviária.