Um novo capítulo para o amor
Parte 3
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
– O que acontece se eu olhar para baixo e cair, Wallace? E se eu não conseguir permanecer em pé?
– Bem, então não olhe para baixo, Francis. Seja otimista.
– Então é possível voar se você pensar que pode voar?
– Você é a pessoa mais estúpida que eu já conheci. Mas talvez. Um pouquinho.
De Entre os telhados
Capítulo quarenta e sete
Zoe tinha sido uma garota alegre, devoradora de livros; não era muito dada à introspecção. Se tinha tido um dia difícil no colégio, ela lia alguma coisa da série Os Cinco, na qual a amizade era uma certeza inquestionável. Se tinha tido um dia bom, lia A fantástica fábrica de chocolate, no qual regalos e desejos não revelados eram dados a crianças boas e generosas. Se ela estivesse se sentindo triste, lia algo da coleção O que Katy fez e imaginava o horror que devia ser ficar presa na cama. Se estivesse se sentindo otimista, lia A magia da árvore longínqua e criava as próprias terras.
Em suma, ela se automedicava com livros.
(Aliás, como autora desta obra e uma pessoa que sempre se automedicou com livros, não posso confirmar ou negar com legitimidade se essa maneira de lidar com a “vida real” é a melhor de todas. Na verdade, como leitora – todos os escritores são meros leitores, no fim das contas –, não sei ao certo se acredito nessa “vida real”. Sei que é uma traição imensa dizer isso, mas, poxa, os livros não são – vou falar baixinho – bem melhores que a vida real? Nos livros, os vilões são aniquilados ou derrotados ou mandados para a prisão. Na vida real, são seu chefe ou o presidente. Nos livros, você sabe o que aconteceu. Na vida real, às vezes você nunca fica sabendo. Nem se sabe ao certo se Amelia Earhart foi encontrada. Então livros são o que há de melhor, na minha opinião, ou, como diz o velho ditado: qualquer coisa que te faça dormir bem à noite – livros também. Livros fazem você dormir bem à noite.)
Zoe não tinha muita experiência com crianças de fato problemáticas – crianças que podiam estar aborrecidas por bons motivos, como não ter mãe e ter o que Zoe por vezes considerava um pai quase cruelmente distante. Todas as crianças com quem tinha lidado eram mimadas – algumas até idolatradas –, o que fazia delas pessoas difíceis, mas não perturbadas.
Ela não identificou os sinais de alerta; não os teria reconhecido. Mary sendo rude e desdenhosa não era exatamente uma novidade, então aquele dia ameno de outono começou como qualquer outro. Zoe tinha começado a ensinar Shackleton a fazer pães e bolos. Ele estava ficando cada vez melhor. Seu rosto apático estava menos petulante e mais alegre a cada dia, à medida que ele pesava uvas-passas com cautela e usava o celular para procurar receitas. Zoe tinha lhe dito que ele estava melhorando tanto que ela estava pensando em oferecer alguns dos quitutes dele para Agnieszka vender no centro de visitantes, ou talvez arrumar um emprego para ele na cozinha do centro, e ele estava se dedicando com tamanho afinco que ambos se surpreenderam.
– Quase como se houvesse um mundo inteiro além das torradas – comentou Zoe ao passar por ele aquela manhã enquanto ia colocar meias compridas nos dois garotos menores que insistiam em usar bermudas (eles gostavam de se vestir igual todos os dias), antes de saírem para o bosque por uma rota que requeria que tomassem um atalho por um trecho com urtigas, o que levava a muitos gritos, apesar dos alertas diários de Zoe sobre a conexão entre joelhos expostos e a ardência causada pela urtiga e da surpresa diária deles em descobrir que folhas de labaça não funcionam logo, como mágica.
Zoe tinha ido a Kirrinfief e, enquanto não vendia livro algum, conseguiu conversar com Kirsty, a diretora – ou melhor, Kirsty tinha ido lá assim que viu a van.
– Não tenho te visto muito por aqui – comentou Kirsty ofegante.
– Ah – respondeu Zoe. – Jura? Não, eu tenho estado bastante por aqui, nós só nos desencontramos.
Kirsty olhou em volta.
– Livros sobre o monstro do lago Ness? – Ela franziu o cenho. – Acho que você vai descobrir que a Escócia é um pouquinho mais que isso, Zoe.
– Sim, eu sei disso – garantiu Zoe.
– Enfim, você recebeu o comunicado?
Zoe meneou a cabeça.
Kirsty suspirou.
– Ah, pelo amor de Deus. O Ramsay é mesmo um caso perdido. Enfim, já temos uma data para o retorno das crianças. Após as férias de outubro. Eles vão passar por uma sessão de terapia para controle da raiva. E aí os dois podem voltar pra escola.
O comunicado, pensou Zoe, muito provavelmente tinha ido parar na “biblioteca” misteriosa junto com o restante da correspondência e nunca mais deve ter sido visto de novo.
– Certo – disse ela. – São boas notícias… suponho.
Kirsty franziu a testa.
– Sei que ele não se importa – disse. – Será que… Será que você pode ajudar, Zoe? Acho que você é uma boa influência.
– Você está me bajulando – respondeu Zoe.
– Estou, sim – confessou Kirsty. – Vai ser uma verdadeira dor de cabeça, sob todos os aspectos possíveis, se eles não voltarem.
– Fico surpresa pelo fato de o Conselho Tutelar não estar no nosso pé – comentou Zoe, reflexiva.
– Ele estaria, se vocês morassem no vilarejo – afirmou Kirsty, e ambas ficaram se perguntando se aquilo seria verdade.
– Enfim! – disse Kirsty. – Dia 2 de novembro. É nesse dia que retornamos. Esse é o seu prazo.
– Massa – respondeu Zoe.
Kirsty riu.
– Não acho que esse termo combine com você – disse ela. – Parece meio forçado.
– Eu sei – respondeu Zoe. – Só estava experimentando.
– Bem, agora você descobriu.
– Quer comprar um livro antes de ir?
– Eu adoraria! – disse Kirsty. – Mas infelizmente tenho filhos gêmeos, um emprego em período integral, um marido que tira tatu do nariz e dois alunos suspensos para cuidar.
– Tudo isso ficaria melhor se você lesse…
Mas Kirsty já tinha saído da van com Bethan e Ethan.
– Traga-os de volta! – gritou ela. – Vai ser legal, desde que ninguém morda ninguém.
Tudo parecia relativamente calmo na pequena cozinha e Zoe pensava que devia arriscar de uma vez quando, naquele momento, Mary entrou.
– Olá, querida – disse Zoe. – Ei, veja só.
Ela pensou em Larissa naquela noite.
– Shackleton e eu estávamos conversando sobre a escola – continuou Zoe.
Shackleton bufou.
– É, que seja.
– Eu só estava pensando se vocês não gostariam de vir comigo na semana que vem. Conversar com a Kirsty. Digo, a Sra. Crombie. A diretora.
– Eu sei quem é – disse Mary, que tinha ficado alerta e imóvel, a voz estática.
– Então, as férias de outubro vão chegar logo e aí em novembro…
– Não vou voltar.
– Bem – disse Zoe –, você meio que precisa. Caso contrário, vão colocar o pai de vocês na cadeia.
A intenção dela era que aquilo soasse leve, mas a maneira como saiu, ela percebeu, foi completamente diferente. Soou terrível.
– Não vão, não – afirmou Mary, parecendo apavorada.
– Não, quer dizer… Eu estava exagerando, é óbvio. Mas… querida, é a lei. As crianças precisam ir para a escola.
– Não podemos estudar em casa? – questionou Shackleton.
– E quem vai ensinar? A Sra. MacGlone?
– Você poderia ensinar.
– Não sei fazer divisões longas – argumentou Zoe. – Em primeiro lugar. E em segundo, eu já tenho dois empregos, obrigada.
– E em terceiro, você seria péssima – explodiu Mary subitamente. – Péssima e horrível e horrorosa e eu te odeio.
Mary saiu da cozinha aos prantos, batendo a porta.
Zoe só observou.
– Sim – disse Shackleton. – E por esses outros motivos.
Shackleton pareceu aliviado, como se estivesse preocupado que ela talvez tivesse se aborrecido.
– Eu acho… – disse Zoe, reflexiva. – Talvez só hoje… quer umas torradas?
Ela também se pegou pensando em como as explosões de Mary a incomodavam cada vez menos.
– Eu fiz pão! – exclamou Shackleton surpreendentemente.
– Sério?
O garoto lhe mostrou o local onde havia deixado a massa crescendo.
– Vi um tutorial no YouTube.
– Shackleton, eu poderia te dar um abraço!
Ele pareceu aflito.
– Não vou dar – garantiu ela. – Mas você é muito esperto.
Ele sorriu e ela ligou o forno para ele.
Naquele momento, Zoe decidiu levar algumas das roupas de Mary para a menina, que tinha, na verdade, passado a cumprir essa função com muito mais eficiência nos últimos tempos, mas a conversa sobre a escola havia, obviamente, acabado com isso.
Zoe chegou a bater – ela reprisou várias vezes em sua mente, mais tarde, quando tentava decidir se tinha feito a coisa certa –, mas os quartos, é claro, eram muito grandes, e as portas eram muito grossas, e ela estava carregando uma pilha grande de roupas…
Mesmo assim. Ela empurrou a pesada porta branca com o ombro, apoiando o queixo no topo da pilha de roupas, ainda meio sorrindo por causa de Shackleton e seu pão, e entrou de lado no quarto salpicado de verde-claro e amarelo-claro da luz das árvores, e se deparou com Mary, a criança, a menininha com rosto pálido e longos cabelos escuros, traçando uma longa linha trêmula na parte de trás da perna com a ponta de uma lâmina, o sangue escorrendo em sua pele alva como em um filme de terror.
Capítulo quarenta e oito
Em um primeiro momento, o pensamento que ocorreu a Zoe era de que Mary tinha menstruado – mas seria possível? Ela não era nova demais? Por outro lado, as meninas de hoje em dia menstruavam cedo mesmo, não é?, as coisas tinham mudado…
Tudo isso passou rapidamente pela cabeça de Zoe até ela perceber que o motivo simples e normal não era o correto; que aquele pequeno objeto brilhando na mão de Mary era uma lâmina.
A náusea subiu pela garganta de Zoe, mas ela sabia que não tinha tempo para demonstrar seu choque. O rosto da garota estava mais pálido do que nunca, mas também desafiador, com uma veia roxa em seu pescoço magro. “Está vendo?”, dizia ela sem falar. “Está vendo o que você me fez fazer?”
Zoe virou a cabeça e a colocou para fora da porta para não apavorar ninguém.
– Ramsay! – gritou, tentando soar profissional, e não desesperada. – Ramsay! Você pode vir aqui… Você poderia, por favor?
Ninguém ouviu. Maldita, maldita casa enorme. Ela desceu as escadas, atravessou o corredor voando e bateu furiosamente na porta enorme e proibida da biblioteca, berrando:
– VENHA ATÉ O QUARTO DA MARY! AGORA!
E então voltou para o lado de Mary, atrapalhando-se com o celular, tentando encontrar sinal para ligar para a emergência.
Ela agarrou a primeira coisa que encontrou – uma camiseta velha da Mary –, mas a menina começou a berrar instantaneamente, até ela pegar uma toalha velha.
– Venha cá – disse ela. – Querida. Por favor. Me dê essa lâmina. Por favor.
Mary estava olhando para o sangue no chão, bastante horrorizada e surpresa, como se nunca tivesse visto sangue na vida. “Tomara”, pensou Zoe. “Tomara que essa tenha sido a primeira vez.”
– Dê aqui pra mim. Agora – disse ela um tanto ríspida, estendendo a mão.
Para sua surpresa, Mary automaticamente lhe entregou a lâmina, ainda catatônica.
Zoe se moveu tão lenta e cautelosamente quanto possível e enrolou a toalha na perna da menina, puxando-a para perto de si, ignorando o sangue que manchava sua calça jeans, até encontrar uma maneira de estancar o fluxo.
Patrick apareceu à porta e Zoe, com toda a calma que conseguiu reunir, sibilou:
– Patrick, pode chamar seu pai? A Mary caiu.
Ao ouvir aquilo, Mary se sobressaltou; seus olhos enormes se fixaram de forma questionadora em Zoe, que afagou suas costas de um jeito que esperava ser encorajador.
– Shhh – sussurrou ela. – Vamos limpar você.
A boca de Mary se abriu e ela começou a chorar, soluçando violentamente, enquanto o sangue continuava pingando no chão.
Capítulo quarenta e nove
Finalmente Ramsay apareceu à porta, ficou branco feito papel e desapareceu logo em seguida. Por um momento terrível, Zoe pensou que talvez ele tivesse ido embora – simplesmente ido embora. Ele não podia ter feito isso.
Ele retornou alguns instantes depois, contudo, com um kit de primeiros socorros em uma caixa de madeira que parecia ser uma relíquia de qualquer uma das últimas quatro guerras.
– Mary – disse ele, aproximando-se e afagando a cabeça da filha enquanto Zoe lavava as mãos na pia do quarto e se preparava para examiná-la. – Mary, Mary, Mary.
A garota continuou chorando.
– Não consigo… Eu sinto… Eu queria…
Zoe se ateve a medidas práticas. Ela lavou a ferida rapidamente. Boa parte era superficial, mas o corte na coxa era profundo.
– Você vai precisar levar um ponto – informou. – Sinto muito, meu bem. Não vai parar de sangrar sem costurar. Você cortou bem fundo.
– Vou ligar pra Joan – anunciou Ramsay.
Zoe se levantou.
– Acho que não – disse ela secamente. – Acho que talvez ela precise ir para o hospital.
– Mas você falou “um ponto”…
Zoe meneou a cabeça, enquanto a menina chorava ainda mais alto.
– Ela precisa ser examinada, Ramsay. Você sabe disso. Sinto muito. Sinto muito por ela, desde que cheguei aqui. Mas ela precisa de ajuda. Você não acha?
– Não é culpa dela – disse Ramsay, desolado.
– Eu nunca falei que era – respondeu Zoe. – Você não vê? É justamente por não ser culpa dela que ela precisa de ajuda.
Ela se ajoelhou.
– O sangramento não vai parar – informou. – Acho que você deveria chamar a ambulância. Se ela atingiu uma artéria, precisamos ser rápidos.
Ramsay se atrapalhou com o celular e telefonou imediatamente. Zoe conseguiu fazer um torniquete decente, graças a um curso de primeiros socorros que seu antigo emprego a obrigara a fazer. Mas, enquanto ela tentava limpar a perna da Mary, reparou em algo muito mais preocupante: debaixo da enorme ferida nova havia uma linha branca fraca e sem pelos, uma cicatriz antiga. Ela encarou Ramsay, que desviou o olhar. Na mesma hora ela percebeu. Ele sabia. Ele sabia. Zoe ardeu em fúria por aquela garotinha.
Enquanto aguardavam a ambulância, com Mary repousando a cabeça no ombro do pai, o cérebro de Zoe estava a mil. Há quanto tempo aquela criança estava se automutilando? Ramsay já tinha visto aquela cicatriz antes, ela sabia.
O que ele estava fazendo? Ignorando? Torcendo para que tudo passasse? Que tipo de pai ele era? O que ele estava pensando?
A Sra. MacGlone foi chamada para cuidar das crianças e eles mantiveram a versão de que ela havia caído e se cortado e, por isso, eles a estavam levando para ser examinada.
– Você vai ao hospital? – perguntou a Sra. MacGlone, cética.
Zoe já tinha se decidido. Ela queria estar lá, ver o que Ramsay diria aos médicos. Aquele era um de seus papéis como cuidadora.
– Sim, vou – respondeu ela secamente. – Se você puder ficar de olho no Hari, eu agradeço.
Não era uma sugestão.
No hospital, eles esperaram, nervosos, enquanto Mary passava pela triagem e era levada para tomar os pontos. Ela apertou a mão de Ramsay enquanto a enfermeira trabalhava com agilidade e precisão e então ela disse, como Zoe sabia que diria, que seria necessário chamar alguém para trocar umas palavrinhas só com a Mary sobre o que tinha acontecido, está bem?
Ramsay e Zoe se sentaram com duas cadeiras de distância um do outro na sala de espera. Tudo parecia estar levando uma eternidade. Zoe pegou dois copos de um chá horrível da máquina para eles, mas estava zangada demais para puxar conversa.
Por fim a recepcionista apareceu.
– Qual de vocês é da família? – perguntou ela, olhando de um para outro.
Zoe perguntou-se o que ela acharia que eles eram – um casal que havia se distanciado? Duas pessoas que haviam se desentendido? Divorciados?
Ramsay se levantou, parecendo ridiculamente alto demais na saleta de teto baixo do pronto-socorro. A cabeça dele bateu no foco de luz.
A recepcionista olhou para ele enquanto se preparava para anotar algo em sua prancheta.
Capítulo cinquenta
Zoe se pegou virando-se para Ramsay e encarando-o. Ele estava vermelho feito um pimentão. Ela ergueu as sobrancelhas para ele, mas ele estava claramente se recusando a olhar para ela.
Naquele momento, o jovem médico surgiu da sala em que Mary estava e indicou que eles se aproximassem.
– Posso entrar? – perguntou Zoe, ainda fervendo e decidida a não deixar que aquilo prosseguisse sem ela como testemunha.
Ramsay deu de ombros e ela os seguiu para dentro da sala. Mary tinha sido transferida para uma enfermaria, então eles estavam sozinhos.
– Pois bem – disse o homem, olhando para os dois. – Não posso fazer coisa alguma sem o seu consentimento explícito. Você é o tutor legal dela?
Ramsay confirmou com a cabeça.
O médico franziu o cenho.
– O único?
Ramsay confirmou brevemente de novo, como se não houvesse necessidade alguma de discussões ridículas quanto àquela questão. Seu ar patrício deixou o jovem médico ainda mais nervoso do que ele já parecia estar. Ele consultou suas anotações e pigarreou.
– Bem, nós suturamos a ferida, mas o corte atingiu uma artéria. É, potencialmente, um ferimento bem grave.
Ele ergueu os olhos, arregalando-os por trás dos óculos.
– Potencialmente letal, se vocês não a tivessem encontrado a tempo.
– Meu Deus – murmurou Zoe, sem conseguir evitar.
Ramsay simplesmente fechou os olhos.
– Nós demos os pontos – continuou ele. – Mas receio que ela precisará ficar em observação. Só para o caso de ter sido uma…
– Tentativa de suicídio – completou Ramsay, e o médico enrubesceu, parecendo aliviado por não precisar dizer aquelas palavras.
Ramsay piscou. Seus dedos estavam cerrados em punhos apertados.
– Onde? – quis saber ele. – Aqui?
– Não – respondeu o médico. – Temos uma unidade anexa ao hospital.
Ramsay cerrou a mandíbula.
– Não quero que ela vá pra lá. Ela não vai para aquele… asilo.
– É o melhor lugar… Eles têm as instalações… Nós não podemos…
O rosto de Ramsay permaneceu rígido; não havia nada daquele ar ambivalente nele.
– Não – afirmou. – Ela não vai pra lá. – Ele se levantou. – Vou vê-la.
Os três entraram na pequena enfermaria juntos. O hospital estava silencioso àquela hora do dia, bem diferente dos lugares barulhentos e abarrotados onde Zoe costumava levar Hari. Era quase tranquilo. Mary estava sentada, com uma carranca.
– Minha querida – disse Ramsay, indo até a cama e abraçando-a. – Meu amor. Eu sinto muito.
Ramsay olhou para Mary e segurou seu rostinho comprido com as mãos grandonas.
– Me diga que você não estava… – murmurou ele.
Os olhos enormes de Mary se encheram de lágrimas. Ela meneou a cabeça.
– Eu não estava… Eu não estava tentando me matar. Eu juro. Eu juro.
Ramsay a envolveu em um abraço.
– Está tudo bem, minha querida, está tudo bem.
– Não deixe eles me colocarem no hospício! Por favor! Não deixe eles me colocarem no hospício!
– Não… Não chame assim – pediu Ramsay. – Tudo que nós queremos é que você fique menos infeliz, meu amor.
– Mas eu só… Foi só um cortezinho.
– Mas… Mas por quê?
A voz de Ramsay era muito triste e repleta de carinho, como se ele já soubesse que não havia uma resposta. Zoe olhou para ele, vacilando.
– Pra tentar… Eu achei que fosse ajudar. – Ela disse as palavras seguintes tão baixinho que foi quase impossível de ouvir: – Onde fica a cicatriz.
Ramsay virou o rosto e não conseguiu falar. Em vez disso, puxou Mary para perto de si e ela sussurrou em seu ouvido:
– Eu sinto falta dela.
– Eu sei – disse ele, ninando-a como se ela fosse bem mais nova do que seus 9 anos. – Eu sei que sente. Eu sei. Estou fazendo o meu melhor, meu amor. – Mary baixou a cabeça. – Estou… Eu… E a Zoe…
– Ah, você e a Zoe – repetiu ela, seu tom transbordando sarcasmo. – Ah, sim, eu tinha me esquecido da “maravilhosa Zoe”.
– Que encontrou você – lembrou Ramsay delicadamente. – Antes de você encharcar o piso de sangue.
Mary fez bico.
– Você deveria ficar agradecida – continuou Ramsay.
– Por quê? – indagou Mary.
– “Por quê”? – esbravejou Ramsay, subindo o tom de voz de repente. – Porque eu não posso perder mais uma pessoa! Não posso perder você, Mary! Não posso! Sou seu pai!
Lágrimas encheram os olhos de Mary e ela concordou.
– Sim – disse ela com uma vozinha minúscula. – Você é meu pai.
– Eu sou seu pai! – repetiu Ramsay. – Sou seu pai! E eu te amo! E vou tentar consertar as coisas da melhor maneira possível, Mary… mas você precisa… você precisa ficar comigo. Você precisa. Você precisa tentar. Mesmo quando não quiser. Mesmo quando for difícil. Mesmo quando sentir que é tudo culpa minha…
O rosto dela se virou e Zoe percebeu que ele tinha pisado em algum calo.
– Eu sei que você pensa isso – continuou ele. – Eu sei disso. Eu não posso… Não há nada que eu possa dizer ou fazer pra mudar isso. Mas, por favor, acredite em mim. Eu estou tentando.
Mary estremeceu nos braços dele e deixou as lágrimas caírem em sua camiseta.
– Eu não estava tentando…
– Shhhh – sibilou Ramsay. – Eu vou ficar – decidiu ele. – Doutor, posso ficar, certo?
– Bem, ela realmente ficaria melhor no…
– Não! Ela já disse. Foi só um cortezinho pequeno que ela fez no lugar errado. Foi um acidente. Vamos ficar aqui.
Zoe se levantou. Sua raiva havia se dissipado, substituída por uma pena imensa e a sensação de que a Sra. MacGlone, logo ela, tinha razão: ela estava se intrometendo em algo mais profundo do que compreendia, em coisas que não eram da sua conta.
– Vou ver como estão os outros – informou ela. – Fazer um chá.
Ela caminhou até eles.
– Espero que você esteja bem – disse a Mary.
Piscando, a menina olhou para ela. E, pela primeira vez, disse algo que Zoe não estava esperando:
– Obrigada.
Capítulo cinquenta e um
Assim que chegou em casa, Zoe foi logo cercada por todos. O que havia de errado com a Mary? Shackleton estava perturbado.
– Ela está querendo chamar a atenção? – perguntou ele atentamente. – Ou está…? Foi…?
A delicadeza na voz dele era, novamente, incomum.
– Ele está perguntando – disse Patrick – se a Mary absolutamente morreu.
Zoe olhou para baixo.
– Ela absolutamente não morreu – respondeu ela, tentando manter o tom de voz leve. – Foi apenas um acidente; ela estava um pouco assustada. Ela voltará amanhã e todos nós seremos muito, muito gentis com ela.
Na verdade, ela percebeu enquanto entrava na cozinha, com a luz dourada do outono atravessando as janelas, que, embora parecesse que aquele dia tinha durado umas cem horas e ela não conseguisse acreditar que ainda estava claro, e não no meio da madrugada, havia algo de diferente.
Havia grandes cachos de hera e bolotas. Os garotos tinham decorado a cozinha. Estava linda. E no fogão havia uma panela de cozido fervilhante, com frutas vermelhas e cogumelos cuidadosamente colhidos pelo dono de Porteous. O cheiro era divino.
– Você que fez isso? – perguntou ela, virando-se para Shackleton, que sorriu, meio encabulado. – É incrível! Maravilhoso.
– Ela não vem pra casa hoje? – indagou ele, preocupado. – E meu pai?
– Não – respondeu Zoe, meneando a cabeça. – Eu vou ficar em casa amanhã e, se tudo der certo, poderei ir buscá-los. Vocês querem vir?
Estranhamente, os dois garotos se encolheram.
– Eu não… Nada de hospital – respondeu Patrick, atipicamente quieto.
Ambos pareciam apavorados.
– Está bem – disse Zoe. – Hari e eu iremos, não é, meu amor?
O garotinho ergueu os olhos, sorrindo.
Zoe estava nervosa enquanto dirigia no dia seguinte. Hari sacolejava alegremente no banco de trás, seguindo com os olhos as folhas vermelhas e alaranjadas que caíam, redemoinhando e dançando diante do para-brisa.
– São tantas folhas – comentou Zoe, reflexiva. – Para onde é que elas vão?
O grande – enorme – alívio foi saber que Mary teria alta. O psiquiatra infantil tinha aceitado a explicação dela de que estava se automutilando, e não tentando cometer suicídio. Não que isso fosse tranquilo; eles precisariam contatar todas as autoridades e números de telefones possíveis; Zoe viu Ramsay olhar para a lista de forma um tanto apressada e fez uma nota mental para si mesma de pegar a lista e traçar um plano de ação. Eles também entrariam na lista de espera do Serviço de Saúde Mental para Crianças e Adolescentes. Mesmo evasivo, o psiquiatra deu a entender que talvez fosse levar um tempo.
Contudo, eles não iriam interná-la. O imenso alívio de Ramsay era evidente enquanto Zoe estacionava na frente do hospital e encontrava ambos esperando por ela.
Ramsay estava com olheiras profundas – ele não devia ter dormido e parecia ter envelhecido cinco anos em uma noite – e, quando Mary hesitou em ser levada na cadeira de rodas, ele mesmo a carregou até o carro. Hari agitou as mãos, sorrindo ao vê-la. Como de costume, Mary o ignorou desdenhosamente, mas ele não se abalou. Estava contente.
Zoe e Ramsay os observaram em silêncio enquanto Zoe assumia o volante de novo, sem que Ramsay dissesse uma única palavra, embora ele mal conseguisse se espremer no banco do passageiro do carrinho verde. Ele parecia esgotado e ela ficou feliz por dirigir pelas ruas douradas e compridas, vazias, em silêncio, o que tornava o próprio ato um prazer em si, com os longos campos se estendendo diante deles, tomados pelas medas de trigo amarradas em fardos redondos – não quadrados –, e, de vez em quando, avistando um vislumbre do sol cintilando no lago ou um trator deambulando para um lado ou para outro, ou um motorhome passeando pelo meio da estrada que Zoe ousadamente ultrapassava.
Ela estava esperando que as duas crianças pegassem no sono – o que, embaladas pelo zunido do motor, logo aconteceu – para que pudesse fazer umas perguntas sérias para Ramsay.
Mas, quando as crianças adormeceram em suas cadeirinhas – o rosto de Mary no retrovisor ainda era branco como giz e ela estava com a perna apoiada em cima do banco, cheia de curativos –, Zoe olhou para o lado… e viu que Ramsay também tinha pegado no sono, com a cabeça apoiada na janela, o sol lustrando os cachos claros na testa grande dele, a tensão finalmente esvaída de seu rosto.
Ela jamais teria coragem de acordá-lo, então deixou que dormisse, que todos dormissem, e nada quebrava o silêncio exceto uma ocasional lombada na pista e o pio dos pássaros que circulavam cada vez mais alto na corrente ascendente.
Capítulo cinquenta e dois
Zoe colocou Mary na cama sem despertá-la, vestindo nela seu pijama cuidadosamente, e então foi encontrar Ramsay. Ela acabou encontrando-o perto do antigo barco abandonado, olhando para a água.
– Ela está na lista de espera – disse ele por fim, como se soubesse o que ela iria dizer antes mesmo que ela abrisse a boca.
– Mas e se pagar particular? – sugeriu ela.
No fundo, ela não conseguia acreditar que Ramsay não tinha dinheiro, independentemente do estado dos jardins; a casa a fazia pensar que era impossível.
Ramsay soltou um suspiro.
– Eu… Eu não sou um… – Ele colocou a mão na nuca. – Nós tentamos. Antes. Não deu muito certo.
– O que aconteceu?
– Ela se recusou a falar qualquer coisa além de chamar a terapeuta de… um nome que eu não gostaria de repetir.
– Ah – murmurou Zoe.
A pergunta estava na ponta de sua língua, mas ela não conseguiu fazer: por que ela era assim?
– Eles queriam drogá-la. Dar uns remédios bem fortes pra ela.
– Acho que a medicação pode ajudar muita gente.
– Dopar a minha garotinha… sendo que ela não queria tomar nada. Ela só está triste. Ela tem… – O olhar de Ramsay era bem distante. – Ela tem um bom motivo para estar.
Ele se virou para Zoe; sua expressão era suplicante.
– Estar triste porque você sente falta da sua mãe… isso é normal. Não uma condição médica que deveria envolver remédios para dopar uma criança. Você não acha?
Zoe refletiu.
– Sim, mas se ela está se automutilando…
– Eu sei, eu sei, isso muda tudo.
Ele passou os dedos pelos cabelos e obviamente não fazia ideia de que os fios ficaram espetados para todos os lados possíveis depois. Então virou o rosto para outro lado e Zoe levou alguns instantes para perceber, de repente, com um choque estranho, que ele estava chorando e tentando ao máximo fingir que não estava.
– Me deixe conversar com alguém da escola – sugeriu Zoe, dando um passo na direção dele.
Se fosse outra pessoa, ela teria colocado a mão nele, dado um abraço. Mas, com Ramsay, aquilo representava dois problemas: primeiro, ele era tão enorme que ela acabaria abraçando os quadris dele, ou algo igualmente constrangedor, e segundo, ele era, é claro, seu chefe. Mas ficar parada ali sem fazer nada também era ruim. Ela acabou acariciando os braços dele delicadamente e ele logo esfregou o rosto com o colarinho da camisa e se endireitou.
– Desculpe – disse ele.
– Não precisa pedir desculpas – respondeu Zoe, olhando para o relógio para fingir que estava superocupada e tinha algo para fazer. – Mas eu poderia ver o que a Kirsty propõe… Eles devem ter um psicólogo.
– Não, não faça isso… – Ramsay se encolheu. – Eu não quero… fofocas, assistentes sociais e tudo mais… Ela só pioraria… se formos colocá-la de volta na escola.
Zoe anuiu.
– Certo. Bem. Talvez eu converse com a diretora em particular, então. Somos amigas.
Ele se encolheu novamente.
– Certo. Bem. Talvez casualmente. Só pra ver o que eles têm a oferecer.
Zoe se virou.
– Não sei se ajuda, mas… acho que ela não é a única… a se cortar.
A expressão de Ramsay era muito triste.
– É sério isso?
Do lago, ouviu-se um breve ruído quando um salmão saltou, brilhou à luz do sol e desapareceu novamente.
– Ah – murmurou Zoe.
– O quê? – perguntou Ramsay.
Zoe ficou olhando para o sol reluzente brilhando sobre a pele de uma foca que estava olhando para eles tão atentamente que era impossível não pensar que ela os reconhecia. A expressão em seu rosto era de alguém tentando identificar uma pessoa em uma festa.
– É tão lindo aqui.
A foca saltitou pelo rochedo.
– Olá, foca gordinha – disse Zoe. – Sou eu aqui.
A foca saltitou um pouco mais na pedra.
– Isso deve doer.
– Elas têm a pele bem grossa – murmurou Ramsay.
Zoe o observou se abaixar e pegar uma pedra para arremessar na água, fazendo-a saltar. Ela se pegou pensando em como a parte superior do corpo dele era distante da parte de baixo e se perguntou se ele achava isso estranho, mas logo percebeu que aquilo era algo ridículo de se pensar.
Ela olhou ao redor, da água para o bosque, passando pelos jardins, até chegar na casa. Um ar gelado ficou preso no fundo de sua garganta.
– Sabe, quando eu era criança… nós morávamos em um cômodo. Meu pai… Ele não era presente. Ele vivia envolvido com… – Ela pausou. – Coisas… de Bethnal Green. Antes de Bethnal Green ser bonita, chique, cheia de lojas de móveis e coisas desse tipo. Nós não tínhamos nada. Nada de grama, nada de árvores, nada disso. Apenas trânsito, fumaça e um pequeno apartamento em um bairro com placas de “Proibido jogar bola” por toda parte e uns viciados nos becos. Eu sequer sabia que lugares como este existiam.
Ramsay deu um sorriso levemente triste e fez outra pedra saltar na água com destreza.
– Eu não… Isso vai parecer estúpido – continuou ela.
– Não tem problema – garantiu Ramsay. – “Estúpido” fica um degrau acima do lugar onde eu me encontro agora.
No céu, duas andorinhas-do-mar voavam em círculos, subindo cada vez mais na corrente ascendente. Zoe as observou subir, depois voltou a olhar para as ondinhas quase imperceptíveis que os saltos de outra pedra arremessada com perfeição provocaram na superfície vítrea do lago.
– Não compreendo como alguém poderia ser infeliz aqui.
Zoe mordeu o lábio e sentiu uma súbita vontade de chorar.
Ramsay abaixou lentamente a pedra que estava segurando. Ele não estava mesmo esperando aquilo.
– Como assim? – indagou.
Zoe confirmou, olhando para o chão:
– Eu não conseguiria… Bastaria me mostrar a sua casa, os jardins, a propriedade e, meu Deus, vocês têm até a própria madeira! E as raposas e os pássaros e os peixes e…
Ramsay olhou para ela.
– Eu sei. Como é que alguém poderia ser infeliz aqui, não é? Acho que faz sentido.
Ele soltou um suspiro pesado enquanto olhava ao redor.
– É melhor eu ir vê-la.
Infelizmente, Kirsty acabou não sendo de grande ajuda.
– Ah, isso é terrível!
– Ela precisou de dois pontos!
– Nossa. Mais uma criança.
– Jura?
– Embora, normalmente, não por aqui. As Terras Altas e as ilhas são os lugares mais felizes para crianças na Grã-Bretanha, sabia?
Zoe sentiu o estômago se contrair. Aquilo confirmava o que ela sentia desde que chegara, o que tinha dito a Ramsay. Ar puro, água cristalina, lugares seguros para brincar. Ela não conseguia pensar em um lugar melhor para crianças. Para o próprio filho, que, embora ainda não estivesse falando, parecia mais extrovertido, mais confiante do que nunca. Afagando cachorros, fazendo amigos – coisas que ela achava que ele jamais conseguiria.
Ela se forçou a voltar ao presente.
– Sim, eu consigo entender… mas não faz muita diferença pra Mary…
– Não – concordou Kirsty, franzindo o cenho. – Sabe, o fato de ela ficar em casa, remoendo as coisas o tempo todo… Isso não vai ajudá-la em nada, você sabe disso, não sabe?
Zoe confirmou:
– Totalmente.
– Nós temos psicólogos parceiros da escola…
– Vocês já trabalharam com eles?
Kirsty deu de ombros.
– Sinceramente, a maioria das nossas crianças… Quer dizer, se elas perdem um cachorro, é um desastre. E tivemos o Ben no ano passado, que tinha problemas de leitura, mas ninguém que eu tenha encaminhado. Mas, pelo que sei, eles são ótimos.
– Ela vai precisar ser encaminhada – disse Zoe.
– Bem. Sim. Precisa. Mas, Zoe, ouça: ela precisa voltar pra escola. Faça-a voltar depois das férias e nós daremos um jeito.
Zoe assentiu:
– Certo.
Ela não mencionou que foi a mera ideia de voltar para a escola que tinha provocado aquela reação em Mary.
Capítulo cinquenta e três
Mary precisava passar alguns dias na cama porque a ferida ficava numa parte complicada da perna e, se os pontos abrissem, a coisa podia ficar feia.
Mas, de alguma forma, com Zoe e os garotos, não importava.
O grupo briguento e malcriado que ela encontrara apenas dois meses antes parecia ter mudado além da imaginação. Eles faziam chá, ajudavam, buscavam ovos. É claro que ainda discutiam ruidosamente. Mas a tendência era que fosse enquanto eles faziam coisas. Até mesmo Hari era útil, de certa forma, usando sua vassourinha e carregando a própria roupa limpa, um par de meias por vez, pelos quatro lances de escada até o quarto. Levava um tempo danado, mas isso não parecia importar.
Assim, Zoe podia passar mais tempo com Mary – não para conversar com ela; ela havia aprendido a lição de que uma abordagem direta não rendia bons resultados. Em vez disso, apareceu à porta dela com um exemplar de um livro antigo.
– É sobre uma garota que não tem mãe e não pode sair da cama e odeia todo mundo – explicou. – Então, provavelmente não é relevante pra você.
Essa abordagem direta foi deliberada da parte de Zoe.
Na noite anterior, deitada na cama e sem conseguir dormir – e certa de que o restante da casa também não conseguia –, ela decidira parar de pisar em ovos com relação àquela questão. Ela não sabia onde a mãe de Mary estava. Parecia muito provável que Mary também não soubesse, dadas as perguntas que ela andava fazendo. As únicas pessoas que provavelmente sabiam eram Ramsay e a Sra. MacGlone, e nenhum dos dois era de muita ajuda.
Mas Zoe iria acabar com aquela fantasia ridícula de que a mãe deles estava no quarto ao lado, ocupada, e iria voltar a qualquer minuto. Ela iria parar de censurar qualquer menção à palavra “mãe” ou “mamãe”, iria parar de falar besteiras completas.
Era uma falácia terrível – e ela achava que os escritores do passado entendiam isso melhor que os do presente.
Além disso, perder uma mãe ou um pai era algo comum, ela supunha. Havia 5% de chance de a mulher morrer no parto. Qualquer doença antiga poderia matar. O mundo estava repleto de crianças sem mãe ou sem pai, ou cujos pais haviam morrido em alguma guerra. E o mundo estava cheio de irmãos mortos, de bebês que nasciam e não ganhavam nome até a família saber se a criança sobreviveria ao tétano ou à febre escarlatina, ao sarampo, à pólio, à influenza, à hidropsia, ao tifo e à guerra, a acidentes de cavalo e ao nascimento letal. E ninguém fazia rodeios. Eles compreendiam e eram claros com as crianças com relação à morte e à dor; não fingiam que não existia ou que não aconteceria com eles.
Nos dias de hoje, era raro perder um pai ou uma mãe, e as pessoas não discutiam o assunto, para evitar atrair o azar, tentar o destino ou a superstição. Ela pensou em quantas pessoas não conversavam sobre a mudez de Hari para evitar que a atenção ao problema trouxesse má sorte, de alguma forma, para os filhos delas.
Mas Zoe tinha decidido parar com tudo aquilo. Crianças não eram burras, nem um pouco. Elas assimilavam tudo que acontecia, mesmo que não compreendessem plenamente. Desde o início, Hari sabia que seu pai não aparecia para ficar, que não estaria ali para sempre. Ele não ficava feliz, mas sabia que era assim que funcionava. Fingir que não havia um problema com relação à mãe das crianças tinha levado Mary direto ao hospital, e Zoe não continuaria com aquilo.
Então ela falou com delicadeza – “Este livro é sobre uma garota que não tem mãe” – e olhou bem nos olhos de Mary ao fazê-lo.
Mary a fitou com desconfiança. Zoe não tinha certeza se estava imaginando, mas parecia que parte da força havia se esvaído dela.
– Não me importo – disse ela por fim.
Então Zoe sentou-se ao lado dela e abriu O que Katy fez.
Capítulo cinquenta e quatro
Não era que a força tivesse se esvaído de Mary. Isso nunca poderia acontecer. Parte daquela garota era indomada e sempre seria, e Zoe concluiu que provavelmente pudesse aceitar aquilo.
Mas havia uma coisa no fato de ela não poder se mexer que fez a diferença.
Para alguns – talvez a maioria das pessoas –, ter que ficar na cama os deixaria raivosos, inquietos e irritados. Para Mary, o efeito parecia ser o oposto. Zoe se perguntou se, talvez, o fardo tinha sido aliviado; se o custo emocional de nunca baixar a guarda, estar sempre na defensiva, estressada, como um animal encurralado, tinha sido aliviado.
Ela dormia bastante e comia sem discutir os pratos que Zoe montava para ela. Nada complicado: mingau grosso, descansado durante a noite, com o creme de leite disponível nas mercearias locais e a densa geleia de amora que eles tinham feito – todos comeram muito –; Horlicks (Zoe não tomava há anos, mas encontrara latas enormes na despensa); sopa de legumes em pedaços grandes e um bom pão; até mesmo (e mais de uma vez, assim que ela percebeu o sucesso que fez) geleia com sorvete.
E agora que o quarto dela estava limpo e um pouco mais organizado, Patrick e Hari começaram a ir até lá para brincar. Mary protestou de leve, mas não se importava de verdade. E todos os momentos em que não estava trabalhando, Zoe passava lá, lendo para ela.
Elas leram todos os livros da Katy e logo partiram para Mulherzinhas, à medida que os dias começaram a encurtar e as folhas, a tomar as ruas, bloqueando os drenos e parando os trens. A lareira ficava acesa o tempo todo na cozinha agora e a Sra. MacGlone concordou em colocar um braseiro no quarto da Mary também e, após alguns dias, Zoe tinha bastante certeza de que a ferida havia cicatrizado – ela era uma criança, afinal de contas –, mas também tinha certeza de que passar um tempo como uma inválida, sem sair da cama, estava curando outra coisa em Mary, muito embora ela não conseguisse indicar exatamente o que era, e ela mencionou isso para Joan quando a médica foi gentilmente até lá para remover os pontos.
– Será que você poderia dizer que ela ainda não está pronta? – pediu ela, esperançosa, no corredor.
Joan pigarreou.
– Não é bom para um ser vivo não estar em pé e se movimentando por aí.
Zoe pensou nas longas e solitárias caminhadas que Mary fazia perto do lago, em como ela costumava ir longe, sozinha, de camisola, sabe lá Deus pensando em quê.
– Eu entendo – disse Zoe. – Mas, nesse caso, será que você poderia abrir uma exceção?
Joan piscou.
– Eu acho – disse ela – que você está se afeiçoando a este lugar.
– É um gelo – observou Zoe. – Nunca tem água quente, os cervos vivem comendo os morangueiros, as crianças ainda não voltaram pra escola, a casa está cheia de aranhas e eu não ganho o suficiente nem pra sustentar um rato.
– Aham – respondeu Joan.
Elas sorriram uma para a outra enquanto Zoe retomava seu lugar ao lado de Mary.
– Infelizmente você vai precisar ficar mais quatro dias de cama – disse Joan.
Ela olhou de soslaio para Zoe, que manteve a cara de paisagem.
Embora isso, em geral, fosse motivo para uma briga, Mary pareceu estranhamente aliviada.
– Está bem – sussurrou ela.
E, de fato, com o dia escurecendo mais cedo, o quarto era um cenário aconchegante: as cortinas pesadas, finalmente limpas, entreabertas para que ainda fosse possível avistar as estrelas; o fogo crepitando alegremente no pequeno braseiro; a pilha de livros acima da cama de Mary, que crescia a cada dia que passava; Patrick e Hari brincando de ser ursos no tapete sob o braseiro. Zoe havia levado algumas flores tardias do jardim e saudades e saiões acrescentavam um toque de beleza ao quarto amplo.
– Então – disse Zoe depois que Joan foi embora –, a gente precisa muito arrumar umas roupas novas pra você.
Mary fez uma careta.
– Pare de tentar me fazer gostar de você – disse ela.
– Não estou tentando – afirmou Zoe com tranquilidade. – Estou sendo prática. Tudo bem que você ficasse zanzando por aí de camisola durante o verão. Mas no inverno não vai ficar tudo bem.
– Posso usar as roupas antigas do Shackleton.
– Não pode, não.
Shackleton estava usando as roupas antigas do pai. Zoe desconfiava fortemente que tais peças vinham sido repassadas – ou ao menos estavam na casa – de geração a geração entre os Urquarts. Era preciso admitir que ele ficava bastante elegante de tweed.
– Vamos lá, vai ser divertido. Vamos para Inverness. Tinha uma Zara lá – disse Zoe, pesquisando no celular.
Mary parecia não fazer ideia do que era uma Zara e não ligava a mínima.
– Fala sério, você está fazendo isso pra me fazer gostar de você? – perguntou ela novamente em tom aborrecido.
Zoe concluiu que ela estava se recuperando, já que retomava o antigo comportamento.
– Não – respondeu ela com sinceridade. – Eu não ligo se você gostar de mim ou não, sou apenas a au pair. Mas ligo que você não morra de frio quando eu deveria cuidar de você.
Mary pensou naquilo por um segundo.
– Está bem – respondeu por fim.
Capítulo cinquenta e cinco
Certa noite, Zoe esperou até Ramsay voltar e ir para a biblioteca, mas sem deixar muito tempo passar. Ela não queria correr o risco de que ele ficasse imerso em alguma grande obra.
Fez uma xícara de chá para ele e cortou umas fatias do bolinho que ela e Shackleton tinham preparado juntos aquela tarde. Patrick e Hari também tinham feito um, mas eles ganharam uma parte especial, que enrolaram com as próprias mãozinhas e puderam comer sozinhos, pois estavam absurdamente sujos.
Zoe bateu à pesada porta de madeira com cautela. Ela ainda não tinha entrado na biblioteca. As crianças ficaram boquiabertas quando ela anunciou que iria até lá.
– É absolutamente bastante absolutamente proibido ir lá – alertou Patrick. Do jeito que disse, parecia que ela poderia ser comida por um tigre.
Era estranho: Ramsay parecia ter um temperamento tranquilo, nada da personalidade de Barba Azul que Zoe, em parte, esperava quando chegara à casa. Mas todas as crianças Urquart tinham medo daquela faceta.
Enquanto Zoe atravessava o corredor cada vez mais escuro, disse a si mesma para não ser ridícula. Mesmo assim, aquela era a parte da frente da casa, não a ala com a cozinha, o quarto de Mary, ou as escadas estreitas para os aposentos da criadagem, área onde ela normalmente ficava. Ela se perguntou se deveria ter feito uma lista com as coisas que precisava pedir, caso esquecesse. Era só o seu chefe, afinal. Ela só precisava ser corajosa. De novo – pensou com pesar.
Bateu de leve uma vez e, depois, um pouco mais forte. Ouviu uma voz lá dentro e presumiu que tinha autorização para entrar, então empurrou a pesada e ruidosa porta.
A biblioteca era tão linda que, por um instante, ela apenas ficou parada, olhando.
Lamparinas queimavam por todos os lados e as janelas estavam abertas, deixando entrar o restinho de luz do dia que se dissipava, uma linha dourada no horizonte distante. O cômodo se estendia por todo o comprimento da casa, Zoe percebeu. O pé-direito era duplo, com passarelas no segundo pavimento e escadas de metal em caracol dos dois lados.
Os livros dominavam todos os lados, metros e mais metros de prateleiras que se erguiam até o teto – lombadas vermelhas e douradas e velhas capas de algodão verde. Se ela achava que os livros da sala de visitas do piso de baixo eram interessantes, aquilo era um verdadeiro tesouro. Zoe permaneceu parada, extasiada.
Também havia uma pequena lareira, queimando uma madeira de aroma adocicado, e, nos fundos do cômodo, sob a janela de muitas vidraças, um globo terrestre que parecia ainda não exibir todos os países do mundo. No teto havia uma enorme cúpula de vidro além da qual as estrelas já estavam aparecendo e cintilando. Também havia um grande telescópio no vão reentrante da janela do segundo piso, que contava com um banco fundo, repleto de almofadas com capas de tapeçaria bordada.
Nos fundos, à direita, encontravam-se duas mesas compridas, com pilhas de livros espalhadas por elas, e à esquerda ela podia ver um conjunto de mapotecas e uma cômoda de boticário com várias gavetinhas identificadas com etiquetas de coisas extraordinárias: genciana, enxofre, alúmen, ácido bórico. Havia um astrolábio em uma prateleira, um crânio – seria de verdade? –, um pássaro entalhado e muitas coisas superinteressantes que Zoe quis imediatamente explorar, ao mesmo tempo que sentia vontade de dar as costas e sair correndo. E agora estava com medo de se virar e olhar para Ramsay, que ela começara a achar – e se isso parece ridículo hoje em dia, acredite, é porque você não estava lá – que poderia, na verdade, ser um bruxo, e que ela havia sido transportada para algum outro lugar ou outra época.
Ela arfou e quase derramou o chá. Então ouviu Ramsay dizer:
– Zoe? Você está bem?
Ele estava em pé atrás de uma mesa – não era, afinal de contas, um bruxo, apenas um homem desengonçado, alto demais e um pouco surpreso.
Zoe se virou.
– Ah! – disse ela. – Me desculpe! Eu nunca tinha entrado aqui antes.
Ramsay piscou.
– Sim. Eu deixo a biblioteca trancada a maior parte do tempo… Existem algumas… Bem, algumas coisas aqui… excepcionais…
– As crianças acham que você iria matá-las se elas entrassem aqui.
Ele não sorriu e sua expressão de repente ficou severa e um tanto preocupante sob a luz fraca.
– Não quero que elas entrem aqui.
Então foi como se ele tivesse se sacudido.
– Quer dizer, o Patrick se dependuraria nas vigas.
Zoe não podia refutar, então entregou o chá a ele.
– É linda – comentou.
– Ah, provavelmente precisa de uma daquelas suas faxinas mágicas – disse ele. – Eu não mudei quase nada, e meu pai também não. A casa foi construída ao redor da biblioteca. Esta parte da construção é bem mais antiga. Do século XVII, acho. Tudo que é tipo de livro foi contrabandeado para cá durante a reforma; era longe demais para os homens do rei fiscalizarem. Acabou ficando conhecida como um refúgio seguro. É daí que vem o nome da propriedade, The Beeches.