Um novo capítulo para o amor

Jenny Colgan · Capítulo 17 de 50

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Um novo capítulo para o amor

Capítulo catorze

 

Como muitas pessoas extrovertidas, Surinder nunca conseguiria entender de fato o que era ser tímido. Nina sempre fora uma introvertida aficionada por livros; mudar-se para a Escócia a tinha ajudado a se soltar em uma comunidade pequena, mas ela ainda ficava nervosa perto de pessoas desconhecidas. Zoe, por sua vez, estava tão exausta e cansada da vida que sentia que toda a resiliência havia se esvaído dela e ela não sabia como recuperá-la.

O tempo também estava péssimo. Nina sentiu-se mal por largar Zoe naquele casarão estranho. Ela deveria levá-la para sua casa, dar a ela algo para comer, tomar conta dela. Ela não esperava que Zoe fosse uma criatura tão sofrida (Surinder definitivamente havia amenizado a situação).

– Então – disse ela por fim –, o que foi que você leu no ônibus?

Dessa vez, Zoe estava preparada.

– Anna Karenina! – anunciou em voz alta.

Era o livro que ela tinha levado, afinal. Conseguira comprá-lo em um sebo, então estava preparada. Não que ela não tivesse lido – ela tinha –, mas estava enferrujada nas leituras desde que se tornara mãe e percebeu, depois, que sua concentração não era mais a mesma.

– Jura? – indagou Nina. – Eu tenho bastante dificuldade em ler livros como esse quando estou viajando. Que incrível!

O silêncio se instaurou na van.

– Hum… – disse Zoe. – E também…

Ela exibiu o exemplar de um livro da série de Jack Reacher que também havia levado.

– Ah, sim – disse Nina, sorrindo. – Por favor, diga que ele já trocou de cueca.

– Já faz três dias que não – respondeu Zoe.

– Que horror – exclamou Nina, e Zoe sorriu de volta.

– Então, a família Urquart… São gente boa? – quis saber ela.

Nina se encolheu. Ela percebeu que devia ter ido vê-los, para garantir que estava tudo certo. A cada dia que passava, contudo, ela se sentia pior. Pior do que dizia a Lennox, que só ficaria preocupado. Ela se esforçava ao máximo para conseguir ir se arrastando até a van, então desabava diante da lareira à noite.

– Tenho certeza que são – afirmou ela. – Só acho que eles passaram… por maus bocados.

Zoe balançou a cabeça compreensivamente. A creche onde ela trabalhava era chique, repleta de pais ricos divorciados. Pela sua experiência, “maus bocados”, quando se tratava de crianças significava “prepare-se”.

Em seu peito, novamente adormecido, Hari fungou e soltou um longo suspiro.

 

Elas finalmente chegaram ao que parecia, para Zoe, ser outra rua sinuosa, enquanto ela checava o mapa impresso (Zoe tinha logo percebido que o sinal de celular era bastante intermitente por ali). Contudo, ela também percebeu, para seu pavor, que Nina nunca tinha estado ali.

– Vou deixar você aqui – avisou Nina, corando. – Ele estudou com o meu namorado – acrescentou, como se aquele fato tornasse tudo aceitável.

– Hum, certo – respondeu Zoe, abraçando Hari com mais força.

Lá fora, uma coruja piou. Elas passaram entre duas colunas de tijolos, uma de cada lado da rua, onde, antigamente, devia ter havido um portão. Uma placa levemente destruída dizia “The Beeches”.

Zoe olhou para Nina, que a ignorou deliberadamente, soltando, em vez disso, uma risada um pouco forçada.

– Haha… Que medo!

– Hum – murmurou Zoe, cobrindo as orelhas de Hari e lembrando a si mesma, à medida que as colunas desapareciam atrás delas em meio à neblina e apenas o pio da coruja penetrava no carro, que ela definitivamente não acreditava em fantasmas, é claro. Definitivamente.

As colunas eram, no fim das contas, apenas a entrada da propriedade. Elas não estavam, na verdade, nem um pouco perto da casa. Havia uma longa trilha, que continuava encoberta pela escuridão, e uma comprida viela de cascalho, um tanto desgastada, com uma vegetação rasteira sussurrante ao redor. Elas passaram por fileiras de cerca viva e alpendres de teto baixo antes de finalmente avistarem a residência.

Era o lugar mais assustador que Zoe já tinha visto na vida.

 

A casa era de um estilo que Zoe não reconheceu, mas logo descobriria ser bastante comum em muitas das mansões da região: um nobre estilo baronial. Era de tijolos cinza, com diversas torres germinando de seus paredões altos, e havia uma porta de madeira enorme ao final de uma larga escadaria na entrada. As torres eram engrinaldadas por birutas e pontas de metal, e cada uma parecia um desenho infantil da torre de Rapunzel. Janelas se estendiam pelas paredes do piso térreo e subiam pelas torres: meras frestas em alguns casos, embora a casa tivesse sido claramente construída muito tempo depois de haver qualquer perigo óbvio de flechas voadoras.

Era impressionante. E assustadora.

– Eu… Eu achei que fosse uma casa – disse Zoe, balançando a cabeça.

– É uma casa – afirmou Nina. – Só é uma casa bem, bem grande.

O carro desacelerou, fazendo barulho no velho cascalho. Na frente, parada, avistava-se a figura de uma mulher de aparência irritada com os braços cruzados. Nina não precisava de poderes extraordinários para concluir que só podia se tratar da Sra. MacGlone.